Em “Plenilúnio”, de Alciene, memória e identidade feminina

Temos publicado resenhas em que a pesquisadora Karina de Fátima Gomes (Leitorado Guimarães Rosa da Universidade de Cabo Verde) apresenta, analisa e desenvolve possibilidades interpretatívas de contos da escritora mineira Alciene Ribeiro Leite, autora dos livros Mulher ExplícitaMulher PluralminimusTecelã de sonhos & outras tramas.

Karina de Fátima Gomes é autora do livro Literatura e Mercado: Vida e Obra de Alciene Ribeiro Leite.

Na resenha abaixo, Karina trata do conto “Plenilúnio”, escrito nos anos 1997-1998 em Belo Horizonte, tendo sido publicado a primeira vez na Página Literatura n.º 20, do jornal Diário Regional, de Ituiutaba MG, em 14/nov./2003; com o título “Penélope revisitada” foi também publicado no  SLMG – Suplemento Literário do Minas Gerais n.º 1.324, em set./2009.

“Plenilúnio”: A espera como território da
memória e da identidade feminina

Karina de Fátima Gomes *

Em “Plenilúnio”, conto que integra a coletânea Mulher Explícita (1.ª ed, 2019, Dionysius / Pangeida), a escritora Alciene Ribeiro Leite oferece ao leitor uma experiência narrativa que ultrapassa a anedota amorosa e se inscreve como um rito de evocação e confronto entre passado e presente, desejo e desilusão, juventude e maturidade. A protagonista, nomeada apenas em fragmentos, ocupa a voz narrativa num fluxo de consciência lírico, dirigido a um “você” que encarna o antigo amor, Darlan, figura simultaneamente idealizada e desmascarada ao longo da narrativa.

O conto está atravessado pela marcação do tempo subjetivo, e o título (Plenilúnio)  já anuncia a atmosfera de ciclo completo, de auge e também de virada. A lua cheia aqui é símbolo de clarividência, daquilo que finalmente se ilumina depois de um longo processo de sombra. É sob essa lua que a narradora se prepara para reencontrar o homem que, de alguma forma, moldou parte de sua trajetória afetiva.

A estrutura do texto é dominada pelo refrão “daqui a pouco”, que costura o fluxo de pensamento e dá a sensação de uma espera quase litúrgica. A espera, nesse caso, é mais que circunstancial: é o palco onde a protagonista revisita as marcas de sua construção emocional. A cada retorno ao “daqui a pouco”, o texto avança um pouco mais sobre os territórios da memória, com coragem e ironia.

Ao mesmo tempo em que se dirige a Darlan, a narradora conversa consigo mesma. Constrói um inventário de perdas, enganos, maturações e conquistas silenciosas. O que poderia ser apenas um reencontro amoroso, transforma-se numa jornada de autoafirmação e reescrita identitária. A narradora recusa o papel de coadjuvante, não só no amor vivido com o interlocutor, mas na própria vida: “não sou mera coadjuvante nas estações de seu amadurecer para a vida.” (Mulher Explícita, 2.ª ed., 2023, Dionysius / Pangeia, p. 56).

Ao narrar episódios do passado, como o beijo inaugural, as brigas cíclicas ou o adeus súbito, a personagem costura essas memórias com crítica, afeto e humor. Ela desconstrói o mito do “amor romântico redentor”, revelando sua face patriarcal, instável e narcisista. Darlan é apresentado ora como encantamento juvenil, ora como homem vencido pelo sistema, pela fama e pela hipocrisia.

Ao final, a protagonista decide-se pela partida: não por ressentimento, mas por maturidade. A imagem de Penélope (referência clássica à mulher que espera) é revisitada e ressignificada. Esta Penélope moderna desfaz o tear e decide pegar o ônibus noturno. Ela não tece mais para o retorno de ninguém. A saudade, agora, não precisa de bengala.

“Plenilúnio”, portanto, é um conto que performa o empoderamento não pelo rompimento explosivo, mas pela lenta reconstrução interna. Alciene Ribeiro Leite oferece um retrato de mulher que, ao reencontrar o passado, olha-o de cima…como quem o nomeia, agradece, e depois segue.

 

Karina de Fátima Gomes

Universidade de Cabo Verde – Uni-CV
Integra o Conselho Consultivo da Pangeia Editorial
Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Literatura e Vida
– GPLV
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