“Quirinas”, de Mariana Filgueiras / UFF, é destaque na Folha de S.Paulo

Livros
30.mai.2026 às 23h00

Autoras negras transformam papel de domésticas na literatura brasileira

Publicação original em:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/05/autoras-negras-transformam-papel-de-domesticas-na-literatura-brasileira.shtml

O caderno ILUSTRÍSSIMA da Folha de S. Paulo de hoje traz em sua matéria de capa notícia do livro Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na Literatura Brasileira, de Mariana Filgueiras, lançado no final de 2025 pela Pangeia Editora em coedição com a Eduff. Publicado com recursos do POSLIT / UFF oriundos do PROEX / Capes, o livro foi contemplado pelo Edital Coleção Ensaios Egressos 2025.2.

Leia abaixo a íntegra da matéria da Folha de São Paulo.

  • Livro ‘Quirinas’ identifica apenas 37 personagens domésticas significativas em 150 anos de ficção nacional
  • Primeiras protagonistas da categoria surgem apenas no final dos anos 2010, segundo estudo

Flavia Lima
Repórter especial, foi secretária-assistente, editora de diversidade e ombudsman.

[RESUMO] Tese de doutorado lançada agora em livro detalha a exclusão histórica de trabalhadoras domésticas na ficção brasileira. Apenas a partir dos anos 2010 essas personagens passaram a protagonistas de contos e romances, reflexo de um movimento em que filhas, sobrinhas e netas dessas profissionais na vida real viraram escritoras e buscaram contar as histórias de suas antepassadas.

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“Dei o cano no serviço em plena segunda-feira. Puta que pariu! Sensação boa. O pau quebrando lá fora e eu, encantada. Só de pensar na cara da d. Celeste, que eu apelidei de Cepeste, dá bem pra imaginar por qual motivo, naquele olho cinzento enfeitado de ruga, fulminando a pia cheia de louça e a bagunça do fim de semana por arrumar, me arrepiei. Mulher folgada.” (“Perifobia”, de Lilia Guerra)

Na ficção, saber o que pensam e sentem trabalhadoras domésticas —terror de senhores e senhoras que têm a si próprios em alta conta— foi durante muito tempo uma impossibilidade imposta por patrões que habitam tanto romances quanto a realidade.

Em pouco mais de 150 anos, apenas 37 trabalhadoras domésticas registraram presença significativa em nossa produção literária, segundo tese de doutorado defendida em 2024 e recentemente convertida no livro digital e gratuito “Quirinas”, de Mariana Filgueiras.

Nesse grupo restrito de personagens, as primeiras protagonistas começaram a aparecer apenas no final dos anos 2010, uma trajetória recente cujo ápice é o Prêmio São Paulo de Literatura obtido em 2024 por tia Eluma, personagem de “Louças de Família”, de Eliane Marques.

Praticamente não há babá, lavadeira, faxineira, diarista, cuidadora ou cozinheira que protagonize um livro de ficção antes de 2018, segundo Filgueiras. Essas personagens só deixam o registro da exceção à medida que filhas, sobrinhas e netas de trabalhadoras domésticas se tornam elas próprias escritoras.

Segundo a pesquisadora, é a entrada recente de um grupo maior de mulheres negras no mercado editorial que abre espaço para que a figura da trabalhadora doméstica seja incorporada à literatura a partir de outro olhar.

“Não vai ter um escritor da ABL [Academia Brasileira de Letras] que vai acordar e se interessar por uma personagem doméstica. Não é assim que elas entram na nossa literatura, elas entram quando outros autores pegam essa caneta”, diz Filgueiras.

A pesquisa teve como base a literatura canônica de ficção. Todos os clássicos brasileiros foram revisitados, além de catálogos, hemerotecas, arquivos digitalizados e textos de estudiosos da literatura.

O método, reconhece a pesquisadora, não é exaustivo, mas proporciona um bom sobrevoo na produção ficcional brasileira e sua relação com personagens domésticas.

Mas por que domésticas na literatura? Citando a autora americana Patricia Hill Collins e seu conceito de “outsider within” (aquele que está em uma estrutura sem fazer parte dela), Filgueiras explica o seu interesse ressaltando o grande potencial dramatúrgico das trabalhadoras domésticas, à medida que transitam entre classes sociais e conhecem, como poucos, os segredos de seus patrões.

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