Flávia de Queiroz Lima, a autora de Resgate (Pangeia / Dionysius, 2025), Círculo de Giz (2.ª ed., Pangeia / Dionysius, 2024; 1.ª ed, 1983), Laços e Avessos (Pangeia / Dionysius, 2023), Sobre Viver (2019) e Arrumar as Gavetas (2012), é poeta lírica, intimista, cuja poesia, no entanto, está sempre atenta ao mundo histórico e secular do seu entorno. E é desse mundo que a poeta nos fala em “Bastidores”, escrito há poucos dias, e que reproduzimos abaixo.
BASTIDORES
Ali, onde brota a trama,
nada ao acaso se esconde:
na surdina, armando o bote,
quem chantageia, corrompe.
Nos bastidores se expande
a bruma espessa que avança,
entranhada espalha o visgo,
misto de logro e vingança.
Assim se alastra a cobiça
alheia ao que asfixia,
sufocando, em seus tentáculos,
tudo o que em volta respira.
Surge da lama viscosa
e ali se alonga – cochicha
encobrindo, impune, a astúcia
como sombra movediça.
Na mesma arena invisível,
resistindo, ainda transita
quem confronta o que viceja,
rega e alastra o parasita.
Nesse embate em que se embrenham
a lucidez e a malícia,
uma embaralha, outra aclara,
salva o desfecho, elucida.
Num outro espaço da cena
também brilham bastidores
latejando a arte acesa
que pinta gestos e cores:
habita a borda do palco
e ouve o terceiro sinal
como quem, provando a vida
enfrenta o salto mortal.
Contando histórias das obras
permeadas de entrelinhas
bastidores são memórias,
emolduram travessias:
a inspiração se avizinha
quando quem compõe visita
um poeta que adivinha
a letra da melodia.
Mesmo ali a voz ladina
desfigura o repertório
se puxa o tapete, a escada
minando esse território
de inveja, deslealdade,
subverte a farsa, o enredo
e em cortinas de fumaça
embaça seu lado avesso.
A mesma palavra gesta
nas entranhas dupla face:
se uma oculta, dissimula,
outra, criando o disfarce,
denuncia essa artimanha
despe a trapaça e alerta
– uma conspira o conluio
outra ilumina, desperta.
06.06.26
Flávia de Queiroz Lima
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