Sendo assim, diz ela, não faria sentido desprezar literariamente o grupo, cujo enfoque serve também como ponto de observação crucial de pessoas brancas, de classes mais altas. “Não há outra explicação para esse desperdício que não seja o racismo, a misoginia e o classismo”, diz.
Quando não alvo de mero desinteresse, as personagens domésticas acabavam vítimas da imaginação escassa do autor. São cenas que se repetem exaustivamente —a visão do mar pela primeira vez, a violência do estupro, o aborto, dificuldades de estudar—, em retratos que oscilam entre a denúncia social e a mesmice.
Do fim do século 19 à virada do século 20, era comum que as chamadas “mucamas” (mulheres negras encarregadas do trabalho doméstico) fossem retratadas como ingratas ou desonestas e aparecessem em romances e contos para demarcar o contraste (físico e psíquico) com a patroa branca.
Assim, para sublinhar a bondade, a limpeza e a organização de uma, a outra, pérfida, vivia a ensinar coisas erradas para as mulheres mais jovens (“sinhazinhas”), muitas vezes hipersexualizando o ambiente, em uma enaltação à família moderna burguesa branca, diz Filgueiras.
Talvez a mais popular trabalhadora doméstica da literatura brasileira, Tia Nastácia surge em “Reinações de Narizinho” (1931), de Monteiro Lobato. A cozinheira é apresentada como “negra de estimação” do sítio e tem suas características físicas animalizadas (“negra beiçuda”, “macaca carvão”).
Os erros de português e os seus gestos de ingenuidade dão forma a uma mulher ignorante, medrosa e também dócil e carinhosa, em uma espécie de violência no trato, segundo Filgueiras, que a infantiliza.
A cor ou raça das personagens, por óbvio, não é um detalhe. No Brasil, o trabalho doméstico ainda é, segundo publicação de 2023 do Ministério de Desenvolvimento Social, ocupação de 5,8 milhões de pessoas, sendo 92% mulheres e 61,5% mulheres negras. Isso sem contar menores de 18 anos. É a categoria que mais emprega mulheres no país, sobretudo mulheres negras com baixa escolaridade e oriundas de famílias de baixa renda.
Próxima do perfil, Gabriela deu nome, no final da década de 1950, a um dos romances de maior sucesso de Jorge Amado. Retirante, a protagonista aceita limpar a casa de um comerciante árabe e cozinhar para ele, em um processo, contudo, em que a identidade dela como trabalhadora doméstica vai sendo nublada ao longo da história.
Não é o ofício que determina a construção da identidade de Cravo e Canela, mas sua sensualidade e beleza. “Quem lembra de Gabriela como doméstica?”, questiona Filgueiras.
Há ainda a personagem que conta as verdades sobre a família para a qual trabalha no conto “O Espartilho”, de Lygia Fagundes Telles (1978). Ou, então, Janair, que não tem uma só fala no romance, mas é a figura responsável por despertar o fluxo de consciência da protagonista em “A Paixão Segundo G.H.”, livro de 1964 de Clarice Lispector. Essas duas são presenças importantes, mas não são as figuras centrais da trama.
No geral, essas mulheres se viram como podem entre cozinhas e muquifos apertados de casas de pessoas que fazem questão de afirmar que elas são parte da família, mas não sabem de onde vêm, tampouco se interessam pelo que passam ou pensam, particularmente na ficção. “Nunca ouvimos falar de um familiar da Janair”, diz Filgueiras.
Pronto desde 1988, mas publicado apenas em 2006, “Becos da Memória”, de Conceição Evaristo, faz da doméstica Ditinha uma personagem importante. Quase dez anos depois, Fernando Bonassi, em “Luxúria”, de 2015, coloca a chave do romance na mão de uma trabalhadora doméstica.
Em uma espécie de espírito da época, é também de 2015 o filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, no qual Camila Márdila perturbando a rotina dos empregadores de sua mãe, a doméstica de Regina Casé; assim como a música “Boa Esperança”, de Emicida, que põe casas de família em polvorosa ao sugerir fogo nos patrões. A Lei das Domésticas, que garantiu a essas profissionais direitos equivalentes aos de outros trabalhadores, é igualmente de 2015.
Mas é 2018 o marco da mudança, segundo Filgueiras. É a partir daí que autoras mulheres, muitas delas negras, se propõem a dar outra cara, literalmente, às suas protagonistas —ainda que vez ou outra permaneçam estereótipos e o deslumbre com o qual personagens reagem aos encantos da cidade ou do amor.
Para a pesquisadora, esse deslocamento reflete transformações sociais reais do último quarto de século, marcadas por transferência de renda, aumento de emprego e da escolaridade.
Cidinha da Silva, autora de “Quando Borboletas Furiosas se Tornam Mulheres Negras”, livro da editora Relicário que escrutina a inserção de escritoras negras no mercado editorial, faz uma leitura própria do fenômeno.
Segundo ela, a principal inovação trazida por essas autoras é uma mudança de foco, de atitude e de construção de uma escrita desde dentro, “com olhos de quem enxerga o outro consciente de sua própria ‘outridade’, de um lugar que investe de humanidade e dignidade personagens antes tratados quase como móveis da casa, utensílios de cama, mesa e banho, objeto de todo tipo de extrativismo”.
A nova leva, formada por autoras como Helena Silvestre e Eliane Marques, constrói personagens negras de alta voltagem, disruptivas, com história própria, que sustentam narrativas —tanto nas histórias curtas de “Notas sobre a Fome”, de Silvestre, quanto em romances como o premiado “Louças de Família”.
“E mesmo as autoras que escolhem ancorar as narrativas na experiência têm procurado fazê-lo como estratégia de enfrentamento a décadas de silêncio imposto e desqualificação, também como opção estética”, afirma Silva.
Para ilustrar as mudanças de foco e de atitude na literatura, Filgueiras escolhe quatro autoras: Eliana Alves Cruz, Giovana Madalosso, Carola Saavedra e a mais prolífica delas, Lilia Guerra.
Em “Com Armas Sonolentas”, de 2018, Saavedra constrói uma personagem que, sem nome, desenvolve um relacionamento bastante complexo com os patrões. Ponto importante: a personagem é uma mulher indígena que, aos 14 anos, é obrigada pela mãe a deixar sua casa no interior de Minas Gerais para trabalhar como doméstica no Rio de Janeiro.
“Suíte Tóquio” (2020), de Madalosso, provoca, segundo Filgueiras, uma mudança estrutural no romance brasileiro ao contar a história de uma babá que rapta a filha da patroa e, de modo inovador, oferece a versão da própria babá sobre o episódio, abandonando a herança da chamada “literatura de testemunho”, em voga nos anos 1980, em que mulheres da base da pirâmide social começaram a contar suas histórias, mas sempre com a mediação de alguém, às vezes a própria empregadora.
Publicado em 2022, “Solitária”, de Eliana Alves Cruz, enfoca duas personagens: Eunice, trabalhadora doméstica, e Mabel, sua filha. Na obra, Alves Cruz coloca o próprio quarto de empregada como um personagem, o que Filgueiras considera disruptivo. “Na ‘Paixão Segundo G.H.’, o quarto de Janair está lá e, quando a patroa entra, tem aquela epifania. Mas aqui na Eliana ele fala, conta as verdades.”
Já Guerra inova ao trazer personagens cuja labuta principal é limpar banheiro alheio, mas que também amam, agem de modo edificante, são afiadas, depressivas, críticas e, por que não, cruéis.
“Perifobia”, de 2018, traz ao menos dez contos protagonizados por trabalhadoras domésticas. O primeiro deles, denso e delicado, é uma excelente amostra do apetite da autora em retratar outro universo, muito além da falta e da escassez que, não obstante, estão lá.
“Foi a primeira vez que vi uma trabalhadora doméstica revidando, dizendo que não vai trabalhar, que a patroa a explora demais”, diz Filgueiras. “Alguém imagina Tia Nastácia dando o cano no trabalho?”
Filha e neta de trabalhadoras domésticas, Guerra olha para a categoria de um jeito diferente e talvez ajude a engrossar um universo de leitoras também negligenciado.
Pesquisa divulgada em março pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData aponta que mulheres são 61% dos consumidores de livros no Brasil, e, de modo surpreendente, indica que as mulheres pretas e pardas da classe C lideram esse grupo. “Elas estão comprando mais, lendo mais e estão mais representadas de uns tempos para cá, uma boa notícia”, diz Filgueiras.
A própria vida da pesquisadora, da quinta geração de uma família de cafeicultores escravocratas da Zona da Mata de Minas Gerais que faliram com a abolição, daria um romance, talvez desses mais antigos.
As gerações mais recentes da família, de migrantes que vieram do interior de Minas para se tornar operários em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, tinham empregada doméstica.
A madrinha de Filgueiras trabalhou como doméstica na casa de sua avó, em um bom exemplo de prática fundada em uma ambiguidade que ilustra a realidade complexa desse tipo de relação: ser “parte da família” não é só hipocrisia.
“Você fica muito próxima afetivamente das trabalhadoras das famílias sem que elas sejam da família, em uma espécie de embaralhamento afetivo e apaziguamento forçado das relações. O Brasil é ferido nessa dependência”, diz.
Resultado também dessas contradições, a tese de Filgueiras, “Quirinas”, é uma homenagem a um conto de Lima Barreto, de 1904.
Nele, uma babá centenária chamada Quirina é abandonada para morrer em um hospital, o que abre espaço para a protagonista contar a sua história. O conto, no entanto, foi encontrado inacabado muitos anos depois da morte do próprio Lima Barreto.
Filgueiras diz que a biógrafa do autor, Lilia Schwarcz, indica que a história que está no conto é muito parecida com a da avó do escritor, o que reforça a sua tese: levou tempo, mas, investidas de autoria, são as netas e as filhas dessas figuras que vão contar a trajetória de suas mães e avós.
Quirinas: A Trabalhadora Doméstica como
Protagonista na Literatura Brasileira
Preço gratuito (versão em ebook pode ser obtida em https://editorapangeia.com.br/pt_br/product/quirinas-a-trabalhadora-domestica-como-protagonista-na-literatura-brasileira-contemporanea-mariana-filgueiras/)
Autoria Mariana Filgueiras
Editora Pangeia e EdUFF (Editora da Universidade Federal Fluminense)

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