{"id":6921,"date":"2021-03-30T15:55:47","date_gmt":"2021-03-30T15:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=6921"},"modified":"2025-11-20T18:01:35","modified_gmt":"2025-11-20T18:01:35","slug":"minhas-vivencias-e-experiencias-diante-de-quatro-representacoes-literarias-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/minhas-vivencias-e-experiencias-diante-de-quatro-representacoes-literarias-da-pandemia\/","title":{"rendered":"D\u00e9bora Mazza: quatro  representa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da pandemia"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Minhas viv\u00eancias e experi\u00eancias diante de quatro<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da pandemia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Por <strong>D\u00e9bora Mazza<\/strong><br \/>\nProfessora Doutora da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),<br \/>\natua na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o (FE), no Departamento de Ci\u00eancias na<br \/>\nEduca\u00e7\u00e3o (DECISE); \u00e9 membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em<br \/>\nPol\u00edticas, Estado e Sociedade (GPPES) e Pesquisadora PQ CNPq.<\/p>\n<p>Este texto se estrutura em tr\u00eas partes. Na primeira, fa\u00e7o um relato \u00edntimo de viv\u00eancias e experi\u00eancias sobre os impactos da pandemia no meu cotidiano e no cotidiano de minha fam\u00edlia. Na segunda parte, discorro sobre as principais linhas de for\u00e7a tem\u00e1ticas dos livros <em>minimus<\/em>, de Alciene Ribeiro, e <em>brev\u00edssimos<\/em>, de Rauer. Os dois livros dividem um \u00fanico volume, lan\u00e7ado pela Editora Pangeia em 2020, com o t\u00edtulo de <em>minimus &amp; brev\u00edssimos<\/em>. Na terceira parte, analiso, \u00e0 luz da viv\u00eancia descrita na primeira parte e sob perspectiva humanista e sociol\u00f3gica, a representa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da pandemia nesses dois livros, trazendo tamb\u00e9m para considera\u00e7\u00f5es o livro <em>brazil 2020<\/em>, volume igualmente dividido por Alciene Ribeiro e Rauer, em que os quatro contos de cada um tratam de alguns impactos no pa\u00eds e no humano com a chegada do Sars-CoV-2 e a letal Covid-19.<\/p>\n<p>Conclu\u00ed a escrita desses apontamentos em 25 de mar\u00e7o de 2021, momento em que o Brasil ultrapassa as trezentas mil mortes pela Covid-19. As dores imersas nesse n\u00famero imensur\u00e1vel comparecem nos microcontos e nos contos de Alciene Ribeiro e de Rauer.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a01<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, a reitoria da UNICAMP publicava a primeira resolu\u00e7\u00e3o que dispunha sobre a suspens\u00e3o das atividades de ensino presenciais na universidade, para o per\u00edodo de 13\/03 a 12\/04\/2020, no intuito de preservar, na medida do poss\u00edvel, as atividades acad\u00eamicas do 1\u00ba semestre de 2020. (GR- 024\/2020 de 16\/03\/2020).<\/p>\n<p>Naquele momento, registr\u00e1vamos a primeira morte por Coronav\u00edrus da Covid-19 no Brasil.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o previa um programa emergencial para os cursos e as disciplinas de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, contando com a migra\u00e7\u00e3o para atividades de educa\u00e7\u00e3o mediadas por tecnologias, buscando metodologias e atividades alternativas desenvolvidas de forma n\u00e3o presencial. As atividades presenciais poderiam ser retomadas ap\u00f3s o encerramento do per\u00edodo de restri\u00e7\u00e3o imposto pela pandemia. Est\u00e1vamos assustados com as not\u00edcias que vinham da China e da Europa central, mas n\u00e3o t\u00ednhamos a menor ideia do tempo que esta resolu\u00e7\u00e3o duraria e nem do tamanho do perigo que nos rondava.<\/p>\n<p>O presidente do Brasil fez um pronunciamento, em rede nacional de televis\u00e3o, e pediu o fim do isolamento, o retorno \u00e0 normalidade, acusou a imprensa de espalhar p\u00e2nico e garantiu que tudo n\u00e3o passava de uma gripezinha (Rede Nacional de Televis\u00e3o em 24\/03\/2020).<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, as din\u00e2micas cotidianas e os espa\u00e7os p\u00fablicos e privados foram alterados. Muitas institui\u00e7\u00f5es, empresas, prestadores de servi\u00e7o, pequenos comerciantes e trabalhadores aut\u00f4nomos passaram a operar prioritariamente de modo remoto. Nossas casas tiveram que se adaptar rapidamente e os espa\u00e7os, antes reservados \u00e0 conviv\u00eancia familiar, se transformaram em sala de aula, gabinete de trabalho individual, \u00e1rea de reuni\u00f5es coletivas, lugar de orienta\u00e7\u00e3o, compartimento de grupos de pesquisa, defesas de disserta\u00e7\u00f5es e teses, semin\u00e1rios nacionais, congressos internacionais etc.<\/p>\n<p>O ru\u00eddo da aula remota realizada por meu filho Guilherme colidia com o ru\u00eddo da aula remota que eu ministrava. O pacote de internet que nos atendia a uma d\u00e9cada n\u00e3o aguentou as atividades concomitantes e tivemos que ampliar para 1 G, depois para 2G e ainda para 5G. Seguimos com problemas, contando com interrup\u00e7\u00f5es e oscila\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As demandas do trabalho dom\u00e9stico produziram um efeito vazado nas obriga\u00e7\u00f5es do trabalho profissional: limpar, organizar, lavar, cozinhar, assistir televis\u00e3o, ler jornal, cuidar do cachorro, regar as plantas, atender o interfone, ignorar o telefone, abastecer a despensa, fazer mercado \u2013 tarefas que antes realiz\u00e1vamos quando est\u00e1vamos \u201cem casa\u201d \u2013 passaram a conviver de modo concomitante com as in\u00fameras e intermin\u00e1veis atividades de trabalho remotas. A lista de e-mails ficou ainda mais intermin\u00e1vel e o check-list de solicita\u00e7\u00f5es restou imposs\u00edvel de ser liquidado. Tem uma conta que n\u00e3o fecha e que tem sido entregue no endere\u00e7o residencial do\/a trabalhador\/a.<\/p>\n<p>Rapidamente tivemos que aprender a conversar com plataformas digitais, pastas compartilhadas, pacotes de dados e arquivos nas nuvens. Meet, Zoom, Moodle, Facebook, Messenger, WhatsApp, Instagram, Podcast, Lives, Streaming, Youtube, Uber, Waze, Ifood, Rappi, aplicativos banc\u00e1rios etc. invadiram nossos vocabul\u00e1rios e desafios di\u00e1rios. Tivemos que transformar nossas propostas de trabalho presenciais em atividades fragmentadas que ocorrem de modo sincr\u00f4nico e ass\u00edncrono. Os celulares, os computadores, as c\u00e2meras e as caixas de som n\u00e3o aquentaram, pifaram e mostraram-se sucateados. Tivemos que comprar equipamentos, trocar baterias, fazer limpeza, pagar manuten\u00e7\u00e3o, calcular o \u00e2ngulo da tela, desenhar o fundo da imagem, enfim, arquitetar nossas casas como se fossem espa\u00e7os institucionais planejados para eventos de pequeno, m\u00e9dio e grande porte. Isto sem falar nos in\u00fameros\/as trabalhadores\/as que permaneceram atuando fisicamente e se expondo e expondo sua rede de afeto ao cont\u00e1gio do Coronav\u00edrus da Covid-19.<\/p>\n<p>Relacionamentos afetivos foram rompidos; amigos pr\u00f3ximos ficaram distantes, colegas distantes se aproximaram; familiares que pouco se encontravam passaram a ter que conviver durante dias, semanas e meses; doen\u00e7as antigas se agravaram; doen\u00e7as novas se manifestaram; novos afetos emergiram, velhos conflitos se dilataram; novas disposi\u00e7\u00f5es e disputas afloraram. Me lembrei do \u00e1lbum dos Tit\u00e3s: \u201cTudo junto ao mesmo tempo agora\u201d.<\/p>\n<p>Filhos bo\u00eamios se tornaram caseiros, filhas independentes voltaram para casa. Enfrentamos na fam\u00edlia casos de dengue, cirurgia de c\u00e1lculo renal, desemprego, subemprego e aus\u00eancia de perspectivas<\/p>\n<p>Em 13 de mar\u00e7o 2021, a reitoria da UNICAMP segue com resolu\u00e7\u00f5es de enfrentamento \u00e0 Covid-19 que disp\u00f5em sobre a suspens\u00e3o das atividades n\u00e3o essenciais nos campi da Unicamp em virtude da piora da pandemia, alta dos casos, interna\u00e7\u00f5es e mortes, preven\u00e7\u00e3o do cont\u00e1gio, do afastamento social e dos dados que apontam que cerca de 80% da popula\u00e7\u00e3o do estado de S\u00e3o Paulo est\u00e1 na fase vermelha (GR n\u00ba 004\/2021, de 25\/01\/2021).<\/p>\n<p>O mundo conta hoje com cerca de 2.800.000 mortes por Coronav\u00edrus, sendo quase 550.000 nos USA e 301.000 no Brasil (dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/coronavirus.jhu.edu\/map.html\">https:\/\/coronavirus.jhu.edu\/map.html<\/a>, acesso em 25\/03\/2021).<\/p>\n<p>Nosso presidente perdura dizendo nas m\u00eddias:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Chega de frescura e mimimi. V\u00e3o ficar chorando at\u00e9 quando? Para onde vai o Brasil se n\u00f3s pararmos de trabalhar? Os governadores e prefeitos devem repensar a pol\u00edtica do fecha tudo pois o povo quer trabalhar. (Em 04\/03\/2021).<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, me chegou \u00e0s m\u00e3os os livros <em>minimus &amp; brev\u00edssimos e brazil 2020<\/em>, ambos de Alciene Ribeiro e Rauer (2020). Apreciei as artes das capas, observei o desenho das palavras nas p\u00e1ginas e, com um olhar infantil, notei que os livros eram de formato pequeno (<em>pocket book<\/em>), os textos escritos eram curtos e os espa\u00e7os em branco eram generosos. Minhas filhas, Ana Clara e Carolina, quando pequenas, classificavam os livros assim: \u2013 Mam\u00e3e, muito desenho, pouca letrinha ou muita letrinha.<\/p>\n<p>Vamos \u00e0s linhas de for\u00e7a que identifiquei nestes livros, que re\u00fanem duas vozes distintas, peculiares e ao mesmo tempo universais, de dois escritores nascidos na cidade de Ituiutaba, MG, no Tri\u00e2ngulo Mineiro, pertencentes ao mesmo tronco familiar. Para efeito de facilitar a identifica\u00e7\u00e3o, ao comentar as quatro diferentes vozes que surgem nos dois livros, os microcontos de Alciene s\u00e3o identificados por (Alciene, M&amp;B, p. xxx); os de Rauer, assim: (Rauer, M&amp;B, p. xxx). Os contos de Alciene reunidos no <em>brazil 2020<\/em> s\u00e3o identificados do seguinte modo: (Alciene, BR2020, p. xx); e os contos de Rauer, deste modo: (Rauer, BR2020, p. xx).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2<\/strong><\/p>\n<p>Iniciei a leitura, um dos meus <em>hobbys<\/em> prediletos, e fui me dando conta que <em>minimus e brev\u00edssimos<\/em> me expunham a um g\u00eanero liter\u00e1rio desconhecido: o microconto. Me indaguei: \u2013 Como os ler, como os compreender, como apreci\u00e1-los?<\/p>\n<p>Li e reli at\u00e9 come\u00e7ar a localizar os efeitos de sentido e as rotas de fuga. Assim, compartilho, abaixo, algumas das minhas chaves de di\u00e1logo com os microescritos; a seguir, dialogo com os contos de Alciene e Rauer.<\/p>\n<p><strong>a. Metaliteratura<\/strong><\/p>\n<p>O que vem a ser uma micronarrativa?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S\u00cdNTESE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Do maior ao menor conto,<br \/>\ntudo acaba no ponto.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 14).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">LEITOR PULSANTE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">No microconto o sugerido<br \/>\nlateja entrelinhas<br \/>\ne desafia<br \/>\no leitor<br \/>\na substantiv\u00e1-lo.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 15).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">EM ELIPSE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ora\u00e7\u00e3o de sujeito oculto que<br \/>\ninsiste em se dizer sem<br \/>\npalavras \u2013 eis o microconto.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 23).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">MICROCONTO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Narrativa.<br \/>\nCristal-Vivo.<br \/>\nUma s\u00f3 visada.<br \/>\nUm \u00fanico golpe.<br \/>\nNocaute.<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 179).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">MICRONARRAR<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">poesia<br \/>\nfascinante-assustadora,<br \/>\njogovida ::: literatura,<br \/>\nvapor condensado,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">l\u00e1grima,<br \/>\nfa\u00edsca er\u00f3tica que sangra<br \/>\nno ralo da noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 182).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">LAPIDA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">o microconto est\u00e1<br \/>\nno cerne do fractal,<br \/>\nno \u00e2mago da seiva,<br \/>\nno imo intestino<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 192).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">MICROM\u00cdNIMUS<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ei-lo, elipse \u2013 do<br \/>\nincognosc\u00edvel ao<br \/>\ninescrut\u00e1vel.<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 195).<\/p>\n<p>H\u00e1 diversos microcontos mais, dos dois autores, na clave da reflex\u00e3o metaliter\u00e1ria e metapo\u00e9tica. Como g\u00eanero que tenta se afirmar como novo, \u00e9 instigante essa vertente voltada \u00e0 busca de defini\u00e7\u00f5es, de encontrar os limites, de alcan\u00e7ar diversas possibilidades expressivas. Nem Alciene nem Rauer se furtam da busca do novo e de enfrentar dificuldades in\u00e9ditas, resolvendo as situa\u00e7\u00f5es propostas de modo exemplar.<\/p>\n<p><strong> b. Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Ambos os autores apresentam microcontos que reportam ao passado, a um passado na exemplaridade do faz de conta, ao passado hist\u00f3rico long\u00ednquo ou a lembran\u00e7as pr\u00f3ximas. Eis alguns exemplos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00c0 MONTEROSSO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quando acordou, o dinossauro o espreitava:<br \/>\n\u2013 De que toca voc\u00ea saiu, animal <em>erectus<\/em>?<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 13).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">VERDADE MADRASTA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Cada ruga tem uma hist\u00f3ria.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 27).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O NATAL DE EUR\u00cdDICE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Queria um \u00fanico presente: sua<br \/>\nvoz, sua tez, seu ar, seu plexo, voc\u00ea nu<br \/>\ne sempre todo em sexo, e n\u00e3o, quanta<br \/>\ndor!, desejo ausente.<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 222).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">EPIT\u00c1FIO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sult\u00e3o, gozei festas, carr\u00f5es,<br \/>\nconsumo, mulheres mil.<br \/>\nDeixo filhos \u00e0s dezenas,<br \/>\npara que acabem<br \/>\nlogo<br \/>\ncom o planeta.<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 311).<\/p>\n<p>Mem\u00f3rias e lembran\u00e7as, nos microcontos de M&amp;B, comp\u00f5em um vasto painel, que vai da pequena cidade \u00e0s metr\u00f3poles, da vida \u00edntima aos voos condoreiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong> c. Cotidiano<\/strong><\/p>\n<p>Os microcontos sintetizam, no seco, as vicissitudes da vida:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">DISTRA\u00cdDA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ela s\u00f3 queria voar,<br \/>\nmas<br \/>\nesqueceu o paraquedas.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 47).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SUBIU \u00c0 CABE\u00c7A<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 E da\u00ed?&#8230; N\u00e3o posso estacionar o<br \/>\ncaminh\u00e3o aqui, por qu\u00ea? Voc\u00ea sabe<br \/>\ncom quem est\u00e1 falando?! T\u00e1 l\u00e1 no<br \/>\npara-choque:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>N\u00e3o sou dono do mundo,<br \/>\n<\/em><em>Mas sou filho do dono.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 57).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SILICONE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O primeiro amor e o primeiro<br \/>\nsuti\u00e3 a gente nunca esquece&#8230; At\u00e9 a<br \/>\nfor\u00e7a da gravidade morar no espelho.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 63).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">FINITUDE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Em prol de mais projetos<br \/>\ndo que a expectativa de vida,<br \/>\nn\u00e3o tenho tempo<br \/>\npara passatempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ponderemos:<br \/>\na perenidade temporal<br \/>\n\u00e9 ponto pacifico<br \/>\n\u2013 n\u00e3o passa tempo,<br \/>\npassamos n\u00f3s.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 161).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Caro autor,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se o nome \u00e9 trabalho e o<br \/>\nsobrenome hora-extra, j\u00e1 passou do<br \/>\nmomento de o trancafiarmos no Pinel.<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 189).<\/p>\n<p>O trabalho exaustivo, a finitude das pequenas aspira\u00e7\u00f5es, a vida mi\u00fada ou a pose intimidadora \u2013 o retrato do cotidiano em pequenos e saborosos flagrantes est\u00e1 nos microcontos de Alciene e Rauer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong> d. Hedonismo e eroticidade<\/strong><\/p>\n<p>Os microcontos exalam \u2013 e tamb\u00e9m ironizam \u2013 a efemeridade do desejo e o gozo da vida. Vejamos alguns exemplos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">MITOLOGIA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Da cinza renascida,<br \/>\na f\u00eanix, maliciosa:<br \/>\n\u2013 Voc\u00ea e o carv\u00e3o,<br \/>\nhem!&#8230;<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 75).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">FRUTO PROIBIDO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O fardo fora leve. Cansou de<br \/>\ndescansar eternamente, e<br \/>\ncultiva ma\u00e7as no Para\u00edso.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 153).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">AO ALTAR, DECLARO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ext\u00e1tico talho:<br \/>\ndoce ara,<br \/>\nem que se declara,<br \/>\n\u00e0 cona,<br \/>\no caralho.<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 203).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">CANTATA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">vamos celebrar<br \/>\npor todos os meios.<br \/>\npulsar todas as veias.<br \/>\nexcitar todos os poros.<br \/>\namar<br \/>\nalma, corpo,<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nbeijar, explodir<br \/>\nem estr-<br \/>\nelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 204).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">MEU MEL<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">F\u00eamea em mel,<br \/>\nloucura que me captura,<br \/>\npor que viras fel?<br \/>\n(Rauer, M&amp;B, p. 205).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">PREFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Coito?<br \/>\n\u2013 Prim\u00edcias&#8230;<br \/>\n\u2013 Orgasmo?<br \/>\n\u2013 Car\u00edcias!<br \/>\n\u2013 Que prefere?<br \/>\n\u2013 Ah!&#8230; bis-coitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 213).<\/p>\n<p>A sexualidade, o prazer, o canto e o hino de louvor ao corpo, certo ludismo er\u00f3tico permeiam diversas dessas micronarrativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong> e. Dores, do amor e das rela\u00e7\u00f5es interpessoais<\/strong><\/p>\n<p>Os microcontos de Alciene Ribeiro e Rauer registram, em elipse, as dores do amor e os limites das rela\u00e7\u00f5es humanas. Vejamos alguns exemplos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SATURA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S\u00f3 mais uma gota para o c\u00e1lice transbordar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Cal\u00e7ou os sapatos e girou a chave duas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 28).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A VIDA IMITA A ARTE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Todo conto, f\u00e1bula, novela e<br \/>\nromance, por mais <em>caliente<\/em>, chega ao fim.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 29).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">COLAGEM<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Amou, e n\u00e3o sabia.<br \/>\nOdiou, e soube<br \/>\nem todos os poros e feridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Refez o caminho<br \/>\n\u00e0 procura dos peda\u00e7os<br \/>\nperdidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 131).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A PRAGA DE LILITH<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sem Eva, Ad\u00e3o fenece.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 225).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">DIV\u00d3RCIO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8211; eu n\u00e3o devia ter olhado para tr\u00e1s, n\u00e3o devia<br \/>\n&#8211; agora \u00e9 tarde, \u2018miga<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 306).<\/p>\n<p>O amor surge como dor, como exalta\u00e7\u00e3o, como preocupa\u00e7\u00e3o, como encontro que antecede o desencontro, como infinitude na finitude. Nas elipses, a vida a dois \u00e9 possibilidade do imposs\u00edvel, \u00e9 o desejo que aspira ao imponder\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong> f. Dores, do amor e das rela\u00e7\u00f5es interpessoais<\/strong><\/p>\n<p>Os microcontos descrevem, de modo conciso, a for\u00e7a criadora do tempo presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SIM SIM, N\u00c3O N\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Mais de meio s\u00e9culo de <em>sim<\/em>,<br \/>\ndepois, permito-me algum <em>n\u00e3o<\/em>.<br \/>\nE vou bem, obrigada. Em paz,<br \/>\ncom manias que n\u00e3o se explicam: s\u00e3o<br \/>\nporque s\u00e3o&#8230; ou deveriam ser. Sen\u00e3o,<br \/>\npor estramb\u00f3ticas, n\u00e3o ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Fico com elas&#8230; e filosofo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">V\u00e3 filosofia?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 26).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">CAF\u00c9<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Fiquei de confirmar hoje com voc\u00ea.<br \/>\n\u2013 Hoje?<br \/>\n\u2013 Para amanh\u00e3 \u00e0 tarde, se voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o tiver impedimentos m\u00e9dicos ou<br \/>\ndom\u00e9sticos.<br \/>\n\u2013 No caf\u00e9?&#8230;<br \/>\n\u2013 Combinado, ent\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Se der para mim, irei com prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 220).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">POALHA ::: R\u00c9STEA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Nen\u00ea \u00e0 sombra<br \/>\nestica a m\u00e3o<br \/>\npega o sol.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 285).<\/p>\n<p>Como diria Drummond (2008), Alciene Ribeiro e Rauer cantam a vida presente, os homens presentes, o tempo presente \u2013 e o fazem no solo \u00famido e f\u00e9rtil das viv\u00eancias e experi\u00eancias que subjazem e reverberam a cada nova micronarrativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong> g. Distopias<\/strong><\/p>\n<p>Os microcontos desenham distopias quando sugerem que o futuro n\u00e3o est\u00e1 garantido e pode ser pior do que o presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>O VERBO<\/em> DEGREDADO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Barbeava-se quando ouviu \u2013<br \/>\n<em>Aten\u00e7\u00e3o, acaba de ser deflagrada a<br \/>\n<\/em><em>Terceira Guerra Mundial! \u2013 <\/em>e nem<br \/>\npercebeu o espelho desintegrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 17).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">VIA SAT\u00c9LITE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Dinossauro no Cret\u00e1ceo, pouco<br \/>\nantes da extin\u00e7\u00e3o, a barata p\u00f3s-guerra<br \/>\nnuclear do III Mil\u00eanio:<br \/>\n\u2013 Comida racionada a\u00ed tamb\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 20).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ERA AT\u00d4MICA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Saiu do banho \u2013 e nada mais havia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 21).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">GUERRA NUCLEAR<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Saltou de paraquedas e caiu em<br \/>\numa floresta de cogumelos.<br \/>\n(Alciene, M&amp;B, p. 22).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">NO ASILO<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Em duas l\u00e1grimas o hoje se<br \/>\nimp\u00f4s. Virado para a parede, o velho<br \/>\ndobrou-se em existir fetal \u2013 e come\u00e7ou<br \/>\ntudo de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 43).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">EXPLODIU<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Esperan\u00e7oso saudoso exausto,<br \/>\no soldado voltava da guerra<br \/>\nquando pisou no explosivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 251).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As distopias como que anunciam outras possibilidades, renovadoras. \u00c9 o que vemos na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong> h. Sonhos e utopias<\/strong><\/p>\n<p>Os <em>minimus<\/em> e os <em>brev\u00edssimos<\/em> tamb\u00e9m apontam utopias e insinuam um futuro melhor que pode acontecer sempre que determinadas condi\u00e7\u00f5es se realizem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">HUMANIDADE<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Penso, logo, n\u00e3o desisto: mere-<br \/>\ncemos nova chance.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 18).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SHAKESPEARIANA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Voce decide, uai!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, M&amp;B, p. 33).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">PANDEMIAS<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Seguimos, resilientes \u2013 a<br \/>\nv\u00edrus, a bact\u00e9rias e at\u00e9 a<br \/>\nvacuns hidr\u00f3fobos e a<br \/>\nmuares hipomentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 312).<\/p>\n<p>Merecemos nova chance, nos diz Alciene; para isso, seguimos resilientes, nos afian\u00e7a Rauer. O humanismo dos dois escritores se plasma em escrita que \u00e9 moral, \u00e9tica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">3<\/p>\n<p>Alciene e Rauer \u2013 como j\u00e1 evidencia o \u00faltimo microconto citado acima \u2013 n\u00e3o se eximem de pautar o cen\u00e1rio tr\u00e1gico da pandemia e do abandono em que se encontra o povo brasileiro diante do descaso do governo atual. E se o fazem no volume <em>minimus &amp; brev\u00edssimos<\/em> em algumas narrativas, est\u00e1 no <em>ethos<\/em> de todos os contos do <em>brazil 2020<\/em>, volume banhado pelo clima de medo, de desespero, de solid\u00e3o decorrentes da presen\u00e7a do v\u00edrus, das muitas pseudoquarentenas, do terror com a necropol\u00edtica exercendo seu \u00edmpeto de terra-arrasada, de aus\u00eancia de compaix\u00e3o, de n\u00e3o valorizar a vida e de nutrir amor \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Eis um libelo antiautorit\u00e1rio que satiriza o exerc\u00edcio dos pequenos autoritarismos cotidianos em uma sociedade ditatorial:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[&#8230;]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 N\u00e3o leram o edital? \u2013 o guarda<br \/>\nesbraveja. \u2013 Peguem nova senha. E s\u00f3<br \/>\nme voltem aqui com a Declara\u00e7\u00e3o de<br \/>\nApoio ao Capit\u00e3o na hip\u00f3tese de<br \/>\nmotim a bordo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Sem a-a-a De-de-de-claaara\u00e7\u00e3o<br \/>\nde-de A-a-apoio \u2013 esgani\u00e7a o ordenan-<br \/>\n\u00e7a, escudado na cabine, \u2013 sem a<br \/>\nDeclara\u00e7\u00e3o ningu\u00e9m so-so-soobe a rampa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, BR2020, p. 6).<\/p>\n<p>Da micropol\u00edtica de uma distopia autorit\u00e1ria, Alciene segue para a mentalidade coletiva que permite o desvario de mentes pervertidas, nazifascistas:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[&#8230;]<br \/>\nDo Oiapoque ao Chu\u00ed ecoaram<br \/>\n<em>choro e ranger de dentes<\/em> na P\u00e1tria M\u00e3e Gentil.<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\nO luto pand\u00eamico se incrusta na<br \/>\npsique coletiva&#8230; e o futuro acena do<br \/>\ndeserto amaz\u00f4nico:<br \/>\n<em>\u2013 Aguenta cora\u00e7\u00e3o!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, BR2020, p. 8).<\/p>\n<p>A temerosa \u201cpsique coletiva\u201d na pandemia tem o mesmo desvio do <em>logos<\/em> que permite o v\u00edrus pol\u00edtico do desvario se instalar, replicar e inocular o veneno da doen\u00e7a antidemocr\u00e1tica. Em breves p\u00e1ginas, os contos de Alciene iluminam um pa\u00eds em que o v\u00edrus tem forma de corona, mas outros v\u00edrus t\u00eam formas humanas, usam terno e gravata ou quepe e dragonas.<\/p>\n<p>Por outro lado, os contos do <em>brasil 2020<\/em> tamb\u00e9m nos apresentam personagens atravessados pela solid\u00e3o, pela viol\u00eancia urbana, pela mis\u00e9ria f\u00edsica e moral e que insistem em expandir a trag\u00e9dia humana mesmo em meio \u00e0 trag\u00e9dia maior da pandemia. Eis um excerto que desvela tal aspecto:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[&#8230;] Ou\u00e7o sons distantes de telejornais nos<br \/>\napartamentos vizinhos. Ao que parece, as autoridades<br \/>\ndeterminam maior rigor no isolamento. \u00d3timo, que aqui me<br \/>\nencaverno em definitivo.<br \/>\nPercebi que a reclus\u00e3o seria ampliada diante dos sinais<br \/>\ncontradit\u00f3rios \u00ad\u2013 quanto \u00e0 pandemia \u2013 vindos dos governos<br \/>\nque nos desgovernam.<br \/>\n[&#8230;] sentado no ch\u00e3o em meio ao fluxo apressado e<br \/>\nincessante de pernas, os andrajos mal cobrindo o corpo<br \/>\nmutilado, lacerado e pustulento, mostro a perna amputada e<br \/>\nesmolo; exponho as chagas, os caro\u00e7os de berne, as feridas<br \/>\nsangu\u00edneas, e estendo suplicantes m\u00e3os diante de<br \/>\ntranseuntes insens\u00edveis, alheados, distantes como a lua<br \/>\nprometida em noites de amor.<br \/>\n[&#8230;] h\u00e1 dezenas de mascarados transitando. Caminham<br \/>\nr\u00e1pidos, evitando os muitos corpos espalhados pelo ch\u00e3o,<br \/>\nalguns enrolados em sacos pl\u00e1sticos, outros nus, e eles se<br \/>\nmisturam aos pontos negros da retina e a outros pontos<br \/>\nnegros em torno dos corpos.<br \/>\nOs urubus tamb\u00e9m est\u00e3o no c\u00e9u azul. [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, BR2020, p. 24-29).<\/p>\n<p>Publicado em outubro de 2020, o conto de Rauer parece antecipar situa\u00e7\u00e3o da pandemia que surge agora tragicamente no horizonte do pa\u00eds, com os colapsos sanit\u00e1rio, hospitalar e funer\u00e1rio na ordem do dia de praticamente todos os estados brasileiros.<\/p>\n<p>Sob outro aspecto, os contos pol\u00edticos do <em>Brazil 2020 <\/em>nos asseveram a antiguidade dos desgovernos, a agonia ancestral da m\u00e3e terra e o destrato hist\u00f3rico com o meio ambiente e com as assim nomeadas \u201cminorias\u201d. Vejamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[&#8230;]<br \/>\n\u00c0 perplexidade do ontem, o hoje se imp\u00f5e com<br \/>\nid\u00eantica, sen\u00e3o pior crueldade \u2013 verso e reverso? [&#8230;]<br \/>\nSegue \u00e0 estupefa\u00e7\u00e3o o desfile de familiares<br \/>\nbarbaridades.<br \/>\nGrandes senhores feudais lideram movimentos que<br \/>\nminimizam cuidados preventivos a pandemia a grassar na<br \/>\ninvisibilidade viral. Praga que dizima tanto quanto as<br \/>\ngenocidas guerras de conquista, ou a Peste Negra a ceifar<br \/>\nvidas de meus patr\u00edcios.<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\nConstato pesarosa que a mis\u00e9ria e nenhum apre\u00e7o ao<br \/>\noutro, insiste em constranger criaturas ao vilipendio de si<br \/>\nmesmas. [&#8230;]<br \/>\nO homem n\u00e3o mudou, tampouco v\u00edcios de conduta.<br \/>\nVelocidade das not\u00edcias, sim, e o conhecimento expandiu.<br \/>\nRedes de boatos \u2013 <em>gabinetes disso e daquilo<\/em> \u2013 forja<br \/>\nmentiras com as cores de verdade. [&#8230;]<br \/>\nA civiliza\u00e7\u00e3o se me afigura em grave estagnar:<br \/>\ncorruptos e corruptores, ass\u00e9dio moral, culto \u00e0 beleza e \u00e0<br \/>\njuventude, em flagrante desrespeito \u00e0 experi\u00eancia de<br \/>\nlongevos s\u00e1bios.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, BR2020, p. 13-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[&#8230;]<br \/>\nO cabelo rastaf\u00e1ri do rapaz, longas tran\u00e7as com<br \/>\napliques amarelos e <em>dreadlooks<\/em> multicores, espalha-se<br \/>\ninerte no asfalto, mancha-se de vermelho \u2013 um vermelho<br \/>\n\u00famido, viscoso. [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, BR2020, p. 22)<\/p>\n<p>Contos e microcontos sugerem, por meio da literatura, os inacabamentos e as continuidades que nos movem e nos mobilizam nas lidas cotidianas e no enredo sedutor das m\u00faltiplas linguagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">CANSA\u00c7O<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ao descansar,<br \/>\nj\u00e1 prepare a conquista<br \/>\ndo pr\u00f3ximo Olimpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 313).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ADIVINHA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O que \u00e9, diga-me, o que \u00e9:<br \/>\nQue hist\u00f3ria aqui morre,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Morre agora nesta p\u00e1gina,<br \/>\nSem nunca,<br \/>\nao fim,<br \/>\nser o fim,<br \/>\nPois de verdade n\u00e3o o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p. 315).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Lembra-te, [&#8230;] <em>o mal retumba, o bem silencia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Alciene, BR2020, p. 10).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Se h\u00e1 amor?<br \/>\n<em>Dimais<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Rauer, M&amp;B, p.169).<\/p>\n<p>A leitura destes textos me remeteu \u00e0 pergunta de Chomsky (2016): \u2013 Que tipo de criatura somos n\u00f3s? Ao que ele responde: \u2013 Somos seres que se constituem na linguagem atrav\u00e9s de processos internos (pensamento) e externos (comunica\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Chomsky aponta, ainda, a dimens\u00e3o social dos aspectos cognitivos de natureza humana:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Os humanos s\u00e3o seres sociais, e o tipo de criatura que nos tornamos depende crucialmente das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, culturais e institucionais de nossas vidas. Portanto, somos levados a investigar os arranjos sociais que contribuem com os direitos e o bem-estar das pessoas, satisfazendo suas justas aspira\u00e7\u00f5es \u2013 em resumo \u2013 o bem comum. (CHOMSKY, 2016, p. 94).<\/p>\n<p>Assim, e sem mais delongas, finalizo registrando que minhas viv\u00eancias durante a pandemia se somaram \u00e0 minha experi\u00eancia com estes suportes liter\u00e1rios em encontro \u00edntimo com essa humanidade que nos atravessa e que pode ou n\u00e3o nos tornar humanos que lutam pela constru\u00e7\u00e3o do bem comum e resistem ao retorno persistente da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>A leitura dos livros <em>minimus &amp; brev\u00edssimos<\/em> e <em>brazil 2020<\/em> proporcionam uma experi\u00eancia prazerosa, incomodativa, que provoca reflex\u00e3o cr\u00edtica e instiga o compromisso human\u00edstico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ANDRADE, Carlos Drummond. M\u00e3os dadas. In: ______. Sentimento do mundo [1940]. <em>Poesia 1930-62<\/em> \u2013 Edi\u00e7\u00e3o Cr\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 240.<\/p>\n<p>CHOMSKY, Noam. <em>Que tipo de criatura somos n\u00f3s?<\/em> Trad. Gabriel de \u00c1vila Othero e Luisandro Mendes de Souza. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2018.<\/p>\n<p>RIBEIRO, Alciene; RAUER. <em>brazil 2020<\/em>. Uberl\u00e2ndia, MG: Dionysius, 2020. (Dionysius \u00e9 um selo da Editora Pangeia).<\/p>\n<p>RIBEIRO, Alciene; RAUER. <em>minimus &amp; brev\u00edssimos<\/em>. Uberl\u00e2ndia, MG: Pangeia, 2020. (Microm\u00ednimus 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre brazil 2020, v\u00e1 a<br \/>\n&lt; <a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=brazil+2020\">https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=brazil+2020<\/a> &gt;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre minimus e brev\u00edssimos, v\u00e1 a<br \/>\n&lt; <a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=minimus\">https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=minimus<\/a> &gt;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Publicado originalmente no<br \/>\n<em><strong>Blog da Pangeia<\/strong><\/em>, em<br \/>\n30 de mar\u00e7o de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minhas viv\u00eancias e experi\u00eancias diante de quatro representa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da pandemia Por D\u00e9bora Mazza Professora Doutora da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), atua na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o (FE), no Departamento de Ci\u00eancias na Educa\u00e7\u00e3o (DECISE); \u00e9 membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Pol\u00edticas, Estado e Sociedade (GPPES) e Pesquisadora PQ CNPq. Este texto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[1341,51,287,1128,5077,1120,4288,89,1654,3260,1649,1459,4291,1493,4287,1085,516,4286,4293,4290,4252,583,322,460,1836,521,4294,141,4289,233,1647,1648,179,376,872,4292,1650,4296,623,517,4295,1653],"class_list":["post-6921","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-resenha","tag-alciene","tag-alciene-ribeiro","tag-alciene-ribeiro-leite","tag-amor","tag-antirracismo","tag-carlos-drummond-de-andrade","tag-chomsky","tag-conto","tag-corona","tag-cotidiano","tag-covid","tag-covid-19","tag-distopia","tag-dor","tag-drummond","tag-erotismo","tag-faculdade-de-educacao","tag-governo-autoritario","tag-hedonismo","tag-ideologia","tag-intertexto","tag-jogo-ludico","tag-literatura-brasileira","tag-literatura-contemporanea","tag-luto","tag-memoria","tag-metaliteratura","tag-microconto","tag-noam-chomsky","tag-nos-tempos-do-corona","tag-ntdc","tag-pandemia","tag-rauer","tag-rauer-ribeiro-rodrigues","tag-rauer-rodrigues","tag-relacoes-interpessoais","tag-sars-cov-2","tag-sentimento-do-mundo","tag-sonhos","tag-unicamp","tag-utopias","tag-virus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6921"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6921\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18678,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6921\/revisions\/18678"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6923"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}