Carlos Martins, haijin do perfil do FB O zen do haicai, publicou uma resenha sobre o livro Imersões no Instante, que reúne haicais de Lorena Gonçalves e Jurema Rangel. Reproduzimos abaixo a resenha.
“IMERSÕES NO INSTANTE – HAICAIS”
de Lorena Gonçalves e Jurema Rangel
Tenho um costume, compartilhado com a alma vocabular comum dos brasileiros, de usar o diminutivo ao me referir às pessoas e às coisas. “Passe em casa para tomar um cafezinho.” “O Louquinho do bairro estava andando no meio da rua.” “Me dá um minutinho?!” “Sim, já já, rapidinho!” “O Vozinho do quinto andar é tão simpático, né?”
Nós, os irmanados tupiniquins em Tupã, expressamos mais que uma resposta a uma necessidade, um deleite por algo ou uma afirmação social: nós as marcamos afetivamente, atenuando e estreitando a comunicação. Gostamos tanto de suavizar o discurso e acentuar a informalidade que cometemos até o diminutivo duplo, do tipo: “Coloque uma pitadinhazinha de sal, e pronto!”
Se eu contasse as vezes em que me referi a um livro de que gostei no diminutivo — e mesmo na crítica, pois, mesmo se ele não for tão bom, o diminutivo se presta à ironia, do tipo “Ah, esse livrinho!…” —, eu me perderia no registro da contagem. Aliás, se tivesse contado, em que milhar estaria este?
Este, este livro que tenho em mãos, pequeno em formato, mas gigante em conteúdo, faz com que lhe caia bem a vestimenta do carinhoso sufixo: livrinho!
Por tudo o que disse até aqui, nem precisaria de mais palavras para afirmar que ele é especial, não só para suas autoras, que imprimiram muito amor em suas páginas, além de palavras em tinta. Mas me estendo um pouquinho (olha ele aí!).
Falo de Imersões no instante: haicais (Campinas, SP: Pangeia Editora, 2026), das poetas Lorena Gonçalves e Jurema Rangel: um livrinho porreta — outra maneira carinhosa, desta vez regional, de acentuar algo excepcionalmente bom — que acabei de folhear.
Em formato quase de bolso — ou, dependendo do bolso, de bolso! —, no tamanho de 11 × 18 cm, ele carrega, em seus haicais, um universo de interpretações, pois um haicai tem tantos sentidos quantos forem os seus leitores. E os haicais deste não decepcionam.
Lorena e Jurema alternam-se na autoria, como marolas em mar de primavera, silenciosa e suavemente visitando os quatro elementos com que dividem os capítulos do livrinho — e do espírito de seu conteúdo.
Assim, por exemplo:
“Terra”
casa abandonada —
só o jardim de amarílis
cintila ao sol
— J. R.
“Água”
leveza de outono —
frágeis flores acolhem
serenas gotículas
— L. G.
“Ar”
aragem da tarde —
o cantar dos passarinhos
serena a tristeza
— J. R.
“Fogo”
olhares se tocam
no aconchego da lareira —
sussurros à noite
— L. G.
Por fim, mesmo sendo clichê, mas não menos importante, temos, no início, o saboroso e inspirado prefácio de George Goldberg, um dos mais talentosos haicaístas da atualidade, que aumenta ainda mais a importância deste livro para a cena haicaísta brasileira, lembrando-nos que “Cada haikai é uma porta que se abre, e o leitor é convidado a atravessá-la com passos leves e sentidos atentos”.
Com base nesses recortes, pergunto: menti quando afirmei que Imersões… é pequeninozinho em formato, mas ciclópico em conteúdo?
Não, né?
Carlos Martins
@carlosmartinshaicai
Originalmente publicado no Facebook
do Grupo Zen do Haicai em 22/06/26
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