{"id":6955,"date":"2021-04-27T13:06:46","date_gmt":"2021-04-27T13:06:46","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=6955"},"modified":"2022-07-01T13:17:49","modified_gmt":"2022-07-01T13:17:49","slug":"sutilezas-da-linguagem-duas-autoras-repensam-as-estruturas-do-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/sutilezas-da-linguagem-duas-autoras-repensam-as-estruturas-do-conto\/","title":{"rendered":"Sutilezas da linguagem: duas autoras repensam as estruturas do conto"},"content":{"rendered":"<p>Dois t\u00edtulos, recentemente publicados, v\u00eam delinear, com a mesma intelig\u00eancia e igual intensidade, um momento significativo para nossa literatura, cada um deles dotado de uma personalidade bastante peculiar. Em comum, acusam a coincid\u00eancia de serem assinados por duas mulheres vivendo e escrevendo em Minas Gerais. Alciene Ribeiro nos traz Mulher expl\u00edcita, e Branca Maria de Paula \u00e9 respons\u00e1vel por Nanocontos. Com grandes diferen\u00e7as formais, abra\u00e7am o mesmo g\u00eanero liter\u00e1rio, constituindo duas bem-sucedidas colet\u00e2neas de contos.<\/p>\n<p>Desde o t\u00edtulo, o eu feminino comanda os contos de Alciene Ribeiro em Mulher expl\u00edcita. S\u00e3o 23 hist\u00f3rias com o mesmo tema, mas com diversas varia\u00e7\u00f5es: de linguagem, enfoque narrativo ou personagens. Explorando o discurso da sutileza, subvertendo expectativas do leitor, a autora, ciente de seu dom\u00ednio formal, esmera-se na constru\u00e7\u00e3o de cada texto, dispondo de largo invent\u00e1rio de recursos criativos.<\/p>\n<p>Entre textos mais longos, os curtos assemelham-se a um flagrante do momento desestruturador, em que o leitor se comporta como espectador de uma cena inacabada, ainda na imin\u00eancia de ser apreendida. Suas capacidades dedutivas e interpretativas s\u00e3o acionadas para que a aten\u00e7\u00e3o aos poucos e decisivos detalhes revele o que aconteceu sem ter sido pormenorizado. \u00c9 o caso tanto do texto inicial \u201cIndepend\u00eancia ou morte\u201d quanto de \u201cN\u00fapcias\u201d. Das duas vezes nada \u00e9 dito diretamente nem h\u00e1 luz suficiente lan\u00e7ada sobre as cenas. Os t\u00edtulos funcionam como met\u00e1foras plenas de ironia. Uma forma inteligente de contornar a crueza com que a realidade do mundo ou certos homens podem tratar as mulheres.<\/p>\n<p>Entram em cena criaturas de todas as idades, desde a ainda menina de \u201cBon\u00e9 vermelho\u201d, intertexto bem elaborado a partir da simb\u00f3lica puberdade da hero\u00edna do cl\u00e1ssico \u201cChapeuzinho vermelho\u201d, at\u00e9 o mergulho na depend\u00eancia e na decad\u00eancia da velha matriarca descrita em \u201cAbelha-rainha\u201d. Mulher urbana ou rural, m\u00e3e, dona de casa, amante ou n\u00e3o sabendo mais amar, enlouquecida ou independente \u2013 v\u00e1rias faces do feminino revelam, entre desventuras e limita\u00e7\u00f5es sociais, a penosa consci\u00eancia de uma trajet\u00f3ria subjacente aos muitos exemplos, com pontos agudos de semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>O lado feminino da humanidade manifesta-se, explicita-se, com tudo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, enfatizando as rela\u00e7\u00f5es com os homens. Sensuais, pat\u00e9ticas, amea\u00e7adas, usadas, abusadas, com desejos de vingan\u00e7a, cada uma dessas mulheres ganha voz, expressando sua passagem pela vida. Uma pequena obra-prima \u00e9 \u201cContrassenso\u201d, com a hero\u00edna dividida entre conformar-se ou reagir, atenta \u00e0 mesma duplicidade presente no corpo, dos olhos aos seios.<\/p>\n<p>Confort\u00e1vel no manejo inusual da l\u00edngua, Alciene nos surpreende, incisiva, com frases de colorida ambival\u00eancia, como \u201cgente prestimosa parece eleg\u00ea-la a primeira-dama do funeral\u201d ou \u201ca press\u00e3o chia protesto na panela, e o feij\u00e3o cheira queima de arquivo\u201d.<\/p>\n<p>Duas das suas narrativas revelam experi\u00eancias mais ousadas com a linguagem. \u00c9 o caso de \u201cUai, s\u00f4\u201d, fus\u00e3o de lirismo e coloquialismo regional, e da tensa mistura de falas presente em \u201cAviso pr\u00e9vio\u201d.<\/p>\n<p>Mulher expl\u00edcita traz de volta \u00e0 literatura brasileira e mineira um de seus nomes mais competentes, ausente por um tempo relativamente longo, junto com a promessa da autora de que outros t\u00edtulos vir\u00e3o. Estaremos \u00e0 espera de novas revela\u00e7\u00f5es de sua escrita sempre vigorosa e das tramas firmemente conduzidas, intensamente humanas.<\/p>\n<p>Nanocontos, de Branca Maria de Paula, mais do que a busca e o compromisso da autora com a concis\u00e3o, surpreende pelo di\u00e1logo, na forma de um apurado exerc\u00edcio metalingu\u00edstico, com a pr\u00f3pria montagem e apresenta\u00e7\u00e3o do livro.<\/p>\n<p>A capa em preto e branco mostra uma fenda numa superf\u00edcie que se rasga e se consome. Este \u00e9 um dos temas que ser\u00e3o abordados pelos textos curtos e que geram uma infinidade de significados. V\u00e1rias fotografias de ilustra\u00e7\u00f5es feitas pela autora integram a obra, produzindo um efeito abstrato por meio de manchas, ranhuras e texturas.<\/p>\n<p>Abstra\u00e7\u00e3o semelhante est\u00e1 presente nos textos, agrupados n\u00e3o em partes, mas em modos. Funcionam de uma maneira sugestiva, sem descrever ou abordar qualquer min\u00facia de cenas de encontros e separa\u00e7\u00e3o. Muito menos amplificam a ang\u00fastia das perdas, incluindo a morte, o envelhecimento e a agonia diante de momentos sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>A estrutura do livro \u00e9 especular. Assim, o in\u00edcio \u00e9 invertidamente refletido no final. Um \u201cPrel\u00fadico\u201d, seguido por um \u201cVersus leitor\u201d, \u00e9 conclu\u00eddo com um \u201cPosl\u00fadico\u201d e um \u201cVersus livro\u201d. Aludem a uma das ep\u00edgrafes pr\u00e9vias, na qual uma corda ou um fio mant\u00e9m suspensa a leitura, como alegoria da exist\u00eancia, sujeita ao roer de ratos.<\/p>\n<p>Imagens da mesma ordem, como arquivos corrompidos ou cupins que trituram muletas, entremeiam os m\u00ednimos contos, a pr\u00f3pria escrita questionada entre anota\u00e7\u00f5es de sentimentos de desaponto e desencontros sexuais ou na percep\u00e7\u00e3o da marcha inevit\u00e1vel e ineg\u00e1vel do tempo.<\/p>\n<p>Finitude constatada, na convoca\u00e7\u00e3o a coveiros, vi\u00favas e almas penadas, ganha compensa\u00e7\u00e3o em flashes de lirismo, mesmo contaminados pelo absurdo. Assim o eu que narra diz, em \u201cExcessos 2\u201d, \u201cj\u00e1 n\u00e3o quero amor ou coisa que o valha. Nem mesmo a quinta ponta da estrela me faz falta\u201d, ao que replica a mesma voz mais tarde: \u201cDia que se quer. Noite que se faz. Tarde que assombra. E morcegos a cortar o c\u00e9u, rente \u00e0 madrugada\u201d.<\/p>\n<p>Nos seus Nanocontos, Branca Maria de Paula prop\u00f5e ao leitor um jogo de sagacidade e provoca\u00e7\u00f5es, conduzido pela decifra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio que envolve a intricada rela\u00e7\u00e3o entre leitura e escrita.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/product\/mulher-explicita\/\">Mulher expl\u00edcita, de Alciene Ribeiro. Pangeia Editora, 2019, 208 p\u00e1ginas. R$ 48,90.<\/a><\/p>\n<p>Nanocontos. de Branca Maria de Paula, Quixote + Do, 2019, 116 p\u00e1ginas, R$ 40,00.<\/p>\n<p>Resenha escrita para o jornal &#8220;Estado de Minas&#8221; por Isalino Silva de Albergaria, Lino de Albergaria, em 23 de dezembro de 2019.<\/p>\n<p>Lino de Albergaria \u00e9 escritor, autor, entre outros t\u00edtulos, do romance O homem delicado (Quixote + Do, 2019).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois t\u00edtulos, recentemente publicados, v\u00eam delinear, com a mesma intelig\u00eancia e igual intensidade, um momento significativo para nossa literatura, cada um deles dotado de uma personalidade bastante peculiar. Em comum, acusam a coincid\u00eancia de serem assinados por duas mulheres vivendo e escrevendo em Minas Gerais. 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