Notícia Quente: publicamos hoje o primeiro vídeo com declamação de poesia aqui no Blog da Pangeia – ISSN 3085-8453. Vamos manter o pique, com nossos poetas lendo os seus poemas ou com os leitores l,endo poemas de seus poetas prediletos. O vídeo original sempre estará no perfil da Pangeia no YouTube: @pangeiaeditorial – AQUI!
Autor de “Ensaios da Paixão”(Pangeia / Dionysius, 2023, 240 p.) e de “Delírios da Espera” (lançamento previsto para o verão de 2026, também pela Pangeia / Dionysius), o poeta brasileiro Fernando Antonio Caleffi sempre nutriu especial apreço por seu homônimo Fernando António Nogueira Pessoa e por diversos dos heterônimos que foram vivenciados pelo poeta português. Este é o primeiro de uma série de vídeos em que o Fernando brasileiro “lê” poemas ou excertos de poemas do Fernando ibérico.
No vídeo abaixo, com a leitura do poema “Cruzou por mim”, para além das nuances na interpretação do poema, Caleffi, que também coleciona atuações em teatro amador, cria “cacos” e faz um ou outro ajuste na leitura do poema pessoano.
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O VÍDEO ORIGINAL ESTÁ AQUI !!!
CRUZOU POR MIM
Fernando Pessoa
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida —
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida!
Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei.
Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: Sou lúcido.
Nada de estéticas com coração:
Sou lúcido. Merda! Sou lúcido.
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