{"id":6525,"date":"2020-08-28T17:49:35","date_gmt":"2020-08-28T17:49:35","guid":{"rendered":"http:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=6525"},"modified":"2025-04-11T12:04:21","modified_gmt":"2025-04-11T12:04:21","slug":"a-arte-de-escrever-16-hemingway-um-mergulho-na-teoria-do-iceberg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/a-arte-de-escrever-16-hemingway-um-mergulho-na-teoria-do-iceberg\/","title":{"rendered":"A ARTE DE ESCREVER 16 \u2013 Hemingway: Um mergulho na &#8220;teoria do iceberg&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>The dignity of movement of an iceberg<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>is due to only one-eight of it being<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>above water.<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ernest Hemingway<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>\u201cPara nos envolvermos com a literatura\u201d, afirma Anthony Burgess sobre a obra de Hemingway, \u201cprimeiro precisamos nos envolver com a vida.\u201d Com essa considera\u00e7\u00e3o, Burgess encerra a biografia <strong><em>Ernest Hemingway<\/em><\/strong>, lan\u00e7ada no final dos anos 1970. Trata-se de estudo permeado por compassiva ironia com o homem Hemingway, confrontando a mitologia criada pela personalidade esfuziante do escritor com o resultado das obras que edificaram sua gl\u00f3ria ainda em vida. \u201cA melodia de Hemingway foi uma contribui\u00e7\u00e3o nova e original para a literatura mundial\u201d, avalia Burgess; \u201cest\u00e1 nos ouvidos de todos os jovens que se disp\u00f5em a escrever\u201d.<\/p>\n<p>Com certeza, os contos e os romances de Hemingway continuam leituras fundamentais para os escritores dos nossos dias, porque \u2013 e continuo citando o \u00faltimo par\u00e1grafo do livro de Burgess \u2013 \u201csua obra [\u2026] \u00e9 uma for\u00e7a seminal\u201d. Esse vigor est\u00e1 em romances como <strong><em>Adeus \u00e0s armas<\/em><\/strong> e <strong><em>Por quem os sinos dobram<\/em><\/strong>, em dezenas de contos memor\u00e1veis, imperec\u00edveis obras-primas do g\u00eanero, e na novela <strong><em>O velho e o mar<\/em><\/strong>. Seu estilo seco e telegr\u00e1fico marca de modo profundo uma das vertentes mais densas e afortunadas da prosa romanesca do s\u00e9culo XX. No entanto, a grande contribui\u00e7\u00e3o de Hemingway foi, ao representar de modo realista o cotidiano reles de pessoas comuns, ainda que, em alguns poucos casos, em momentos especiais, marcar a narrativa com \u00edndices e s\u00edmbolos geradores de significados profundos sem trair nenhum aspecto da realidade ch\u00e3 e sem for\u00e7ar a linguagem com enfeites estil\u00edsticos ou a narrativa com divaga\u00e7\u00f5es pseudofilos\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Hemingway definiu esse modo de narrar forjando a met\u00e1fora do <em>iceberg<\/em>. Em entrevista em um caf\u00e9 de Madri, em maio de 1954, ele disse: \u201cSe \u00e9 que serve para alguma coisa, escrevo baseado no princ\u00edpio do <em>iceberg<\/em>. A dignidade do movimento do <em>iceberg<\/em> \u00e9 que somente um oitavo de sua grandeza brilha ao sol: h\u00e1 sete oitavos submersos, para cada parte que aparece. O que voc\u00ea conhece, pode ser eliminado, e a parte que n\u00e3o aparece s\u00f3 robustece o <em>iceberg<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Carlos Baker, em <strong><em>Hemingway: o escritor como artista<\/em><\/strong>, explica: \u201cAs \u00e1reas vis\u00edveis brilham com as duras luzes factuais do naturalista. A estrutura de suporte, submersa e invis\u00edvel, na sua maior parte, exceto para o explorador paciente, \u00e9 constru\u00edda com um tipo diferente de precis\u00e3o \u2013 o do poeta-simbolista.\u201d<\/p>\n<p>Baker complementa que o leitor encontra nos contos de Hemingway, \u201cabaixo da superf\u00edcie, [\u2026] s\u00edmbolos operando em todos os lugares e numa s\u00e9rie de belas cristaliza\u00e7\u00f5es, suficientemente compactas e flutuantes para poder carregar um peso consider\u00e1vel\u201d. O procedimento realizado por Hemingway \u00e9 de arquitetura narrativa e se realiza no discurso por escolhas lexicais: \u201cA sua mais profunda confian\u00e7a era colocada no efeito cumulativo de uma declara\u00e7\u00e3o cuidadosamente escolhida e ostensivamente simples, com a repeti\u00e7\u00e3o ocasional de frase-chave para uma \u00eanfase tem\u00e1tica\u201d, explica Carlos Baker<\/p>\n<p>Apresentamos, a seguir, antecedendo leituras de contos de Hemingway que desvelam a fun\u00e7\u00e3o expressiva do <em>iceberg<\/em>, uma s\u00e9rie de opini\u00f5es sobre a obra do escritor, para contextualizar de modo mais abrangente o seu modo de narrar, o peculiar estilo de seu texto e o que podemos nomear de \u201cTeoria do <em>iceberg<\/em>\u201d no \u00e2mbito da hist\u00f3ria da literatura e das teorias do conto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>\u201cTodos os bons livros\u201d, definiu Hemingway em 1933, conforme nos reporta Baker, \u201cs\u00e3o semelhantes no fato de serem melhores do que se realmente tivessem acontecido; e, depois de termos acabado de ler um deles, sentimos que tudo que foi descrito nos aconteceu e que, depois disso, tudo nos pertence; o bom e o mau, o \u00eaxtase, o remorso e a tristeza, a gente e os locais e como o tempo estava. Quem consegue dar isso ao leitor poder\u00e1, ent\u00e3o, considerar-se um escritor\u201d.<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar o efeito cumulativo do <em>iceberg<\/em>, a linguagem deve buscar a pureza mais completa, a aus\u00eancia de efeitos decorativos, a \u2013 se assim podemos nos expressar \u2013 ess\u00eancia da linguagem narrativa como a\u00e7\u00e3o pura, como descri\u00e7\u00e3o substantiva. Os substantivos s\u00e3o signos que se tornam s\u00edmbolos pela proximidade modalizadora de outros substantivos (eventualmente, de adjetivos, adv\u00e9rbios, apostos e outros complementos). O texto encena a visualiza\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio e da a\u00e7\u00e3o. O <em>pathos<\/em> que anima o sentimento do texto se d\u00e1 pela sele\u00e7\u00e3o lexical que exp\u00f5e atos, jamais pela descri\u00e7\u00e3o emocional, adjetivada, do narrador, que evita tamb\u00e9m que as personagens vocalizem tais ju\u00edzos. A moralidade e a \u00e9tica do texto s\u00e3o depreendidas da concretude naturalista descrita e fica a cargo da apreens\u00e3o sensorial e cognitiva do leitor.<\/p>\n<p>\u201cHemingway sempre escreveu devagar\u201d, anota Baker, \u201cfazendo uma revis\u00e3o muito cuidadosa, cortando, diminuindo, substituindo, experimentando com sintaxe para ver o que uma frase podia transmitir mais economicamente, para, depois, jogar fora todas as palavras que n\u00e3o faziam falta.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA brevidade e a concis\u00e3o de sua prosa\u201d, afirma Nazario, \u201cdeu nova vida \u00e0 literatura\u201d; \u201cHemingway, por interm\u00e9dio desta simplicidade e economia de palavras, logrou dizer muito mais do que outros escritores que lan\u00e7aram m\u00e3o de um vocabul\u00e1rio mais amplo\u201d.<\/p>\n<p>Luiz Antonio Aguiar assim sintetiza a literatura de Hemingway:<\/p>\n<p>o efeito da leitura de conflitos e dramas submetidos a essa linguagem [<em>desadjetivada<\/em>, <em>desmetaforizad<\/em><em>a<\/em>] e narrativa [fluente] \u00e9 tremendo. Como uma bomba de efeito retardado, o que n\u00e3o explode diretamente nas falas dos personagens e na narra\u00e7\u00e3o fica remoendo no \u00edntimo do leitor, como uma <em>insaciedade<\/em>. [\u2026] mesmo o leitor em <em>ingl\u00eas<\/em> ter\u00e1 sido v\u00edtima do <em>mito Hemingway<\/em>, tanto que muito pouco se destaca que, deparando de perto com a viol\u00eancia de sua contemporaneidade, ele a exp\u00f4s como a melhor forma que encontrou para expressar seu rep\u00fadio e, ao mesmo tempo, sua \u00e2nsia pela humaniza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Por seu lado, Alex Viany afirma ser Hemingway \u201cum dos escritores mais influentes do seu tempo \u2013 principalmente pelo estilo el\u00edptico e a dialoga\u00e7\u00e3o <em>hard-boiled<\/em> de seus contos mais discutidos\u201d. Em tradu\u00e7\u00e3o livre, a express\u00e3o <em>hard-boiled<\/em> pode ser entendida como \u201cdura, impiedosa, c\u00ednica e realista\u201d. J\u00e1 o editor \u00canio Silveira anotou: \u201cHemingway marcou a literatura americana com sua presen\u00e7a f\u00edsica e seu estilo novo, ins\u00f3lito pelo despojamento quase total, pela linguagem direta e cortante, por uma simplicidade que real\u00e7ava o essencial e desprezava complac\u00eancias psicol\u00f3gicas\u201d.<\/p>\n<p>Veiga Fialho real\u00e7a \u201ca precis\u00e3o formal com que Hemingway escrevia\u201d, destacando \u201ca linguagem direta, as pinceladas curtas, o todo descrito pela exatid\u00e3o minuciosa do pormenor, as personagens reais, palp\u00e1veis quase\u201d. Em outra clave, Giselle Beiguelman-Messina afirma que \u201co \u2018belo\u2019 hemingwayano pode ser definido como o eterno, sendo essa eternidade definida pelo princ\u00edpio de uma verdade absoluta e imut\u00e1vel [\u2026] [que] encobre uma f\u00f3rmula de nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica burguesa e da sociedade de classes por meio da constru\u00e7\u00e3o do mito da comunidade ideal. [\u2026] o princ\u00edpio hemingwayano \u00e9, acima de tudo, moral, jamais dado por uma suposta heran\u00e7a biol\u00f3gica ou pela hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Na \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 biografia <strong><em>Ernest Hemingway \u2013 o romance de uma vida<\/em><\/strong>, Carlos Baker sintetiza:<\/p>\n<p>Foi um dos mais not\u00e1veis escritores que a Am\u00e9rica produziu, um estilista que fez \u00e9poca, com um talento superlativamente original que gerou multid\u00f5es de imitadores em todos os quadrantes do mundo e desferiu golpes violentos contra a afeta\u00e7\u00e3o, o pretensiosismo e a falsidade. Escrever fic\u00e7\u00e3o era dif\u00edcil para ele. A intensidade da sua aplica\u00e7\u00e3o era tamanha que, em pouco tempo, ficava literalmente exausto e um dia de trabalho, para Hemingway, n\u00e3o excedia normalmente as quinhentas ou seiscentas palavras. \u201cRealmente\u201d, escreveu ele em 1951, \u201c\u00e9 uma profiss\u00e3o dura; por muito que voc\u00ea a ame. Amo-a acima de qualquer outra coisa. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil se um homem realmente se entrega a ela de alma e cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para John L. Brown, \u201cHemingway interessa-se pela realidade s\u00f3 na medida em que a pudesse superar e conferir-lhe um sentido simb\u00f3lico. [\u2026] Mas em Hemingway o que acontece ocorre debaixo de uma superf\u00edcie voluntariamente realista em profundezas obscuras e o mais das vezes terr\u00edficas\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e9lio P\u00f3lvora afirma que nos contos de Hemingway<\/p>\n<p>ressuma muitas vezes a vida cruel, a vida rude, cara-a-cara, sem disfarces [, com a] pintura direta, a narra\u00e7\u00e3o sem artif\u00edcios, a representa\u00e7\u00e3o ao vivo. Da\u00ed o poder dos seus di\u00e1logos e, nos entrechos descritivos, da frase curta. [\u2026] Louva-se muito o estilo conciso, direto, incisivo de Hemingway. [\u2026] estilo denso e concentrado, em que pululam os significados e as met\u00e1foras da metalinguagem [\u2026]. Nelas escorre a vida. A verdade jamais \u00e9 sobrecarregada pela arte da composi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m desnudada de golpe. Poucas vezes Hemingway sacrificou a exatid\u00e3o do que pretendia expor, a uma frase de efeito.<\/p>\n<p>Para encerrar as cita\u00e7\u00f5es da cr\u00edtica, duas diferentes passagens em que Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez evoca seu colega de Pr\u00eamio Nobel: \u201co melhor de seus contos \u00e9 que d\u00e3o a impress\u00e3o de estar faltando algo, e \u00e9 exatamente da\u00ed que prov\u00eam seu mist\u00e9rio e sua beleza\u201d; \u201cNosso Hemingway era um homem confuso pela incerteza e brevidade da vida, que nunca teve mais do que um convidado \u00e0 mesa, mas conseguiu decifrar como poucos na hist\u00f3ria humana os mist\u00e9rios pr\u00e1ticos do of\u00edcio mais solit\u00e1rio do mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Ao ser agraciado com o Nobel de Literatura, Hemingway enviou um curto agradecimento de sete par\u00e1grafos. Eis o par\u00e1grafo no qual sintetiza sua vis\u00e3o da literatura e do escritor, sua impetuosidade como renovador, seu elogio \u00e0 solid\u00e3o \u2013 aquela que o faz estar isolado ao criar o novo e aquela que o distancia de seus concidad\u00e3os:<\/p>\n<p>Escrever \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, uma vida solit\u00e1ria. As organiza\u00e7\u00f5es de escritores aliviam a solid\u00e3o do escritor, mas duvido que melhorem a sua produ\u00e7\u00e3o. Sua estatura p\u00fablica cresce \u00e0 medida que se despoja de sua solid\u00e3o, e muitas vezes sua obra se deteriora. Porque ele a constr\u00f3i sozinho, e se for um escritor bom precisa enfrentar a eternidade, ou a sua aus\u00eancia, a cada dia. Para um verdadeiro escritor, cada livro deve ser um novo come\u00e7o, onde ele torna a tentar alcan\u00e7ar alguma coisa que nunca foi feita, ou que outros j\u00e1 tentaram e fracassaram. E \u00e0s vezes, se tiver muita sorte, ele ter\u00e1 sucesso. Como seria simples a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria se bastasse escrever de maneira diferente o que j\u00e1 foi bem escrito. \u00c9 por termos tantos bons escritores no passado que cada escritor \u00e9 levado muito mais longe do que pode ir, a um lugar onde ningu\u00e9m pode ajud\u00e1-lo. J\u00e1 falei demais para um escritor. Os escritores devem escrever o que t\u00eam a dizer, e n\u00e3o falar. Eu lhes agrade\u00e7o mais uma vez.<\/p>\n<p>Isso foi em 1954; mas j\u00e1 em 1942, Hemingway enunciara: \u201cA tarefa do escritor \u00e9 dizer a verdade\u201d \u2013 e tal defini\u00e7\u00e3o se manteve do in\u00edcio ao fim de sua carreira, sendo pressuposto cada vez mais exigente, mais complexo e mais adensado. Em entrevista no final dos anos 1920, j\u00e1 dissera que seu objetivo era \u201c[e]screver o que vejo e o que sinto da melhor e mais simples forma que me for poss\u00edvel\u201d. Sua inven\u00e7\u00e3o partia, pois, do que efetivamente conhecia e vivenciara, ainda que \u201cvivenciada\u201d a partir de relatos de terceiros, escrevendo de modo coloquial, simples, objetivo, descarnado. Assim se define, em suas narrativas, o cen\u00e1rio realista, a a\u00e7\u00e3o permanente e a sucess\u00e3o encadeada de cenas. Desse modo, busca apreender e descrever simultaneamente \u2013 a cada ato, a cada palavra lan\u00e7ada na folha em branco \u2013 o imediato, fugaz, e o significado perene. Para amalgamar essas amplas e complexas inten\u00e7\u00f5es, escrevia \u00e0 maneira de um <em>iceberg<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Vejamos, agora, o <em>iceberg <\/em>em movimento na arquitetura de tr\u00eas contos de Hemingway.<\/p>\n<p>Julian Nazario, no livro <strong><em>Ernest Hemingway<\/em><\/strong>, da S\u00e9rie Princ\u00edpios, da Editora \u00c1tica, aborda os contos \u201cAs neves do Kilimanjaro\u201d, \u201cA curta e feliz vida de Francis Macomber\u201d, \u201cOs assassinos\u201d e \u201cColinas como elefantes brancos\u201d. Antes, ao apresentar o escritor como artista, Nazario assim exp\u00f4s a caracter\u00edstica que Hemingway havia definido como central em sua obra:<\/p>\n<p>A qualidade opaca de seus textos, uma opacidade que transparece com nitidez nos contos, se relaciona \u00e0 met\u00e1fora do <em>iceberg<\/em>. Apenas uma mil\u00e9sima parte [sic] do <em>iceberg<\/em> fica exposta ao leitor. O resto est\u00e1 abaixo da superf\u00edcie e ter\u00e1 que ser rastreado mediante uma leitura cuidadosa. Hemingway, portanto, n\u00e3o \u00e9 um escritor que mostra todas as cartas que tem na m\u00e3o. Embora n\u00e3o seja um escritor herm\u00e9tico, constr\u00f3i um texto cheio de espa\u00e7os vazios e deixa para o leitor a fascinante tarefa de preencher esses espa\u00e7os atrav\u00e9s de sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao percorrer a trajet\u00f3ria da obra de Ernest Hemingway, dos primeiros aos \u00faltimos livros, abordando romances (neles incluindo <strong><em>O velho e o mar<\/em><\/strong>) e contos, Nazario, em quatro diferentes momentos, nos t\u00edtulos de subcap\u00edtulos, se vale da palavra \u201cs\u00edmbolo\u201d. Destaca, assim, o efeito narrativo de uma a\u00e7\u00e3o, de uma palavra ou de uma escolha narrativa ter significado que transcende suas val\u00eancias culturais imediatas \u2013 desse modo, palavras, par\u00e1grafos e cenas ganham sentidos profundos, figurados, alusivos, muito al\u00e9m das acep\u00e7\u00f5es no dicion\u00e1rio, no texto ou no drama. Em diversos contos, por exemplo, a ins\u00f4nia marca momentos agudos de enfrentamento (guerra, v\u00e9spera de uma luta de boxe, ferimentos f\u00edsicos dilacerantes) e o sono surge como um pren\u00fancio da morte. Poder\u00edamos multiplicar os exemplos, mas importa mais destacar que os \u201cnovos\u201d significados s\u00e3o cuidadosamente constru\u00eddos por proximidade lexical com outros termos ou pela reitera\u00e7\u00e3o narrativa dos motivos, sequencialmente modificados por nuances cumulativas, e v\u00e3o muito al\u00e9m do significado de prolepse, de antecipa\u00e7\u00e3o narrativa, como nos exemplos mencionados da ins\u00f4nia e do sono.<\/p>\n<p>Vamos a um exemplo pr\u00e1tico. Um ponto alto do procedimento do <em>iceberg<\/em> est\u00e1 em um conto em que a parte submersa sequer se liga a palavra efetivamente textualizada: trata-se do conto \u201cColinas como elefantes brancos\u201d.<\/p>\n<p>Um homem e uma mulher \u2013 um casal \u2013 est\u00e3o em cena, em isolada esta\u00e7\u00e3o de trem de uma regi\u00e3o rural. Entre drinques, aguardam o comboio para Madri. A conversa entre eles \u00e9 trivial. A mulher compara, por duas vezes, as colinas que est\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia a elefantes brancos. O homem fala de uma cirurgia, assegura que \u00e9 simples e que tudo sair\u00e1 bem. Em certo momento, a mulher se irrita com ele. Uma atendente do bar informa que o trem chega em cinco minutos. Ele diz que ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o tudo continuar\u00e1 como antes. A mulher se acalma. Tudo indica que ela ir\u00e1 se submeter \u00e0 cirurgia.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo, em nenhum momento, esclarece qual \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o de que eles tratam. Como o narrador funciona t\u00e3o s\u00f3 ao modo de uma c\u00e2mera externa, o leitor precisa deduzir. Um \u00edndice \u00e9 a evoca\u00e7\u00e3o aos elefantes brancos. Na primeira, parecem colinas; na segunda, montanhas. Parecem distantes; na sequ\u00eancia \u2013 com o avan\u00e7o da manh\u00e3 \u2013 a n\u00e9voa dissipa e a claridade aumenta, e ent\u00e3o parecem maiores. Esse movimento sinaliza que dentro dela cresce um feto. A cirurgia que o homem defende \u00e9 um aborto, palavra que nenhum deles menciona.<\/p>\n<p>Nazario real\u00e7a que \u201c[e]lefantes brancos n\u00e3o existem\u201d, que o feto surge assim \u201ccomo algo monstruoso e indesej\u00e1vel que, aparentemente, perturba o casal\u201d. Anota duas falas do homem: em uma, ele assegura que aquele \u00e9 o \u00fanico problema que os perturba; na outra, e como consequ\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo que os deixa infelizes. Nazario anota outros s\u00edmbolos: a esta\u00e7\u00e3o est\u00e1 em um terreno \u00e1rido, exposto \u00e0s inclem\u00eancias da natureza, em particular do sol, enquanto do outro lado est\u00e3o as colinas, as montanhas, as \u00e1rvores e sombreados acolhedores \u2013 \u201cH\u00e1, tamb\u00e9m, campos de cereais, uma clara alus\u00e3o \u00e0 fertilidade\u201d. Os campos sem\u00e2nticos da aridez e da fertilidade se ligam, respectivamente, \u00e0 palavra cirurgia e a termos do campo sem\u00e2ntico indicadores da gravidez e da gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o do conto gira n\u00e3o s\u00f3 em torno de fazer ou n\u00e3o a cirurgia, em ter ou n\u00e3o ter filho, mas em ter ou n\u00e3o ter a vida de sempre, aquele antigo amor conjugal que havia, e que est\u00e1 agora comprometido pela gravidez. Ele assegura que tudo ficar\u00e1 como antes, ela parece n\u00e3o querer o aborto, mas quer mais ainda manter o relacionamento como era antes.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 constru\u00eddo sem ser dito: o mundo \u00e9 representa\u00e7\u00e3o, a vida se faz por fios soltos, desconexos, e os humanos est\u00e3o imersos em impress\u00f5es, ilus\u00f5es \u2013 mas a representa\u00e7\u00e3o da vida literariamente referenciada alinha elementos que lhe d\u00e3o sentido, que esclarecem o fato bruto por diversos \u00edndices que est\u00e3o no seu entorno. \u00c9 o <em>iceberg<\/em> em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cColinas como elefantes brancos\u201d, segundo Nazario, \u201c\u00e9 uma soberba demonstra\u00e7\u00e3o de como Hemingway trabalha por alus\u00f5es\u201d. Trata-se, Nazario conclui, de narrativa que faz o \u201cleitor se sentir perturbado\u201d, exigindo ser \u201c[lido] com aten\u00e7\u00e3o\u201d, para que se chegue ao \u201cn\u00edvel mais profundo [do] conto\u201d, cuja \u201csimplicidade enganadora [\u2026] mostra a complexidade da arte de Ernest Hemingway\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Carlos Baker descreve a constru\u00e7\u00e3o de sentidos e significados simb\u00f3licos pela arquitetura do <em>iceberg<\/em> ao analisar os quarenta e cinco contos das tr\u00eas primeiras colet\u00e2neas de Hemingway, publicadas em 1925, 1927 e 1933: \u201cJuntos ou separados\u201d, ele assevera, \u201cestes contos encontram-se entre os melhores da literatura moderna\u201d: \u201cs\u00e3o t\u00e3o f\u00e1ceis de ler como narrativas puras e diretas que o leitor fica disposto a aceit\u00e1-las pelo seu valor aparente \u2013 contentando-se em admirar as linhas incisivas e as curvas bem n\u00edtidas de um oitavo do <em>iceberg<\/em> que fica acima da superf\u00edcie e ignorar as causas reais da dignidade ou valor do movimento\u201d.<\/p>\n<p>Em outras palavras, como avalia Baker, \u201c[a]pesar de Hemingway se ter exercitado a fundo na observa\u00e7\u00e3o de objetos naturais, sua precis\u00e3o na descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o impedia que esses objetos fossem usados de modo simb\u00f3lico\u201d.<\/p>\n<p>No conto \u201cUm id\u00edlio alpino\u201d, o enredo da morte de uma camponesa \u2013 no inverno, no alto da montanha \u2013 e seu sepultamento, muito tempo depois, tem seu cerne na express\u00e3o \u201cnunca fazer seja o que for por muito tempo\u201d, reiterada algumas vezes no conto. H\u00e1, ainda, a oposi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica entre o alto (montanha) e o baixo (o vale), que carrega cargas do que \u00e9 anormal e do que \u00e9 normal como modo de viver. Assim, passar o inverno em cabana isolada, no alto da montanha, n\u00e3o \u00e9 normal, e por isso desumaniza, enquanto o sol da primavera, no vale, descortina isso por oposi\u00e7\u00e3o, sendo espa\u00e7o natural para a vida. S\u00f3 compreendemos os significados constru\u00eddos pela narrativa ao desvelarmos os s\u00edmbolos que se ocultam sob o enredo naturalista, em que as personagens sempre se portam com atitudes consoantes \u00e0 naturalidade dos momentos vivenciados.<\/p>\n<p>Dois tradutores optam pelo t\u00edtulo \u201cId\u00edlio alpino\u201d e dois por \u201cUm id\u00edlio alpino\u201d para o original \u201cAn alpine idyll\u201d \u2013 e a escolha do t\u00edtulo com artigo indefinido parece mais adequada. O \u00edndice de indetermina\u00e7\u00e3o acresce \u00e0 express\u00e3o certa ironia que antecipa o clima anti-id\u00edlico que \u00e9 retratado, pois \u00e9 conto algo macabro, que tem a morte como assunto central. O narrador e um amigo, assim como o campon\u00eas e sua mulher morta, passaram muito tempo no inverno no alto da montanha. O sol os magoava na montanha e os ofusca no vale. Veem \u00e0 dist\u00e2ncia o sepultamento da mulher, alguns corvos passeiam nos arredores. S\u00e3o dois estrangeiros em um vilarejo na It\u00e1lia. O amigo, cansado, dorme com a cabe\u00e7a na mesa da estalagem. O vi\u00favo vai para um lugar em que n\u00e3o saibam da sua hist\u00f3ria, para beber. E o estalajadeiro e o coveiro, bebendo vinho e cerveja, contam aos dois estrangeiros que o vi\u00favo, ao longo do inverno, pendurava o lampi\u00e3o na boca do cad\u00e1ver congelado pelo inverno rigoroso. Com isso, lhe deformara o rosto, o que s\u00f3 se percebe quando, ao chegar a primavera, o corpo descongela. Agora, ele fora beber em outro lugar; e os estrangeiros, o estalajadeiro e o coveiro bebem enquanto o epis\u00f3dio \u00e9 contado. Eis o fecho do conto:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2013 E agora? \u00ad\u2013 disse John. \u2013 Vamos comer?<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 bem \u2013 eu disse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se percebe, os dois estrangeiros parecem contaminados pela desumaniza\u00e7\u00e3o do marido que ultrajara o cad\u00e1ver da mulher. Eles ainda est\u00e3o contaminados pela longa temporada de inverno no alto da montanha ou s\u00e3o intrinsicamente insens\u00edveis? Como o vi\u00favo, que afirma que amava sua mulher, eles tamb\u00e9m se tornaram objetos que reificam as demais pessoas? S\u00e3o \u201cbestas\u201d ou \u201canimais\u201d (a depender da tradu\u00e7\u00e3o) inumanos, como o estalajadeiro qualifica os camponeses daquela regi\u00e3o?<\/p>\n<p>A vida prossegue para al\u00e9m do conto, e persegui-la ap\u00f3s o final do relato n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Vemos os \u00edndices de morte entremeando a exist\u00eancia e \u00edndices de que a renova\u00e7\u00e3o constante \u00e9 necess\u00e1ria. \u201c\u2013 N\u00e3o se deve fazer uma coisa durante muito tempo\u201d, afirma o amigo do narrador. A primavera encerra o inverno, mas seu sol machuca do mesmo modo. N\u00e3o podemos permitir que ele nos cegue: \u00e9 necess\u00e1rio que nos renovemos sempre, interiorizando a primavera, revivescendo a cada dia, interiormente, como o sol que entra pela janela da estalagem e brilha nas garrafas \u00e0 mesa; o interior da casa os protege das agruras da natureza bruta. No alto da montanha, John se lembrava do gosto da cerveja, que o narrador esquecera. No vale, na estalagem, leem cartas que chegaram, muitas cartas e jornais: a vida pulsa de todos os lados, convoca as personagens, \u00e9 preciso viv\u00ea-la. Mesmo quando se ama \u201cmuito\u201d, como o vi\u00favo amava a mulher (\u00e9 o que ele diz a uma pergunta do padre que cuidou do enterro \u2013 ele, entretanto, profanou seu cad\u00e1ver, por estar na neve, no alto, durante o inverno, por muito tempo \u2013 mas o problema, ou a solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a neve, o alto, a terra ou o vale, o inverno ou a primavera: o problema \u00e9 a n\u00e3o renova\u00e7\u00e3o \u00edntima constante, pois ela leva o homem ao endurecimento emocional, ao inverno de si mesmo, \u00e0 pr\u00f3pria morte \u2013 ainda que continue falando, andando, trabalhando.<\/p>\n<p>No \u201cUm id\u00edlio alpino\u201d, tudo \u00e0 superf\u00edcie pode parecer trivial; no entanto, nas profundezas do <em>iceberg<\/em>, se colhem p\u00e9rolas e pepitas de ouro, na forma de vis\u00e3o de mundo refinada, altamente elaborada na concep\u00e7\u00e3o narrativa e na dimens\u00e3o lingu\u00edstica. De aparente sinal de reifica\u00e7\u00e3o das personagens, as \u00faltimas falas do conto se tornam, no confronto com demais signos constru\u00eddos pela narrativa, ode \u00e0 vida revivificada \u2013 no <em>iceberg<\/em>, muitas vezes, o significado final \u00e9 oposto \u00e0 primeira impress\u00e3o, ao sentido superficial e aparente. Vale sempre mergulhar no <em>iceberg<\/em>, ler e reler, para encontrar as linhas de for\u00e7a do conto e a cosmovis\u00e3o autoral lingu\u00edstica e simbolicamente plasmada.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Baker nos informa que cr\u00edticos atilados contempor\u00e2neos de Hemingway consideravam o conto \u201cO grande rio de dois cora\u00e7\u00f5es\u201d como uma hist\u00f3ria em que nada acontecera\u201d, e \u00e0 qual faltava \u201cinteresse humano\u201d. Hemingway lhes respondeu que eram \u201ccr\u00edticos muito comuns\u201d que n\u00e3o se deram ao \u201ctrabalho de descobrir o que ele tentara fazer\u201d. Um deles concordou que \u201cler de novo o conto foi muito ben\u00e9fico\u201d, pois nele \u201chavia muito mais do que lhe parecera \u00e0 primeira leitura\u201d. Baker comenta: \u201cneste conto, como em toda a obra de Hemingway, algo ocorre abaixo da superf\u00edcie\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO grande rio de dois cora\u00e7\u00f5es\u201d \u00e9 um dos mais extensos contos com a personagem Nick Adams, alter-ego de Hemingway e protagonista de ao menos duas dezenas de narrativas que comp\u00f5em uma esp\u00e9cie de romance de forma\u00e7\u00e3o. O conto est\u00e1 dividido em duas partes: na primeira, Nick chega, no final da tarde, de trem, ao local em que pretende pescar; na segunda, na manh\u00e3 seguinte, faz a primeira pescaria do que anuncia como uma s\u00e9rie de dias pescando. A paisagem, descrita em nota\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, surge como um espa\u00e7o calcinado, em que aos poucos a natureza viva ocupa o lugar de um mal-estar difuso que parece vir de lembran\u00e7as n\u00e3o enunciadas, de uma m\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o antiga que n\u00e3o se esvai. No fecho da primeira parte, ao preparar um caf\u00e9 e o lanche do final da tarde, se lembra de um amigo e da namorada desse amigo, e a mem\u00f3ria indicia que a hist\u00f3ria desse amigo terminou mal.<\/p>\n<p>Tr\u00eas diferentes tradu\u00e7\u00f5es do conto indicam a riqueza da narrativa: em uma, de H\u00e9lio P\u00f3lvora, o t\u00edtulo \u00e9 \u201cO Grande Rio de Dois Cora\u00e7\u00f5es\u201d, grafado como consta em Baker, cujo livro foi traduzido por Fernando de Castro Ferro; na tradu\u00e7\u00e3o de P\u00f3lvora, temos uma \u00fanica narrativa em duas partes. Na tradu\u00e7\u00e3o de A. Veiga Fialho, o t\u00edtulo \u00e9 \u201cO Grande e Generoso Rio\u201d, constando desde o sum\u00e1rio como textos separados em \u201cParte I\u201d e Parte II\u201d. A tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 J. Veiga tamb\u00e9m indica desde o sum\u00e1rio as duas partes: \u201cA Alma dos Rios: Parte I\u201d e \u201cA Alma dos Rios: Parte II\u201d. Em Fialho e Veiga, sob o nome comum, apesar do entrecho sequencial, temos, pois, indica\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o duas narrativas aut\u00f4nomas. A partir do n\u00facleo comum substantivo \u201cRio\u201d, h\u00e1 diferentes adjetivos e complementos: \u201cGrande\u201d, \u201cDois Cora\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cGrande e Generoso\u201d, \u201cAlma\u201d. J\u00e1 por essa lista \u00e9 poss\u00edvel deduzir que o rio se constitui como s\u00edmbolo, com significado metaf\u00f3rico para al\u00e9m do sentido estrito de curso de \u00e1gua que corre em dire\u00e7\u00e3o ao oceano.<\/p>\n<p>A segunda parte do conto \u2013 pois parece mais adequado estruturalmente o considerarmos um \u00fanico conto em duas partes, complementares por espelhamento e nega\u00e7\u00e3o \u2013 tem in\u00edcio na manh\u00e3 do dia seguinte. Nick acorda com o sol j\u00e1 alto, mas n\u00e3o t\u00e3o forte que j\u00e1 tenha feito evaporar o orvalho, prepara o caf\u00e9, recolhe gafanhotos para isca, arruma o acampamento e, em seguida, desce para o rio. A pescaria \u00e9 detalhada \u2013 e assim, sob o signo da concretude naturalista, nos rituais da pesca, as linhas de for\u00e7a que constroem significados s\u00e3o aprofundadas no <em>iceberg<\/em>. A \u00e1gua do rio, a vivacidade da truta, o cuidado de Nick com os peixes; antes disso, a prepara\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, a fritura das panquecas, o embrulhar dos lanches que levar\u00e1 para a pescaria, a arruma\u00e7\u00e3o do acampamento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s pescar diversas trutas, tendo liberado uma pequena, perdido a maior, que rompeu a linha, e guardado no saco as grandes, Nick as limpa, deixa as tripas para as doninhas, lava os peixes abertos no rio e volta para o acampamento. Caminha para cima, pelo campo, vendo o rio correr entre as \u00e1rvores, e o conto termina em discurso indireto livre, com o narrador informando o pensamento, o sentimento de Nick naquele momento: \u201cdispunha de muitos dias para pescar no brejo\u201d (em uma das tradu\u00e7\u00f5es, \u201cno p\u00e2ntano\u201d).<\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio id\u00edlico, em meio \u00e0 natureza, n\u00e3o temos uma narrativa modelar, de exemplaridade moral; o entrecho est\u00e1 firmemente calcado na hist\u00f3ria, no momento presente, industrial, de destrui\u00e7\u00e3o da natureza, de am\u00e1lgama entre o espa\u00e7o humanizado, arruinado, e o espa\u00e7o ed\u00eanico original. Nick se vale das conquistas civilizat\u00f3rias no mesmo passo em que se integra de modo harm\u00f4nico \u00e0 natureza. Seu mal-estar \u00e9 marcado por \u00edndices urbanos, decorre das afli\u00e7\u00f5es sociais, do relacionamento com os amigos, da cidade destru\u00edda, abandonada, do campo queimado nas proximidades da linha f\u00e9rrea; sente-se bem na floresta, na clareira rodeada de \u00e1rvores, na vis\u00e3o do rio e do brejo (ou p\u00e2ntano), ao preparar, solit\u00e1rio, suas refei\u00e7\u00f5es, e ao pescar, cuidando da natureza na qual se refaz dos traumas do passado.<\/p>\n<p>Creio que os \u00edndices anotados dispensam evidenciar que o conto n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria vazia e trivial de um jovem homem que sai para pescar, mas antes o detalhado e minudente rol de escolhas que definem uma cosmovis\u00e3o, uma mundivid\u00eancia completa, cr\u00edtica, \u00e9tica e est\u00e9tica do que deve ser um homem e do que a sociedade que o rodeia n\u00e3o deve ser.<\/p>\n<p>Eis \u2013 pleno, em toda pot\u00eancia, beleza e grandeza do seu movimento \u2013 o <em>iceberg<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Tentemos tornar o que foi exposto em um conceito aplic\u00e1vel, capaz de nortear a escrita, possibilitar a an\u00e1lise, desenvolver novos modos de criar significados em narrativas que pare\u00e7am recortes banais de vidas triviais. A arte do ficcionista e do poeta \u00e9 cifrar os significados em textos nos quais, \u00e0 primeira vista, s\u00f3 h\u00e1 a vida fluindo em sua imensa insignific\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O que se pode dizer aqui, a partir das defini\u00e7\u00f5es anteriores, \u00e9 que o <em>iceberg<\/em> \u00e9 constru\u00eddo pela cristaliza\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos definidos pela retomada de palavras do mesmo campo sem\u00e2ntico (\u00e0s vezes com a repeti\u00e7\u00e3o das mesmas palavras), gerando novos significados que verticalizam a compreens\u00e3o da realidade referenciada.<\/p>\n<p>Em mi\u00fados, o <em>iceberg<\/em>, em literatura, e na li\u00e7\u00e3o de Hemingway, \u00e9 construir e gerar sentidos a partir de cuidadosa sele\u00e7\u00e3o lexical, ordena\u00e7\u00e3o das palavras e sequ\u00eancias narrativas que criam uma arquitetura cuja apar\u00eancia de l\u00f3gica referencial esconde o universo humano e hist\u00f3rico que subjaz \u2013 como vis\u00e3o do mundo por parte do autor \u2013 nas profundidades do texto.<\/p>\n<p>Para dizer de outro modo, o <em>iceberg <\/em>de Hemingway \u00e9 como uma sucess\u00e3o quase invis\u00edvel de epifanias joyceanas \u2013 ou semi-epifanias, hemingwayanas \u2013 sutilmente pinceladas ao longo do texto. Veremos a epifania proposta por James Joyce em uma pr\u00f3xima aula do Curso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>\u00c9 de todo conveniente apresentar, graficamente, em desenhos, como o <em>iceberg<\/em> liter\u00e1rio \u00e9 constru\u00eddo \u2013 <strong>eis a proposta de atividade que fica desta aula<\/strong>: fa\u00e7a uma sequ\u00eancia de ilustra\u00e7\u00f5es que mostre, passo a passo, a constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da proposta de escrita liter\u00e1ria elaborada e realizada por Hemingway \u2013 e incorpore desde j\u00e1 tal t\u00e9cnica ao seu modo de pensar a literatura, na constru\u00e7\u00e3o de novas narrativas e de novos poemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quer dialogar?<\/p>\n<p>Escreva-me pelo e-mail &lt; <a href=\"mailto:rauer.rodrigues@ufms.br\"><u>rauer.rodrigues@ufms.br<\/u><\/a> &gt;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Rauer Ribeiro Rodrigues<\/strong><br \/>\nProfessor; escritor; em travessia<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ARTE DE ESCREVER:<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o importante<\/strong>:\u00a0O Prof. Rauer ministrou, no primeiro semestre de 2020 e em semestre anterior, h\u00e1 alguns anos, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Letras \/ Estudos Liter\u00e1rios do C\u00e2mpus de Tr\u00eas Lagoas da UFMS, um Curso de Escrita Criativa; a nosso pedido, alguns dos textos que serviram de diretriz para as aulas, aqui comentados pelo professor, vem sendo publicados no Blog da Editora Pangeia nos \u00faltimos meses e continuar\u00e3o a ser publicados, sempre na \u00faltima sexta-feira de cada m\u00eas. Al\u00e9m dos textos que ent\u00e3o utilizou no curso, o professor vem incluindo outros, ampliando o escopo do curso para um p\u00fablico al\u00e9m dos estudantes universit\u00e1rios. N\u00e3o perca! Vale a pena acompanhar. (<strong>Rizio Macedo<\/strong>, Editor, Editora Pangeia).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>AULAS ANTERIORES DESTA S\u00c9RIE<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/como-publicar-seu-livro\/\">Apresenta\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0<\/strong>\u2013 Como publicar seu livro<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-1-as-oito-licoes-de-isaac-babel\/\">Aula 1<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Oito li\u00e7\u00f5es de Isaac Babel<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-2-os-segredos-da-ficcao-segundo-raimundo-carrero\/\">Aula 2<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Segredos da fic\u00e7\u00e3o, por Raimundo Carrero<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-3-evite-verbos-de-pensamento-essa-e-a-dica-de-palahniuk\/\">Aula 3<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Palahniuk: evite verbos de pensamento e outras dicas<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-4-dicas-de-15-escritoras\/\">Aula 4<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Quinze escritoras e as min\u00facias da Arte de Escrever<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-5-29-aforismos-sobre-o-microconto\/\">Aula 5<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 29 aforismos sobre o microconto<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-6-dicas-ao-escrever-para-criancas-e-para-jovens\/\">Aula 6<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Para escrever para\u00a0crian\u00e7as e jovens<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-7-o-haikai-sintese-concisao-e-expressividade\/\">Aula 7<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 S\u00edntese e concis\u00e3o na escrita do haikai<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-8-hemingway-33-dicas-e-leituras-indicadas-para-um-jovem-escritor\/\">Aula 8<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 33 dicas de escrita de Hemingway<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-9-tecnica-e-engenho-ao-escrever-para-cinema-e-televisao\/\">Aula 9<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 T\u00e9cnica e engenho na escrita para tev\u00ea e cinema<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-10-kafka-e-a-arte-de-escrever\/\">Aula 10<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 A arte de escrever na vis\u00e3o de Franz Kafka<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-11-stephen-king-as-ferramentas-e-outras-dicas-sensacionais-do-livro-on-writing\/\">Aula 11<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Ferramentas e dicas de Stephen King<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-12-a-concisao-do-infinito-com-antologia-de-microcontos\/\">Aula 12<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 A concis\u00e3o do infinito, com antologia de microcontos<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-13-as-licoes-de-camus-autor-de-a-peste\/\">Aula 13<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 As li\u00e7\u00f5es de Camus, autor de \u201cA peste\u201d<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-14-vamos-reinventar-o-soneto\/\">Aula 14<\/a><\/strong>\u00a0\u2013 Vamos reinventar o soneto?<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-15-defina-sua-profissao-de-fe-no-ato-de-escrever\/\">Aula 15<\/a><\/strong> \u2013 Defina sua \u201cprofiss\u00e3o de f\u00e9\u201d no ato de escrever<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><span style=\"color: #993366;\">Links descritivos de todos os artigos da s\u00e9rie<\/span><\/a><br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #993300;\"><a style=\"color: #993300;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><strong>A ARTE DE ESCREVER \u2013 AQUI!!!<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">EDITORA PANGEIA:<br \/>\nCONFIRA PORQUE PUBLICAR NA PANGEIA:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/publique-na-pangeia\/\"><span style=\"color: #993366;\"><strong>AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><u><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/sobre\/\">Quem Somos &#8211; Valores<\/a><\/u><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/publique\/\"><u>Or\u00e7amento<\/u><\/a>:<br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"mailto:publiqueconosco@editorapangeia.com.br\">publiqueconosco@editorapangeia.com.br<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; \u201cThe dignity of movement of an iceberg is due to only one-eight of it being above water.\u201d Ernest Hemingway *\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 * \u201cPara nos envolvermos com a literatura\u201d, afirma Anthony Burgess sobre a obra de Hemingway, \u201cprimeiro precisamos nos envolver com a vida.\u201d Com essa considera\u00e7\u00e3o, Burgess encerra a biografia Ernest Hemingway, lan\u00e7ada&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[79],"tags":[101,88,4395,177,84,85,80,64,75,86,81,90,178],"class_list":["post-6525","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cursos","tag-a-arte-de-escrever","tag-aprendizado","tag-arte-da-escrita","tag-arte-de-escrever","tag-criativa","tag-criatividade","tag-curso","tag-editora-pangeia","tag-escrever","tag-ficcao","tag-gratuito","tag-hemingway","tag-iceberg"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6525"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6525\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18881,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6525\/revisions\/18881"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}