O CONTISTA MINEIRO É UMA FICÇÃO?

 

“O contista mineiro é uma ficção?”

Este foi o tema, ou melhor, a provocação feita a mim e ao escritor Chico Mendonça, no FLIR BH 2019, num bate-papo com o público. A pergunta, provocativa e vasta, me soou estranha no primeiro momento.

Depois, comecei a pensar que sim, tinha tudo a ver. Nesta terra grassa tanto contista quanto minério de ferro.

E logo me lembrei de duas coletâneas que foram lançadas no século passado.

Em Histórias Mineiras, livro publicado em 1984 pela editora Ática, de SP, muitos de nós, iniciantes, participamos ao lado de Afonso Arinos, imaginem, e Guimarães Rosa. Cito aqui apenas os mais próximos, que continuam na ativa: Jaime Prado Gouvêa, Carlos Herculano Lopes, Cunha de Leiradella, Antônio Barreto, Alciene Ribeiro e Vivina de Assis Viana. Os amigos Jefferson de Andrade, Luciene Samôr e Júlio Gomide cedo partiram, em busca da eternidade.

Contos da terra do conto (título que merece considerações) é uma antologia da Mercado Aberto, de Porto Alegre, lançada em 1986. Nela destaco Murilo Rubião, Ildeu Brandão, Wander Piroli e Duílio Gomes, contistas do princípio ao fim. Mestres. Oswaldo França Junior, que também foi incluído, só publicou um livro de contos, “Laranjas Iguais”, obra em tudo por tudo singular. Até o tamanho dos textos anteviam o miniconto, a ser exercitado tempos depois cá entre nós. Também entrou nessa jogada o querido Manoel Lobato, atuante no romance assim como na crônica. Para falar do presente, continuam brilhando Luiz Vilela, Jeter Neves, Drummond Amorim, Ana Cecília de Carvalho e eu, que me desdobro para não ficar para trás.

Não foram incluídos nas coletâneas citadas os escritores Humberto Werneck e Ivan Ângelo, nem o carioca que aqui viveu e aqui estreou na literatura, Sérgio Sant’Anna, pois já haviam conquistado novos territórios, creio.

A partir da década de 1990, no entanto, outros nomes vieram enriquecer essa lista substancial: Guiomar de Grammont, Francisco de Morais Mendes, Adriano Macedo, Marcílio França, Ana Elisa Ribeiro, Luís Giffoni (que visita o conto quando entediado dos seus romances), João Batista Melo (que se dedica também ao romance e ao cinema), Sérgio Fantini (sempre versátil em suas produções), Ronaldo Cagiano, Cristina Agostinho, Madu Brandão, Lino de Albergaria, José Eduardo Gonçalves, Maurício Meirelles e outros tantos que se farão presentes na coletânea MICROS-BEAGÁ (uma aposta corajosa do professor Rauer Ribeiro Rodrigues), que sairá do forno no segundo semestre de 2021, tão logo os ânimos se acalmem Brasil afora.

Em 2019 dei mais um passo adiante publicando Flor Carnívora & Algo Mais e, ainda, Nanocontos. Seguindo essa toada, Alciene Ribeiro e Rauer fizeram uma parceria instigante, que leva o título de minimus & brevíssimos, já no ar pela Editora Pangeia.

E outros hão de vir.

Mas voltando ao título Contos da terra do conto, existe aí uma convergência com o tema destas reflexões. Por que terra do conto?

Eu penso que minério de ferro, misturado com ora-pro-nóbis, pode ser um excelente adubo para fazer brotar contista mineiro. Além disso, todo este estranhamento feito de longas e poeirentas estradas, estas lonjuras que nos impelem a refletir, desde que subamos ao topo da montanha, rezas e ladainhas que herdamos mesmo sem nos inteirarmos delas, pecados que bendizemos nas cavernas que nos habitam, lendas contadas por nossos antepassados (negros, índios, portugueses e outros aventureiros) e que, ainda hoje, alimentam nosso imaginário, o subterrâneo do não dito e das emoções caladas – tudo isso, este caldo espúrio e traiçoeiro, provoca uma fermentação de alto teor alcoólico, que impulsiona mentes desavisados a caírem na esparrela. Minas é um país diverso e diversificado. Aqui ficamos, geograficamente circunscritos. E salve-se quem puder!

A atmosfera brumosa nos leva a um convívio nada pacífico com a questão da escrita. Temos que garimpar às cegas em busca do ouro ou de, pelo menos, pequenos cristais. Breve e denso, o conto não tem tempo a perder; ou melhor, palavras a perder. E como o mineiro tem pendor para economias, o gênero vem a calhar.

Lá vamos nós em busca do sumo das coisas, tentando reter o essencial, aquilo que tem potencial para permanecer.

O coletivo que nos é oferecido e a bagagem de cada um, intransferível, compõem a matéria da qual nos servimos enquanto escritores.

Branca Maria de Paula
ESCRITORA, ROTEIRISTA E FOTÓGRAFA

 

Sobre Micros-Beagá, veja em < https://editorapangeia.com.br/?s=micros-beagá >.

Sobre microconto, clique aqui: < https://editorapangeia.com.br/?s=microconto >.

Sobre minimus & brevíssimos, clique aqui: < https://editorapangeia.com.br/shop/ >.

Sobre Alciene e Rauer, clique aqui: < https://editorapangeia.com.br/shop/ >.

Deixe um comentário