Lorena e Jurema lançam livro de Haicais

“Sou Jurema Rangel. Escrevo poesias, contos e crônicas. Participo de vários grupos de leitura e escrita. Tenho alguns livros solos e participo de antologias.”

Sou Lorena Gonçalves. Encontro prazer em traduzir minhas observações da natureza e seus momentos inspiradores por meio da síntese e do desprendimento dos haicais.”

A Pangeia Editora, no selo Edições Dionysius, lança em maio o livro Imersões no Instante: Haicais, com poemas de Jurema Rangel e de Lorena Gonçalves. A partir desse especialíssimo livro a quatro mãos, o Blog da Pangeia publica entrevista com as duas vozes, em uníssono na maioria da perguntas – somente ao final, as autoras se alternam, para, a pedido do Blog, se apresentarem.

Eis a íntegra da entrevista:

Blog da Pangeia – Por que o livro de vocês que sai agora no selo de literatura da Pangeia Editorial, Edições Dionysius, tem o título Imersões no Instante: Haicais?

Jurema e Lorena – Acreditamos que o haicai é um poema que traduz a emoção e a sensação sentida pelo poeta no instante da observação da natureza. A percepção e a maneira que ela toca o haijin o envolve no movimento de contemplação dos elementos que a compõem: água, terra, fogo, ar, onde, na verdade, tudo está interligado. Assim, no exercício do olhar mais atento à natureza, às pessoas e às transformações que acontecem nas diferentes estações do ano, o poeta estabelece um vínculo entre imagens simples do cotidiano. O velho clichê de que o haicai equivaleria ao “clic” de máquina fotográfica serve, sem dúvida, para demonstrar a cena que se descortina aos olhos do haicaísta. Nesta obra, ao honrar cada instante vivenciado, com profundidade e leveza, podemos  torná-lo eterno.

Por favor, falem um pouco sobre o livro.

O livro apresenta poemas em forma de haicais cuja origem remonta aos idos do século XVII com o Mestre Bashô. Os haicais apresentados seguem o formato clássico de 17 sílabas distribuídas em três versos (5/7/5), sem rima e título e com o termo da estação do ano (Kigô), além de haicais livres. Essa técnica, no entanto, revela algo de maior profundidade traduzida na exposição objetiva, imediata e concisa de um detalhe sensorial da realidade que toca o poeta.

O livro reúne duas autoras com vivências únicas que se encantam com o mundo que as cerca. Um mundo com dois lados da mesma moeda: coisas boas e outras nem tanto. A obra trata da liberdade de viver a experiência sensível e as transformações daí advindas,  revelando aspectos de nossas emoções e trazendo os quatro elementos da natureza como fio condutor.

Temos uma visão parecida em relação ao que nos emociona e motiva, Considerando isso, o livro propõe um mergulho nas coisas simples que fazem parte do universo, com as quais convivemos, para nos tornarmos parte delas.

Em termos subjetivos, o que o livro traz ao leitor?

Acreditamos que o livro  possibilita ao leitor observar não apenas a cena expressa no haicai, mas despertar a percepção da sensação ampla ou intensa que provocou e sensibilizou o haijin.

A obra oferece ao leitor uma experiência contemplativa e participativa. Por meio da poesia mínima, abre espaços de silêncio e interpretação. O haicai diz muito em poucas palavras e deixa vazios que cabe ao leitor captar. Como indica Franchetti, é um texto que traz para o leitor a presentificação de um instante como algo inacabado, aberto, um esboço.

Quem ler este livro terá qual benefício? É possível falar de benefício ou seria melhor utilizar outra palavra?

Não chamaríamos de benefício. Preferimos dizer que o leitor tem a possibilidade de se aproximar de outra maneira de se fazer poesia, usada há mais de mil anos. Uma forma de unir o efêmero ao duradouro, o trivial ao sagrado.

Talvez seja melhor falarmos de experiências ou impressões. O leitor poderá se permitir desacelerar e  cultivar um olhar mais atento ao cotidiano, contemplar  e fazer desabrochar a presença —  como uma forma de meditar por meio da poesia.

Como foi trabalhar um livro entre duas alteridades, duas poetas, duas visões de mundo, que, embora próximas, são distintas?

Escrever em parceria é um desafio. Somos haijins que comungamos da beleza que a escrita do haicai traz. Não apenas quanto à concretização das palavras em versos. Destacamos aqui a caminhada, o percurso que nós, escritoras, percorremos, A humildade, a troca, o respeito ao pensar da outra que coroam a arte da escrita literária conjunta.

Se pensarmos na evolução do haicai, lembraremos que nasceu do renga, produzido por dois ou mais poetas reunidos. Nós duas pegamos emprestada essa prática e adaptada, construímos o livro de poemas.

O livro conta com a participação de outros haijins: querem fazer algum agradecimento?

Muito agradecimentos.

Agradecemos ao Edson Cruz, poeta, editor e escritor, pela revisão criteriosa da obra.

Ao George Goldberg, mestre e expoente do haikai, que, generosamente, acolheu o nosso convite para o prefácio do livro;

Ao Rauer Ribeiro Rodrigues e ao Conselho Editorial e Consultivo da Editora Pangeia pela primorosa  edição de Imersões no Instante: Haicais e pela parceria em cada etapa do processo.

Agradecemos aos imigrantes japoneses que trouxeram o haicai para o Brasil e a todos os  poetas que difundiram a forma no país.

Por favor, pedimos que cada uma se apresente agora de modo individualizado…

Sou Jurema Rangel. Minha vida docente iniciou no antigo ensino fundamental e, mais tarde, lecionei na universidade, onde me aposentei. Venho me dedicando de modo mais intenso à escrita literária desde 2018. A escrita sempre fez parte da minha trajetória quando, na adolescência, assumia os diários como suporte para devaneios, relatos, versos, escrita essa muito comum nesse período. Com o passar do tempo, a escrita acadêmica ocupou esse espaço e não consegui conciliar as duas formas. A leitura é um prazer que me acompanha desde a infância. Fui uma criança que teve o privilégio de ter pais leitores e que costumavam ler para mim, à beira da cama, antes de dormir. Os contos de fadas me embalavam naquelas noites. Cresci com Monteiro Lobato, cuja coleção pertencia ao meu irmão. De tanto gostar de ler e manter uma biblioteca razoável, em 2015, idealizei o Projeto Maloca de Livros (@maloca_de_livros ). É uma minibiblioteca livre que coloca em circulação, para quem quiser, livros de literatura no esquema – leia, empreste, devolva – sem nenhuma burocracia. Acompanho as publicações da editora Pangeia, porque escrevo haicais, poesia de origem japonesa e também microcontos. A editora oferece um acervo interessante sobre esses gêneros. Além disso, escrevo poesias, contos e crônicas. Participo de vários grupos de leitura e escrita. Tenho alguns livros solos e participo de antologias. Aos leitores, posso dizer que os haicais escritos são frutos do aqui e agora vividos, dos ouvidos e olhares antenados nas minhas andanças por aí, naquilo que me sensibiliza. Convido-os a essa imersão no universo do instante. Se quiserem conhecer mais, sigam os perfis @haicaicarioca e @jurema_escritora no Instagram.

Sou Lorena Gonçalves, baiana, arteterapeuta e roteirista. Inicialmente, meu gosto pela escrita surgiu ainda na escola, por volta dos 12 anos, quando o plano de aula dos professores de Arte incluía a apresentação de peças teatrais pelos estudantes. Nessa época, eu já demonstrava um interesse natural pela criação dos roteiros que seriam encenados, gosto que seguiu comigo durante a adolescência. Posteriormente, mantive o hábito de escrever diários, registrando experiências, ideias, sentimentos, desejos e também o que eu vivenciava no meu universo onírico. Também me dedico de tempos em tempos à composição de canções. Além disso,  costumo ilustrar alguns dos meus poemas, como fiz em meu primeiro livro solo 8 Vozes Instintivasno qual me inspirei tanto na fauna e na flora quanto no meu universo onírico para criar as ilustrações. Tenho publicado Haicais no perfil @haicaibrasil,  e participo de Antologias como a Poesia Minimalista Volume III da Editora Selo Editorial Independente, a Coletânea Há Flores em Você, parceria do Sarau da Flor com a In-Finita Editorial e a Antologia Studio Palma – Volume 3, Poemas, Contos e Crônicas. Adoro viajar e estar em contato com o mar e os rios, admirar a riqueza do reino vegetal, contemplar as estrelas e as fases da lua. Encontro prazer em traduzir minhas observações da natureza e seus momentos inspiradores, por meio da síntese e do desprendimento dos haicais.

Que os haicais de Imersões no Instante possam revelar aos leitores a delicadeza e a sensibilidade da presença, pois vivemos em meio à superestimulação da sociedade da informação, e nossa preciosa atenção tende a dispersar-se. A partir de uma relação de afeto com o texto, que o leitor seja tocado em sua conexão com a vida e com a natureza. Para me acompanhar, siga @plumasdemim  no Instagram.

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