A poeta Flávia de Queiroz Lima viu no portal da Pangeia a notícia do lançamento do livro 33, de Aira Maiger, adquiriu um exemplar e nos enviou sua leitura, no entusiasmo de uma poeta que, com cinco livros publicados e décadas de leitura literária e criação poética, encontra uma voz poética, nova e potente, que lhe causa impacto.
Autora, entre outros livros, de Resgate (2025) e Círculo de Giz (1983; 2a. ed., 2024), Flávia viu em Aira Maiger uma poeta não apenas singular, mas audaz, tanto nos detalhes (entre os quais destaca a dedicatória de 33) quanto na travessia ao longo das quatro partes do livro: Paraíso, Inferno, Purgatório e Limbo, pela ordem.
Flávia de Queiroz Lima destaca a entrevista que Aira Maiger concedeu ao Blog da Pangeia (AQUI), que está reproduzida no livro, e também “as excelentes ilustrações, de Liev Rodrigues”, que dialogam com “uma espécie de assombro que não se dispersa e, ao contrário, vai aumentando à medida que os poemas” de Aira são lidos ao longo do livro.
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Reproduzimos abaixo a leitura de Flávia ao 33, de Aira Maiger.
33, de Aira Maiger, é um
livro que bate fundo
Flávia de Queiroz Lima *
Há muito tempo eu não lia uma poesia tão pungente, tão intrépida, tão pulsante e visceral quanto essa que está no livro 33, de Aira Maiger.
Ela não dá trégua.
É uma poesia que escorre, escrita com sangue e seiva.
Como ela mesma disse, “minha poesia é sangue em chamas” (p. 67 e p. 72).
A gente sente isso todo o tempo que percorre o Paraíso, o Inferno, o Purgatório e o Limbo de Aira. 33 não é apenas uma obra singular, na qual a aspereza, a lucidez, a agudeza não têm medo de se expor. É mais: a escolha de cada palavra, cada imagem, desafia a gravidade, não poupa o surpreendente, inverte a busca da beleza no modo usual, optando pela forma crua, aguda e agreste de dizer dos sentimentos, com toda a audácia de quem sabe o que está fazendo.
Desde a dedicatória, a diferença se mostra ousada:
Às zebras que correm
em um mundo de cavalos. (p. 9)
Os versos de Aira são como quadros pungentes em volta de nós, leitores, mais ainda do que as excelentes ilustrações, de Liev Rodrigues, provocando uma espécie de assombro que não se dispersa e, ao contrário, vai aumentando à medida que os poemas emergem versos como
No hospício da alma – Eternamente velada
Ao rasgar do véu –
A beleza da sua lucidez.
(p. 17)
ou
Nesta noite – lâminas estelares
Estamos sós – caça e caçadora
[…]
Teu coração – minha doce cela. (p. 21).
E olhe que ainda estamos no Paraíso!
Então, há suavidade nos versos:
E entraremos no mar – Em barcos de papel (p. 17),
ou no poema “Profundidades”:
Descobrimos que não éramos
Bugigangas encaixotadas,
Nem os próprios caixotes,
Nem mesmo os encaixotadores.
Éramos mares sobre continentes,
Casarões campestres, vulcões,
Fossas abissais e constelações
– multiversos paradisíacos (p. 15)
(e não universos!).
Descobrimos os limites dos ermos
Nos quais se desenrolam as eras (p. 15).
e no poema bilíngue “O Poder”:
Agora orbito fantasmas, mergulho dentro
De todas as vidas que minha alma morreu. (p. 23).
Gostei mais ainda do Inferno.
Frequentemente a ideia de sanidade povoa os versos de Aira. Já em “Rastro de Mel”:
A sanidade? Passarela quebradiça. (p. 27).
E há versos que lancetam e sangram os sentidos, como na belíssima segunda estrofe de “Só” (o poema tem 13 estrofes e ocupa três páginas):
Rasgo etiquetas com os dentes,
mas nem “hoje comigo no paraíso”
me livra da dança de máscaras:
esperam que eu me arraste, só,
sobre alfinetes
e sob tinta
escarlate! (p.29).
[…]
quero um olhar que sustente
a face nua, só,
sem roteiro, sem espelho,
sem rédea!. (excerto da 12ª estrofe, p. 31).
No poema “Mártires da Intolerância” encontramos essas preciosidades:
Cuspimos versículos como pólvora
[…]
Defendemos nossa parede branca,
mumificada em formol de privilégios. (p. 33)
Em “Capital AI” (poema com vinte e uma estrofes em quatro páginas), a linguagem das redes, do mercado financeiro, do consumo engolindo a vida, emerge habilmente, tecendo uma rede insólita, e até os trocadilhos são enclausurantes:
Veja: sua alma!, no fundo de pensão,
arrasta-se através de vitrines brilhantes –
gestos automáticos. (p. 37).
Ele arde de ganância – a vida ulcera.
A natureza definha – e você O adora”. (p. 36).
Tentáculos!
Você falhou, falha e falhará!
404: Alma não encontrada. (p. 37),
usando aí a força desse código: 404 Not Found.
Chamam a atenção os títulos dos poemas: “Mártires da intolerância”, “Cratera de mentiras”, “Liturgia das trevas” e muitos outros precisos, irônicos, cortantes.
A poesia de Aira também contorna a angústia, enfrenta a travessia, como num processo de resistência:
“Não cabe onde vai, mas aqui não se prende
Não cabe em nenhum horizonte, mas vai –
Inteira não, ficam pedaços de vida:
Sua alma e ossos com os quais costurou
Minha mente e corpo, coração e tripas.
E agora,
pelas costuras,
vaza
seu lapso. (Poema “Ela”, p. 39).
A sonoridade também não é esquecida, como nessa bela aliteração:
Te lacera – sangra labaredas líquidas.
E te lambe – a lâmina lasciva pincela o céu. (p. 40)
Não vou citar todos os versos e poemas que me impressionaram tanto, mas não posso deixar de mencionar o desfecho do Limbo, num “Auto-Exílio” p. 62-63), no qual um redentor sabiá me lembrou Tom Jobim e Chico Buarque, já então trazendo aos tempos atuais a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias:
Minha terra tem palmeiras
[…]
onde grita o sabiá.
[…]
Minha terra tem palmeiras
onde urra o Sabiá
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que enfrente os horrores
Que não encontro por cá;
Sem que salvemos as palmeiras,
Onde resta o Sabiá. (p.62-63).
Como você vê, o livro bateu fundo, veemente, estridente mas nunca ensurdecedor.
Gostei também muito da entrevista, quando as perguntas suscitaram respostas que contam muito da poeta, até mesmo o nome às avessas de Régia Maria.
Viva Aira!
Flávia de Queiroz Lima
é poeta, nasceu no Rio de Janeiro e há
mais de 50 anos reside em Belo Horizonte.
Aira Maiger nasceu em 10 de dezembro de 1991 em Noroeste, no interior de Minas Gerais, onde reside, com Yo’Oru, entre gatos e cães.
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Ivo Salvany
janeiro 27, 2026 - 9:09 pm ·Ondex se espera ver a poesia da poeta em tela, ve-se a euforia e a chatice dos comentários, desnecessarios, sobre as poesias!!!
Rauer Rodrigues
fevereiro 22, 2026 - 10:18 am ·Bom dia, Ivo.
Leia poemas de Aira Maiger, uma entrevista com a poeta, resenhas que ela escreveu e outras informações sobre a escritora a partir do link < https://editorapangeia.com.br/pt_br/?s=Aira+Maiger >; você pode acompanhá-la também no Instagram @aira.maiger; e pode adquirir “33”. o livro dela, aqui na Loja da Pangeia. Obrigado por sua interação. Cordial abraço.