Ostra com cicatrizes: Nima e a poesia do mínimo

Nima Spigolon: poeta e professora, mulher e educadora, alma gentil, espírito nobre, atuação panteísta no amor à humanidade, aos animais e às plantas, doadora, acolhedora, inspiradora, orientadora, organizou nos últimos quinze anos diversos livros, entre acadêmicos e literários, integra diversas antologias coletivas, é autora premiada – com o Jabuti Acadêmico 2024 em Educação e Ensino com Elza Freire e Paulo Freire: Noites de Exílio, Dias de Utopia – e já lançou as seguintes coletâneas individuais de poesia:

  • De(s)morte(s), coleção Nos Tempos do Corona n.º 9, org. Rauer, Capa de Bruno Lemos com arte de Crispim Campos e arte-final de Bruna Campos, sendo Rízio Macedo o editor; contém arte em hidrocor e fotos do arquivo pessoal da autora; Pangeia / Dionysius, 80 p., 2021.
  • Hanami: haikais, com curadoria e capa de Willia Katiaa Oliveira, editado por Claudia Amoroso Bortolato, organizado por Rauer, Coleção Plaque 5, eBook e duas impressões; Pangeia/ Dionysius, 28 p., 2022.
  • Nanquim liquefeito, com projeto editorial de Rauer, ilustrações de Lana Maciel, diagramação de Yueh Fernandes, Capa de Tatiana Santos e campanha de comunicação de Bruna Heller; Pangeia/ Dionysius, 112 p., 2023.
  • Chumbo Sutil, com prefácios de Whisner Fraga e de Aira Maiger, capa de Edgar Franco (Ciberpajé), diagramação de Rizera, sendo curadora Willia Katia Olivera e Rauer o editor; Pangeia/ Dionysius, 64 p., 2024.
  • Umematsuri: haikais, com posfácio de Rauer e entrevista com a autora, capa de Lily Momisso, diagramação de Rizera e sendo Rauer o editor; Pangeia/ Dionysius, 96 p., 2024.
  • O voo da libélula nas asas do dinossauro, com o texto “Origaamis”, de Adriana Aneli, nas orelhas, projeto gráfico de Wladimir Vaz, coordenação gráfica de Tiago Fabri Rendelli, diagramação de Victor H. Azevedo e revisão de Victor Negri, sendo editora Debora Ribeiro Rendelli; chamada em Edital da Editora Urutau, 72 p., 2025.

Em 2026, Nima Spigolon lança Ostra com cicatrizes, com haikais e tankas. Sobre este livro, ela nos concedeu a seguinte entrevista:

NIMA: “O INFINITO ESTÁ NO MÍNIMO, A
POESIA É UMA MANEIRA DE
ESTAR NO MUNDO”

Blog da Pangeia – De que modo, no seu dia-a-dia poético, o haikai se tornou uma das suas preferências na expressão poética, você que na adolescência era lírica e romântica à Florbela Espanca?

Nima Spigolon – Acho que essa aproximação com o haikai aconteceu como parte de um amadurecimento do meu próprio olhar sobre a vida e sobre a poesia. Na adolescência, eu era lírica, romântica, intensa — talvez muito próxima de Florbela Espanca, com sua escrita visceral, sua entrega aos sentimentos, seus excessos e suas inquietações. Havia em mim essa necessidade de dizer o amor, a dor, a ausência e os conflitos da alma por meio das palavras.

Com o tempo, fui descobrindo que a poesia também podia habitar o silêncio, o instante, aquilo que quase passa despercebido no cotidiano. O haikai me conquistou justamente por essa possibilidade: dizer muito com poucas palavras. Ele me ensinou a olhar demoradamente para as coisas simples, para a natureza, para os pequenos acontecimentos, para aquilo que, à primeira vista, parece insignificante, mas que guarda uma imensa potência poética.

Hoje, o haikai faz parte do meu dia a dia como uma espécie de exercício de atenção e de escuta do mundo. Às vezes, uma cena cotidiana, uma mudança na luz, o movimento de uma folha ou uma experiência aparentemente banal despertam em mim o desejo de escrever. Não se trata apenas de registrar o que vejo, mas de perceber o que aquele instante provoca em mim e o que ele pode revelar sobre a existência.

Talvez eu não tenha deixado de ser aquela adolescente lírica e romântica que encontrava em Florbela Espanca uma maneira de expressar a intensidade dos sentimentos. Essa dimensão continua comigo, mas encontrou outras formas de se manifestar. Se antes eu precisava de muitas palavras para percorrer os caminhos da emoção, hoje descubro que, às vezes, três versos são suficientes para acolher um mundo inteiro.

O haikai me oferece essa liberdade: não explicar tudo, não concluir tudo, não preencher todos os vazios. Deixar que a palavra sugira, que o silêncio participe e que o leitor também crie. É uma poesia que exige delicadeza, mas não superficialidade; simplicidade, mas não simplificação.

Entre a intensidade lírica de Florbela e a concisão do haikai, não vejo necessariamente uma ruptura. Vejo uma travessia. Continuo acreditando na força dos sentimentos, mas aprendi que eles também podem ser expressos na sutileza de um instante. Talvez seja isso que mais me encante no haikai: a possibilidade de encontrar o infinito no mínimo e de descobrir que, quando aprendemos a olhar o cotidiano com sensibilidade, a poesia deixa de ser apenas algo que escrevemos e passa a ser também uma maneira de estar no mundo.

Blog da Pangeia – No Brasil, temos muitas concepções do que deve ser o haikai, variedade que inclusive se manifesta na nomenclatura (haikai, haiku, haicai, hai-cai, hai-kai etc), embora tal questão não indique propriamente vertentes poéticas – qual a sua concepção de haikai?

Nima Spigolon – Minha concepção de haikai está ligada à possibilidade de dizer muito com poucas palavras, de encontrar, na brevidade, uma forma de escuta do mundo. Gosto de pensar o haikai como um instante de suspensão: algo acontece, atravessa o olhar, provoca um deslocamento e pede palavra. Não se trata necessariamente de descrever uma paisagem ou registrar um elemento da natureza, mas de perceber aquilo que, mesmo sendo pequeno ou aparentemente banal, revela uma dimensão inesperada da existência.

Embora reconheça a importância da tradição japonesa e das diferentes vertentes que se constituíram no Brasil, penso o haikai como uma forma poética que também se reinventa no encontro com outras culturas, sensibilidades e experiências. Não o compreendo como uma estrutura rígida, submetida exclusivamente a regras métricas ou formais, mas como uma prática de atenção, concisão e abertura ao acontecimento. A brevidade, nesse sentido, não é apenas uma característica formal: é uma escolha estética que exige do poeta precisão, sensibilidade e confiança naquilo que permanece não dito.

Talvez minha relação com o haikai também dialogue com as transformações da minha própria experiência poética. Se, na adolescência, eu me aproximava de uma expressão mais lírica e romântica, marcada pela intensidade dos sentimentos e pela influência de Florbela Espanca, hoje encontro, no haikai, outra possibilidade de expressão: menos interessada em explicar o que sinto e mais disposta a acolher aquilo que o mundo desperta em mim. Não significa abandonar o lirismo, mas deslocá-lo. Em vez de expandir o sentimento, procuro, muitas vezes, concentrá-lo em uma imagem, um gesto, uma palavra ou um silêncio.

Entendo, portanto, que o haikai não precisa dizer tudo; sua força está, justamente, naquilo que consegue sugerir. O poema termina, mas a experiência poética continua no leitor, que participa da construção dos sentidos a partir de sua própria memória e sensibilidade. É nessa abertura que encontro uma das maiores potências dessa forma breve: a capacidade de criar profundidade sem recorrer à explicação excessiva.

Quanto às diferentes grafias — haikai, haiku, haicai e outras —, considero que elas expressam, em alguma medida, os percursos de circulação e apropriação dessa tradição, embora não determinem, por si mesmas, uma concepção poética. Interessa-me menos estabelecer fronteiras rígidas do que compreender o que cada poema realiza em sua relação com a linguagem, o tempo e a experiência.

Para mim, escrever haikai é exercitar uma espécie de disponibilidade diante da vida: olhar de novo para o que parecia conhecido, perceber o extraordinário no cotidiano e reconhecer que, às vezes, um pequeno acontecimento contém uma imensidão. É fazer da palavra um lugar de encontro entre o instante e aquilo que, nele, permanece reverberando.

Blog da Pangeia – Em Ostra com cicatrizes há também tankas: quanto ao processo criativo, o que faz com que determina “ostra” ou o que a ostra produz, a “pérola”, se torne um poema de cinco versos e não o poema haikai de três versos?

Nima Spigolon – Em Ostra com cicatrizes, a escolha entre o haikai e o tanka não acontece, necessariamente, de maneira consciente ou a partir de uma decisão formal prévia. Para mim, o processo criativo começa com uma percepção, uma imagem, uma inquietação ou algo que me atravessa e pede passagem pela palavra. Às vezes, essa experiência se concentra em um instante, numa imagem breve, numa espécie de iluminação poética que encontra no haikai sua forma de expressão. Em outras ocasiões, aquilo que me mobiliza não cabe em três versos: precisa de mais espaço, de outra respiração, de um desdobramento que permita acolher as camadas da experiência.

Penso na ostra como uma metáfora desse processo. Há cicatrizes, incômodos, memórias e atravessamentos que não se transformam imediatamente em pérola. Algumas experiências exigem tempo, elaboração e silêncio. O tanka, com seus cinco versos, oferece essa possibilidade de ampliar a percepção inicial, estabelecer uma relação entre imagens, acolher uma contradição ou permitir que a emoção se desdobre sem perder a delicadeza. Não se trata, portanto, de o tanka ser mais completo ou mais profundo que o haikai, mas de reconhecer que determinadas experiências poéticas pedem outra arquitetura.

O haikai me convida à síntese, ao instante e àquilo que pode ser sugerido sem precisar ser explicado. O tanka, por sua vez, permite que esse instante encontre uma ressonância, que a imagem inicial dialogue com uma memória, um sentimento ou uma reflexão. Se o haikai pode ser o encontro com a pérola, o tanka pode ser o movimento de olhar para ela, perceber suas marcas e reconhecer os sentidos que carrega.

Em Ostra com cicatrizes, os dois convivem porque a experiência humana também é feita de concisão e desdobramento, de silêncios e palavras, de feridas e delicadezas. Não é exatamente a forma que determina o poema, mas a necessidade expressiva que se apresenta durante a escrita. Procuro escutar o poema enquanto ele acontece. Às vezes, três versos dizem tudo; outras vezes, é preciso chegar aos cinco para que a pérola revele um pouco mais de sua história.

Blog da Pangeia – Para um livro de haikais, o título, com as palavras ostra e cicatrizes, parece ser uma contradição, ao indicar subjetividade quando há uma definição de que o gênero deve ser – ou ao menos tender fortemente – para a objetividade e o descritivo.

Nima Spigolon – Acredito que essa aparente contradição seja bastante fértil. Em Ostra com cicatrizes, a subjetividade não se opõe necessariamente à objetividade do haikai; ela pode emergir justamente daquilo que se observa, do encontro entre o olhar e a coisa observada. A ostra é um elemento concreto, pertencente à natureza, mas as cicatrizes introduzem uma dimensão simbólica: remetem às marcas do tempo, às experiências vividas e às transformações provocadas pelo contato com o mundo.

No meu processo de escrita, não entendo a objetividade do haikai como ausência de subjetividade, mas como uma maneira de não a explicitar excessivamente. Em vez de dizer o que sinto, procuro encontrar uma imagem capaz de sugerir esse sentimento, deixando que o leitor participe da construção dos sentidos. A emoção não precisa estar declarada no poema; pode habitar uma palavra, um detalhe, uma cena ou até mesmo o silêncio entre os versos.

Nesse sentido, a ostra e suas cicatrizes também podem ser compreendidas como uma metáfora do próprio fazer poético. Há experiências que nos atravessam e deixam marcas, mas que, ao serem elaboradas pela linguagem, adquirem outras possibilidades de existência. A imagem não abandona sua materialidade nem precisa se converter em uma explicação psicológica: ela permanece concreta, aberta e sugestiva.

Por isso, vejo em Ostra com cicatrizes menos uma contradição do que uma tensão criativa entre o visível e o indizível, entre a natureza e a experiência humana, entre aquilo que o poema mostra e aquilo que permite entrever. Se o haikai se constrói pela concisão, pela observação e pela capacidade de sugerir, talvez suas três linhas sejam suficientes para acolher não apenas o instante observado, mas também as ressonâncias que esse instante desperta em quem escreve e em quem lê.

Ostra com cicatrizes tem prefácio de Danita Cotrim (Grêmio Ipê), capa de Alice Costa, que assina um posfácio, texto da 4.ª capa de Rauer, projeto editorial-gráfico e diagramação de Rízio Macedo (Rizera), sendo Rauer o diretor editorial; Pangeia / Dionysius, 120 p., 2026.

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Nasceu em Rio Verde, GO, em 1971; cidadã de Ituiutaba, MG; reside em Campinas, SP; é professora da Unicamp, onde fez mestrado e doutorado. Aos 19 anos, tornou-se professora de uma pré-escola na zona rural. Trabalhou também no Banco do Brasil e em áreas de gestão, da saúde e da educação antes de se tornar professora universitária. Pedadoga e pesquisadora, é reconhecida no Brasil e no exterior como uma das referências nas áreas de Educação Popular e Educação de Jovens e Adultos, sendo biógrafa de Elza Freire e uma das maiores estudiosas brasileiras do pensamento de Paulo Freire. A pesquisa acadêmica de Nima Spigolon realiza uma reparação na historiografia da educação brasileira ao publicar cartas, manuscritos e relatos de Elza Freire, assim como depoimentos de quem conviveu com Elza e Paulo Freire, com o que desconstrói a invisibilidade de gênero que, nesse e em muitos casos, oculta as mulheres. Nos seus livros literários, Nima transita da literatura infantojuvenil para o microconto e para a poesia, indo do lirismo a poemas com fatura modernista e de poemas mais longos e densos para poemas haikai e tanka.

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