A Arte de Escrever 27 – Vamos escrever tankas sequenciais?

Propus com ênfase, em certos momentos dessa sequência de movimentos a que nomeei A ARTE DE ESCREVER, a necessidade de que cada autor repense e reinvente a forma literária com a qual se manifesta. Essa disposição chegou mesmo ao título de algumas das “aulas”, e exemplifico com o texto sobre o soneto, AQUI.

De certo modo, ainda que moderadamente, é nesta clave que a discussão de hoje se coloca. A proposta é de trabalhar, de modo consciente, a forma do tanka ao modo de tankas sequenciais.

Para apresentar o conceito e o exemplificar, faço um pequeno passeio expositivo por nomenclaturas que se sobrepõem: hokku, haicai, haiku e haikai, e ainda por brevíssimas anotações históricas sobre o renga, o haicai no renga e o haibun.

Vamos comigo nessa sintética travessia?

O haicai, haikai ou haiku é um poema. Sua base é ter dezessete sons. Em japonês, dezessete moras (ou morae), o que não é exatamente igual a um sílaba, a unidade de som em português. Na construção de haikais em língua portuguesa em geral e no nosso idioma brasiliano dos trópicos, fazemos a equivalência das dezessete moras em dezessete sílabas poéticas.

Sendo unidade de som, a mora, no haikai, é uma unidade rítmica e de cadência definida pela duração: uma sílaba curta é uma mora; são duas moras a vogal cuja emissão se alonga ou um ditongo; mesmo letras isoladas podem ser uma mora, a exemplo de sílabas finais em “n”.

Um bom exemplo é a palavra haibun (que nomeia um subgênero literário que mescla prosa, normalmente prosa poética, com o haicai, que foi a forma com a qual Bashô redigiu seus diários de viagem): haibun, em japonês, constitui quatro moras: ha-i-bu-n.

Consta que Bashô, certa vez, manifestou-se no sentido de que haveria um sabor especial em poemas com uma mora a mais do que o padrão tradicional. A marca do gênio é desobedecer as regras sem que a transgressão destrua a forma, antes a reafirme com a força que emana do poema em si.

O terceto de dezessete moras tem o primeiro verso com cinco sons, incluindo todos os “sons” (grosso modo, todas as sílabas); o segundo verso deve ter sete moras, e o terceiro verso fecha o poema com cinco “sons”. O haikai jamais deve ter título, mas pode ser o “fecho” de uma pequena contextualização em prosa, forma literária, conforme vimos acima, que recebe o nome de haibun.

O haiku é um poema que representa uma visão simbólica do momento captado, mas essa visão jamais deve plasmar nos versos o eu-lírico, o sujeito que vê e escreve.

De certo modo, com a mesma forma do haikai (5/7/5 sons), o senryu, pela sátira e jocosidade, pela presença do cotidiano da vida corriqueira, abre espaço para a presença de um eu-poético. Os senryus, embora resgatem algo do humor primordial do haicai, desde Bashô, entretanto, não tem o moto central de captar momentos transcendentes; foi com esse movimento ético e estético que Bashô fez a autonomia da forma do haicai diante das formas longas que o precederam.

O tanka, por sua vez, tem um dístico final após o terceto que conforma o haikai. Na origem, nos tempos do haikai no renga, o dístico foi nomeado de wakiku, e o terceto era conhecido por hokku.

Nos primórdios, havia o renga, poema longo, que mais tarde passou a ser nomeado por haikai no renga, e era  formado por dezenas de alternâncias entre hokku e wakiku. Era uma composicão coletiva, por vozes alternadas em encontros cortesãos.

Ao que parece, algo próximo dos nossos repentistas, mas – assim nos parece visto de hoje – sem o espírito de disputa que anima os nossos cantadores.

Desse poema longo e coletivo vem a forma do renga, poema autoral constituído por uma sequência menor de tankas encadeados que perfazem uma unidade poética, seja narrativa, seja de turnos nos quais o tema se desdobra.

Nesse quadro, a proposta de haikais sequenciais (conforme conceito elaborado por José Lira, ver AQUI) se configura por um conjunto de três haikais independentes que apresentam “visões” diferentes referente a um mesmo fenômeno ou fato. No estudo sobre haikais sequenciais, na lógica de sempre de nos esforçarmos na reinvenção que tenha por alicerce a historiografia literária e o que os grandes mestres nos legaram, apresentamos adicionalmente a proposta de haikais encadeados.

A proposta que aqui fazemos dos tankas sequenciais é, a princípio, similar à dos haikais sequenciais,.

Devem ser três tankas, não menos, mas não mais, e jamais devem constituir uma tríade de tese, antítese e síntese. Cada poema não deve ser um logos e o conjunto deles jamais deve constituir um discurso argumentativo.

Ainda que o dístico (wakiku) se apresente ao modo de uma reflexão em corolário do terceto (o hokku), o fecho é ainda assim uma imagem do momento, sem aspirar o constructo de um raciocínio que se desdobra ou que se fecha.

O hokku é a imagem flagrada pelo olhar do poema, e o wakiku é a descoberta que o poema faz de um significado momentâneo que se esgota em si mesmo.

O hokku é um prisma congelado do fluxo vital que é a ånima do poema, e o wakiku é o flash de um raio de luz captado logo após passar pelo prisma que constitui o poema.

Eis um exemplo de tankas sequenciais:

sob a chuva fina
o arco-íris beija os extremos
em ambas as pontas —

a terra nasce duas vezes
na maligna ambiguidade

no cinza das nuvens
o arco-íris chega até ao chão
aqui e do outro lado —

a terra morre duas vezes
nesta benta ambiguidade

nesse dia nublado
o arco-íris, de ponta a ponta,
mergulha no chão —

a terra ascende duas vezes
na sórdida ambiguidade

tankas sequenciais
© Rauer 2026
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Rauer Ribeiro Rodrigues
Escritor; Professor; Editor; Em Travessia.

A ARTE DE ESCREVER
Informação importante:

O Prof. Rauer – que se aposentou em março de 2024 – ministrou, em diversos semestres, de 2006 a 2023, em PPGs e na graduação da UFMS, em particular no PPG-Letras Mestrado e Doutorado em Estudos Literários do Câmpus de Três Lagoas, a disciplina Oficinas de Escrita Criativa, às vezes sob outra nomenclatura; a pedido da Pangeia Editorial, alguns dos textos que serviram de diretrizes para as aulas, aqui comentados e ampliados, vem sendo publicados no Blog da Pangeia. Além dos textos que então utilizou, inclusive alguns com os quais trabalhou na graduação, e acolhendo contribuições dos alunos, o professor vem incluindo outros, escritos especificamente para o Blog da Pangeia, ampliando o escopo daquelas aulas para um público além dos estudantes universitários. O Prof. Rauer, autor de mais de duas dezenas de livros individuais, é hoje Editor da Pangeia.

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Aula 19 – Uma metodologia da leitura

Aula 20 – Microconto: cacos, estilhaços e fótons

Aula 21 – Haikai, Tanka, Renga, Senryu

Aula 22 – Do conto ao nanoconto

Aula 23 – Hokku, Haikai, Haicai, Hai-kai – a nomenclatura é um Senryu

Aula 24 – Os haicais sequenciais de José Lira e a proposta dos haikais encadeados

Aula 25 – Inteligência amorosa e escrita literária

Aula 26 – Decálogo: A Arte de Escrever

Aula 27 – Vamos escrever tankas sequenciais?

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