{"id":6481,"date":"2020-06-26T13:27:41","date_gmt":"2020-06-26T13:27:41","guid":{"rendered":"http:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=6481"},"modified":"2025-04-11T12:04:57","modified_gmt":"2025-04-11T12:04:57","slug":"a-arte-de-escrever-14-vamos-reinventar-o-soneto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/a-arte-de-escrever-14-vamos-reinventar-o-soneto\/","title":{"rendered":"A ARTE DE ESCREVER 14 &#8211; Vamos reinventar o Soneto?"},"content":{"rendered":"<p>Um escritor somente se realiza na plenitude criativa se o ato de escrever \u00e9 completamente liberto de qualquer censura, de quaisquer constrangimentos, de qualquer \u00f3bice, limite, restri\u00e7\u00e3o. O ato de escrever deve se defrontar somente consigo mesmo e, encontrando qualquer resist\u00eancia ou aporia, deve desafiar a circunst\u00e2ncia, deve superar os desafios, deve apostar para al\u00e9m dos limites estatu\u00eddos, deve ir al\u00e9m de si mesmo, deve ir muito al\u00e9m dos limites do pr\u00f3prio autor. O criador deve sempre ser muito maior que o escritor, o ser de carne e osso, ente civil circunscrito, hom\u00fanculo muitas vezes desprez\u00edvel. Escrever literatura \u00e9 sempre uma forma de transcender.<\/p>\n<p>No entanto, o ato de escrever \u00e9 sempre aprioristicamente definido por par\u00e2metros hist\u00f3ricos e contextuais oriundos da hist\u00f3ria da literatura e pela bagagem de leitura do escritor. Um dos condicionantes se d\u00e1 pela defini\u00e7\u00e3o dos g\u00eaneros liter\u00e1rios, seus subg\u00eaneros, suas tipologias, suas formas, seus estilos de \u00e9poca e suas escolas liter\u00e1rias, como motivos, maneirismos, constantes tem\u00e1ticas, narrativas, po\u00e9ticas ou estil\u00edsticas, al\u00e9m de contextos hist\u00f3ricos na amplitude da cultura, da pol\u00edtica, dos costumes, ou nas conting\u00eancias da fam\u00edlia, do cl\u00e3 ou da urbe.<\/p>\n<p>A liberdade se d\u00e1, pois, por escolhas que circunscrevem e delimitam o ato livre da escrita, e a escrita \u00e9 o exerc\u00edcio das op\u00e7\u00f5es que realizam a pot\u00eancia de romper cadeias. A literatura \u00e9 uma esp\u00e9cie de sublima\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia er\u00f3tica em libera\u00e7\u00e3o plena \u2013 denegar tal liberdade significa destituir o ato liter\u00e1rio de se realizar, significa constrang\u00ea-lo ao papel de discurso utilit\u00e1rio, monovalente, significa abort\u00e1-lo, mat\u00e1-lo e sepult\u00e1-lo no mesmo gesto que o pretendia criar. Sem ser exerc\u00edcio pleno da liberdade, a literatura fenece antes mesmo de existir.<\/p>\n<p>O desafio do autor-criador se coloca, pois, em manter a chama viva da liberdade criativa circunscrito pelos g\u00eaneros, pelas formas, pelos <em>leitmotiv<\/em>, pelos <em>topos<\/em>, pelas demais escolhas que indiciam as margens entre as quais o caudaloso rio da cria\u00e7\u00e3o se desenvolve. H\u00e1 que ter engenho e arte, como anotou Cam\u00f5es \u2013 o engenho configurando o conhecimento de um <em>logos<\/em>, da raz\u00e3o de ser da cria\u00e7\u00e3o em ato, e a palavra arte indicando o instrumental, a <em>poiesis<\/em>, e o pleno dom\u00ednio dos meios expressivos.<\/p>\n<p>Tratamos hoje da forma can\u00f4nica soneto, que h\u00e1 oitocentos anos est\u00e1 entre as mais utilizadas pelos poetas. Nosso desafio \u00e9 compreend\u00ea-la e apreend\u00ea-la para reinvent\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Para destrinchar o soneto, tratemos, antes, de forma breve, da poesia, para estudarmos a constru\u00e7\u00e3o do poema sob duas perspectivas: a da forma geral da l\u00edrica e a da f\u00f4rma, com a fixa\u00e7\u00e3o de um modelo que cria uma tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No poema, manifesta\u00e7\u00e3o verbal da poesia, a import\u00e2ncia da forma mais se patenteia, seja pela ocupa\u00e7\u00e3o espacial e gr\u00e1fica da p\u00e1gina, seja pelo ritmo imposto nas pe\u00e7as de poesia, seja pela expressividade que se busca em textos sint\u00e9ticos de manifesta\u00e7\u00e3o \u00edntima, seja pela tradi\u00e7\u00e3o da l\u00edrica, cujo di\u00e1logo com a m\u00fasica se estabelece \u2014 para al\u00e9m do acompanhamento com instrumentos \u2014 pelo ritmo, pelas asson\u00e2ncias, pelas alitera\u00e7\u00f5es, pelas rimas e por outras figuras de linguagem. Em clave diversa, se na prosa o tema caminha para uma impress\u00e3o que solicita um <em>logos<\/em>, no poema a manifesta\u00e7\u00e3o do eu-l\u00edrico indicia certa cumplicidade entre emissor e receptor, entre o enunciador e o enunciat\u00e1rio, constr\u00f3i um sentir compassivo cujo conhecimento se instaura pelo <em>pathos<\/em>.<\/p>\n<p>A forma e a f\u00f4rma do poema desempenham papel decisivo para estabelecer significados, para al\u00e9m da semiose do l\u00e9xico, pela evoca\u00e7\u00e3o intertextual e pelo di\u00e1logo com os grandes e perenes fluxos culturais e liter\u00e1rios. Desse modo, a longa tradi\u00e7\u00e3o, can\u00f4nica, do soneto petrarquiano na literatura portuguesa, e da matriz lusa para a literatura brasileira, vem acompanhada pelos <em>topos<\/em> que os grandes poetas da l\u00edngua imprimiram \u00e0 forma.<\/p>\n<p>O eu-l\u00edrico arquet\u00edpico do soneto \u00e9 um ser entre a dualidade do amor e a ang\u00fastia da exist\u00eancia, ontologia em que diversos temas se plasmam, e que vivencia experi\u00eancias maceradas na intimidade do ser, no cerne do existir, buscando os limites da capacidade de express\u00e3o lingu\u00edstica da l\u00edngua. A manifesta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, assim forjada, insere no universo liter\u00e1rio a semiose de sujeito, o poeta que delega voz a um eu-l\u00edrico distinto da sua pessoa f\u00edsica e civil, que se instaura em uma determinada circunst\u00e2ncia, em um <em>hic et nunc<\/em> irrepet\u00edvel.<\/p>\n<p>O conhecimento forjado nas teias do soneto, definido pela forma e plasmado pela f\u00f4rma, \u00e9 o que o enunciado deve prover e que cabe ao eu-l\u00edrico construir \u2014 pois a literatura \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, constructo, manipula\u00e7\u00e3o do verbo. \u00c9 o deslinde da estrutura edificada, os andaimes da forma, as evoca\u00e7\u00f5es da f\u00f4rma, que o analista deve buscar, desvelando a carpintaria intentada e o edif\u00edcio constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Alguns autores postulam altern\u00e2ncia entre o apol\u00edneo e o dionis\u00edaco ao longo da sequ\u00eancia em diacronia das escolas liter\u00e1rias. H\u00e1, no entanto, perman\u00eancias e antecipa\u00e7\u00f5es de caracter\u00edsticas est\u00e9ticas, de modo que sempre subjaz, sob o dom\u00ednio de determinada est\u00e9tica em determinado tempo, nuances art\u00edsticas e liter\u00e1rias pret\u00e9ritas ou que adiantam t\u00f3picas que ter\u00e3o preval\u00eancia em ciclo posterior. Ainda assim, a f\u00f4rma sempre condicionou a forma, mesmo quando o soneto serviu \u00e0 s\u00e1tira ou a t\u00f3picas que o distanciavam da sua matriz inicial \u2014 a ang\u00fastia do existir e a ambival\u00eancia amorosa, indo do platonismo idealizado a exaltado desejo carnal.<\/p>\n<p>Por exemplo, ap\u00f3s o romantismo, j\u00e1 em si movimento inserto na corrente da modernidade, e \u2014 no Brasil \u00ad\u2014 antes do assim denominado modernismo, as hist\u00f3rias da literatura registram, com destaque e em simultaneidade, dois estilos de \u00e9poca: o parnasianismo e o simbolismo, movimentos po\u00e9ticos em paralelo ao realismo-naturalismo na fic\u00e7\u00e3o. Parnasianismo e simbolismo t\u00eam por modo preferencial de manifesta\u00e7\u00e3o a poesia, e, como forma regularmente constante do poema, o soneto. E se, do ponto de vista do sentimento \u00edntimo que anima cada escola, o soneto lhes serve \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, os <em>ethos<\/em> de cada estilo se configuram muito diversos entre si. \u00c9 poss\u00edvel conjecturar que a coexist\u00eancia temporal e espacial tenha beneficiado aos cultores do soneto em ambas os estilos.<\/p>\n<p>Eis, abaixo, em dois sonetos, similitudes formais em diferentes estilos de \u00e9poca para, ao as destrinchar em detalhe, evidenciar, na fatura final, poemas que comp\u00f5em <em>pathos<\/em> muito diversificados na versifica\u00e7\u00e3o, ritmo, rimas, e outros recursos formais, al\u00e9m de outras escolhas po\u00e9ticas que os fazem t\u00e3o diversos entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">OS B\u00c1RBAROS<br \/>\nOlavo Bilac<br \/>\n(RJ, 1865-1918)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ventre nu, seios nus, toda nua, cantando<br \/>\nDo esmorecer da tarde ao ressurgir do dia,<br \/>\nRoma lasciva e louca, ao rebarbar da orgia,<br \/>\nSonhava, de tricl\u00ednio em tricl\u00ednio rolando.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Mas j\u00e1 da longe C\u00edtia e da Germ\u00e2nia fria,<br \/>\nEsfaimado, rangendo os dentes, como um bando<br \/>\nDe lobos o sabor da presa antegozando,<br \/>\nO tropel rugidor dos B\u00e1rbaros descia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ei-los! A erva, aos seus p\u00e9s, mirra. De sangue cheios<br \/>\nTurvam-se os rios. Louca, a floresta farfalha\u2026<br \/>\nE ei-los, \u2014 torvos, brutais, cabeludos e feios!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Donar, Pai da Tormenta, \u00e0 frente deles corre;<br \/>\nE a \u00edgnea barba do deus, que o inc\u00eandio ateia e espalha\u2026<br \/>\nIlumina a agonia a esse imp\u00e9rio que morre\u2026<\/p>\n<p>Temos versos dodecass\u00edlabos, em estrutura de rimas em abba\/baab\/cdc\/ede, abordando tema hist\u00f3rico da antiguidade cl\u00e1ssica, que parece indiciar uma reflex\u00e3o do choque entre a civiliza\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a. Trata-se de pe\u00e7a que liricamente canta a queda de Roma diante dos b\u00e1rbaros que intitulam o poema. Al\u00e9m do encadeamento vigoroso entre os dois quartetos e os dois tercetos ao entrela\u00e7ar as rimas, h\u00e1 logo do primeiro para o segundo verso um <em>enjabement<\/em>, com o per\u00edodo se espraiando para, ao se alongar, indicar a extens\u00e3o das lasc\u00edvias a que se entregavam os romanos. Os dois versos, na sua longa languidez, \u00e9 a pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o dos prazeres que se estendiam da tarde de um dia ao amanhecer do dia seguinte. A forma est\u00e1 em perfeita conson\u00e2ncia com o significado lexicalmente constru\u00eddo.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m a interrela\u00e7\u00e3o das rimas similares mas diversamente constru\u00eddas entre os dois quartetos forjam sentidos: \u00e9 como se o destino de morte do Imp\u00e9rio Romano estivesse de modo umbilical relacionado e em diametral oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pujan\u00e7a dos b\u00e1rbaros. Vejamos.<\/p>\n<p>O esquema das rimas dos quartetos \u00e9 abba\/baab \u2014 ou seja, \u00e9 o mesmo sem ser o mesmo, \u00e9 um espelho distorcido, \u00e9 continuidade em rompimento. O <em>enjabement<\/em>, que tamb\u00e9m existe no segundo quarteto, surge, no entanto, entre o segundo e o terceiro versos. O ritmo tamb\u00e9m se faz de modo diferente: em Roma, o primeiro verso \u00e9 entrecortado e o segundo \u00e9 fluido, sem v\u00edrgulas; j\u00e1 para os b\u00e1rbaros, o primeiro verso flui como a cavalaria que avan\u00e7a, e o segundo \u00e9 entrecortado por v\u00edrgulas.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o entre os dois quartetos e seus respectivos universos culturais se faz tamb\u00e9m pelo cen\u00e1rio e figuras que surgem na cena: em Roma, corpos femininos nus e objetos interiores de lazer (os tricl\u00ednios), no lapso temporal \u201cda tarde ao ressurgir do dia\u201d; do lado dos B\u00e1rbaros, com a palavra grafada com inicial mai\u00fascula, o espa\u00e7o de origem \u00e9 frio e eles s\u00e3o comparados a lobos esfaimados a ranger dentes, em \u201ctropel rugidor\u201d\u00ad\u2014 e aqui outra diferen\u00e7a emerge com vigor: a sele\u00e7\u00e3o lexical do primeiro quarteto, com predomin\u00e2ncia de suaves sibilantes, emula a lassid\u00e3o org\u00edaca e despreocupada, enquanto as fricativas agressivas do segundo quarteto anuncia o vigor b\u00e1rbaro em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A forma, sempre, em perfeita conson\u00e2ncia com o sentido, qualquer que seja o ponto em an\u00e1lise. E ap\u00f3s essa oposi\u00e7\u00e3o magistralmente edificada pelos quartetos, a constru\u00e7\u00e3o dos tercetos amplifica a for\u00e7a dos b\u00e1rbaros at\u00e9 o golpe final sobre a dissoluta Roma, \u201cimp\u00e9rio que morre\u201d, e que no poema volta \u00e0 cena somente para encerrar o soneto. Ap\u00f3s essa li\u00e7\u00e3o parnasiana, vejamos agora uma pe\u00e7a simbolista.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SANTO GRAAL<br \/>\nAlphonsus Guimaraens<br \/>\n(MG, 1870-1921)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se a tenta\u00e7\u00e3o chegar, h\u00e1 de achar-me rezando<br \/>\nNa erma Tebaida do meu sonho solit\u00e1rio.<br \/>\n(Mis\u00e9ria humana, humano v\u00edcio miserando,<br \/>\nN\u00e3o haveis de poluir as h\u00f3stias no Sacr\u00e1rio\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se a tempestade vier, h\u00e1 de achar-me chorando,<br \/>\nE como dobrareis, sinos do Campan\u00e1rio!<br \/>\nSubirei \u00e0 montanha eleita orando, orando\u2026<br \/>\nN\u00e3o \u00e9s t\u00e3o longa assim, ladeira do Calv\u00e1rio!)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se a tenta\u00e7\u00e3o chegar, h\u00e1 de achar-me de joelhos,<br \/>\n(Mis\u00e9ria humana, humanidade miseranda\u2026)<br \/>\nMaldizendo a trai\u00e7\u00e3o dos seus l\u00e1bios vermelhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se a tempestade vier, e eu cair, nesse dia<br \/>\nPiedosamente irei pela terra em demanda<br \/>\nDe ti, \u00f3 Santo Graal, Vaso da Eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Kiriale<\/em> (1902)<\/p>\n<p>O ritmo da leitura do poema flui entre o majestoso e o solene, entre o orat\u00f3rio e a genuflex\u00e3o, pelos longos versos que oscilam de treze para catorze s\u00edlabas po\u00e9ticas, e por per\u00edodos com reverbera\u00e7\u00f5es sonoras, das rimas \u00e0s asson\u00e2ncias, opondo o eu-l\u00edrico que se angustia vivenciando a tenta\u00e7\u00e3o er\u00f3tica e tendo em si a condena\u00e7\u00e3o do peso do pecado, internalizada e reiterada como tempestade, e tisnada como polui\u00e7\u00e3o, maldi\u00e7\u00e3o e queda.<\/p>\n<p>O esquema das rimas, em abab\/abab\/cac\/dad, reitera em todas as estrofes uma rima em ger\u00fandio tornada, ao final, rica, com a emers\u00e3o de um adv\u00e9rbio e um substantivo nos tercetos, e com um substantivo no primeiro quarteto. Mais do que rica, a rima d\u00e1 amplitude, surpreende, rompendo o que poderia ser um ritmo mon\u00f3tono por cad\u00eancia apaziguadora, de evanescente espiritualidade.<\/p>\n<p>Chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m as interpola\u00e7\u00f5es, pelos par\u00eanteses, nas tr\u00eas primeiras estrofes (nos versos de n\u00famero 3-4, 8 e 10), e a reitera\u00e7\u00e3o anaf\u00f3rica lexical e conceitual na abertura das quatro estrofes, com a condicional \u201cSe a\u201d modulada pelo sema \u201ctenta\u00e7\u00e3o\u201d nas estrofes \u00edmpares e \u201ctempestade\u201d nas estrofes pares, como a dizer que o aceite da tenta\u00e7\u00e3o f\u00edsica implica em vivenciar a tempestade \u00edntima. Nessa dualidade se constr\u00f3i o poema, entrela\u00e7ando v\u00edcio e calv\u00e1rio, ambos superados, ao fim, pelo encontro do Graal na Eucaristia.<\/p>\n<p>Em todos os aspectos elencados, vemos que a forma se integra \u00e0 f\u00f4rma e ambas est\u00e3o amalgamadas \u00e0 sem\u00e2ntica: o soneto se torna penit\u00eancia e salva\u00e7\u00e3o do pecador.<\/p>\n<p>Debrucemo-nos agora, ainda que rapidamente, sobre um soneto de Pedro Kilkerry, singular escritor que decorava seus poemas, uma parte deles recuperados postumamente, em parte, em folhas soltas. \u00c9 uma poesia com laivos simbolistas, herm\u00e9tica e estranha, fruto da leitura no original de poetas de distintas tradi\u00e7\u00f5es, como Homero, Dante, Shakespeare, Milton, Mallarm\u00e9, Baudelaire, Rimbaud e Laforgue, e ficcionistas ou fil\u00f3sofos como Sterne, Nietzsche, Poe e Flaubert.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ZERO<br \/>\nPedro Kilkerry<br \/>\n(BA, 1885-1917)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Belo Amor, a olhar da Alma&#8230; E o \u00d3dio \u00e9 fusco! E \u00e9 vesga a Inveja<br \/>\nPor que atr\u00e1s da Ilus\u00e3o, na vontade tens asas?<br \/>\nPor que, no orgulho da Obra, ap\u00f3s o do Eu, te abrasas,<br \/>\nSe a Morte \u2014 Ursa polar \u2014 invis\u00edvel fareja?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Homens-restos de Ra\u00e7a, e corres tu e atrasas<br \/>\nEsmagado do p\u00e9 de um deus, que te n\u00e3o veja<br \/>\nNem a dor que em teu peito, um grande Sol, dardeja&#8230;<br \/>\nOh! os sonhos caem, como as pedras, como as casas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tudo se acabar\u00e1! No futuro, espreitando,<br \/>\nA figura do Caos, sinistramente ansiada,<br \/>\nPor um Como \u00e9 que espera e a trag\u00e9dia de um Quando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E comido do Frio ou do Fogo comido,<br \/>\nO Mundo h\u00e1 de rolar \u2014 um Zero desmedido \u2014<br \/>\nTragado pela boca espantosa do Nada!<\/p>\n<p>O poeta trata da morte (nono e d\u00e9cimo quarto versos) com a certeza de que o homem \u00e9 um resto do universo que transita sua grande dor na vida carregando sentimentos os mais mesquinhos, perdendo seus sonhos pela trajet\u00f3ria. Essa caminhada consta dos dois quartetos. Os tercetos anunciam de imediato que \u201cTudo se acabar\u00e1!\u201d, mas que o homem \u00e2nsia pelo Caos que vir\u00e1 como trag\u00e9dia \u2014 e assim, ap\u00f3s anunciar que o Mundo \u00e9 \u201cZero desmedido\u201d, o homem \u00e9 \u201cTragado pela boca espantosa do Nada!\u201d<\/p>\n<p>O poema \u00e9 constru\u00eddo com versos de treze s\u00edlabas. Entretanto, o primeiro verso do soneto cont\u00e9m 24 s\u00edlabas gramaticais, que s\u00e3o aglutinadas com viol\u00eancia para as treze s\u00edlabas po\u00e9ticas. Ao abrir o poema com uma profus\u00e3o de sin\u00e9reses e sinalefas (termos t\u00e9cnicos de escans\u00e3o para diferentes aglutina\u00e7\u00f5es de s\u00edlabas), o poema produz ao menos dois efeitos imediatos: um profundo estranhamento, a partir do qual a letargia d\u00e1 lugar \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o de leitura, truncada por duas pausas por acentua\u00e7\u00e3o (retic\u00eancias e exclama\u00e7\u00e3o), ambos os travamentos rompidos pela conjun\u00e7\u00e3o aditiva \u201ce\u201d. Assim se instaura deslizamentos gramaticais e po\u00e9ticos v\u00e1rios que instauram o efeito de paradoxo sobre o qual o poema \u00e9 constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Se a utiliza\u00e7\u00e3o de Mai\u00fasculas marca palavras que se tornam signos conceituais, ao modo do Simbolismo, o que nos \u00e9 habitual, a estrutura de rimas termina tamb\u00e9m por referendar a estranheza e jogo de paradoxos acima anotado. O esquema em abba\/abba\/cdc\/eed tem as tr\u00eas primeiras estrofes ao modo tradicional e o \u00faltimo terceto, com o \u00faltimo verso (14\u00ba.) rimando com o 10\u00ba, o que \u00e9 inusual.<\/p>\n<p>Outro elemento de estranheza \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o verbal e fluidez na constru\u00e7\u00e3o do terceto final, em contraste com aquele falso alongamento com paradas e reengates imediatos do primeiro quarteto. O jogo de paradoxos transita dos versos e da sem\u00e2ntica para a estrutura formal.<\/p>\n<p>Desse modo, a cr\u00edtica ao vazio do cotidiano e o profundo niilismo existencial do soneto est\u00e3o no l\u00e9xico, no ritmo, nas rimas, na estrutura, no estranhamento e na fluidez, nos paradoxos e nos conceitos evocados. Forma, f\u00f4rma e sem\u00e2ntica est\u00e3o amalgamados, entranhados um no outro, coalescentes para constru\u00edrem o poema, gerarem sentidos, impactarem o <em>logos<\/em> por um <em>pathos<\/em> apreendido sensorialmente e intelectualmente.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas poemas apresentam certo tom narrativo, e ainda assim alcan\u00e7am o alto <em>ethos<\/em> po\u00e9tico que caracterizam os grandes poetas \u2014 seja o mestre parnasiano Bilac, o g\u00eanio simbolista Cruz e Sousa ou o diferenciado Kilkerry. Todos eles t\u00eam rimas e ritmos diferentes, constroem diversos t\u00f4nus sonoros, indiciam diferentes vis\u00f5es da poesia, da Hist\u00f3ria e da transcend\u00eancia; ainda assim, os tr\u00eas est\u00e3o inseridos e se circunscrevem no \u00e2mbito da forma e da f\u00f4rma herdadas da hist\u00f3ria da literatura mundial.<\/p>\n<p>Deste modo, podemos afirmar que, no soneto, forma e conte\u00fado constroem, e definem, impregnados pela f\u00f4rma, o estatuto do liter\u00e1rio. Voltemos a nosso percurso hist\u00f3rico para verificarmos momentos de inven\u00e7\u00e3o e \u2014 o que \u00e9 o nosso objetivo maior \u2014 propormos possibilidades de reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o que teve em Petrarca (1304-1374) o primeiro mestre, o soneto fixou, como vimos, a forma cl\u00e1ssica dos catorze versos, divididos em dois quartetos e dois tercetos; no nascedouro, seu tema mais constante o amor, motivo que ainda se mant\u00e9m em nossos dias. Tal t\u00f3pica, na forma e na f\u00f4rma, chega a Portugal no Classicismo, tendo em Cam\u00f5es (1524-1580) um seguidor dedicado e expressivo.<\/p>\n<p>Nomear, na literatura portuguesa ou nas literaturas rom\u00e2nicas, os cultores do soneto seria fazer a pr\u00f3pria historiografia das respectivas literaturas, com amplo recenciamento dos principais poetas, dos poetas menores e at\u00e9 dos poetas sem nenhuma express\u00e3o. Vamos, pois, a varia\u00e7\u00f5es, a inven\u00e7\u00f5es a partir do quadro can\u00f4nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Iniciemos pelo assim nomeado soneto ingl\u00eas. Foi a f\u00f4rma cultivada por William Shakespeare e se apresenta com tr\u00eas quartetos e um d\u00edstico final; muitas vezes a mancha gr\u00e1fica se apresenta de modo cont\u00ednuo, como uma \u00fanica estrofe em que os dois versos finais ficam destacados com recuo adentrado. O soneto ingl\u00eas tem sua for\u00e7a no <em>topos <\/em>existencial, nas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas ou em medita\u00e7\u00f5es sobre a vida, a morte e o tempo.<\/p>\n<p>O d\u00edstico final destaca a \u201cchave de ouro\u201d, em que uma senten\u00e7a lapidar, memor\u00e1vel, sintetiza em fecho a vis\u00e3o do eu-l\u00edrico sobre o tema do soneto. Assim conceber e construir o \u00e1pice do poema, de modo a causar forte impress\u00e3o com o crescimento f\u00f3rico-t\u00edmico do discurso, pela \u2014 passe o paradoxo \u2014 \u00faltimo racioc\u00ednio do <em>logos<\/em> amplificando ao limite o <em>pathos<\/em>.<\/p>\n<p>Shakespeare n\u00e3o nomeou seus sonetos e eles s\u00e3o apresentados em sequ\u00eancia indicada por numerais romanos. Vamos ao Soneto cinquenta e cinco.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">LV<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">William Shakespeare<br \/>\n(1564-1616)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Nem m\u00e1rmore, nem \u00e1ureos monumentos<br \/>\nDe reis h\u00e3o de durar mais que esta rima,<br \/>\nE sempre h\u00e1s de brilhar nestes acentos<br \/>\nDo que na pedra, pois o tempo a lima.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pode a est\u00e1tua na guerra ser tombada<br \/>\nE a cantaria o vil motim destrua;<br \/>\nNem fogo ou Marte apagar\u00e1 com a espada<br \/>\nVivo registro da mem\u00f3ria tua.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">H\u00e1 de seguir teu passo sobranceiro<br \/>\nVencendo a Morte e as legi\u00f5es do olvido,<br \/>\nE os p\u00f3steros, no ju\u00edzo derradeiro,<br \/>\nH\u00e3o de a este louvor prestar ouvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pois at\u00e9 a senten\u00e7a que levantes,<br \/>\nVives aqui e no l\u00e1bio dos amantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O poema \u00e9 constru\u00eddo em decass\u00edlabos, m\u00e9trica mais constante nos sonetos. Apesar da mancha \u00fanica e uniforme nos doze primeiros versos, a pontua\u00e7\u00e3o indica os tr\u00eas quartetos, cada um deles em rimas alternadas (cruzadas). Por sua vez, o d\u00edstico final se faz por rima emparelhada. O esquema est\u00e1 em abab\/cdcd\/efef\/gg, sem retomada de rimas anteriores, na progress\u00e3o argumentativa e no adensamento po\u00e9tico da oposi\u00e7\u00e3o das vangl\u00f3rias terrenas \u00e0 perenidade da poesia, que no final \u00e9 tamb\u00e9m amor.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sem nomea\u00e7\u00e3o, indicado por n\u00fameros, foram publicados os assim nomeados \u201csonetos luxuriosos\u201d de Pietro Aretino. E s\u00e3o luxuriosos pela expans\u00e3o estr\u00f3fica e pelo tema constante do amor carnal desbragado. A caracter\u00edstica formal que o distingue do soneto criado por Petrarca \u00e9 o acr\u00e9scimo de um terceiro terceto (cujo primeiro verso \u00e9 hexass\u00edlabo e n\u00e3o em decass\u00edlabo, como os demais do poema). A t\u00f3pica da carnalidade sexual e o di\u00e1logo fescenino entre os amantes integra o pensamento do poeta, que defendia que o corpo nu em c\u00f3pula produziu \u201ccriaturas belas\u201d, enquanto as m\u00e3os humanas \u201cdissipam o dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usur\u00e1rios, torturam a alma, ferem e matam\u201d.<\/p>\n<p>Vejamos o primeiro dos <strong><em>Sonetti lussuriosi<\/em><\/strong>, no italiano original.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">1<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pietro Aretino<br \/>\n(1492-1556)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Questo \u00e8 un libro d\u2019altro che sonetti,<br \/>\n<\/em><em>Di capitoli, d\u2019egloghe o canzone,<br \/>\n<\/em><em>Qui il Sannazaro o il Bembo non compone<br \/>\n<\/em><em>N\u00e8 liquidi cristalli, n\u00e8 fioretti.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Qui il Marignan non v\u2019ha madrigaletti,<br \/>\n<\/em><em>Ma vi son cazzi senza discrizione<br \/>\n<\/em><em>E v\u2019\u00e8 la potta e \u2018l cul, che li ripone<br \/>\n<\/em><em>Appunto come in scatole confetti.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vi son gentil fottenti e fottute<br \/>\n<\/em><em>E di potte e di cazzi notomie<br \/>\n<\/em><em>E ne\u2019 culi molt\u2019anime perdutte.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Qui vi si fotte in pi\u00f9 leggiadre vie,<br \/>\n<\/em><em>Ch\u2019in alcun loco si sien mai vedute<br \/>\n<\/em><em>Infra le puttanesche gerarchie;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 In fin sono pazzie<br \/>\n<\/em><em>A farsi schifo di si buon bocconi<br \/>\n<\/em><em>E chi non fotte in cul, Dio gliel perdoni.<\/em><\/p>\n<p>Na f\u00f4rma, o soneto \u00e0 maneira de Aretino segue a estrutura acima, visualmente clara no que difere do soneto can\u00f4nico. A sonoridade, com versifica\u00e7\u00e3o e metro, ritmo e rimas, por exemplo, se enquadram na tradi\u00e7\u00e3o da l\u00edrica, do mesmo modo que a sele\u00e7\u00e3o lexical busca a express\u00e3o ret\u00f3rica em tropos e figuras, met\u00e1foras, alegorias e s\u00edmbolos, que expressem a ideologia do poeta pela constru\u00e7\u00e3o de sentidos ao qual subjaz cosmovis\u00e3o individual do eu-l\u00edrico no momento em a enuncia\u00e7\u00e3o procura o enunciado que lhe represente. No soneto selecionado, temos uma profiss\u00e3o de f\u00e9 calcada no solo da tradi\u00e7\u00e3o para realizar o ineditismo que prop\u00f5e.<\/p>\n<p>As rimas dos quartetos se apresentam ao modo abra\u00e7ado, ou opostas, seguindo para rimas encadeadas, nos dois primeiros tercetos; no terceiro terceto, o terceto \u201cexcedente\u201d, luxurioso, tem o primeiro verso alternado com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrofe anterior e o d\u00edstico final em rima emparelhada. No interior do poema, as asson\u00e2ncias e a repeti\u00e7\u00e3o de fonemas constroem musicalidade e cad\u00eancia r\u00edtmica. O <em>logos<\/em> do enunciador coalesce com o <em>pathos<\/em> sensorial dos corpos dos amantes. Tanto o fundo quanto a forma com a sem\u00e2ntica e a f\u00f4rma constituem pe\u00e7a \u00fanica em que todos os elementos erigem edif\u00edcio em que uma \u00fanica pe\u00e7a que for diferente destruiria o poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Devemos buscar agora, para a literatura brasileira, tal como o <em>sonetti<\/em> italiano do s\u00e9culo XIII, uma nova aclimata\u00e7\u00e3o para o soneto cl\u00e1ssico. N\u00e3o que ele tenha se esgotado. Diversos poetas do s\u00e9culo XX, das d\u00e9cadas iniciais \u00e0s finais, se valerem dele. Em diversos momentos, desde o romantismo, varia\u00e7\u00f5es inesperadas no ritmo e na tem\u00e1tica valorizaram e deram novos sentidos \u00e0 f\u00f4rma. Podemos dizer que o soneto, na terra f\u00e9rtil da literatura brasileira, se aclimatou, se desenvolveu e ganhou varia\u00e7\u00f5es de m\u00e9trica e de t\u00f3picas no fervor carnavalesco que anima nossa tropic\u00e1lia efervescente, nossa antropofagia nata.<\/p>\n<p>Pedindo desculpas por inserir aqui algumas tentativas de sonetos de minha autoria, explico que o fa\u00e7o na inten\u00e7\u00e3o de variar a forma do soneto cl\u00e1ssico, trazendo \u00e0 sua f\u00f4rma li\u00e7\u00f5es diversas da l\u00edrica e mesmo da \u00e9pica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SONETILHO \u00c0 TERZA RIMA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A borboleta voa<br \/>\nat\u00e9 o pend\u00e3o de trigo:<br \/>\npousa, voa, revoa<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">e repousa no amigo:<br \/>\nsente-se mui segura,<br \/>\ncomo se num abrigo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ali ela se cura,<br \/>\nLeta, a borboleta,<br \/>\nno amor que perdura;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">e o trigo, sem treta,<br \/>\nao vento e amores,<br \/>\nbalou\u00e7a a sua Leta:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">esplendem multicores,<br \/>\ntrigo e borboleta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (c) Rauer 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A RETRATAR UMA COLEGA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Dama demente, a vil, a vadia,<br \/>\ndeclama f\u00fatil, louca e vazia,<br \/>\nquer descalabro novo a cada dia;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">medusa, v\u00edbora na a\u00e7\u00e3o torta,<br \/>\nlhe pulsa torpe b\u00edlis na aorta,<br \/>\nvivo veneno no punhal que corta;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">alma venal, s\u00f3 almeja trai\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne de inveja rasteja ao ch\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">e assim, osga, se fixa na lousa:<br \/>\nfor\u00e7a maligna, a sua pervers\u00e3o<br \/>\nde sempre toda crua maldade ousa<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2014 \u00e9 feliz n\u00e1usea de torpe carrasco,<br \/>\n\u00e9 fel do tempo que em cinzas pousa,<br \/>\nfrio rio de p\u00f3, fumo, v\u00f4mito e asco.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 soneto \u00a9 Rauer 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SONETO DO PEREC\u00cdVEL AMOR<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pere\u00e7a o perec\u00edvel amor,<br \/>\nmorra ao fim do ciclo da paix\u00e3o,<br \/>\nextingua o teu cortejo de dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sofre do amador o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsofrem os amantes dores de amor,<br \/>\ne o namoro torna-se, ent\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">sarc\u00f3fago pleno de desamor,<br \/>\ncofre cruel do amor a morrer,<br \/>\narcana arca de duro opressor.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S\u00f4frego amor, sempre a perder,<br \/>\nde luto morre, na vida que morre:<br \/>\na morrer est\u00e1 amor ao nascer.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Na dor do amor sempre a perecer,<br \/>\neis nossa sina na vida que corre.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (c) Rauer 2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">DA VIDA VIVIDA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O voo da mem\u00f3ria voa e faz:<br \/>\nNesses tempos de pandemia,<br \/>\n\u00c9 boa lembran\u00e7a que refaz<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A saudade do que partia,<br \/>\nEmblema, dor e cicatriz,<br \/>\nMarca de aziaga alegria;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Define incerta matriz,<br \/>\nFaz da vida labor e flama,<br \/>\nDo rude amor o chamariz;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O relembrar voa e inflama,<br \/>\nHonra audaz mem\u00f3ria ida,<br \/>\nErguida no choro que clama:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Traz a mim a vida vivida,<br \/>\nNa morte que ora me perfaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Soneto (c) Rauer 2020<\/p>\n<p>Pe\u00e7o que me eximam de comentar e reitero as escusas antes apresentadas. Ficam t\u00e3o s\u00f3 como exemplo de varia\u00e7\u00e3o formal e, indo do jocoso-sat\u00edrico \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o amorosa e ao intento reflexivo, de diversidade tem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Creio que a liberdade formal e a variedade de <em>ethos<\/em> proporcionam constante revitaliza\u00e7\u00e3o da inesgot\u00e1vel forma do soneto, em que a f\u00f4rma, que aparenta constranger a cria\u00e7\u00e3o, na verdade baliza a criatividade, com a similaridade formal constituindo-se estu\u00e1rio para uma imensa diversidade de voca\u00e7\u00f5es, de <em>topoi<\/em>, de motivos e de novas formas a desenharem renovadas f\u00f4rmas em que podemos reconhecer o desenho j\u00e1 arquet\u00edpico do soneto.<\/p>\n<p>Cabe quase tudo (ou tudo) no soneto. \u00c9 necess\u00e1rio t\u00e3o s\u00f3 que as novas produ\u00e7\u00f5es tenham a for\u00e7a da express\u00e3o sint\u00e9tica que seu <em>ethos<\/em> solicita e que sempre alcancem a alta express\u00e3o liter\u00e1ria, verbal e lingu\u00edstica que constituem, sempre, a exig\u00eancia primeira da escrita liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago, em entrevista em 1978, afirmou: \u201cUm escritor n\u00e3o tem o direito de rebaixar o seu trabalho em nome de uma suposta maior acessibilidade\u201d &#8211; ou seja, o ato criador deve sempre romper auroras, iluminar poentes, ir al\u00e9m dos horizontes j\u00e1 vividos, de modo a construir novos e renovados conhecimentos, para sempre ser, em si, ao desbravar inauditas linguagens, o solo f\u00e9rtil do novo.<\/p>\n<p>Vamos construir o novo na forma eterna do soneto?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Rauer Ribeiro Rodrigues<\/strong><br \/>\nProfessor; escritor; em travessia<\/p>\n<p>A ARTE DE ESCREVER:<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o importante<\/strong>:\u00a0O Prof. Rauer ministra neste semestre, e ministrou, h\u00e1 alguns anos, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Letras \/ Estudos Liter\u00e1rios do C\u00e2mpus de Tr\u00eas Lagoas da UFMS, um Curso de Escrita Criativa; a nosso pedido, alguns dos textos que serviram de diretriz para as aulas, aqui comentados pelo professor, vem sendo publicados no Blog da Editora Pangeia nos \u00faltimos meses e continuar\u00e3o a ser publicados nas pr\u00f3ximas semanas e meses. Al\u00e9m dos textos que ent\u00e3o utilizou no curso, o professor incluiu outros, ampliando o escopo do curso para um p\u00fablico al\u00e9m dos estudantes universit\u00e1rios. N\u00e3o perca! Vale a pena acompanhar. (<strong>Rizio Macedo<\/strong>, Editor, Editora Pangeia).<\/p>\n<p><strong>AULAS ANTERIORES DESTA S\u00c9RIE<\/strong><\/p>\n<p><strong>(clique para acessar):<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/como-publicar-seu-livro\/\">Apresenta\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0\u2013 Como publicar seu livro<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-1-as-oito-licoes-de-isaac-babel\/\">Aula 1<\/a>\u00a0\u2013 Oito li\u00e7\u00f5es de Isaac Babel<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-2-os-segredos-da-ficcao-segundo-raimundo-carrero\/\">Aula 2<\/a>\u00a0\u2013 Segredos da fic\u00e7\u00e3o, por Raimundo Carrero<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-3-evite-verbos-de-pensamento-essa-e-a-dica-de-palahniuk\/\">Aula 3<\/a>\u00a0\u2013 Palahniuk: evite verbos de pensamento e outras dicas<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-4-dicas-de-15-escritoras\/\">Aula 4<\/a>\u00a0\u2013 Quinze escritoras e as min\u00facias da Arte de Escrever<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-5-29-aforismos-sobre-o-microconto\/\">Aula 5<\/a>\u00a0\u2013 29 aforismos sobre o microconto<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-6-dicas-ao-escrever-para-criancas-e-para-jovens\/\">Aula 6<\/a>\u00a0\u2013 Para escrever para\u00a0crian\u00e7as e jovens<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-7-o-haikai-sintese-concisao-e-expressividade\/\">Aula 7<\/a>\u00a0\u2013 S\u00edntese e concis\u00e3o na escrita do haikai<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-8-hemingway-33-dicas-e-leituras-indicadas-para-um-jovem-escritor\/\">Aula 8<\/a>\u00a0\u2013 33 dicas de escrita de Hemingway<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-9-tecnica-e-engenho-ao-escrever-para-cinema-e-televisao\/\">Aula 9<\/a>\u00a0\u2013 T\u00e9cnica e engenho na escrita para tev\u00ea e cinema<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-10-kafka-e-a-arte-de-escrever\/\">Aula 10<\/a>\u00a0\u2013 A arte de escrever na vis\u00e3o de Franz Kafka<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-11-stephen-king-as-ferramentas-e-outras-dicas-sensacionais-do-livro-on-writing\/\">Aula 11<\/a>\u00a0\u2013 Ferramentas e dicas de Stephen King<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-12-a-concisao-do-infinito-com-antologia-de-microcontos\/\">Aula 12<\/a>\u00a0\u2013 A concis\u00e3o do infinito, com antologia de microcontos<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-13-as-licoes-de-camus-autor-de-a-peste\/\">Aula 13<\/a> \u2013 As li\u00e7\u00f5es de Camus, autor de \u201cA peste\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><span style=\"color: #993366;\">Links descritivos de todos os artigos da s\u00e9rie<\/span><\/a><br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #993300;\"><a style=\"color: #993300;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><strong>A ARTE DE ESCREVER \u2013 AQUI!!!<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">EDITORA PANGEIA:<br \/>\nCONFIRA PORQUE PUBLICAR NA PANGEIA:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/publique-na-pangeia\/\"><span style=\"color: #993366;\"><strong>AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><u><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/sobre\/\">Quem Somos &#8211; Valores<\/a><\/u><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/publique\/\"><u>Or\u00e7amento<\/u><\/a>:<br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"mailto:publiqueconosco@editorapangeia.com.br\">publiqueconosco@editorapangeia.com.br<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um escritor somente se realiza na plenitude criativa se o ato de escrever \u00e9 completamente liberto de qualquer censura, de quaisquer constrangimentos, de qualquer \u00f3bice, limite, restri\u00e7\u00e3o. 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