A PALAVRA DO EDITOR deste final de semana anuncia o início da pré-venda do livro 33, de Aira Maiger. O livro tem diagramação e capa de Rízio Macedo, ilustrações de Liev Rodrigues e projeto editorial de Rauer. A autora definiu que todas as fontes do livro deveriam ser de mãos femininas – e o resultado final ficou belíssimo e significativo.
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A POESIA DE AIRA MAIGER:
33
Os versos de Aira Maiger que chegam no livro de estreia, 33, carregam o coração de um mundo que agride, sufoca e trucida. Eis uma escolha algo aleatória:
Não há.
Não há púlpito vulvar.
Não há refúgio no esposo.
Não há assento dianteiro.
nem à direita do Pai,
nem sequer banheiro para mim.
(33, Aira Maiger, p. 29).
Há violências as mais diversas, e cito algumas, também de modo algo aleatório: do bullying infantil à opressão trabalhista; da ação policial à agressão interpessoal; da torpeza cínica a diversos tipos de assédio; da violência de gênero à mentira e outras torpezas cotidianas.
Mas o que marca os versos está muito além da temática: está na forma, no léxico, na construção, nas articulações semânticas, na antropofagia que retoma intertextos os mais diversos, na liberdade com que recria a tradição, devorando-a e a ressignificando.
As evocações abrangem de culturas clássicas e de extintas civilizações orais ao mundo hodierno, interconectado, e também do pop a autores e autoras cult. O intertexto bíblico não descura dos mitos pagãos e das divindades dos oráculos contemporâneos.
33, no entanto, não se perde no mosaico que evoca, antes o que evoca está a serviço de poemas que porejam eros e tânatos amalgamados, a pulsão destrutiva do ocaso de nossos dias diante da resistência do eu-lírico e dos outros eus encenados, avatares de um mundo em ruínas que teima em se regenerar.
33 contém poemas de verso-livre, sonetos metrificados, haikais e tankas, poemas de ritmo clássico com rimas; há também composições que nasceram em língua inglesa e poemas líricos, ora fortemente intimistas, ora romântico-realistas.
Destaques do volume para a discreta diagramação de Rízio Macedo e as ilustrações de Liev Rodrigues, que de certo modo dialogam com os desenhos de Gustavo Doré para A Divina Comédia, de Dante.
Com essa lembrança, mais um intertexto do livro, finalizo expondo uma questão estrutural, também em si marca de antropofagia alexandrinista e índice de violência: o livro está dividido em quatro partes, cujos título marcam a presença em nova clave do universo mitológico cristão medieval da obra de Dante Alighiere.
Preservando a informação descritiva, digo apenas que, para Aira Maiger, Céu e Inferno são idealizações: a humana vida se faz no Purgatório — e no Limbo.
Rauer
Primavera de 2025

Instagram: @pangeiaeditora
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