Lucivaldo Paz de Lira é doutor em Educação pela Unicamp (2025) e mestre em Educação pelo Centro Universitário Salesiano São Paulo (2016). É graduado em Pedagogia pela Faculdade do Noroeste de Minas (2004). Atualmente é pedagogo do Instituto Federal de São Paulo – Câmpus Jundiaí. Em entrevista ao Blog da Pangeia, ele discorre sobre o lançamento de seu livro Quando o Terreiro Ensina a Escola: Diálogos entre a Educação de Terreiro e a Educação Freireana.
Blog da Pangeia – Lucivaldo, nos fale, por favor, da sua trajetória pessoal e de profissional da educação.
Lucivaldo – Sou Lucivaldo Paz de Lira, educador popular, mobilizador social, pedagogo e autor da Editora Pangeia. Há muitos anos, minha vida é atravessada pela educação e pelo trabalho com pessoas e comunidades. Durante 16 anos, atuei na Fundação Conscienciarte, desenvolvendo projetos com comunidades quilombolas e ribeirinhas, juventudes e iniciativas ligadas à cultura, ao esporte, ao meio ambiente e à educação. Há 13 anos, sou servidor público federal no Instituto Federal de São Paulo. Mas minha história também nasce e se fortalece no terreiro. Sou homem de axé, filho de Oxóssi e Ogan. Por isso, não escrevo como alguém que apenas observou o terreiro de fora. Escrevo como quem vive essa experiência e levou para a universidade as perguntas, os aprendizados e as inquietações que nasceram no chão da vida. Uma frase de Elza Freire, que abre o prefácio da obra, traduz muito do que sinto: “Para entender, tem que saber sentir”. É desse lugar de afeto, escuta e pertencimento que este livro foi escrito.
Blog da Pangeia – Comente, por favor, aspectos centrais do livro a partir do título.
Lucivaldo – O livro se chama Quando o Terreiro Ensina a Escola: Diálogos entre a Educação de Terreiro e a Educação Freireana. Esse título nasceu como uma provocação, mas também como um convite. Durante muito tempo, fomos ensinados a acreditar que a escola era o único lugar legítimo do saber e que as tradições de matriz africana deveriam permanecer escondidas, silenciadas ou submetidas ao olhar de outras pessoas. O livro propõe uma mudança de perspectiva e pergunta, com respeito e coragem, o que a escola, Elza Freire e Paulo Freire podem aprender com a Educação de Terreiro. Faço questão de falar de Elza e Paulo no presente porque a pedagogia freireana nasceu de uma vida partilhada, da convivência e da construção feita pelos dois. Hoje, como ancestrais, eles continuam vivos em tudo aquilo que nos ensinam e nos ajudam a transformar.
Blog da Pangeia – Em qual área temática o livro se encerra?
Lucivaldo – O livro está no campo da Educação e dialoga de maneira muito próxima com a educação popular, as relações étnico-raciais, os saberes afro-brasileiros, a Educação de Terreiro e a pedagogia freireana. Ao longo da obra, também falo de ancestralidade, memória, oralidade, diálogo, participação comunitária, contracolonialismo e transformação social. Mais do que apresentar conceitos, procuro mostrar que os terreiros de Candomblé são espaços vivos de aprendizagem, resistência, cuidado e reconstrução de vínculos familiares e comunitários.
Blog da Pangeia – Por favor, explicite um pouco mais esses aspectos que mencionou.
Lucivaldo – O livro nasce de uma pergunta que me acompanha há muito tempo: o que a escola e a educação freireana podem aprender com aquilo que os terreiros já vivem e praticam há séculos? Estou falando de uma educação feita no diálogo, na convivência, no cuidado, na comunidade e na liberdade. A pesquisa não foi realizada sobre as pessoas de santo, mas com elas. Passei por seis comunidades de terreiro e conversei com doze lideranças e membros que, com muita coragem, decidiram mostrar seus rostos e dizer seus nomes, rompendo com uma história de perseguição e silenciamento. No terreiro, o aprendizado acontece nas tarefas mais simples e profundas do cotidiano, como picar quiabo, macerar folhas, lavar louça, preparar alimentos, ouvir, conversar e também respeitar o silêncio. É nesse convívio que a pedagogia ganha vida. Por isso, o livro não foi dividido em capítulos convencionais. Ele foi organizado nos tempos do Abian, do Iaô, do Ebomi, do Xirê e de Sankofa, acompanhando a própria caminhada de quem vive o axé.
Blog da Pangeia – O que o leitor pode esperar do livro?
Lucivaldo – O livro convida o leitor a se aproximar da Educação de Terreiro com sensibilidade, respeito e disposição para aprender. Ao longo da leitura, quatro encontros ganham força. A oralidade e a memória se encontram com o diálogo. A ancestralidade se aproxima da liberdade. A cooperatividade se une à participação. E o axé se transforma em força para mudar a realidade. No terreiro, aprendemos com o corpo inteiro. O corpo pode ser a lousa, a cabeça pode ser o caderno e a palavra viva pode ser o giz. A ancestralidade nos ajuda a saber de onde viemos, a comunidade nos lembra que ninguém se educa sozinho e o axé nos impulsiona a agir no mundo com responsabilidade, esperança e compromisso com a vida.
Espero que quem leia este livro passe a olhar a educação de uma maneira mais ampla, percebendo que o conhecimento não nasce apenas nos livros ou dentro da sala de aula. Ele também nasce na palavra falada, no corpo, na memória, no cuidado, na escuta e na vida em comunidade. Educadores, pesquisadores e todas as pessoas comprometidas com práticas antirracistas e humanizadoras poderão encontrar caminhos para repensar suas relações e suas práticas, acolher saberes que durante muito tempo foram silenciados e construir experiências mais dialógicas e participativas. No fundo, o livro faz um convite para aproximarmos o “sankofar” africano do “esperançar” freireano. Voltar à ancestralidade não significa permanecer no passado, mas buscar nela a força necessária para construir uma esperança ativa, feita de luta, afeto e dignidade humana.
Este é um livro que carrega muito de mim, da minha caminhada e das pessoas que confiaram suas histórias a esta pesquisa. Ele foi escrito com o coração, mas também com responsabilidade, escuta e compromisso ético. Sua maior beleza está no fato de o terreiro não aparecer como um simples objeto de estudo. As pessoas de santo estão presentes como sujeitos da pesquisa, com seus nomes, suas vozes, suas memórias e a autoria de seus próprios saberes. A obra aproxima a vida concreta das comunidades, a ancestralidade africana e a pedagogia de Elza e Paulo Freire em uma linguagem que busca acolher o leitor. Tenho um carinho especial pela maneira como o livro foi organizado nos tempos do axé, porque essa escolha respeita o universo que desejo apresentar e permite que a própria forma do texto também ensine.
Blog da Pangeia – Além das formalidades acadêmicas, fique à vontade para seus agradecimentos quanto à travessia que o fez chegar ao Quando o Terreiro Ensina a Escola: Diálogos entre a Educação de Terreiro e a Educação Freireana.
Lucivaldo – Antes de qualquer agradecimento, peço licença a Exu, senhor da comunicação, do movimento e das encruzilhadas. Reverencio meus mais velhos, minha ancestralidade e os orixás que sustentam minha caminhada, especialmente Oxum, Iemanjá e Oxóssi. Agradeço profundamente às seis comunidades de terreiro que me receberam e às doze pessoas que dividiram comigo suas histórias, suas práticas e seus saberes. Agradeço à professora Nima Spigolon pela orientação, à professora Camila Coimbra pela parceria de tantos passos, e ao Rízio pela arte e pela belezura da diagramação. Agradeço ainda aos meus irmãos e irmãs de fé e de caminhada, à minha família e ao meu marido, Paulo Fabrício, meu porto e meu amor de todos os dias. Este livro só chegou até aqui porque muitos caminhos, saberes e afetos se encontraram.
Blog da Pangeia – Para encerrar, uma palavra aos leitores.
Lucivaldo – Sawubona! Eu vejo vocês. Cada pessoa que chega a estas páginas é importante para mim, e sou profundamente grato por sua presença. Desejo que esta leitura lave os olhos, alimente a mente e toque o coração com os saberes de quem veio antes de nós. Que ela abra caminhos, provoque encontros e nos ajude a olhar a educação com mais humanidade. Que Sankofa nos ensine a buscar aquilo que foi esquecido ou silenciado e que o esperançar freireano nos dê coragem para transformar memória em luta, afeto e dignidade. Que o terreiro continue nos ensinando a cuidar uns dos outros, a aprender em comunidade e a transformar o mundo. Axé!
CONHEÇA O LIVRO DE LUCIVALDO:
CLIQUE AQUI !!!