No dia da Ciência e do Pesquisador: “Meus pêsames”

Hoje, 8 de julho, é Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico – e a Pangeia Editorial – com os selos Dionysius, Pangeia e Saruê – faz aqui sua homenagem aos pesquisadores brasileiros que atuam na universidade e em órgãos de pesquisa.

Para marcar a data, publicamos a crônica “Meus pêsames”, marco de estreia na área literária do pesquisador e professor Rodrigo Andrade Pereira, autor de A face pública de Narciso (mais informações após a crônica), livro que pode ser encontrado AQUI (eBook / PDF) e AQUI (impressão sob demanda).

Curta abaixo a belíssima crônica do Prof. Rodrigo e depois peça o livro dele, para ler na tela ou em volume físico.

“Meus pêsames”

Rodrigo Andrade Pereira
Dr. em Estudos Literários
Professor e Pesquisador

Era uma segunda-feira que já acordara com cara de terça, a semana em turbilhão de usinas de eucalipto. O céu azul estalado, em um arremedo de sol quente e blusas de frio rangendo dentes neste inverno treslagoal, parecia refletir minha pilha de redações corrigidas e a outra, ainda maior, de redações a corrigir. Eu estava em uma cafeteria do bairro, perto da clínica de terapia de meus filhos — dessas que vendem café orgânico com nome francês mas servem o mesmo coado de padaria com três dígitos no preço — e tentava fingir que aquele ritual de sublinhar erros de concordância e elogiar boas teses não era uma forma lenta de autoflagelo.

Foi então que ela apareceu. Uma mulher de uns cinquenta e poucos anos, óculos pendurados no pescoço, cabelo ruivo de farmácia e um ar curioso de quem confunde cronista com psicólogo.

— O senhor é professor? — ela perguntou, notando meus papéis espalhados, a caneta vermelha na mão e o olhar perdido no horizonte como quem revisita um trauma.

— Sou sim — respondi, sorrindo, inocente, quase feliz com o reconhecimento de uma profissão.

Ela sorriu de volta. Um sorrisinho torto, meio solidário, meio zombeteiro. E disparou:

— Meus pêsames.

Confesso que demorei três segundos inteiros para reagir. Pensei que ela tivesse confundido professor com viúvo. Talvez tivesse visto meu olhar pesaroso e achado que eu chorava a morte de algum ente querido. Mas não. Ela sabia exatamente o que dizia. E dizia com a naturalidade de quem deseja “melhoras” a um amigo gripado.

Duas palavrinhas que, em outros contextos, soam como consolo; mas ali, naquela tarde, entre um café morno e uma crônica em branco, soaram como epitáfio.

Fiquei matutando aquelas palavras como quem mastiga uma frase ruim da introdução de uma redação. “A sociedade vem através dos tempos acontecendo problemas…” — esse tipo de construção tortuosa que dói mais que unha encravada.

“Meus pêsames”, disse ela. E com isso, ela não me dava um voto de solidariedade; ela me entregava um bilhete de entrada no clube dos desvalidos. Ser professor, para ela, era uma espécie de luto permanente. Como se eu tivesse escolhido, deliberadamente, viver uma existência de sofrimento vocacional.

E o mais curioso é que, vez ou outra, essa expressão surge na vida do educador com uma frequência digna de calendário. Sempre que alguém descobre a profissão e não sabe reagir. Há quem diga com pena, quem diga com ironia, e até quem diga com genuína compaixão — como se estivéssemos no front de uma guerra da qual não voltaremos nunca mais com todos os membros funcionais.

Mas o que a sociedade vê de tão trágico assim em alguém que escolheu ensinar? Por que tanto pesar, por que tanto coitadismo?

Gosto de escrever. Sempre gostei. Desde menino, rabiscava versos ruins nos cantos das agendas da escola. Depois, virei cronista de mim mesmo. E quando vi, virei professor — esse ente mitológico que divide o tempo entre sonhar e corrigir sonhos com margem esquerda, letra legível e nota de corte.

O curioso é que, embora a escrita me preencha, a docência é quem me molda. Ser professor não é apenas ensinar gramática, interpretação ou o que quer que esteja no currículo do trimestre; é, na verdade, tentar manter de pé um castelo de areia em meio a um vendaval de ignorâncias programadas. E há poesia nisso, por mais trágica que pareça.

Quando alguém me diz “meus pêsames” por ser professor, sinto que estão tentando apagar essa poesia. Estão jogando cal sobre uma vocação que, apesar de tudo, ainda pulsa.

Não nego: há dias em que a vontade é de responder com “aceito as flores”. Mas há outros — e são muitos — em que uma boa aula, uma boa pergunta de um aluno, um texto surpreendente, me lembram por que insisto.

Na boca da mulher da cafeteria, “meus pêsames” soou como deboche involuntário. Mas em outros lugares, essa expressão muda de roupa.

Quando o sujeito do RH, na hora de preencher minha ocupação no plano de saúde, reage com um “Nossa, professor? Que dureza, hein?”, ele está, de forma polida, dizendo “meus pêsames”.

Quando o pai de aluno aparece na reunião e me pergunta por que a filha tirou 7 e não 10, mesmo tendo escrito que “o governo deve melhora a saúde para o povo e o meio ambiante“, e termina a conversa com um “no seu lugar, eu desistia”, ele também está dizendo “meus pêsames”.

E até quando recebo aquele pagamento que mal cobre a gasolina das idas e vindas ao trabalho, a conta de luz e os cafezinhos, o Estado sussurra ao meu contracheque: “meus pêsames”.

Claro, há humor nisso tudo. Um humor ácido, como o das melhores tragédias gregas. Porque viver de ensinar num país que não ensina a valorizar quem ensina é quase um experimento kafkiano.

Mas também há lucidez. A lucidez de saber que “meus pêsames” virou expressão coringa: serve para quem está doente, para quem está falido, para quem torce para o Brasil nas Eliminatórias e, vejam só, para quem decide ensinar redação a adolescentes.

Talvez o problema não seja a expressão em si, mas o que ela revela. Revela que nossa sociedade perdeu a capacidade de ver dignidade onde existe vocação. Revela que confundimos sofrimento com fracasso, dedicação com burrice, e idealismo com ingenuidade.

Corrigir redações é, sim, um ato de paciência monástica. É enfrentar variações linguísticas que desafiam os limites da gramática normativa, é lidar com clichês que voltam como zumbis de um apocalipse literário, é ver, num só parágrafo, Platão, Bolsonaro e a Xuxa discutindo políticas públicas com base em “conforme visto no filme Velozes e Furiosos 7”.

Mas, veja bem, eu gosto.

Gosto mesmo. Como quem gosta de plantar sabendo que nem toda semente vinga. Há algo profundamente gratificante em ver um aluno que escrevia como quem pede socorro ao Google aprender a construir argumentos, a usar conjunções com propriedade, a dizer o que pensa com clareza e propósito.

Sim, há dor no processo. Mas há prazer. O tipo de prazer que não cabe nos boletins de ocorrência da vida adulta. E isso, talvez, seja o que mais incomoda quem solta o “meus pêsames”: a ideia de que alguém pode amar uma profissão mal remunerada, mal vista e mal compreendida.

Enquanto escrevo esta crônica, percebo que ela também é uma redação. Mas sem tema imposto, sem número mínimo de linhas. Aqui, sou o aluno e o corretor. O cronista e o cronômetro.

E penso: será que, um dia, dirão “meus pêsames” para escritores? Talvez sim, já dizem. Vivemos num tempo em que quem escreve por amor é tratado como quem não conseguiu “dar certo” em outra coisa. Como se escrever fosse uma alternativa de fracasso. Como se ensinar fosse uma ausência de opção.

É um tempo estranho este em que vivemos. Em que ser professor virou quase uma penitência, e amar o que se faz virou um atestado de burrice.

Mas veja: aceitar os “pêsames” seria admitir que estamos, de fato, mortos. E não estamos. Somos teimosos. Teimamos em ensinar, em corrigir, em tentar. Somos sobreviventes de uma guerra diária contra o desdém, contra o descaso, contra a política que desmonta escolas e a cultura que as transforma em depósitos.

A pena que têm de nós talvez seja, no fundo, a culpa disfarçada de quem sabe que deve muito aos professores e pouco fez por eles.

Mas há também aqueles que não sentem pena — sentem orgulho. São ex-alunos que lembram de uma frase que mudou tudo. São colegas que compartilham o peso das provas e o alívio dos cafés. São leitores que entendem que escrever e ensinar são formas de amor — e de resistência.

Termino esta crônica com o som de uma notificação no celular: uma nova remessa de redações enviada por um aluno dedicado. “Professor, mandei mais quatro, vê aí se melhorei”, diz ele. E, veja só, melhorou mesmo.

Não há “meus pêsames” que me impeçam de sentir que, nesse momento, algo valeu a pena. Que ser professor, mesmo entre tantas dores, ainda é uma escolha de vida — e de luta.

Então, da próxima vez que alguém me disser “meus pêsames” por ser professor, talvez eu sorria e diga:

— Obrigado. Aceito. Mas saiba que ainda estamos vivos. E ensinando.

A face pública de Narciso:
entrevistas e ars poetica
de Luiz Vilela

Livro tem origem na pesquisa de doutorado de Rodrigo
Andrade Pereira, cujo mestrado também foi
sobre a obra de Luiz Vilela

Sinopse: O mito de Narciso nos fala de um homem inteiramente apaixonado por si mesmo, ao se ver refletido nas águas. Vai ele beber água? É um lago ou água ligeiramente corrente? As águas estão translúcidas ou estão um tanto turvas? O mergulho em si no reflexo, que é um eu ao contrário, leva ao suicídio ou leva a um profundo conhecimento das próprias entranhas? Rodrigo Andrade Pereira mergulha nas palavras, nas linhas, nos parágrafos, em textos ficcionais de Luiz Vilela, em textos sobre a obra e sobre o escritor, em entrevistas, depoimentos, crônicas, algumas poucas cartas já publicadas e outros textos de Luiz Vilela que não os ficcionais. Rodrigo leu tudo que há de e sobre Luiz Vilela. Selecionou alguns contos, duas novelas e dois romances como exemplares do teor biográfico que domina toda a obra do escritor. Selecionou as entrevistas mais reveladoras (e aqui não são aquelas que parecem mais reveladoras, mas aquelas em que sob a placidez textual está um homem que constrói minuciosamente a face de si que quer dar a conhecer de público). Nesse movimento, Narciso se revela. E no movimento de construção ficcional, a mundividência ou cosmovisão desse autor também se desvela. Este livro é, pois, um amálgama feliz do enfrentamento de diversas frentes: do que estudar, do como estudar e da teoria que ilumina todo esse movimento. Um enfrentamento modelar, em si mesmo, de ousadia intelectual; e um resultado amplamente feliz, iluminando os narcisos sob máscaras. Com prefácio da Profa. Dra. Ana Paula Aparecida Caixeta (UnB), líder do Grupo de Pesquisa Fenomenologia do Romance, com orientações sobre a obra de Luiz Vilela no currículo, e posfácio de Eunice Prudenciano de Souza (IFSP), co-líder do Grupo de Pesquisa Literatura e Vida, cujo pós-doutorado foi um estudo de metacrítica da recepção à obra de Luiz Vilela, este livro se apresenta como fundamental para estudiosos de literatura, da literatura brasileira e de teoria da literatura.

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