Publicamos a seguir uma nova resenha do Prof. Zaga (o modo carinhoso pelo qual ele é conhecido e invocado na área dos Estudos Literários); neste texto, o Prof. aborda o filme A Graça, que se encontra em cartaz neste momento.
Sobre A Graça
Luiz Gonzaga Marchezan *
No filme A graça (2025), de Paolo Sorrentino, a conduta pessoal do presidente da república italiana, partidário da democracia cristã, mantém-se muito próxima dos seus valores religiosos católicos que interferem frontalmente no juízo de dois atos seus, presidenciais: o primeiro diante de indultos para homicidas e o segundo na regulamentação da eutanásia.
A tendência do presidente em se distanciar da ideia da graça para o perdão ao homicida, como a de sancionar o direito do cidadão italiano à eutanásia, aproxima-o, nos dois casos, de um entendimento jurídico subjugado pela vida religiosa católica, que não aceita bem uma política da lei relevar o pecado mortal de matar. Tal situação move o presidente Mariano De Santis para um impasse e a protelar as duas sanções.
Acontece que, conforme a história do filme, o presidente da república italiana tem responsabilidades com os cidadãos italianos e tem assessores, uma filha assessora, contrários aos valores religiosos inquestionáveis do mandatário.
A filha do presidente, jurista como o pai, é favorável ao indulto e à eutanásia. É ela que o aproxima dos possíveis indultados por ele, fazendo-o conhecê-los na prisão em que se encontram.
Os prisioneiros esperam por uma graça, uma solução; posicionam-se, inclusive, diante do seu presidente, momento em que, de acordo com a narrativa do filme, o presidente da Itália compenetra-se profundamente diante dos casos em mãos, fazendo-se num igual aos favoráveis – filha, assessores de governo, apenados e, por extensão, dos solicitantes pela eutanásia.
Isto porque, intimamente, diante de tudo o que escutara até então, consegue, primeiro, o que o consome faz tempo: perdoar uma falta de sua esposa já falecida, o que lhe abre o caminho para, com a paz em seu espírito, estender o gesto do perdão como indulto e para a regulamentação da eutanásia no país.
Não há como não reconhecer, pelos nossos dias de sempre, que a vida religiosa interfere nos mais diversos ordenamentos da vida comum dominante. Não há como não reconhecer também que na vida comum, a de cada um de nós, a figura do nosso juiz oculto deixa de cumprir a condução de dados processos emperrados em nossos tribunais interiores, onde protelamos nossos próprios julgamentos até que nos aconteça uma dada epifania: uma revelação com uma solução que recebemos bem para a vida.
A Graça (2025), filme de Paolo Sorrentino, é um filme sobre os fortes.
* Luiz Gonzaga Marchezan
tem mestrado em Letras pela UNESP e doutorado
em Letras pela FFLCH / USP e é professor
aposentado Livre-Docente em Teoria da
Literatura da FCl-Ar / UNESP.
Seus estudos focam as relações intersemióticas
manifestadas no texto literário, especialmente no
conto contemporâneo e na ficção regionalista. Entre
os livros que publicou, organizou e de que participa,
destacam-se Ermos e Gerais: contos goianos,
de Bernardo Élis (org., apresentação e notas,
2005), Faces do Narrador, em co-organização
com Silvia Telarolli (estudos literários, 2003) e
O conto na modernidade: da filosofia
à composição (artigo, Editora Pangeia, 2022).
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