Semeando Entrevistas com Escritores

ENTREVISTA:

A OUTRA VOZ APROPRIADA
PARA QUEM QUISER FALAR

Stefania Chiarelli (UFF)
Mireille Garcia (Sorbonne)
André Dias (UFF)

Sobre a palavra – conversas com quem escreve, se compõe de uma série de entrevistas com escritores e escritoras da literatura brasileira contemporânea. A partir da reflexão de autores e autoras experientes, e também de ficcionistas estreantes, as trocas delineiam um panorama da prosa atual, em suas diversas linhagens e vertentes.

Do consagrado escritor Milton Hatoum a autores estreantes como Odorico Leal, de premiadas escritoras como Micheliny Verunschk a jovens autoras como Elisabeth Cardoso, o painel apresentado abarca vozes distintas e trajetórias muito diversas. A uni-las, o gesto de escrever e publicar prosa no Brasil do tempo presente.

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Iniciado em agosto de 2024 e concluído no ano seguinte, Sobre a palavra – conversas com quem escreve nasceu, antes de tudo, dos afetos. Afeto pela literatura, mas afeto também entre colegas professores que, ao longo dos anos, foram se tornando amigos e parceiros. Do encontro e das conversas nasceram outras possibilidades de troca e projetos em torno do campo literário como um todo.

Foram doze meses de trabalho e doze escritores e escritoras entrevistados. Nesse ciclo, nossa rotina se viu tomada pelo envio de links, arranjo de cronogramas, cálculos de fuso horário, roteiros, pesquisas, transcrições, revisões. E muita leitura preparatória. Horas, dias e meses dedicados a essa empreitada. Ainda que uma entrevista seja planejada em minúcias, ela é semprebum evento único, com imprevistos, surpresas e interrupções.

Para nós, como professores e pesquisadores, foi também a oportunidade de aprender juntos e adensar nossa compreensão do cenário contemporâneo, afinal, estamos em sala de aula ministrando cursos, orientando trabalhos e convivendo de perto com os textos de nossos entrevistados e entrevistadas.

Em nosso caso, somos dois professores da UFF, trabalhando no campus Gragoatá, em Niterói, Rio de Janeiro, somados a uma professora que transitou da Universidade Rennes 2 à Sorbonne durante a feitura do livro. Na capital da Bretanha, em junho de 2024, consagramos a pedra fundamental do livro (na mesa, havia crepes e um bloco de notas cheio de ideias e rabiscos).

O registro se faz necessário para dar aos leitores a dimensão do caráter mutante do processo de construção de um livro e dos pontos de vista envolvidos nele – três cidades e dois países.

Vale pensar o contexto em que se deu nossa iniciativa. Como se sabe, assistimos à redução significativa do espaço dedicado à crítica literária na imprensa brasileira. Os grandes jornais, por décadas responsáveis por parte importante da legitimação e da circulação literária, diminuíram drasticamente o número de suplementos culturais, cadernos especializados, colunas e resenhas que promoviam reflexão intelectual mais aprofundada sobre a literatura.

Com a migração dos debates para plataformas como redes sociais, podcasts, newsletters, blogs especializados e canais independentes, a mediação literária tornou-se mais fragmentada, mais acelerada e, de certa maneira, mais dispersa. Ao mesmo tempo em que abrem novas possibilidades – ampliando distintas vozes, diversificando públicos e permitindo que leitores e autoras/es interajam diretamente –, tais espaços também trazem desafios evidentes: excesso de informação, efemeridade dos conteúdos, sobreposição de discursos promocionais e formadores de opinião, leitores transformados em seguidores ou influencers, dificuldade de construção de uma leitura crítica mais densa em fluxos marcados pela velocidade e pela lógica algorítmica.

O cenário, que combina certa crise da crítica tradicional e proliferação de novos espaços de circulação, levanta a questão fundamental de como continuar produzindo reflexão crítica sobre literatura em um ambiente em que os formatos clássicos já não respondem completamente às demandas contemporâneas. E mais: de que forma aproximar crítica e literatura sem abrir mão da complexidade, mas sem ignorar as dinâmicas atuais de produção e circulação?

A partir dessas inquietações surgiu a ideia do livro: construir um espaço para refletir com vagar sobre o ofício da escrita, desvinculado de lançamentos e do imediatismo dos eventos midiáticos. Ao dedicar um espaço de diálogo direto com escritoras e escritores, buscou-se compreender como eles próprios percebem a literatura contemporânea brasileira – suas tensões, impasses, linhas de força e formas de fruição.

E se o espaço da crítica se tornou mais rarefeito, é produtivo reativar um tipo de escuta que devolva a palavra aos sujeitos da criação, tomando a entrevista não como mera ferramenta promocional, mas instrumento de análise capaz de iluminar aspectos do processo literário que muitas vezes ficam invisíveis na avaliação distante.

Foram realizadas doze entrevistas em formato online com autores e autoras de diferentes regiões do Brasil, selecionados a partir de critérios como diversidade geográfica, racial, de gênero e de trajetórias literárias, assim como de relevância das obras publicadas. De duração variável, as conversas foram transcritas integralmente1 e passaram por processo de edição, que visou manter o tom oral e espontâneo, mas também buscou clareza e coesão para a publicação em livro.

Para o sumário, selecionamos uma frase de cada um dos autores e autoras, inspirados por Se um viajante numa noite de inverno (1979), de Italo Calvino, romance modelar a respeito do prazer da leitura. Em nosso índice, as sentenças surgem como incipit, fragmento que anuncia e prepara o leitor para o mergulho na íntegra de cada entrevista.

Sobre a palavra – conversas com quem escreve amplia igualmente o entendimento das novas formas de circulação da literatura ao trabalhar com o formato online, transcrevendo entrevistas realizadas em meio virtual. Dessa forma, o próprio método inscreve o livro no ambiente contemporâneo, fazendo parte do fenômeno estudado.

O trabalho cria também uma mediação entre literatura e sociedade, permitindo que circulem, de forma acessível, reflexões que geralmente ficam restritas ao ambiente universitário ou ao mercado editorial. A publicação das entrevistas em e-book e formato aberto busca criar caminhos de leitura e estabelecer pontes entre diferentes públicos.

Em uma época de aceleração contínua, em que a informação circula de forma vertiginosa, a literatura oferece tempo, densidade e complexidade – qualidades que, mais do que nunca, precisamos preservar e valorizar. As conversas com os escritores mostram que, apesar de todas as dificuldades, a literatura brasileira contemporânea está viva, plural e comprometida com a tarefa de pensar a nossa realidade.

Sem a pretensão de criar um panorama exaustivo da prosa brasileira contemporânea – em si mesma vasta, diversa e em processo permanente de construção – buscou-se identificar vozes significativas que permitam esboçar um retrato múltiplo do campo literário atual.

Nas conversas, alguns eixos principais foram contemplados, no sentido de observar não apenas trajetórias individuais, mas pontos de convergência e linhas de força comuns nas produções ficcionais recentes.

  • O processo de criação: como cada autor se relaciona com a própria escrita, quais são seus procedimentos, preocupações formais, influências e gestos estéticos fundamentais;
  • A relação entre literatura e atualidade: de que modo as obras respondem – ou recusam responder – às urgências políticas e sociais do presente, incluindo temas como violência, desigualdade, identidades, memória, crise democrática, relações raciais e transformações tecnológicas;

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  • As percepções sobre o campo literário e sobre o papel da crítica: como esses criadores e criadoras enxergam o lugar da literatura hoje, suas condições de circulação e mercado, as dificuldades e potencialidades do ambiente editorial e o papel que a crítica – seja jornalística, acadêmica ou independente – desempenha ou poderia desempenhar;
  • A circulação e recepção da tradução das obras: como cada um e cada uma percebe o percurso de seus livros fora do Brasil, suas experiências com leitores de outras línguas, e os impactos ou dificuldades da tradução no reconhecimento de suas obras.

Apesar da diversidade estética da literatura brasileira atual, existe uma percepção recorrente entre os entrevistados de que a literatura se tornou um espaço privilegiado de elaboração de experiências sociais urgentes, especialmente em um país marcado por desigualdades estruturais. Muitos autores e autoras afirmam que a ficção contemporânea opera numa zona de tensão entre a necessidade de pensar o real e a necessidade de reinventar formas estéticas para além dele.

Há uma convicção de que a literatura não substitui a análise social, mas oferece modos de compreensão do mundo que são específicos da linguagem literária e, portanto, insubstituíveis.

A entrevista, enquanto gênero e lugar de produção de pensamento crítico, parece mobilizar nesses autores reflexões que não surgiriam necessariamente em um ensaio ou declarações pontuais. O tom coloquial dos encontros favorece um tipo de pensamento em voz alta que não apenas registra opiniões, mas produz reflexão. Assim, a entrevista deixa de ser uma atividade “paraliterária” e passa a funcionar como dispositivo crítico, espaço de elaboração intelectual que articula literatura, autor-reflexão e mediação cultural.

Escutar os escritores não significa entronizá-los como autoridade última sobre suas obras, mas incorporar suas colocações ao campo de forças que moldam a literatura. A crítica, nesse sentido, não perde autonomia, mas ganha densidade ao dialogar com aquilo que os próprios sujeitos da escrita percebem como urgência estética ou ética.

Para a crítica argentina Leonor Arfuch, entrevistar um escritor constitui um ritual de consagração situado no campo da “construção de uma imagem de si”2 (Arfuch, 2010, p. 212). Esse gesto performático da construção de si presente na entrevista de todo e qualquer autor opera no sentido de construir molduras de interpretação válidas. Como entrevistadores, buscamos acessar essa “cena da escrita” de cada um e desdobrá-la, colhendo daí elementos de análise que adensem nossa compreensão do texto literário.

Isso não equivale a buscar nas declarações dadas pelos autores a mais pura autobiografia, mas

“Menos opressiva e comprometida do que ela, mais leve e contingente, aberta a reescritas e apagamentos, a reconfigurações e mudanças de humor, mais difusa do que o livro, que tende ao monumento, menos solitária, mais próxima da vida, do agora do acontecimento que da restauração paradoxal da mortalidade, a entrevista é, talvez, em seu devir já canonizado, a outra voz apropriada para quem quiser falar. Um falar inconcluso por natureza, em troca do árduo trabalho de perguntar (Arfuch, 2010, p. 237).

Em um contexto em que as formas tradicionais de mediação se esgarçam, talvez seja justamente no caráter inconcluso dessas conversas, nesse coral de vozes, que resida a possibilidade de encontrar renovados sentidos para a palavra e a literatura.

1 Agradecemos o empenho e dedicação da então aluna de mestrado Santinie Estevão, do Programa de Pós-graduação em Literatura da UFF, cuja contribuição foi fundamental para o andamento das entrevistas e de todo o projeto.

2 O espaço biográfico – dilemas da subjetividade contemporânea. Trad. Paloma Vidal.Rio de
Janeiro: EDUERJ, 2010.

Niterói/Paris, janeiro de 2026

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