Sobre “Independência e Morte”, um
conto de Alciene Ribeiro Leite
Universidade de Cabo Verde – Uni-CV
Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Literatura e Vida
– GPLV
A estrutura narrativa é marcada pela recorrência do número sete, que pontua de maneira simbólica os marcos da vida da protagonista: nascimento aos sete meses, abuso aos sete anos, casamento aos dezessete, morte aos vinte e sete: no dia sete de setembro. O simbolismo numérico, aliado à data nacional da “independência”, ironiza e denuncia: o que se celebra como liberdade nacional é, para a personagem, o dia do seu aniquilamento. A independência, para ela, nunca aconteceu.
O enredo, em sua essência, apresenta a trajetória de uma mulher marcada por múltiplas violências (obstétrica, sexual, simbólica e doméstica). Nascida prematura, filha de uma mãe ainda menina, a personagem tem seu destino traçado desde os primeiros parágrafos: uma infância miserável, um corpo explorado desde cedo, uma juventude aprisionada ao escambo conjugal com um homem mais velho. O que se chama de “casamento” é, na verdade, uma continuidade da exploração, agora legitimada pela desigualdade de poder e pela aparência de proteção.
A boneca, presente do “noivo”, carrega um simbolismo profundo: ao mesmo tempo em que revela o apagamento da infância roubada, também funciona como marca da sua eterna fragilidade e infantilização. Dormir com a boneca na cama de casal é o gesto desesperado de quem nunca teve tempo de amadurecer em segurança. No final, a boneca está de novo presente, não literalmente, mas evocada no cenário do crime: a mulher morre sufocada, numa imagem que reflete não apenas um feminicídio, mas a asfixia crônica a que foi submetida durante toda a vida.
O cenário final (um closet, uma mala aberta, livros e cadernos no chão) sugere a tentativa – ou sonho – de fuga, de emancipação intelectual, talvez um grito silencioso por transformação. Mas a independência não vem. Vem a morte.
“Independência e Morte” é uma síntese trágica e politicamente potente. Em poucas linhas, Alciene Ribeiro Leite denuncia as múltiplas formas de violência estrutural que cercam as vidas de tantas mulheres. O título, uma provocação direta ao mito da liberdade nacional, revela o quanto ainda é preciso desconstruir as celebrações oficiais para ouvir os gritos calados das histórias não contadas.
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Karina de Fátima Gomes é autora de Literatura e Mercado:
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Publicação
atualizada em
25/Janeiro/2025