Mariana Filgueiras: as Quirinas do Brasil

Ocorre nesta quinta-feira, 16 de abril, o lançamento de QUIRINAS: A TRABALHADORA DOMÉSTICA COMO PROTAGONISTA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, de Mariana Filgueiras, publicado em coedição da Pangeia Editora com a Eduff a partir do Eddital Coleção Ensaios Egressos 2025.2 POSLIT / UFF – PROEX / CAPES. Assista ao lançamento, que conta com a participação, além da autora, das professoras Eurídice Figueiredo e Eliza Araújo, às 17h30 no Youtube do PPG Estudos de Literatura da UFF – Universidade Federal Fluminense, AQUI.

Mariana Filgueiras é jornalista, com mestrado e doutorado em Estudos Literários pela Universidade Federal Fluminense. Foi repórter no Jornal do Brasil, Tv Globo, revista Piauí e Jornal O Globo, onde ganhou qeuatro prêmios de jornalismo. É autora dee O avesso do bordado: uma biografia de Maarco Nanini (Companhia das Letras, 2023).

QUIRINAS: A TRABALHADORA DOMÉSTICA COMO PROTAGONISTA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA é uma adaptação da tese de Mariana Filgueiras defendida em 2024 com apoio da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, trabalho reconhecido com eenç˜dao Honrosa no Prêmio Capes de Tese 2025.

O lançamento está repercutindo na imprensa em geral e na mídia especializada no mercado editorial. Reproduzimos abaixo algumas das reportagens já publicadas.

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‘Quirinas’ mapeia 165 anos de invisibilidade das domésticas na literatura brasileira
PublishNews, Monica Ramalho, 10/04/2026
     
Livro da jornalista e escritora Mariana Filgueiras pode ser baixado de graça no site da Editora Pangeia e é resultado de pesquisa premiada pela Capes em 2025

Um país com quase 7 milhões de trabalhadoras domésticas — a maioria formada por mulheres negras, chefes de família e historicamente precarizadas — levou mais de um século para colocá-las no centro de uma narrativa literária. É esse descompasso que o livro Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia), escrito pela jornalista Mariana Filgueiras, escancara agora, quando muito se fala sobre o racismo e a desigualdade social.

Resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF) e vencedora do Prêmio Capes de Tese 2025, o estudo mapeia 37 personagens de contos e romances publicados entre 1859 e 2024 — e revela que a primeira protagonista trabalhadora doméstica na ficção brasileira só aparece em 2018.

Com bela capa de Mariana Navas, o livro será lançado na quinta-feira, 16 de abril, às 18h, em encontro online no canal Estudos de Literatura, no YouTube. Mariana vai conversar com a orientadora da pesquisa, a professora Eurídice Figueiredo, e a professora Eliza Araújo.

E se você quiser ler antes, o livro está disponível para download gratuito aqui, no site da Editora Pangeia.

A pesquisa parte de uma pergunta direta: se essas mulheres estão no cotidiano de milhões de brasileiros desde o século XIX, por que permanecem à margem da literatura? Ao percorrer o cânone, Filgueiras encontrou um padrão persistente de apagamento e estereotipia. O livro foi nomeado por causa da personagem Mãe Quirina, do conto “Babá”, escrito por Lima Barreto em 1904.

“Este conto é uma das raras exceções na forma como a trabalhadora doméstica aparece na literatura brasileira. O narrador de Lima se interessa pela personagem, conta a história da sua vida, o que a gente não vê quando examina o cânone. No levantamento que fiz, o mais recorrente é que essas personagens apareçam sempre de forma muito estereotipada, sem nome, apanhando, estupradas, sempre associadas à ignorância. São usadas como escada, alívio cômico, pouco falam. É desolador pensar que a maioria dos nossos escritores não teve qualquer interesse na subjetividade dessas mulheres, em desenvolver alguma trama, dar a elas um nome, nada. Personagens com imenso potencial dramático, que testemunham as entranhas da elite, são desprezadas”, observa Mariana no release de divulgação.

“Há críticos literários que defendem que a estereotipia ou a invisibilização das empregadas domésticas sejam recursos estéticos da denúncia social, ouvi muito isso em congressos. Depois desse levantamento, não tem como concordar com isso. É uma prática muito recorrente, um padrão, um sintoma da neurose cultural brasileira, como diria Lélia González”, sentencia a autora.

A virada, segundo a pesquisadora, começa a se desenhar a partir de 2015, quando surgem narrativas em que essas personagens ganham voz mais ativa. Três anos depois, aparecem as primeiras protagonistas.

“Não tenho dúvidas de que este é um efeito simbólico da Lei de Cotas, da Lei das Domésticas, por exemplo, e de outras políticas públicas que resultaram na mobilidade social dessas mulheres. Seus filhos e netos entraram na universidade, começaram a escrever as histórias das mães e avós, tanto que muitos romances são dedicados a elas. É um momento especial e que não tem volta. Desde 2018, já foram lançados mais de 10 romances com domésticas como protagonistas. Em 2024, um deles, o romance Louças de família, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura”, compara Mariana.

Entre os títulos analisados com mais profundidade estão Perifobia (Todavia, 2018), de Lilia GuerraCom armas sonolentas (Companhia das Letras, 2019), de Carola SaavedraSuíte Tóquio (Todavia, 2020), de Giovana Madalosso; e Solitária (Companhia das Letras, 2022), de Eliana Alves Cruz — obras que, segundo Mariana Filgueiras, puxam a trabalhadora doméstica para o centro da narrativa e exploram com mais liberdade a sua subjetividade.

“O trabalho doméstico passa a ser um tema da narrativa, uma ação no enredo, criando cenas muito originais, e isso desperta conversas, questionamentos, de forma orgânica, não necessariamente panfletária ou didática”, analisa, no texto que ela mesma escreveu para divulgar a chegada de Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea. E quem gostar do novo livro, pode ler mais um da Marina Filgueiras, nascida em Volta Redonda, em 1981. Ela é autora de O avesso do bordado: uma biografia de Marco Nanini (Companhia das Letras, 2023).

[10/04/2026 10:16:29]
Original: aqui.
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Livro ‘Quirinas’ faz levantamento inédito das personagens trabalhadoras domésticas na história da literatura brasileira

Contemplada no Prêmio Capes de Tese, pesquisa da UFF mapeia 37 mulheres de contos e romances publicados entre 1859 e 2024; primeira protagonista só surgiu em 2018

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O Brasil tem quase 7 milhões de pessoas trabalhando como babás, faxineiras, cozinheiras, lavadeiras, diaristas, cuidadores de idosos, segundo o IBGE. A maioria é mulher, negra, pobre e chefe de família. É a maior categoria de trabalho do país – e também a mais precarizada, a que ganha menos e a que menos se aposenta. Ofício legado da escravidão, o trabalho doméstico é tão fundamental nos dias de hoje que foi decretado como “essencial” durante a pandemia de Covid-19, o que ampliou tragicamente o número de mortes das profissionais no período. Como bem sintetiza a ativista francesa Françoise Vergès, “são as mulheres invisíveis que abrem o mundo”.

O evento de lançamento será um bate-papo on line entre a autora, a orientadora da pesquisa, a profa. Dra. Eurídice Figueiredo (UFF) e a profa. Dra. Eliza Araújo (UFF), às 18h, no canal do Youtube “Estudos da Literatura” da UFF, no @EstudosdeLiteraturaUFF.

Se as trabalhadoras domésticas estão dentro da casa de milhões de brasileiros desde finais do século XIX, e o trabalho que fazem é tão essencial, por que elas praticamente não aparecem na história da nossa literatura? Foi essa a pergunta que moveu a tese de doutorado da jornalista e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Mariana Filgueiras. O trabalho foi contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025 e acaba de virar o livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”. Com lançamento marcado para o próximo dia 16 de abril, o livro já pode ser baixado gratuitamente no site da editora Pangeia.

Com arte da capa de Manuela Navas, “Quirinas” analisa mais detidamente títulos como Perifobia (Lilia Guerra, 2018); Com armas sonolentas (Carola Saavedra, 2019); Suíte Tóquio (Giovana Madalosso, 2020); Solitária (Eliana Alves Cruz, 2022), romances que a autora considera os primeiros na história literária brasileira a colocar a personagem da trabalhadora doméstica no centro da narrativa. Em todos esses títulos, afirma Mariana, as personagens têm sua subjetividade investigada, seus familiares integram suas tramas e o trabalho doméstico ganha novos pontos de vista.

“O trabalho doméstico passa a ser um tema da narrativa, uma ação no enredo, criando cenas muito originais, e isso desperta conversas, questionamentos, de forma orgânica, não necessariamente panfletária ou didática”, analisa Mariana.

A autora lembra do risco que a reabilitação da personagem também corre diante do que chama de “estereótipos positivos”.

“A socióloga Patricia Hill-Collins usa um conceito que acho fundamental neste debate, o de ‘imagens de controle’, ou seja, estereótipos que engessam a personagem, o que acontece tanto negativamente quanto positivamente. Na ânsia de reabilitar personagens que foram esquecidas por décadas, é preciso ter cuidado para não criar heroínas com ações previsíveis no enredo, sem falhas de caráter, sem contradições. Isso também as desumaniza”, conclui a autora.

Sobre o livro
Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia/EdUff)
Livro contemplado pelo edital Coleção Ensaios Egressos 2025.2 – POSLIT/UFF – Capes
Disponível para download gratuito no site da editora Pangeia:
https://editorapangeia.com.br/pt_br/product/quirinas-a-trabalhadora-domestica-como-protagonista-na-literatura-brasileira-contemporanea-mariana-filgueiras / inédito das personagens trabalhadoras domésticas na história da literatura brasileira

Contemplada no Prêmio Capes de Tese, pesquisa da UFF mapeia 37 mulheres de contos e romances publicados entre 1859 e 2024; primeira protagonista só surgiu em 2018

O Brasil tem quase 7 milhões de pessoas trabalhando como babás, faxineiras, cozinheiras, lavadeiras, diaristas, cuidadores de idosos, segundo o IBGE. A maioria é mulher, negra, pobre e chefe de família. É a maior categoria de trabalho do país – e também a mais precarizada, a que ganha menos e a que menos se aposenta. Ofício legado da escravidão, o trabalho doméstico é tão fundamental nos dias de hoje que foi decretado como “essencial” durante a pandemia de Covid-19, o que ampliou tragicamente o número de mortes das profissionais no período. Como bem sintetiza a ativista francesa Françoise Vergès, “são as mulheres invisíveis que abrem o mundo”.

O evento de lançamento será um bate-papo on line entre a autora, a orientadora da pesquisa, a profa. Dra. Eurídice Figueiredo (UFF) e a profa. Dra. Eliza Araújo (UFF), às 18h, no canal do Youtube “Estudos da Literatura” da UFF, no @EstudosdeLiteraturaUFF.

Se as trabalhadoras domésticas estão dentro da casa de milhões de brasileiros desde finais do século XIX, e o trabalho que fazem é tão essencial, por que elas praticamente não aparecem na história da nossa literatura? Foi essa a pergunta que moveu a tese de doutorado da jornalista e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Mariana Filgueiras. O trabalho foi contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025 e acaba de virar o livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”. Com lançamento marcado para o próximo dia 16 de abril, o livro já pode ser baixado gratuitamente no site da editora Pangeia.

Com arte da capa de Manuela Navas, “Quirinas” analisa mais detidamente títulos como Perifobia (Lilia Guerra, 2018); Com armas sonolentas (Carola Saavedra, 2019); Suíte Tóquio (Giovana Madalosso, 2020); Solitária (Eliana Alves Cruz, 2022), romances que a autora considera os primeiros na história literária brasileira a colocar a personagem da trabalhadora doméstica no centro da narrativa. Em todos esses títulos, afirma Mariana, as personagens têm sua subjetividade investigada, seus familiares integram suas tramas e o trabalho doméstico ganha novos pontos de vista.

“O trabalho doméstico passa a ser um tema da narrativa, uma ação no enredo, criando cenas muito originais, e isso desperta conversas, questionamentos, de forma orgânica, não necessariamente panfletária ou didática”, analisa Mariana.

A autora lembra do risco que a reabilitação da personagem também corre diante do que chama de “estereótipos positivos”.

“A socióloga Patricia Hill-Collins usa um conceito que acho fundamental neste debate, o de ‘imagens de controle’, ou seja, estereótipos que engessam a personagem, o que acontece tanto negativamente quanto positivamente. Na ânsia de reabilitar personagens que foram esquecidas por décadas, é preciso ter cuidado para não criar heroínas com ações previsíveis no enredo, sem falhas de caráter, sem contradições. Isso também as desumaniza”, conclui a autora.

Sobre o livro
Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia/EdUff)
Livro contemplado pelo edital Coleção Ensaios Egressos 2025.2 – POSLIT/UFF – Capes
Disponível para download gratuito no site da editora Pangeia:

https://editorapangeia.com.br/pt_br/product/quirinas-a-trabalhadora-domestica-como-protagonista-na-literatura-brasileira-contemporanea-mariana-filgueiras/

Original: aqui.

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“Quirinas” destaca domésticas na literatura brasileira

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Obra da jornalista e escritora Mariana Filgueiras está
disponível de forma gratuita no site da Editora Pangeia

Novo livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea” dá luz à trajetória desigual das trabalhadoras domésticas no Brasil. Com quase 7 milhões de profissionais ao redor do país, a obra de Mariana Filgueiras se propõe a destacar sua potência na literatura brasileira.

O evento de lançamento acontece na próxima quinta-feira (16) em encontro online no canal Estudos de Literatura, às 18h. Assim, a programação conta com uma conversa entre a autora, sua orientadora da pesquisa, a professora Eurídice Figueiredo, e a professora Eliza Araújo.

Mariana Filgueiras, nascida em Volta Redonda, é jornalista e autora. Além do novo livro, ela assina a obra “O avesso do bordado: uma biografia de Marco Nanini”, que contou com publicação pela Companhia das Letras em 2023.

Entenda mais sobre o livro

Em resumo, o livro nasce da tese de doutorado da autora na Universidade Federal Fluminense (UFF) e que venceu o Prêmio Capes de Tese 2025. Portanto, o trabalho acadêmico estabelece a partir de uma pesquisa entre dois séculos – especificamente 165 anos –, que a primeira protagonista doméstica na ficção brasileira surge em 2018.

Assim, a obra questiona o porquê desse intervalo tão grande de tempo, se essas mulheres fazem parte do cotidiano de brasileiros desde o século XIX. E também, analisa o estereótipo que está presente no desenvolvimento dessas personagens, sempre suscetíveis à violência. Esse padrão de escanteio e apagamento das domésticas na literatura nacional foi o que impulsionou Filgueiras a desenvolver seu livro.

Além disso, o título da obra homenageia a personagem Mãe Quirina, do conto “Babá” (1904) de Lima Barreto. Segundo Filgueiras, Barreto é uma das raras figuras que respeita a existência da doméstica dentro da literatura, por não apagá-la por completo. Para ela, o narrador do conto mostra interesse pela personagem e se compromete a contar sua história de vida.

Os demais títulos analisados compõem um acervo rico e informativo para a pesquisa. Alguns deles são “Perifobia” (2018), de Lilia Guerra, “Com armas sonolentas” (2019), de Carola Saavedra e “Suíte Tóquio” (2020), de Giovanna Madalosso.

O livro está disponível para download gratuito no site da Editora Pangeia, aqui.

Imagem de capa: Divulgação

Original: aqui.

16 de abril de 2026 – 00:01

Do anonimato à narrativa

O levantamento de Mariana Filgueiras mapeou 37 personagens domésticas em contos e romances publicados entre 1859 e 2024 | Foto: Ana Alexandrino/Divulgação

‘Quirinas’, da pesquisadora Mariana Filgueiras, analisa como literatura brasileira ignorou trabalhadoras domésticas até recentemente

Quase sete milhões de brasileiros trabalham como domésticos — babás, faxineiras, cozinheiras, diaristas, cuidadores de idosos. A maioria é mulher, negra, pobre e chefe de família. É a maior categoria de trabalho do país, a mais precarizada, a que menos se aposenta. Ofício legado da escravidão, o trabalho doméstico foi decretado essencial durante a pandemia de Covid-19. Ainda assim, na história da literatura brasileira, essas mulheres praticamente não existem — ou existem de forma tão estereotipada que poderiam não existir.

Essa contradição moveu a pesquisa de doutorado de Mariana Filgueiras, jornalista e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF). O trabalho, contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025, virou o livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, que lança nesta quinta-feira (16) com debate online entre a autora, sua orientadora Eurídice Figueiredo e Eliza Araújo. O evento acontece às 18h no canal Youtube “Estudos da Literatura” da UFF.

O levantamento de Filgueiras mapeou 37 personagens trabalhadoras domésticas em contos e romances publicados entre 1859 e 2024. O resultado é desolador: durante 156 anos, essas mulheres aparecem sempre de forma estereotipada, sem nome, frequentemente violentadas, associadas à ignorância, usadas como escada nas tramas ou alívio cômico. Falam pouco. Seus nomes, quando existem, são esquecidos. “A maioria dos nossos escritores não teve qualquer interesse na subjetividade dessas mulheres, em desenvolver alguma trama, dar a elas um nome. Personagens com imenso potencial dramático, que testemunham as entranhas da elite, são desprezadas”, observa Mariana.

O livro recebe o nome de “Quirinas” em homenagem à personagem Mãe Quirina, do conto “Babá” (1904), de Lima Barreto — uma das raras exceções na literatura brasileira. Lima Barreto se interessou pela personagem, contou sua história de vida. Isso praticamente não acontecia. Alguns críticos defendem que a estereotipia das empregadas domésticas seria um recurso estético de denúncia social. Filgueiras discorda. “Depois desse levantamento, não tem como concordar com isso. É uma prática muito recorrente, um padrão, um sintoma da neurose cultural brasileira”, afirma.

A virada começa em 2015, quando surgem os primeiros romances com trabalhadoras domésticas como narradoras ou com participação mais efetiva. As primeiras protagonistas de fato aparecem apenas em 2018, no romance “Perifobia”, de Lília Guerra. Filgueiras credita essa mudança a um “efeito simbólico das políticas públicas” — Lei de Cotas, Lei das Domésticas — que resultaram em mobilidade social. “Seus filhos e netos entraram na universidade, começaram a escrever as histórias das mães e avós. Muitos romances são dedicados a elas. Desde 2018, já foram lançados mais de 10 romances com domésticas como protagonistas. Em 2024, ‘Louças de Família’, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura.”

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Capa de Quirinas | Foto: Divulgação

O livro analisa títulos como “Com Armas Sonolentas” (Carola Saavedra, 2019), “Suíte Tóquio” (Giovana Madalosso, 2020) e “Solitária” (Eliana Alves Cruz, 2022) — primeiros romances na história literária brasileira a colocar a trabalhadora doméstica no centro da narrativa. Neles, as personagens ganham subjetividade, seus familiares integram as tramas, o trabalho doméstico vira tema e ação do enredo, gerando cenas originais e conversas orgânicas.

Filgueiras alerta, porém, para o risco dos “estereótipos positivos”. Ao reabilitar personagens esquecidas, é preciso evitar criar heroínas previsíveis, sem falhas de caráter, sem contradições. “Isso também as desumaniza”, conclui. A socióloga Patricia Hill-Collins chama isso de “imagens de controle” — estereótipos que engessam personagens tanto negativamente quanto positivamente.

 Correio da Manhã, 2º Caderno, p. 6, Rio de Janeiro, 16 de abril de 2026.
Original: aqui.

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Livro “Quirinas” faz levantamento inédito das personagens trabalhadoras domésticas na história da literatura brasileira

Contemplada no Prêmio Capes de Tese, pesquisa da UFF mapeia 37 mulheres de contos e romances publicados entre 1859 e 2024; primeira protagonista só surgiu em 2018

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O Brasil tem quase 7 milhões de pessoas trabalhando como babás, faxineiras, cozinheiras, lavadeiras, diaristas, cuidadores de idosos, segundo o IBGE. A maioria é mulher, negra, pobre e chefe de família. É a maior categoria de trabalho do país – e também a mais precarizada, a que ganha menos e a que menos se aposenta. Ofício legado da escravidão, o trabalho doméstico é tão fundamental nos dias de hoje que foi decretado como “essencial” durante a pandemia de Covid-19, o que ampliou tragicamente o número de mortes das profissionais no período. Como bem sintetiza a  ativista francesa Françoise Vergès, “são as mulheres invisíveis que abrem o mundo”.

QuirinasSe as trabalhadoras domésticas estão dentro da casa de milhões de brasileiros desde finais do século XIX, e o trabalho que fazem é tão essencial, por que elas praticamente não aparecem na história da nossa literatura? Foi essa a pergunta que moveu a tese de doutorado da jornalista e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Mariana Filgueiras. O trabalho foi contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025 e acaba de virar o livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”. Com lançamento marcado para o próximo dia 16 de abril, o livro já pode ser baixado gratuitamente no site da editora Pangeia.

O evento de lançamento será um bate-papo on line entre a autora, a orientadora da pesquisa, a profa. Dra. Eurídice Figueiredo (UFF) e a profa. Dra. Eliza Araújo (UFF), às 18h, no canal do Youtube “Estudos da Literatura” da UFF, no @EstudosdeLiteraturaUFF.

Personagens não têm nome e quase sempre foram violentadas

O livro tem o nome de “Quirinas” por causa da personagem Mãe Quirina, do conto “Babá” (1904), de Lima Barreto. “Este conto é uma das raras exceções na forma como a trabalhadora doméstica aparece na literatura brasileira. O narrador de Lima se interessa pela personagem, conta a história da sua vida, o que a gente não vê quando examina o cânone.  No levantamento que fiz, o mais recorrente é que essas personagens apareçam sempre de forma muito estereotipada, sem nome, apanhando, estupradas, sempre associadas à ignorância. São usadas como escada, alívio cômico, pouco falam. É desolador pensar que a maioria dos nossos escritores não teve qualquer interesse na subjetividade dessas mulheres, em desenvolver alguma trama, dar a elas um nome, nada. Personagens com imenso potencial dramático, que testemunham as entranhas da elite, são desprezadas”, observa Mariana. “Há críticos literários que defendem que a estereotipia ou a invisibilização das empregadas domésticas sejam recursos estéticos da denúncia social, ouvi muito isso em congressos. Depois desse levantamento, não tem como concordar com isso. É uma prática muito recorrente, um padrão, um sintoma da neurose cultural brasileira, como diria Lélia González”.

Primeira protagonista só aparece em 2018, no livro Perifobia, de Lília Guerra

A virada começa a acontecer em 2015, quando surgem os primeiros romances tendo trabalhadoras domésticas como narradoras ou com participação mais efetiva nas tramas. Até que aparecem as primeiras domésticas protagonistas, de fato, em contos e romances, em 2018. “Não tenho dúvidas de que este é um efeito simbólico da Lei de Cotas, da Lei das Domésticas, por exemplo, e de outras políticas públicas que resultaram na mobilidade social dessas mulheres. Seus filhos e netos entraram na universidade, começaram a escrever as histórias das mães e avós, tanto que muitos romances são dedicados a elas. É um momento especial e que não tem volta. Desde 2018, já foram lançados mais de 10 romances com domésticas como protagonistas. Em 2024, um deles, o romance Louças de família, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura”, compara Mariana, pesquisadora com longa experiência também em jornalismo cultural.

“Os estereótipos positivos também desumanizam as personagens”

Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras

Com arte da capa de Manuela Navas, “Quirinas” analisa mais detidamente títulos como Perifobia (Lilia Guerra, 2018); Com armas sonolentas (Carola Saavedra, 2019); Suíte Tóquio (Giovana Madalosso, 2020); Solitária (Eliana Alves Cruz, 2022), romances que a autora considera os primeiros na história literária brasileira a colocar a personagem da trabalhadora doméstica no centro da narrativa. Em todos esses títulos, afirma Mariana, as personagens têm sua subjetividade  investigada, seus familiares integram suas tramas e o trabalho doméstico ganha novos pontos de vista. “O trabalho doméstico passa a ser um tema da narrativa, uma ação no enredo, criando cenas muito originais, e isso desperta conversas, questionamentos, de forma orgânica, não necessariamente panfletária ou didática”, analisa Mariana.

A autora lembra do risco que a reabilitação da personagem também corre diante do que chama de “estereótipos positivos”. “A socióloga Patricia Hill-Collins usa um conceito que acho fundamental neste debate, o de ‘imagens de controle’, ou seja, estereótipos que engessam a personagem, o que acontece tanto negativamente quanto positivamente.  Na ânsia de reabilitar personagens que foram esquecidas por décadas, é preciso ter cuidado para não criar heroínas com ações previsíveis no enredo, sem falhas de caráter, sem contradições. Isso também as desumaniza”, conclui a autora.

O livro

Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia/EdUff)

Livro contemplado pelo edital Coleção Ensaios Egressos 2025.2 – POSLIT/UFF – Capes

Disponível para download gratuito no site da editora Pangeia:

https://editorapangeia.com.br/pt_br/product/quirinas-a-trabalhadora-domestica-como-protagonista-na-literatura-brasileira-contemporanea-mariana-filgueiras/

A autora

Mariana Filgueiras é doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Literatura da UFF, professora substituta do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF e faz pós-doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. Como jornalista, tem passagens pelo Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo, Piauí e jornal O Globo, onde ganhou quatro prêmios de jornalismo – uma das reportagens laureadas virou o filme “De você fiz meu samba” (Conspiração Filmes, 2022), sobre viúvas de grandes sambistas que se tornaram guardiãs da memória musical brasileira. É autora de “O avesso do bordado: uma biografia de Marco Nanini” (Companhia das Letras, 2023).

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