Visette Galiardi, autora de Leo, o polvo diferente (Saruê / Pangeia, infantojuvenil, 2025, com ilustrações de Lily Momisso) vem lendo e escrevendo resenhas e comentários de suas leituras. Alguns já foram publicados aqui no Blog da Pangeia; agora, neste post, trazemos suas anotações ao livro Qohelet, que tem duas diferentes edições no selo de literatura da Pangeia, as Edições Dionysius.
Leia logo abaixo a resenha e, na sequência, informações sobre Qohelet e sobre as três edições do livro.
Qohelet
Rauer
Li, sorvi, refleti, saboreei cada verso, cada palavra – com o dicionário ao meu lado, é claro. Confesso: foi um desafio prazeroso.
O poema Qohelet, de Rauer, descortina imagens intensas, verdadeiros alimentos para a alma: os sentidos, as transgressões, o eros, os corpos unidos, o uno, o gozo.
Ao concluir a leitura, tive a sensação de ter subido mais alguns degraus – ainda que poucos – na intelectualidade e na sapiência, com a humildade de quem sabe que todo conhecimento é sempre um suposto saber.
Perguntei-me, então, o que me acrescentou ler Qohelet. A percepção da incessante busca humana pela completude e pela consistência. Uma jornada contínua entre mundos interno e externo, em direção à consciência e à saciedade.
Curiosamente, o que move essa busca é a falta. Nos três Cantos, de forma poética e profundamente bela, Qohelet revela que, mesmo após experimentar a vida em seus extremos, restam a incompletude e a inconsistência. Bens materiais se
desatualizam, desejos saciados retornam ao estado de carência, e a sabedoria exige consciência plena de si e da própria existência.
Acima de tudo, saber que somente o Criador é onipotente – e que a única certeza humana é a morte.
Visette Galiardi
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Sobre Qohelet:
Se muitas vaidades colecionei, se a mim sempre me faltou a prudência, se ao coração gozo algum neguei, relato minha verdade e querência.
Rauer, Qohelet, canto I, estrofes 60 e 61.
Estruturalmente, o poema Qohelet é dividido em três cantos: I – Inquietação (Qohelet relata ao poeta a sua busca da sapiência), II – Perquirição (Qohelet narra o seu conúbio sapiencial com o amor), e III – Revelação (Qohelet descobre que o homem é pó, perplexo nada). No total, são 622 versos decassílabos em terza-rima que se distribuem em 176 estrofes.
A primeira edição de Qohelet foi lançada em edição caseira, sem aparato editorial, em 6 de abril de 2006 (há 20 anos, portanto, recém completados), tendo em vista distribuição gratuita durante a defesa de doutorado de Rauer.
A segunda edição do livro saiu em agosto de 2019, no selo Dionysius, da Pangeia Editorial, com o posfácio “Eros-Poesia, Literatura e Erotismo – a voluptuosidade artística: a presença do erotismo na escrita de Qohelet, de Rauer”, por Cris Guzzi. O editor, Rízio Macedo, teve Rafael Sanzio realizando a capa e a arte-final do volume. Destaque para as fontes escolhidas para compor o livro: Book Antiqua, Hadriano, Herculanum, Minion Pro, Requiem, Roman Antique e Trajan Pro, e para a foto da 4,ª capa: o autor em 1981, na USP, onde cursava Filosofia.
A terceira edição de Qohelet saiu – com o texto revisado – em 2022, com posfácio de Pauliane Amaral e Pedro Germano Leal, sendo Willia Katia. Oliveira responsável pela concepção editorial assinando a capa, as ilustrações e a diagramação.
Eis a abertura da 3.ª parte do poema:

Ilustração: Willia Katia Oliveira
No amor, compartilhei a deidade: Poesia – arte, milagre e epifania, novo luzir, tenaz fraternidade.
Rauer, Qohelet, canto II, 5.ª estrofe,
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