O haikai no Brasil: o ethos oriental com o logos tropical

Desde sua concepção a Pangeia Editorial teve olhos, ouvido, alma e mente voltados para a poesia, lançou diversos livros de poemas, buscou revelar novos talentos poéticos e fez ressoar a voz de poetas já reconhecidos com novos livros. Além disso, na série “A arte de Escrever”, AQUI no Blog da Pangeia – ISSN 3085-8453, há várias aulas sobre o haikai e outras formas mínimas.

Foi com essa ótica que a Editora lançou e mantém o perfil @haikai.brasil no Instagram e realizou edital que resultou no lançamento do livro Haicai-Brasil, organizado por Rauer e Willia, haijins, professores e entusiastas das formas poéticas orientais.

Sobre esse livro, as professoras Cícera Yamamoto e Larissa Cristina Cicilio da Silva e o professor Osmar Paulo da Silva Junior se debruçaram, e realizaram o estudo abaixo. Eles se voltam para as linhas de força que percorrem vários haikais do livro e que se presentificam em diversos autores, propondo que os haijins brasileiros aliam o coração, do ethos nipônico, ao raciocínio, do logos tropical.

Precede à análise uma apresentação – sucinta e consistente – do haikai na sua constituição como poema.

Conheça nossos livros de Haikai e de Haicai:
CLIQUE AQUI !!! e AQUI !!!

Haicai-Brasil: Uma leitura sob o olhar da
mistura cultural de poetas que são
reunidos nessa coletânea

Cícera Rosa S. Yamamoto [1]
Larissa Cristina Cicílio da Silva [2]
Osmar Paulo da Silva Junior [3]

Resumo: Esse artigo tem como objetivo fazer uma análise de três poemas do livro Haicai- Brasil, obra oriunda de um concurso de haicais que foram selecionados e publicados nas Edições Dionysius / Editora Pangeia. É importante ressaltar que o poema milenar nipônico é algo muito atraente e de fácil acesso, o qual se pode produzir a partir de uma inspiração que parte de sentimentos humanos ao observarmos uma cena do nosso cotidiano e a reproduzirmos verbalmente de modo a emular uma imagem fotográfica. Isso não quer dizer que qualquer pessoa pode escrevê-los, pois para isso é necessário utilizar as técnicas e regras próprias da poesia nipônica e ter conhecimento da cultura oriental. Desse modo, essa análise objetiva verificar se essas técnicas estão presentes nos poemas selecionados e ao mesmo tempo observar como esses novos haikaístas se saíram nessa aventura de produzirem essa forma poética japonesa e com isso averiguar o que se distancia ou se mistura com nossa cultura brasileira.

 

Introdução

A poesia nipônica desde a imigração japonesa ao Brasil tem ganhado destaque no país. É uma poesia que conquista cada vez mais os brasileiros, em especial o estilo Haikai, haiku ou ainda haicai (para os brasileiros); preferimos grafar assim: haikai.

Abrimos um espaço aqui para lembrar que essa imigração foi uma ponte importante para esse destaque no país. Amparamos assim, essa questão em Ohno (2008), para mostrar como o haikai migrou para o Brasil ao longo do século XX e entendermos que a poesia japonesa é uma literatura enraizada na própria história milenar do país nipônico. Assim quando pensamos em Haikai no Brasil, devemos pensar na imigração japonesa, a qual

Há um século, 781 famílias japonesas embarcavam num navio rumo a uma nova esperança de vida. Numa verdadeira epopeia moderna, esses indivíduos deixaram a sua terra natal e seus laços familiares, para desbravar um novo mundo, uma terra distante, habitada por um povo diferente em uma língua diferente. No entanto, a motivação desses personagens não era desbravar um novo continente, mas buscar um refúgio, uma via de escape para a situação degradante em se encontrava o seu país, assolado pela modernização propiciada pela Renovação Meiji, em 1867, que culminou em um colapso econômico social. Famintos, desempregados e sem perspectivas, essas pessoas enxergavam no processo de migração incentivado pelo próprio governo japonês, uma alternativa, uma possibilidade de reconstrução (OHNO, 2008, p. 12).

Como vimos, muitos japoneses vieram para o Brasil e juntamente com eles trouxeram toda sua cultura, e a poesia, em especial, o haikai, que “muito diferente do Waka, tanka e outros do poemário do Japão, conquistou o Brasil do norte ao Sul” (OHNO, 2008, p. 182). Com essa prática dos japoneses, não demorou muito para que brasileiros também começassem a produzir os poemas.

É importante ressaltar que os japoneses continuaram com a produção de poesias japonesas entre eles, e isso foi se sucedendo com os descendentes.

Filha de imigrantes japoneses, ainda na infância, as observações e informações a respeito de flores, pássaros, de algumas frutas, de alguns acontecimentos com épocas determinadas, de condições climáticas, já faziam parte do meu cotidiano, pois essas referências eram comuns no diálogo entre meus pais. Involuntariamente, eles plantaram em mim as sementes do haicai, pois a curiosidade infantil levou-me a observar atentamente o amanhecer, o entardecer, as noites, as flores, os pássaros, os rios, os pequenos insetos, as grandes tempestades. (ODA, 1993, p. 113).

Ao lermos esse relato da escritora Teruko Oda, é possível notarmos como a literatura japonesa se desenvolveu não somente no seu próprio meio como se expandiu pelo ocidentais.  “Haicais são poemas japoneses que conquistaram o país e tiveram como aficionados e autores mestres da nossa literatura como Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros. (id bid, p. 183). Não temos o intuito de mostrar a prática de haikuistas brasileiros, porém temos algumas informações sobre outros escritores que produzem poemas nipônicos em nossa dissertação de mestrado.[4]

Mediante ao exposto percebemos que a paixão por essa forma poética milenar segue firme em terra brasileira e por isso intencionamos fazer uma análise em três poemas do livro Haicai – Brasil que é o resultado de um concurso, realizado em 2022, no qual foram escolhidos um total 124 autores, cada um deles com quatro haicais selecionados, do qual fazemos parte.

 A simplicidade, leveza e de fácil construção encoraja as pessoas mais sensíveis a praticar esse fazer poético. Entretanto, apesar de “fácil” exige alguns passos importantes para a realização do poema, pois a construção poética é baseada na apreensão da natureza e coisas ao nosso redor, além de ser rigorosamente metrificada em 5/7/5 totalizando 17 sílabas, há outros elementos que devem ser acoplados ao escrever um haikai, isso para aqueles que querem seguir a tradição dessa construção poética[5].  O que chama atenção dessa forma de construir uma poesia pode estar na brevidade e rapidez de raciocínio para montá-la, é quase uma brincadeira séria, carregada de significado e sensibilidade. Dessa forma, encontramos nesse ponto uma ponte entre os escritores que encheram de coragem ao enviarem seus poemas para o concurso mencionado acima e os escritores que se firmaram como autores famosos dessa arte nipônica, pois independente daqueles que seguem ou não os preceitos rigorosamente dessa construção poética, o importante nessa leitura é fazer um análise pare ver como os novos haikuístas se saíram nesse “brincar” de construir essa poesia milenar japonesa, se eles conseguiram seguir os elementos necessários para compor o poema ou não verificando quais fatores se aproximam, se distanciam ou se misturam nessa aventura maravilhosa do fazer poético milenar nipônico. Ressaltamos que a escolha dos poemas, que são três, será feito de forma que, apesar de ser bem restrito a quantidade, possa ser o suficiente para essa análise e mostrar essa ponte cultural entre os dois países. Para o estudos nos embasaremos em Paz (1972), Blyth (1963-4), entre outros.

Conheça os livros de Cícera Yamamoto
CLIQUE AQUI !!!

  1. Haikai: pequena introdução

 Não temos a intenção de aprofundar na explicação sobre haikai, suas origens e transformações, pois já temos um conteúdo extenso sobre estudos desse assunto, seja em nossa dissertação de mestrado[6] e Pós-doutorado, recentemente publicado pela editora Pangeia. Entretanto, achamos necessário fazer um breve relato sobre essa poesia milenar nipônica, no que toca alguns fatos importantes a serem destacados nesse trabalho.

A tematização do haikai parte de aspectos focados na natureza em comunhão com as quatros estações do ano, não tem rima, pouco ritmo, assonância, aliteração ou entonação e não precisa lê-lo em voz alta, apesar de ter onomatopeia. Entretanto mesmo sem rima, essa poética tem uma certa musicalidade devido ao aspecto da própria língua e sua forma de escrita.

No haikai, as duas coisas inteiramente diferentes que estão unidas na mesmice são a poesia e a sensação, o espírito e a matéria, o Criador e o criado. Assim, a tematização se volta para as seguintes contemplações: O frio de um dia frio, o calor de um dia quente, a suavidade de uma pedra, a brancura de uma gaivota, a distância dos montes distantes, a pequenez de uma pequena flor, a humidade da estação das chuvas, o tremor dos cabelos de uma lagarta na brisa – estas coisas, sem qualquer pensamento ou emoção ou beleza ou desejo são haiku. (BLYTH, 1964, p. 8, tradução nossa, trecho retirado do pós-doutorado).

De acordo com Blyth (1981), o Haiku está ligado a muitas correntes de pensamentos-sentimentos filosóficos e específicos de regiões orientais, a figura abaixo mostra essa conexão, para uma estética melhor fizemos nosso próprio desenho, mas a figura traz o mesmo sentido da original[7]:

Não cabe aqui discorrer sobre cada uma dessas correntes, é apenas para ilustrar a tematização poética dos postulados que envolvem a produção artística japonesa.

Sempre existe uma palavra sazonal no haiku. Essa palavra pode dar o fundo atmosférico, pode ser uma espécie de semente, um gatilho que libera todo um mundo de emoção, de sons e cheiros e cores. Em sua história, apesar de relativamente, o tema “estação”, algumas vezes interpretada como “humores” do outono, da primavera, do verão ou do inverno, aparecem palavras que remetem à estação, a lembram, e criam no leitor uma atmosfera correspondente, ou seja, as vezes não encontramos nenhuma estação do ano de forma explícita, mas pode haver algum elemento que podemos perceber de forma implícita. Algo que nos remete a uma estação.

As técnica estão ligadas a quantidade de versos (3) e quantidades de sílabas distribuídas em 5/7/5. A brevidade e concisão é um fator de extrema importância, segundo Blyth (1981, p. 315) é chamada de alma da inteligência. Em haikai, não é uma questão de quantidade, mas de qualidade.

Assim,o haiku parece surgir não para longamente, através, de todos os detalhes da realidade, os diversos sentimentos que ela  induz em que ela se expõe, antes para evocar em si própria uma realidade tão limitada e contida, tão banal e conhecida, que nem através dela e nem da linguagem que a descreve ela se mostra capaz de evocar seja que outra realidade for! (LOURENÇO; RIBEIRO, 1995, p. 25).

Ou seja, a poesia simplesmente é, curta e baseada em uma realidade qualquer, a partir de um disparo perceptivo do olhar humano e transcrito em um papel de forma reduzida. Sem contexto, mas carregada de um sentido silencioso.

  1. Análise: uma fusão nipobrasileira

 Para a análise foram escolhidos 3 poemas de modo a considerar uma visão geral do conjunto da obra, porém considerando alguns aspectos que envolvem os preceitos da arte nipônica, para que sobservássemos os entrelaces das culturas Japão-Brasil e também as mudanças que são feitas a partir do sistema criador individual daquele que reinventa sua própria arte com intuito de mostrar justamente essas questões culturais. Desse modo, escolhemos um poema ligado a uma certa tensão que traz um contexto mais ocidental, um outro mais bem elaborado, no sentido de se ter que fazer uma leitura mais específica para sua interpretação e o terceiro, descendente japonês, com o propósito de analisar essa questão cultural de uma pessoa que escreve com as duas culturas em sua raiz.

O primeiro poema é de Rozelene Furtado que em sua mini biografia no livro nos diz que reside em Teresópolis (RJ), bibliotecária, professora, contista, poeta e artista plástica [8]:

 

Palavras malditas

Faladas com muita força

Facas afiadas

(FURTADO. p.231)

Pa/la/vras/ mal/di/tas (5)

Fa/la/das/com/mui/ta/for/ças (7)

Fa/cas/a/fi/a/das (5)

Ao observarmos o aspecto formal, podemos perceber que a estrutura segue rigorosamente as normas nipônica, pois temos um poema de três versos em 5/7/5 sílabas, totalizando 17 sílabas. No entanto, a relação temática distancia-se de modo a figurar um ambiente próprio da cultura brasileira (ocidental), pois não temos nesse poema um kigo (estação do ano), ou algo que remeta à natureza, ou que leva a entender algum indício de kigo. No entanto, podemos aproximar a tematização com o captar de uma observação presente em algum momento da vida, no qual o ser humano se exalta com “palavras malditas”, magoando um outro ser de modo a comparar a “faca” como um instrumento conotativo que fere a alma e a “palavra” aqui se transforma em “faca”. Desse modo, há uma aproximação de sensibilidade humana no contexto da “fotografia” que se tira do momento, embora num sistema de visão diferenciada no sentido cultural, pois a captura de imagem dos poetas japoneses para o fazer poético sempre está relacionado a um sentimento voltado para a natureza dentro das correntes filosóficas orientais, como visto no quadro exposto anteriormente. Envolve também algo além do sentir:

É algo que está entre o pensamento e a sensação, o sentimento e a ideia. Os japoneses usam a palavra Kokoro: coração. Mas já em sua época José Juan Tablata advertia que era uma tradução enganosa: “kokoro” é mais, é coração e mente, a sensação e o pensamento e as próprias entranhas, como se aos japoneses não lhes bastasse sentir só com o coração. (Paz, 1972, p. 171).

A citação nos dá uma ideia dessa sensibilidade humana, mas o que se diferencia no poema de Rozelene à técnica temática japonesa está nessa sensibilidade no sentido de ponto de vista e percepção de mundo – e algo muito cultural, que está sob um olhar mais crítico no sentido da vida em si e não na natureza humana como um todo. Ainda que pensemos na modernidade contextual das mudanças a partir de Basho [9], percebemos que a modernidade na poesia dessa autora se difere no contexto dessa sensibilidade porque vai mostrar o lado agressivo da humanidade que nos fere com palavras; sob esse aspecto, o poema tradicional nipônico está sempre muito ligado ao entendimento universal do homem e natureza. Segundo Paz essa questão é

 um sentimento de universal simpatia com tudo o que existe, essa fraternidade na impermanência com homens, animais e plantas, que o melhor que nos foi legado pelo budismo. Para Bashô a poesia é um caminho até a espécie de beatitude instantânea e que não exclui a ironia nem significa fechar os olhos diante do mundo e de seus horrores. (PAZ, 1971, p. 174).

Seguindo essa esteira de pensamento, vemos que há esses aspectos na construção poética da poeta, porém dentro de um sistema de crença voltado para a nossa cultura, em que é possível nos irmanarmos com a dor existencial de agressividade humana. A questão aqui está na diferença da técnica temática voltada para uma espécie de situação implícita, na qual muitas vezes percebemos toda essa agressividade existencial camuflada na poesia nipônica, mas de uma forma mais leve, suave… em que se envolve o homem e a natureza, porém de modo mais ameno.

É próprio dos poetas ocidentais ter uma sensibilidade mais crítica e concreta dessas questões existenciais e o que percebemos aqui é que se trata de um poema muito conciso, carregado de sentido, de emoção e de muita percepção humana. Um haikai muito bem adaptado para o ambiente cultural brasileiro.

O segundo poema é de Nilma Spigolon, poeta, artvista, escritora e afins, e professora da Unicamp, tendo recebido o Jabuti Acadêmico 2024 em Educação e Ensino com o livro Elza Freire e Paulo Freire: noites de exílio, dias de utopia (Pangeia, 2023). Eis o haikai de Nima:.

 

o café encerra

– no acre véu de aromas –

água, terra, céu

(Spigolon, p. 199)

o/ca/fé/em/cer/ra (5)

no/a/cre/veu/de/a/ro/mas (7)

a/gua/ter/ra/céu (5)

Esse poema, assim como o primeiro, também segue a regra estrutural do haikai, contendo os três versos em 5/7/5 sílabas, totalizando as 17 sílabas.

Com relação ao tema, no processo de construção, não notamos necessariamente a presença de um kigo, ou algo que remeta e ele de forma implícita, mas ao mesmo tempo o haikai de Spigolon se volta para a percepção do tato, do olfato e da natureza que são elementos importantes na tematização nipônica. Blyth (1981, p. 335), mostra que sempre existe uma palavra sazonal no haiku. Essa palavra pode dar o fundo atmosférico que pode ser uma espécie de semente, um gatilho que libera um mundo de emoção, de sons e cheiros e cores. Nesse sentido, percebemos que a tematização do poema de Nima Spigolon tem aspectos relevantes à tematização oriental, a partir da qual podemos fazer um paralelo com o poema anterior na questão de ver as coisas mais leves, embora num sentido talvez um quê mais pesado, mas implícito diante da natureza que se revela, ou seja, a arte do haikai é estar o mais perto da natureza quanto possível, justamente para aliviar as dores do mundo.

A escolha dos temas é significativa, refletindo o carácter dos poetas haiku, a sua nacionalidade, posição social e visão do mundo. Essas coisas omitidas (como, guerra, sexo, plantas venenosas e animais ferozes, inundações, pestilências, terramotos, etc.) são todas perigosas e ameaçadoras para a vida humana. (BLYTH, 1964, p. 4, tradução nossa)[10].

Embora essa questão de elevar a espiritualidade na poesia para um lado mais suave, sem pensar muito nos problemas da vida humana, seja algo muito particular dos poetas japoneses clássicos, é bem tradicional, mas ainda há muitos autores produzindo nesse contexto do estado zen. Nesse sentido, o segundo poema está mais relacionado ao estado zen em consonância com a natureza, com o cheiro, fragrância… A palavra “acre”, no segundo verso do poema, por exemplo, pode remeter, em um primeiro momento, ao nome do estado do país, porém, no dicionário[11], o significado diz que acre é algo cujo sabor é amargo, picante e corrosivo, o que traz um sentido muito expressivo na construção poética desse haikai, o qual passa uma sensação de se tomar um café amargo e o seu cheiro que exala pelo ar em consonância com a água, a terra e o céu.

A visibilidade desses elementos estão acoplados de forma concisa e bem arquitetada e abrangem uma série de significados, pois “O Haiku está no seu melhor quando é simples, digno de palavras”, isto é, digno de palavras no seu mais simples, “uma espécie de pensamento no sentido” (BLYTH, 1964, p. 13, tradução nossa)[12], ou seja, naquilo que se observa e capta no seu melhor momento.

O café pode “encerrar”, conter muitos sentidos e muitas formas, dependendo do contexto; entretanto, em nossa interpretação, ele expressa, de forma natural, como parte de um momento, o que na sua simplicidade ele é e significa: o cheiro, o sabor e a vida.

Um sutil diferencial nesse poema seria o lado intelectual, que é o que está implícito no poema, algo que precisa ser desvendado para ser bem interpretado, e isso o distancia um pouco da arte nipônica, que tende a reproduzir no haikai uma natureza mais voltada para a imagem de forma visual, como se fosse de fato uma fotografia daquele momento específico.

No entanto, na construção poética nipônica existe também a técnica do vazio. Esse vazio, ou “ausência”, é uma espécie de espaço mental permitido ao apreciador para que ele, ao visualizar qualquer das artes – Nô, Ikebana e Cha No Yu [13] –, possa preencher com sua própria imaginação aquilo que está nas entrelinhas. Porém, esse vazio a ser preenchido, é algo muito peculiar da própria arte japonesa, que envolve todo um ritual filosófico e que não expande muito para questões mais estratégicas, o que seria o oposto do escritor ocidental.

A visão suscitada pelo haiku (graças a esse enorme espaço ou vazio gerado por ele próprio) torna-se única, privada e privativa e, mais do que o sentido, o que é abolido é a ideia de finalidade – pela negação de um conjunto ou universo dotado de sentido, no qual o conteúdo do haiku devesse estar já inserido ou até integrado! (LOURENÇO; RIBEIRO, 1995, p. 25).

 Nesse sentido, é perceptível essa técnica, no poema de Nima Spigolon, o distanciamento, esteja, a princípio, simplesmente no ato do enigma da palavra “acre” em junção com os semas “agua, terra e céu”.  No caso, aqui, se consideramos como uma estratégia, já entramos no terreno da cultura ocidental. Entretanto, o considerável seria colocar nesse poema um jogo de vazio (sem descrever/que apenas nomeia) X contexto de um significado estrategicamente ocidental, o que traz uma integração de dois universos: Japão-Brasil. Logo, se por um lado, esse haikai tem a leveza e um vazio de sentido, tem também um jogo de palavras em comunhão com a arte de construir uma poesia carregada de técnica e de sentidos.

O terceiro poema selecionado é de Nancy Keiko, graduada em engenharia, e é claro com ascendência japonesa, pois não poderíamos deixar de analisar um poema de alguém descendente que traz consigo as duas culturas (Brasil-Japão), e que nos dá um parâmetro melhor para as interpretações que realizamos.

 

Calor de verão

Até as sombras procuram

Um lugar na sombra.

(KEIKO p.191)

ca/lor/de/ve/rão (5)

a/té/as/som/bras/pro/cu/ram (7)

um/lu/gar/na/som/bra (5)

O poema segue com rigor a estrutura conforme determina as regras do haikai, tendo três versos distribuídos em 5/7/5  com o total de 17 sílabas. O verão logo no primeiro verso já indica que tem um kigo como elemento importante na construção poética nipônica. Esse item (kigo) é uma característica bem definida na produção do haikai, pois as temporadas, de tão marcadas no Japão, marcavam o primeiro verso ou verso inicial, que sempre continha uma palavra sazonal, e isso teve o efeito de fixar a estação no haikai. Nesse poema, podemos contemplar essa marca inicial e que vai dar todo o sentido para o poema, de modo que quando pensamos em verão já sentimos o calor, o sol imenso. E os versos seguintes completam essa ideia de muito calor e que é tão quente que “a própria sombra procura um lugar na sombra”.

Esse poema é completo dentro dos esquemas haikuístas, no entanto o que traz de diferencial seria essa sensação de calor próprio do Brasil, desse verão brasileiro que tem ondas de calor intenso. No Japão, embora quando é época de calor, faz calor, mas a maior parte do tempo é frio intenso ou com clima fresco. Desse modo, esse poema, criado em um país quente, o Brasil, nos mostra que o clima em que vivemos também influencia nas criações artísticas, apresentando o seu olhar individual do ponto de vista em que se vive e está.

As aproximações da construção poética desse poema em relação ao haikai tradicional milenar são imensas, pois tem a estrutura, tem o tema sazonal, tem a brevidade, a sensibilidade da captação da natureza com a vida. No entanto, distancia-se na forma com que os japoneses captam essa relação entre a natureza e o momento presente da imagem vista e apreendida pelo observador. Nesse sentido, quando você imagina a sombra no poema procurando a sombra para amenizar o calor, sugere uma espécie de personificação que é muito utilizada pelos ocidentais e não indica que o eu-lírico esteja em comunhão com o silencio da natureza; percebe-se, numa experiência humana, essa relação do homem com o ambiente numa ausência de pensamento, que é algo muito particular dos haikuístas.

O jogo entre aporias com o distanciamento e a aproximação resulta numa fusão nipo-brasileira que traz para o poema uma mistura muito individual de cada poeta, cada qual utilizando de um lado o que se tem da construção poética no estilo nipônico milenar e a característica pessoal do olhar e cultural brasileira, em belas fusões nipo-brasileiras.

Com a análise desse último poema, chegamos ao ponto final desse tópico, e é preciso reconhecer que muita coisa ainda ficou por dizer ou explorar, talvez acrescentar outros poemas de outros poetas contidos nesse significativo livro, Haicai-Brasil. Contudo, o que fica é a concretização de que todos sem exceção trazem a sua individualidade, a sua percepção de mundo em consonância com seu universo cultural e com a cultura nipônica. Vemos que, “a cultura não é inata, mas adquirida. É partilhada e define os limites dos diferentes grupos humanos. É o meio (de cultura) em que as pessoas vivem, se exprimem, se definem e se encontram” (LORENÇO, RIBEIRO, 1995, p. 56), mas ao mesmo tempo, o autor diz que “ A vida é um processo contínuo de consolidação e desprendimento” (p. 56). E com isso, é possível não só partilhar, mas compartilhar as culturas, vivenciando e trocando as experiências. Desse modo, todos os poemas do Haicai-Brasil nos mostra a irmandade entre os dois povos: Brasil-Japão.

Conheça os livros de Cícera Yamamoto
CLIQUE AQUI !!!

Conclusão

Esse artigo teve o intuito de verificar, a partir da seleção de três poemas do livro Haicai-Brasil (Pangeia, 2023, 1272 p.), se os poemas possuem os mesmos postulados do fazer poético milenar japonês, observando também quais fatores os aproximam e quais os distanciam do fazer poético milenar nipônico. Os três poemas foram escolhidos a partir de uma leitura total de todos os demais da coletânea, numa percepção de que esses três representam, de certa modo, o todo, pois eles trazem as mesmas ideias no que diz respeito a metrificação e tematização, sendo alguns voltados mais para os elementos da natureza e outros mais voltados para aspecto da vida humana.

Ao analisar esses três poemas, queremos ressaltar que independente de não se ter uma estação do ano, ou estar com aspectos voltados também para a cultura brasileira, não significa que o poema não esteja adequado ao postulado da arte do haiku. Como Blyth diz: “Em qualquer lugar do mundo, em qualquer momento, esse verso é verdadeiro e válido” (BLYTH, 1081. p. 337)[14] .  Diante disso, já podemos dizer com absoluta certeza que os poemas têm características do haikai e a beleza de cada um deles está justamente em algumas inspiradas ressignificações específicas.

Observamos que em todos os poemas se constata a tradição preservada de maneira rigorosa quanto à estrutura, à métrica e à forma, todos também se caracterizam pela brevidade e concisão.

No que diz respeito  aos fatores que se aproximam da temática, percebemos que os três peomas estão ligados mais à sensibilidade de ligar o poema a uma imagem relacionada ao captar de sentimentos com a presença daquilo que se observa. Isto é, os poemas apresentam um eu-lirico que consegue tirar uma “fotografia” do momento e reproduzí-la na escrita. Entretanto, eles se distanciam no sentido de haver uma mistura de pensamentos mais ligados ao estilo da cultura brasileira, pois, como diz Otávio Paz (1972), o povo japonês foi para nós, brasileiros, uma escola de sensibilidade, mas acrescentamos aqui que a nossa sensibilidade parte para um lado mais intelectual do que os elementos com correntes de pensamentos-sentimentos filosóficos do oriente, em específico quanto a aspectos do Zen, o que Bhyth (1963) já alertava quanto ao trânsito intertextual da tradição do hokku em seu aclimatar no mundo ocidental.

Nesse contexto, observamos que a forma de ver o mundo influencia o ser humano, de um modo geral, assim como suas produções. A cultura de cada país tem suas raízes profundas plantadas no coração de cada um de nós e reflete em nossas ações, mas quando olhamos para outras culturas e nos envolvemos com a mistura disso, também podemos criar novos haikais a partir de sua tradição em consonância com novos horizontes.  O haikai nos dá a oportunidade de fazer essa dinâmica.

O haiku funciona seguramente, para o japonês, como a sugestão de um paraíso que ainda não chegou a ser perdido – porque ainda nunca foi ganho nem sequer possuído: o do direito a existir (como pessoa apenas) plenamente fora do grupo, isento da carga que é o contexto social, isto é, da enorme estrutura cultural que Edward Hall chama de o “algo contexto”.

Para o ocidental, o haiku (da civilização moderna) evoca mais o paraíso perdido do direito à individualidade pessoal, que fez a epopeia do Western e tantas vezes é hoje evocada no cinema quando em conflito contrapõe um indivíduo à sociedade ou a um grupo isolado no seio dela (sempre muito mais forte, em princípio, que um indivíduo isolado).

Na verdade, ao ocidental já foi dada oportunidade de se individualizar (ou individuar) no seio da população a que pertence – sendo o protagonismo histórico e/ou social um fenômeno quase constante desde o tempo dos gregos até os dias de hoje. O mesmo não se passou desse modo em realação à maioria dos povos orientais, que sempre viveram e ainda vivem essencialmente através do grupo (LORENÇO, RIBEIRO, 1995, p. 77-78).

Assim, podemos afirmar que o universo das produções artísticas presentes no livro Haicai-Brasil se situa entre a racionalidade do povo brasileiro e o coração (kokoro) nipônico, em uma base tradicional que se espande para uma nova criação poética, conglomerando, dissociando e em coalescência ao mesmo tempo.

 

Referências:

BLYTH, R.H. A history of haiku.Volume 1. Tokyo, The Hokusseido Press, 1963-4.

LOURENÇO FORTE e RIBEIRO, P Manuel. O ocidente e a poética esquiva do haiku. São Paulo: Veja, 1995.

PAZ, Octavio. Signos em Rotação. Trad. Sebastião Leite. São Paulo: Perspectiva, 1972.

OHNO, Massao. Centenário da imigração japonesa no Brasil. São Paulo: Larousse, 2008.

YAMAMOTO, C.R. S. Tradição e modernidade: os tankas na poética de Wilson Bueno. Três Lagoas, 2012. 106 f. Dissertação (Mestrado em Letras, Estudos Literários) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Conheça os livros de Cícera Yamamoto
CLIQUE AQUI !!!

[1]Graduada em Letras (Habilitação Português/Inglês) pela UFMS (2003) e em Pedagogia – Unicesumar (2024), com especialização em Tradução (Inglês/Português – Português/Inglês) na AEMS (2009). Mestre em Letras – Estudos Literários na UFMS (2012). Doutora em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2016). Com pós doutorado em Literatura na UFMS (2021). É atualmente professora de Língua Inglesa na rede municipal de Castilho (SP)

[2] Graduada em Ciências Sociais pela UNESP (2010) e em Pedagogia pela FALC (2013). É Mestranda em Educação na UFMS (2025). Atualmente atua como Professora na educação infantil na rede municipal de Castilho SP.

[3] Graduado em Pedagogia pela FAISA (2014) e em Geografia pela UNIMES (2016), om especialização em Gestão Educacional na Faculdade Integradas Urubupungá (2015), em Letramento pela Faculdade Campos Elíseos (2017), em Neuropsicopedagogia pelo INSTITUTO ITESA (2017) e em Educação Inclusiva com ênfase em TGD pela Universidade Metropolitana (2021). É atualmente Professor de Geografia na Rede Municipal de Castilho/SP e Professor de Ensino Fundamental na Rede Municipal de Três Lagoas/MS.

[4] Ver Yamamoto (2012, p. 27).

[5] Ver dissertação (YAMAMOTO, 2012, p.) Disponível em, < https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFMS_268193ef5d93d7d0dcb4e05b47510e34>.

[6] Ver Yamamoto (2012, p. 27).

[7] Esse trecho e o quadro foram retirados do texto de Pós-doutorado de nossa autoria.

[8] Livro Haicai-Brasil, página 230.

[9] Para maiores informações sobre Bashô ler nossa pesquisa de pós-doutorado

[10] “The choice of subjects is significant, reflecting as it does the character of the haiku poets, their nacionality, social position, and world view. Those things omitted, war, sex, poisonous plants and ferocious animals, floods, pestilences, earthqakes ad so on, are all dangerous and menacing to human life. we wish to forget them, and must do so if we are to live our short life in any sort of mental ease’

[11] Retirado de https://www.dicio.com.br/acre/. Acesso em 30/11/2025

[12] “Haiku is at its best when it is simple wordsworthian, that is wordsworth at his most simple, “a sort of though in sense””

[13] Para maiores informações ler nossa pesquisa de pós-doutorado.

[14] For any place in the world, at any moment, this verse is true and valid.

Conheça os livros de Cícera Yamamoto
CLIQUE AQUI !!!

Para citações:

YAMAMOTO, Cícera; SILVA, Larissa Cicílio; SILVA JÚNIOR, Osmar Paulo. Haicai-Brasil: uma leitura sob o olhar da mistura cultural de poetas que são reunidos nessa coletânea. Blog da Pangeia, ISSN 3085-8453, 14 de setembro de 2025. Disponível em https://editorapangeia.com.br/pt_br/o-haikai-no-brasil-o-ethos-oriental-com-o-logos-tropical/, acesso em dd/mmm./aa.

Deixe um comentário