Em entrevista para o Blog da Pangeia, o multiartista Ciberpajé, autor da capa do livro de poemas Chumbo Sutil, de Nima Spigolon (Dionysius / Pangeia, 2024), fala do seu processo criativo, de sua vida e obra, de sua trajetória, da infância em Ituiutaba, MG, a ser artista multimídia reconhecido internacionalmente.
Ciberpajé, cujo nome civil é Edgar Franco, atua na UFG, onde é professor titular. A entrevista foi concedida por e-mail para o Editor da Pangeia, Prof. Rauer.

Frame de vídeo no insta @ciberpaje
1.
Você nasceu em Ituiutaba, MG, em uma geração de muitos autores e artistas. Conte-nos um pouco da sua infância e formação.
Ciberpajé – Sim, sou ituiutabano nascido em 1971 em uma casa repleta de livros! Meu amado pai, Dimas Franco, sempre foi um intelectual autodidata, um apaixonado por literatura, cinema, teatro, pintura, escultura. Um homem que sofreu muito no seio familiar por ser um apaixonado por cultura, pois na sua juventude e no contexto que vivia, livros eram considerados coisas tolas e que “não levariam a lugar nenhum”. Seu amor pela arte e pela cultura só floresceu pelo incentivo de um de seus tios, Vadico, que também era perseguido por gostar de ler em um mundo dominado pela visão de que o bom homem era aquele que sabia só dos afazeres e da lida no campo, já que ele nasceu na fazenda e só foi para a cidade com 10 anos de idade. Papai não conseguiu avançar nos estudos para além do curso técnico em contabilidade pelos seus compromissos como pai de família, mas pautou sua existência entre os livros e a arte. Desde muito cedo fui incentivado a ler e contaminado por seu amor pelo cinema. A partir dos 2 anos de idade, papai me levava todos os domingos com ele para a Livraria Barros, única livraria e também banca de revistas da cidade à época. E todas as vezes eu já saia de lá com um gibi nas mãos! Depois passei a frequentar com ele, todos os finais de semana, sessões de cinema nos cines Ituiutaba e Capitólio. Quando comecei a interessar-me por desenho e depois a escrever poemas, ele sempre esteve ali incentivando-me. Ele conhecia todos os intelectuais e escritores da cidade e integrou um grupo de teatro por muitos anos. Fui apresentado ao icônico Luiz Vilela ainda muito jovem, e também ao Rauer, depois de ter lido o fenomenal e pungente “Lugares Intoleráveis” – tenho até hoje meu exemplar desse livro! Meu pai gostava de quadrinhos, mas eu acabei desenvolvendo uma conexão muito mais intensa com essa singular linguagem artística e meu processo criativo de narrativas floresceu a partir do desejo de tornar-me quadrinhista. Eu tinha 9 anos de idade e colecionava quadrinhos nacionais de terror, revistas como Mestres do Terror e Calafrio traziam em suas páginas mestres que passei a admirar como Flávio Colin, Mozart Couto – que anos depois tornou-se meu parceiro criativo em BioCyberDrama Saga, Watson Portela, Rodval Matias, entre outros. Foi em uma dessas revistas que conheci o conceito de “fanzine”, publicações fotocopiadas, realizadas de forma paratópica por jovens editores que publicavam quadrinhos, poemas, contos, em tiragens pequenas e distribuídas pelo correio por aficionados. Com 12 anos de idade tive minha primeira HQ publicada em um fanzine, foi intenso demais, um meninote dessa idade já receber a resposta crítica de algo criado por ele na seção de cartas do próximo número do fanzine que se chamava Odisseia e era publicado no interior de São Paulo. A partir de então passei a dedicar parte de minha vida aos processos criativos, focando no desenho, nos quadrinhos, na poesia e eventualmente escrevendo contos. Que eu saiba, fui o primeiro ituiutabano a editar um fanzine, o “Agonia Azul”, um título que publicava quadrinhos e poesias! O notório escritor Whisner Fraga era meu amigo de infância e adolescência, ele escrevia poemas impactantes em seus cadernos de escola, quando os li, disse a ele que queria publicar alguns deles em meu zine, assim – como ele mesmo atesta – fui o primeiro a publicar algo escrito por ele no fanzine “Agonia Azul”, tenho muito orgulho disso! Somos grandes amigos até hoje e temos levado a verve da cultura ituiutabana para além de nosso estado e até país. O premiado quadrinhista Gazy Andraus, nascido em Ituiutaba, mas que era radicado em São Vicente (SP), passou a frequentar Ituiutaba visitando seus tios nas férias a partir do início da década de 90 e estabeleci com ele várias parcerias artísticas, Gazy tem muita honra de ser de Ituiutaba e nosso estilo singular de HQ, o gênero poético-filosófico dos quadrinhos brasileiros, tem em nós, 2 dos pioneiros. Eu incentivava sempre todos aqueles que queriam fazer arte em nosso município, fui capista dos primeiros livros de Luciano Vilela Teodoro e Beatriz Sarmento, jovens escritores tijucanos e meus contemporâneos, e claro, criei a capa do primeiro livro de Whisner Fraga. A escritora Nima Spigolon, eu lembro-me de vê-la ainda na juventude em festinhas no colégio municipal Machado de Assis, que eu frequentava mesmo nunca tendo estudado lá, mas por circunstâncias da vida não soube naqueles tempos de sua verve criativa com escritora. Vim a conhecê-la anos depois e agora tive a honra de também ser capista de uma de suas obras! Sigo muito ligado à Ituiutaba, pois sou – com muita honra e alegria – um imortal da ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba, honra que divido com os colegas acadêmicos Nima, Rauer, Whisner e Luciano. Recentemente participei da antologia “Contos Macabros do Tijuco”, organizada pela associação Artejucana tendo à frente o artista multimídia Arth Silva. Também lancei, em 2024, na Biblioteca Municipal de Ituiutaba, o meu livro “Os Aforismos do Ciberpajé”, tendo uma acolhida muito afetuosa dos amigos e pessoas ligadas à cultura no município.
2.
De que modo a arte, o desenho e a literatura se conformaram em projeto de vida na sua juventude?
Incentivado por meus pais e contaminado pelo vírus criativo e paratópico dos fanzines, eu percebi desde muito cedo que uma das coisas mais divertidas e transformadoras do existir é o ato criativo! A possibilidade de inventar meus próprios mundos e modificar a minha visão da realidade a partir dessas criações já estava viva em mim aos 12 anos de idade. Aos poucos a minha vida foi encaminhando-se para essa tendência crescente de ser um artista múltiplo, pois eu já desenhava, pintava, fazia quadrinhos, escrevia poemas, contos, crônicas. Por volta dos 17 anos também comecei a tocar contrabaixo. Minha existência passou a ser pautada pelo processo criativo, no ensino médio era conhecido como o louco desenhista, um romântico utópico que escrevia poemas para as garotas que admirava e desenhava todo mundo, criava artes das camisetas das turmas da escola, ilustrava as letras de música para a professora de inglês, caricaturizava professores e colegas, além de desenhar nas capas de meus cadernos os costumeiros monstros que eu amava por minha conexão íntima com o terror e o horror. Fiz as artes das camisetas, cartazes e capas das demo-tapes das primeiras bandas de heavy metal de Ituiutaba, o “Malakay” e o “Obscure Worm” – esse segundo grupo até o nome da banda fui eu que sugeri! Ao mesmo tempo colaborava com inúmeros fanzines pelo país inteiro de norte a sul produzindo HQs curtas, ilustrações, poemas, contos e tudo que minha verve criativa permitisse. Queria fazer cinema e animação também, mas as questões financeiras não possibilitaram tal empreitada que só fui realizar na idade adulta. Desde quando comecei a ter uma concepção de quem sou, em meu singular processo de individuação, me vejo como um artista, na concepção mágicka e brincante desse termo usado de maneiras tão diversas. O pesquisador de minha obra, educador Dr. Elydio dos Santos Neto, na epígrafe de seu livro “Os Quadrinhos Poético-Filosóficos de Edgar Franco” (Marca de Fantasia, 2 ed., 2024) usou um aforismo sintético meu: “Vida é Criação!”, ele resume poeticamente a forma como encaro o existir.
3.
Como vivenciou as angústias das escolhas para os caminhos universitários, da graduação e da pós-graduação?
Graduei-me em arquitetura e urbanismo na UnB, na época do vestibular fiquei entre as artes plásticas e a arquitetura. A escolha foi integralmente minha, pois tive apoio incondicional de meus pais para decidir. Cursar arquitetura foi algo especial, pois o curso permitiu-me uma visão ampla de áreas do conhecimento que vão de história da arte à estruturas arquitetônicas, também realizei múltiplas disciplinas no Instituto de Artes da UnB e ao fim da graduação sabia que eu migraria de vez para as artes. Amei o ambiente acadêmico e sobretudo o mundo da pesquisa, como TCC em teoria e história investiguei as relações de processos criativos dos quadrinhos e da arquitetura. Essa investigação veio, alguns anos depois, a tornar-se o meu primeiro livro publicado “História em Quadrinhos e Arquitetura” que atualmente encontra-se em sua terceira edição pela Editora Marca de Fantasia (UFPB), e foi o livro pioneiro no Brasil a tratar desse tema, sendo uma referência bibliográfica até hoje. Durante a graduação segui muito produtivo no universo dos quadrinhos e, além dos fanzines, comecei a publicar nas primeiras revistas independentes. Ao final do curso, eu sabia que queria seguir como artista e pesquisador, mas migrando para o âmbito da pesquisa em artes, e isso aconteceu – depois de alguns percalços e fracassos na tentativa de entrar em alguns programas de pós, quando entrei no mestrado em Multimeios no Instituto de Artes da Unicamp, e realizei a pesquisa teórico prática “HQtrônicas – do suporte papel à rede Internet”, investigação pioneira que tornou-se também um livro homônimo, com duas edições publicadas e que é referência até hoje para quem pesquisa sobre quadrinhos digitais e hipermidiáticos. Após a conclusão do mestrado, quando produzi HQtrônicas e rascunhei o meu universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-Humana”, decidi realizar o meu doutorado em artes na ECA/USP, estudando o fenômeno pós-humano nas artes. A minha entrada na USP foi um momento muito especial, pois quando eu tinha 5 anos de idade – entre os anos de 1975 e 1976, meu pai foi transferido para São Paulo e morei naquela cidade por dois anos, no Bairro de Pinheiros. Aos domingos meu pai levava-nos, eu e minha amada mãe Alminda Salomão, para passearmos no campus da USP, que era próximo de nossa residência e que ele amava, pois apesar de não ter cursado universidade, tinha um enorme respeito pelo ambiente acadêmico e obviamente pela notoriedade da Universidade de São Paulo. Um dia estávamos lá no campus e eu estava brincando no gramado e perguntei a ele: — Pai, o que é esse lugar? Ele respondeu-me: — Aqui é uma escola para adultos!” e eu então disse: — Um dia vou estudar aqui! Obviamente ele ficou orgulhoso de minha resposta e me contou isso algumas vezes durante minha vida. Assim, no dia em que fui admitido no doutorado na ECA/USP, estava no campus e a primeira coisa que eu fiz foi ligar para ele de um orelhão: — Pai, passei no doutorado nas artes da USP! Estou realizando aquilo que eu disse com 5 anos de idade! Ele respondeu: — Meu campeão, a palavra tem poder! E ficou muito emocionado. Conto essa história para enfatizar o entusiasmo que foi realizar meu doutorado no qual tive plena liberdade para investigar o que amava e que, para além da tese, gerou múltiplos trabalhos artísticos em diversos suportes, do papel às hipermídias. Realizei ainda dois pós-doutorados, um na UnB enfocando arte e tecnociência e outro na Unesp envolvendo processos criativos de performance e quadrinhos.

4.
Pode nos falar do processo íntimo em que do “Edgar Franco emerge” o Ciberpajé?
Em resposta a uma pergunta como essa para a pesquisadora de minha obra, Profa. Dra. Danielle Barros (UFSB), no livro “Conversas com o Ciberpajé: vida, arte, magia e transcendência” (Marca de Fantasia, 2019), eu trouxe um de meus aforismos que resume um pouco do ideário que engendrou a minha transmutação mágicka e artística como Ciberpajé, meu nome artístico-mágicko de ser renascido. Segue também aqui: “O Ciberpajé é um arauto insano do submundo, das subculturas, dos rebeldes incendiários, dos antiacadêmicos, dos adogmáticos, dos santos civis, dos Zorbas, dos Budas, dos artistas viscerais, dos anjos caídos, dos demônios iluminados, dos cães abandonados, dos que mergulham em seus abismos, dos psiconautas navegando pelo infinito, dos infiéis, dos antimonetaristas, dos que vandalizam carros e acariciam gatos, dos que uivam para a lua, dos que fazem sexo selvagem e amam docemente, dos que permanecem vivos em um mundo de mortos-vivos, dos que acreditam que qualquer bandeira é uma fronteira, dos que conhecem um único país chamado Gaia, dos que guardam o universo em seus corações, dos que não temem paradoxos e não possuem verdades, de mutantes irrecuperáveis, de autorevolucionários!”
Em um momento de drama pessoal descobri que era preciso propor a mim mesmo uma transmutação e um renascimento. Estava prestes a completar 40 anos, a idade da maturidade. Depois de uma profunda crise existencial desencadeada por uma experiência com o enteógeno Psilocybe cubensis, passei a limpo a minha existência nos meses e dias que antecederam meu aniversário. Com humildade e serenidade perdoei-me completamente por todos os chamados erros – na verdade experiências fundamentais e fundadoras da minha evolução de consciência. Percebi que minha vida sempre foi guiada pela criação de universos ficcionais em minha arte e pela troca de informações e sensações desses mundos fictícios com minha realidade ordinária. Também percebi que os aspectos mais importantes da minha consciência eram moldados por essa relação mágicka e transformadora entre meus mundos fictícios e minha realidade. Assim, me vi como um pajé/xamã que promove a relação entre mundos/cosmogonias em busca da cura, mas neste caso da minha própria cura, a busca por ser integral. A batalha do Ciberpajé é a batalha de ser, de ser eu mesmo integralmente! Portanto, o Ciberpajé não é um guru ou líder espiritual, nem nada do tipo, ele é apenas um ser que busca a única revolução possível: a sua! Obviamente, minha revolução pode inspirar pessoas que entram em contato com meu trabalho e ideias. O prefixo “ciber” vem da cibernética, pois o Ciberpajé usa a hipertecnologia como canal de criação, disseminação e conexão com outras mentes, mas ele não nega outras formas avançadas de conhecimento como a expansão da consciência através de enteógenos – também chamados de psicodélicos. Somos o que acreditamos ser, então o impacto simbólico de me tornar um Ciberpajé realmente revolucionou minha vida e percepção do mundo, fiquei ainda mais sereno, selvagem e vivo – isso por si só marca a grande importância dessa ação para mim. E minha condição de Ciberpajé envolve a natureza mutável das verdades, é literalmente uma condição mutável, porque sou capaz de reavaliar todas as minhas ideias a qualquer momento e não sei se amanhã, ou mesmo em 1 segundo, não me transformarei novamente e mudarei meu nome, estou aberto a novos renascimentos. Tudo é possível, minha transformação é contínua e eterna como a do cosmos! Para mim, a arte é o barro do oleiro, é o espaço ritualístico da criação que me ajuda em minhas transformações pessoais e na conexão com aqueles que amo! Minha busca é ser, ser plenamente quem eu sou, e quanto mais me equilibro, mais criativo me torno, mais livre sou. Quanto mais me expresso de forma genuína e verdadeira, mais força criativa desenvolvo. Quanto mais vivo minha sensualidade e minha selvageria, mais me torno inteiro. A verdadeira criatividade é um ato completamente sensual. A criatividade é fruto da nossa conexão com o cosmos e a natureza, e acontece através dos nossos chamados aspectos “animais”, “primitivos”; a sexualidade é o mais visceral deles.
5.
A Aurora Pós-Humana, esse pós-humanismo, tem quais origens e se integram a quais vertentes filosóficas?
A Aurora Pós-Humana é um universo ficcional transmídia de ficção científica criado por mim com o objetivo de servir como ambientação a
trabalhos artísticos em múltiplas mídias e também como um espaço de realização de meus rituais e sigilos mágickos na tradição da Magia do Caos de Austin Osman Spare & Peter Caroll, ou seja, toda criação artística minha é também um ritual de autotransmutação, utilizando a arte como uma estratégia de transformação pessoal. A poética da Aurora Pós-Humana surgiu do desejo de vislumbrar um novo planeta Terra inspirado em perspectivas pós-humanas. Um mundo futuro onde as proposições de cientistas, ciberartistas e transumanistas tornaram-se realidade, no qual a raça humana, como a conhecemos, está em processo de extinção. O corpo e a mente estão reconfigurados e em constante mutação. Limites entre animal, vegetal e mineral estão se dissipando, a morte não é mais algo inevitável e novas formas de misticismo e transcendência
tecnológica, a “tecnognose” (Erik Davis, 1998), substituíram quase por completo as religiões ancestrais. A Aurora Pós-Humana é um universo em expansão, já que constantemente estão sendo agregados a ela dados e novas características que regem essa futura sociedade pós-humana. O meu desejo ao criá-la, não foi apenas refletir sobre o que os avanços tecnológicos futuros poderão significar para a espécie humana e para o planeta, mas também produzir uma ambientação que gere o “deslocamento conceitual” descrito por Philip K.Dick e assim criar obras que discutam a implicação dessas tecnologias no panorama contemporâneo, ou seja, problematizar o presente
por meio de narrativas e obras deslocadas para um futuro ficcional hipotético. A ideia inicial foi imaginar um futuro, não muito distante, onde a maioria das proposições da ciência e tecnologia de
ponta fossem uma realidade trivial, e a raça humana já tivesse passado por uma ruptura brusca de valores, de forma física e conteúdo – ideológico/religioso/social/cultural. Um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e cotidiano, onde milhares de pessoas abandonarão seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Também que neste futuro hipotético a bioengenharia avançou tanto que permite a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Essas duas “espécies” pós-humanas tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades estado ao redor do globo enquanto uma pequena parcela da população, uma casta oprimida e em vias de extinção, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças. Este universo tem sido aos poucos detalhado com dezenas de parâmetros e características, trata-se de um work in progress que toma como base todas as prospecções da ciência, da tecnognose, elementos de ocultismo e magia, além das artes de ponta para reestruturar seus parâmetros. A partir dele já foram desenvolvidos uma série de trabalhos artísticos, em diversas mídias e suportes, e atualmente outras obras estão em andamento. A abrangência conceitual da Aurora Pós-Humana tem me permitido criar, além de histórias em quadrinhos, obras em múltiplas mídias, muitas delas tendo como suporte as redes telemáticas, convergindo linguagens artísticas diversas. Já o conceito de pós-humanismo para mim está para além do de pós-humano, o pós-humano é esse ser transformado pela hipertecnologia enquanto o pós-humanista é aquele que questiona os valores do humanismo e da concepção da espécie humana como a detentora do poder no planeta sobre todos os animais e vegetais, vai na contramão da brutalidade do Genesis bíblico que nos coloca como entidades superiores no planeta. Somos apenas parte da biosfera, um dos órgãos do organismo vivo Gaia. Nesse sentido sou um pós-humanista radical e algumas das minhas opções de vida refletem isso, sou vegetariano há 25 anos e vegano há 13, não tenho carro, nem celular, entre outras esquisitices para o status-quo de nosso mundo contemporâneo.
6.
O artista e o homem, unos e indissociáveis, é hoje professor universitário em universidade federal, ambiente normalmente vetusto e protocolar – como é viver cotidianamente esse paradoxo entre criador e contexto?
A academia é realmente hoje um local que gera muito pouco de transformação na realidade interior dos seres. Penso que a universidade perdeu muito de seu sentido, robotiza para o mercado de trabalho, ou cria pseudo-pensadores hiper dependentes de teorias estranhas às suas realidades, tão dogmatizados quanto religiosos radicais. Na sua maioria, os acadêmicos são criaturas castradas, polidas, chatas, enfadonhas, de discurso hermético e empolado, serviçais de teorias e pensamentos alheios, a maioria papagaios de piratas replicando discursos de pensadores da moda. Obviamente que é importante e fundamental conhecermos os grandes pensadores de nossas áreas, mas humildemente eu prefiro ser também um pensador, não tornar-me um serviçal dos outros, dou-me o direito de chegar às minhas conclusões a partir de minhas experiências! Entretanto, eu ainda amo certas facetas da universidade pública que resistem vivas! A possibilidade de ser um livre pensador caso esteja preparado para as críticas e ataques, de ter liberdade para estruturar as suas disciplinas e de desenvolver pesquisas transformadoras se assim o desejar, mesmo que não vá – obviamente – receber nem um único centavo para desenvolvê-las. Para mim o único sentido de estar na universidade é investigar possibilidades inusitadas, novas, explorar o que não foi explorado. Com meu grupo de pesquisa CRIA_CIBER (FAV/UFG – CNPq) já enfrentei problemas graves como uma pesquisa de doutorado que orientei e envolvia a utilização de enteógenos, incluindo ayahusca, para compreendermos aspectos do processo criativo de quadrinhos e criarmos quadrinhos inspirados nessas experiências, tornou-se uma tese pioneira no mundo “Cartografias do Inconsciente”, de Matheus Moura. Orientei a primeira pesquisa no mundo a propor uma HQ tatuada em 13 pessoas, o mestrado de Rennan Queiroz no PPG Arte e Cultura Visual da UFG, criando uma narrativa que está diluída na pele de vários voluntários e se transformará ao longo dos anos. Nesse momento, uma de minhas orientandas, Duane Ribeiro, está fazendo a primeira dissertação de mestrado no país a ser desenvolvida completamente no formato de história em quadrinhos (sem texto dissertativo que a acompanha). Também orientei uma tese de doutorado que se popós a ser um fanzine em sua essência, a “Tezine” de Léo Pimentel Souto. Esses são só alguns exemplos de pesquisas que tenho realizado no contexto do Cria_Ciber que eu coordeno há 16 anos na Faculdade de Artes Visuais da UFG e a possibilidade de seguir realizando-as é o que me mantém na academia! Temos realizado também o “Festival de Artes Ciberpajelanças” que já teve cinco edições anuais, um festival com exposições de artes, fanzines, oficinas artísticas diversas, performances, palestras, mostra de vídeos e animações e a primeira premiação de fanzines nacional a ser outorgada no estado de Goiás. O festival é o momento especial do ano onde os integrantes do grupo apresentam suas produções artísticas. Ao longo de mais de duas décadas sendo artista transmídia e atuando como professor universitário tenho levado o processo criativo artístico como o minha pedra filosofal, enfrentando com peito aberto e coração blindado as tempestades inevitáveis!

7.
Você tem acumulado prêmios, em diversas esferas. Fale-nos um pouco desses prêmios e de outras honrarias que granjeou com sua arte, seus projetos acadêmicos e sua persona.
Quando se é jovem, nosso ego sonha com os prêmios, mas a pior coisa que pode acontecer com um artista jovem é ser premiado! Na maior parte das vezes ele naufragará na autoindulgência. Portanto tive a sorte de não ter sido premiado na juventude e aprendi um segredo caro para manter a minha verve poética e o aspecto genuíno de minhas criações, aprendi a não depender das validações externas para seguir realizando o que eu acreditava e acredito ser minha legítima expressão artística. Assim, tive a sorte de receber múltiplas premiações, mas já na idade madura, e quando sou premiado recebo com muita alegria a validação dos meus pares, mas com a maturidade de não ser dependente dessa validação. Dito isso destaco algumas premiações que recebi e que revelam a abrangência de minha atuação como artista transmídia, pois são prêmios nacionais e estaduais nas áreas de quadrinhos, artes visuais, arte e tecnologia, e ficção científica como: Prêmio Rumos Arte e Tecnologia – Itaú Cultural (2003), Troféu Bigorna de melhor HQ de Aventura/FC (2010), Medalha Frei Confaloni de Artes Visuais (UBE-GO, 2019), Prêmio Lusófono Argos de Literatura Fantástica (2021), Troféu Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional (2022), III Prêmio Nacional CMM da HQ Independente (2023), Prêmio CONSUNI UFG – para os destaques do ano na Universidade Federal de Goiás (nos anos de 2021, 2022 e 2024) e I Prêmio do Quadrinho Goiano na categoria Mestre do Quadrinho Goiano (2024). Mas na verdade, para além das premiações, considero ainda mais relevantes o número de pesquisas acadêmicas que têm sido realizadas sobre as minhas obras e ideário, por pesquisadores acadêmicos das mais diversas áreas, da biologia à análise do discurso. Essas pesquisas já geraram dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos científicos, capítulos de livros e 7 livros completos dedicados às análises de minhas obras, sendo eles: “Edgar Franco e suas criaturas no Banquete de Platão” (Marca de Fantasia, 2024, 2.ed.), da Dra. em Comunicação Nadja Carvalho (UFPB); “Os Quadrinhos Poético-Filosóficos de Edgar Franco” (Marca de Fantasia, 2 ed., 2024), do saudoso Dr. em Educação Elydio dos Santos Neto (UFPB); “Agartha: símbolos e mitos nos quadrinhos poético-filosóficos”, da bióloga e Dra. em Arte Ciência Danielle Barros (UFSB); “Artlectos e Pós-humanos: da Aurora Pós-Humana às novas configurações sociais” (Marca de Fantasia, 2020), a partir do TCC do graduado em Letras/Literatura Giovane Corrêa Rojas (UEMS); “Conversas com o Ciberpajé: vida, arte magia e transcendência” (Marca de Fantasia, 2019), livro com 7 anos de entrevistas inéditas realizadas comigo pela pesquisadora de minha obra Profa. Dra. Danielle Barros; “Hipermodernidade e representações artísticas: o binarismo em André Sant’Anna e Edgar Franco” (Marca de Fantasia, 2023), a partir da pesquisa de TCC da graduada em letras/literatura Ellen Caetano da Silva (UEMS), e “Tecnodiscurso e Paratopia: articulações possíveis na análise das criações artísticas do Ciberpajé” (Marca de Fantasia, no prelo), fruto da investigação de mestrado da Msc. Fabíola Barros Castrillon (UFMT). As versões em e-book desses livros podem ser baixadas gratuitamente no sítio da Editora Marca de Fantasia:https://www.marcadefantasia.com/
Destaco também o “Dossiê Ciberpajé: arte, vida e transmídia”
da revista acadêmica “Cadernos Zygmunt Bauman” (UFMA) que reuniu 10 artigos acadêmicos de pesquisadores do Brasil e exterior dedicados a analisar aspectos de minhas obras e ideário.
8.
Quais projetos pessoais e artísticos que embalam hoje, em 2025, os seus dias e os seus sonhos?
Sou muito prolífico, crio sem parar, porque criar é um tesão brincante para mim, o sentido da vida é o ato criativo, então tenho inúmeros projetos em processo e outros em minha mente. No momento estou concluindo um álbum em quadrinhos com o renomado quadrinhista Toninho Lima, tenho uma HQ a ser publicada no álbum coletânea Arte Sequencial Brasileira que se propõe a reunir grandes nomes da HQ contemporânea nacional. Amanhã, dia 14 de março de 2025, lançarei meu novo EP musical do Projeto Musical Ciberpajé, em parceria com o musicista Alan Flexa, o EP intitula-se “Conversas de Belzebu com seu pai morto II” e é baseado em um capítulo de minha HQ de mesmo nome, sendo um desdobramento musical de meus quadrinhos. Também estou com um livro organizado por mim para ser lançado em breve, ele reúne 19 grandes nomes da ficção científica brasileira criando contos a partir de minhas artes e envolve aspectos transmídia criados em parceria com meu grande amigo Diogo Soares. Enfim, essa é só a ponta do iceberg criativo explosivo do Ciberpajé!

Os aforismos do Ciberpajé foi
lançado pela Sinete (2024)
9.
Chumbo sutil é um projeto com conterrâneos (Nima, Aira, Whisner, Rizera, Rauer). Nos fale desse encontro e do projeto que desenvolveu para a capa do livro.
Que honra inimaginável e maravilhosa fazer parte desse encontro! Uma egrégora mágicka cósmica que reúne admiráveis criaturas com a energia telúrica de minha tão amada terra natal, Ituiutaba! Uma criação criativa conjunta tem a mesma força de um filho, e nesse caso foi tudo tão livre, divertido, especial. Nima e Rauer deram-me completa liberdade para elaborar a arte de capa de Chumbo Sutil e o projeto gráfico de capa. Então eu realizei um “Ritual Artístico de Presença” na criação da arte partindo de uma leitura dos poemas de Nima que integram a obra, tão pungentes, tão sensíveis, cheios de sutilezas, delicadezas e tão sintéticos. Deixei o inconsciente cósmico fruir com a caneta nanquim dançando diretamente sobre o papel e surgiu essa ave, uma espécie de Fênix de Síntese, depois fui para o computador colori-la e queria que as cores trouxessem essa mistura de leveza e profundidade dos poemas. Assim nasceu essa minha singela contribuição para essa obra incrível de que tenho orgulho de dividir com tantos criadores que respeito e admiro. Recebam o meu afeto e carinho, queridos Nima, Aira, Whisner, Rizera e Rauer!
10.
Conte-nos, no miúdo e em termos gerais, do seu processo criativo – ou, melhor, dos seus processos criativos.
Investigo processos criativos inusitados e não usuais há 30 anos, inclusive como a base para minhas pesquisas acadêmicas. Então seria impossível resumi-los aqui, pois já experimentei centenas de métodos e possibilidades de criação, desde parcerias com robôs e árvores, partindo para obras criadas durante intercursos sexuais, inspiradas em experiências com ayahuasca, Psilocybe cubensis, respiração holotrópica, magia de sigilos, transes diversos, HQforismos criados a partir de conexões com as pessoas e tatuados instantaneamente na pele, artes conduzidas pela música e músicas criadas a partir de desenhos, é muita coisa. Tratarei aqui do que eu chamo de “Ritual de Presença”, método utilizado para criar a capa de Chumbo Sutil. Realizo tal processo quase que diariamente, mas ele se notabilizou nos lançamentos de minhas obras, como exemplo de minha HQ “Translobo”, lançada na Mandrake Comic Shop, em Goiânia. Foram cerca de 40 artes exclusivas criadas a partir da energia e conexão com os presentes ao evento. Fiquei mais de 3 horas desenhando enquanto conversava individualmente com quem me passava o seu exemplar para ser autografado. Na maior parte das vezes pedia à pessoa que fizesse o traço inicial para incluir essa energia do gesto do outro na fruição de meu desenho. Chamo esse ato de desenhar sem nenhuma pretensão e conectado completamente ao momento presente de “Ritual de Presença”. Trata-se de um exercício mágicko de profunda conexão com o agora e no caso dos autógrafos envolve também a conexão com o outro, abrindo-me para ouvi-lo sem nenhum julgamento. Destaco o fato de que vivemos em uma época estranha, a espécie humana está cada vez mais desconectada de seu agora, as pessoas vivem com o fantasma do passado e as ansiedades insanas de um futuro, as redes sociais e a pseudo-existência virtual amplificaram isso. Então, por mais paradoxal que pareça, incrivelmente essa é a era da desconexão! Todos estão “conectados” às redes e desconectados de si mesmos. Seguem cultivando identidades ficcionais criadas nesses espaços virtuais, frações idealizadas de seus egos esmagados pelo culto do desempenho perfeito, tentando inventar uma satisfação ilusória com seus corpos, suas vidas, mesmo deixando claro nas entrelinhas um ódio implícito de si mesmos. E a população global concentra-se em sua maioria nas cidades, locais inaptos para a vida, repletos de ruídos sonoros e visuais, de paisagens feias e artificiais, de poluição, violência, medo, hipercompetitividade, egolatria, e individualismo. O contato com a natureza é mínimo, a desconexão absoluta de suas essências animais é total. Praticamente ninguém consegue compreender em seu íntimo ser parte da natureza, integrar a complexa e simbiótica teia da vida que gera o glorioso hiperorganismo Gaia. Esse distanciamento cada vez maior do essencial robotiza e zumbifica os seres de forma irreversível. Sua pseudo-vida passa a ser uma busca voraz por obter mais objetos desnecessários, exercendo o hiperconsumo alimentado pela religião da obsolescência programada. Também são adictos do hiper-entretenimento, uma obsessão crescente por mais entretenimento vazio que mesmerize suas mentes confusas, fazendo esquecerem-se de suas jornadas de trabalho opressivas, sem graça, tensas e baseadas na competição e no temor iminente da perda de seus empregos. O solipsismo de silício das redes ajuda-os a manterem-se produzindo, criando um refúgio ilusório nessas identidades fracionadas que inventam para si mesmos, afastando-se de todos, ou encontrando alguns nas celebrações insanas e doentias de entretenimento tosco e prazeres vazios: como os
campeonatos de futebol, as igrejas dogmáticas, os shopping centers, os blockbusters, as raves, os happy hours regados a drogas lícitas, os games on-line e as redes sociais. A ansiedade é o mal do século, ninguém dorme direito pensando nas tarefas impossíveis do dia que virá, exigindo cada vez mais de si mesmo, demonstrando total insatisfação com o que se tem, com quem se é, comparando-se a todo instante com os que o rodeiam, querendo sempre mais, mais, mais. Zumbis criados pelo monetarismo neoliberal, conduzidos pelas multinacionais em um mundo onde já não existe nenhum poder na mão dos estados nacionais. A espécie humana está inevitavelmente condenada ao abismo que criou para si mesma, o fim é iminente, convidando-nos para uma celebração do nada que nos tornamos. Enquanto isso, nas poucas florestas que restaram, Lobos selvagens uivam para a Lua. Seu uivo cósmico é um hino de desolação e esperança, uma elegia para a humanidade, uma canção de glorificação da nova era de Gaia. O Ciberpajé celebra com seus irmãos Lobos, o nada absoluto e o tudo que emergirá! Assim, o que eu nomeei de “ritual de presença” é um processo ritualístico artístico de reconexão absoluta com o momento presente, ele configura-se através do exercício de desenho livre, sem nenhum objetivo prévio ou desejo, simplesmente deixando as imagens fluírem livremente para o papel criando uma profunda conexão com o ato artístico e tornando-se o próprio desenho enquanto se desenha. O desenhador é o desenho e o desenho é o desenhador, e assim estando completamente conectado com o instante presente! Tenho alguns vídeos no meu canal do Youtube e redes sociais mostrando-me em pleno ritual de presença.
11.
Por favor, fique à vontade para acrescentar perguntas que não foram feitas e as responder, e para as suas considerações finais.
Interessados em saber mais sobre minhas obras e ideário confiram o meu blog A Arte do Ciberpajé Edgar Franco: http://ciberpaje.blogspot.com/ , meu youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAZ1SZ9QoYKSXixnzrtwRKw e minhas redes sociais: https://www.instagram.com/ciberpaje/ https://www.facebook.com/Oidicius/
Concluo essa instigante entrevista com um de meus recentes aforismos:
Viver a vida intensamente não significa a busca desenfreada por novas emoções, a corrida ensandecida por novos lugares, sabores e seres. A ideia de rotina é uma ilusão que acomete os tolos, aprisionados pela concepção falaciosa de que algo se repete no Cosmos. Todas as manhãs, a caminhada na mata que realizo com meus cães Kali & Brakan é um deslumbre magnífico, o céu sempre tem cores e contornos diferentes, a mata sempre tem um novo cheiro, uma nova flor ou fruto, tudo é absurdamente intenso e magnífico! O tédio e a rotina são grades de fumaça que enganam os imbecis, ávidos por novidades que estão sempre diante deles se souberem abrir seus perceptos!

Chumbo sutil
Capa: Ciberpajé
Autora: Nima Spigolon
Diagramação: Rízio Macedo
Apresentação: Whisner Fraga
Prefácio: Aira Maiger
Editor: Rauer
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