{"id":23775,"date":"2026-11-05T14:16:28","date_gmt":"2026-11-05T17:16:28","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=23775"},"modified":"2026-11-05T14:16:28","modified_gmt":"2026-11-05T17:16:28","slug":"ostra-com-cicatrizes-nima-e-a-poesia-do-minimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/ostra-com-cicatrizes-nima-e-a-poesia-do-minimo\/","title":{"rendered":"Ostra com cicatrizes: Nima e a poesia do m\u00ednimo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nima Spigolon:\u00a0<\/strong>poeta e professora, mulher e educadora, alma gentil, esp\u00edrito nobre, atua\u00e7\u00e3o pante\u00edsta no amor \u00e0 humanidade, aos animais e \u00e0s plantas, doadora, acolhedora, inspiradora, orientadora, organizou nos \u00faltimos quinze anos diversos livros, entre acad\u00eamicos e liter\u00e1rios, integra diversas antologias coletivas, \u00e9 autora premiada \u2013 com o Jabuti Acad\u00eamico 2024 em Educa\u00e7\u00e3o e Ensino com <em><strong>Elza Freire e Paulo Freire: Noites de Ex\u00edlio, Dias de Utopia<\/strong><\/em> \u2013 e j\u00e1 lan\u00e7ou as seguintes colet\u00e2neas individuais de poesia:<\/p>\n<ul>\n<li><em>De(s)morte(s)<\/em>, cole\u00e7\u00e3o Nos Tempos do Corona n.\u00ba 9, org. Rauer, Capa de Bruno Lemos com arte de Crispim Campos e arte-final de Bruna Campos, sendo R\u00edzio Macedo o editor; cont\u00e9m arte em hidrocor e fotos do arquivo pessoal da autora; Pangeia \/ Dionysius, 80 p., 2021.<\/li>\n<li><em>Hanami: haikais<\/em>, com curadoria e capa de Willia Katiaa Oliveira, editado por Claudia Amoroso Bortolato, organizado por Rauer, Cole\u00e7\u00e3o Plaque 5, eBook e duas impress\u00f5es; Pangeia\/ Dionysius, 28 p., 2022.<\/li>\n<li><em>Nanquim liquefeito<\/em>, com projeto editorial de Rauer, ilustra\u00e7\u00f5es de Lana Maciel, diagrama\u00e7\u00e3o de Yueh Fernandes, Capa de Tatiana Santos e campanha de comunica\u00e7\u00e3o de Bruna Heller; Pangeia\/ Dionysius, 112 p., 2023.<\/li>\n<li><em>Chumbo Sutil<\/em>, com pref\u00e1cios de Whisner Fraga e de Aira Maiger, capa de Edgar Franco (Ciberpaj\u00e9), diagrama\u00e7\u00e3o de Rizera, sendo curadora Willia Katia Olivera e Rauer o editor; Pangeia\/ Dionysius, 64 p., 2024.<\/li>\n<li><em>Umematsuri: haikais<\/em>, com posf\u00e1cio de Rauer e entrevista com a autora, capa de Lily Momisso, diagrama\u00e7\u00e3o de Rizera e sendo Rauer o editor; Pangeia\/ Dionysius, 96 p., 2024.<\/li>\n<li><em>O voo da lib\u00e9lula nas asas do dinossauro<\/em>, com o texto &#8220;Origaamis&#8221;, de Adriana Aneli, nas orelhas, projeto gr\u00e1fico de Wladimir Vaz, coordena\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica de Tiago Fabri Rendelli, diagrama\u00e7\u00e3o de Victor H. Azevedo e revis\u00e3o de Victor Negri, sendo editora Debora Ribeiro Rendelli; chamada em Edital da Editora Urutau, 72 p., 2025.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Em 2026, Nima Spigolon lan\u00e7a <em><strong>Ostra com cicatrizes<\/strong><\/em>, com haikais e tankas. Sobre este livro, ela nos concedeu a seguinte entrevista:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">NIMA: &#8220;O INFINITO EST\u00c1 NO M\u00cdNIMO, A<br \/>\nPOESIA \u00c9 UMA MANEIRA DE<br \/>\nESTAR NO MUNDO&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em><strong>Blog da Pangeia \u2013\u00a0<\/strong>De que modo, no seu dia-a-dia po\u00e9tico, o haikai se tornou uma das suas prefer\u00eancias na express\u00e3o po\u00e9tica, voc\u00ea que na adolesc\u00eancia era l\u00edrica e rom\u00e2ntica \u00e0 Florbela Espanca?<\/em><\/p>\n<p><strong>Nima Spigolon \u2013<\/strong>\u00a0Acho que essa aproxima\u00e7\u00e3o com o haikai aconteceu como parte de um amadurecimento do meu pr\u00f3prio olhar sobre a vida e sobre a poesia. Na adolesc\u00eancia, eu era l\u00edrica, rom\u00e2ntica, intensa \u2014 talvez muito pr\u00f3xima de Florbela Espanca, com sua escrita visceral, sua entrega aos sentimentos, seus excessos e suas inquieta\u00e7\u00f5es. Havia em mim essa necessidade de dizer o amor, a dor, a aus\u00eancia e os conflitos da alma por meio das palavras.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-7178 alignright\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Nima_Neruda-169x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"273\" height=\"485\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Nima_Neruda-169x300.jpeg 169w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Nima_Neruda-225x400.jpeg 225w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Nima_Neruda.jpeg 241w\" sizes=\"auto, (max-width: 273px) 100vw, 273px\" \/>Com o tempo, fui descobrindo que a poesia tamb\u00e9m podia habitar o sil\u00eancio, o instante, aquilo que quase passa despercebido no cotidiano. O haikai me conquistou justamente por essa possibilidade: dizer muito com poucas palavras. Ele me ensinou a olhar demoradamente para as coisas simples, para a natureza, para os pequenos acontecimentos, para aquilo que, \u00e0 primeira vista, parece insignificante, mas que guarda uma imensa pot\u00eancia po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Hoje, o haikai faz parte do meu dia a dia como uma esp\u00e9cie de exerc\u00edcio de aten\u00e7\u00e3o e de escuta do mundo. \u00c0s vezes, uma cena cotidiana, uma mudan\u00e7a na luz, o movimento de uma folha ou uma experi\u00eancia aparentemente banal despertam em mim o desejo de escrever. N\u00e3o se trata apenas de registrar o que vejo, mas de perceber o que aquele instante provoca em mim e o que ele pode revelar sobre a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez eu n\u00e3o tenha deixado de ser aquela adolescente l\u00edrica e rom\u00e2ntica que encontrava em Florbela Espanca uma maneira de expressar a intensidade dos sentimentos. Essa dimens\u00e3o continua comigo, mas encontrou outras formas de se manifestar. Se antes eu precisava de muitas palavras para percorrer os caminhos da emo\u00e7\u00e3o, hoje descubro que, \u00e0s vezes, tr\u00eas versos s\u00e3o suficientes para acolher um mundo inteiro.<\/p>\n<p>O haikai me oferece essa liberdade: n\u00e3o explicar tudo, n\u00e3o concluir tudo, n\u00e3o preencher todos os vazios. Deixar que a palavra sugira, que o sil\u00eancio participe e que o leitor tamb\u00e9m crie. \u00c9 uma poesia que exige delicadeza, mas n\u00e3o superficialidade; simplicidade, mas n\u00e3o simplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre a intensidade l\u00edrica de Florbela e a concis\u00e3o do haikai, n\u00e3o vejo necessariamente uma ruptura. Vejo uma travessia. Continuo acreditando na for\u00e7a dos sentimentos, mas aprendi que eles tamb\u00e9m podem ser expressos na sutileza de um instante. Talvez seja isso que mais me encante no haikai: a possibilidade de encontrar o infinito no m\u00ednimo e de descobrir que, quando aprendemos a olhar o cotidiano com sensibilidade, a poesia deixa de ser apenas algo que escrevemos e passa a ser tamb\u00e9m uma maneira de estar no mundo.<\/p>\n<p><em><strong>Blog da Pangeia \u2013\u00a0<\/strong>No Brasil, temos muitas concep\u00e7\u00f5es do que deve ser o haikai, variedade que inclusive se manifesta na nomenclatura (haikai, haiku, haicai, hai-cai, hai-kai etc), embora tal quest\u00e3o n\u00e3o indique propriamente vertentes po\u00e9ticas \u2013 qual a sua concep\u00e7\u00e3o de haikai?<\/em><\/p>\n<p><strong>Nima Spigolon \u2013<\/strong>\u00a0Minha concep\u00e7\u00e3o de haikai est\u00e1 ligada \u00e0 possibilidade de dizer muito com poucas palavras, de encontrar, na brevidade, uma forma de escuta do mundo. Gosto de pensar o haikai como um instante de suspens\u00e3o: algo acontece, atravessa o olhar, provoca um deslocamento e pede palavra. N\u00e3o se trata necessariamente de descrever uma paisagem ou registrar um elemento da natureza, mas de perceber aquilo que, mesmo sendo pequeno ou aparentemente banal, revela uma dimens\u00e3o inesperada da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Embora reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o japonesa e das diferentes vertentes que se constitu\u00edram no Brasil, penso o haikai como uma forma po\u00e9tica que tamb\u00e9m se reinventa no encontro com outras culturas, sensibilidades e experi\u00eancias. N\u00e3o o compreendo como uma estrutura r\u00edgida, submetida exclusivamente a regras m\u00e9tricas ou formais, mas como uma pr\u00e1tica de aten\u00e7\u00e3o, concis\u00e3o e abertura ao acontecimento. A brevidade, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas uma caracter\u00edstica formal: \u00e9 uma escolha est\u00e9tica que exige do poeta precis\u00e3o, sensibilidade e confian\u00e7a naquilo que permanece n\u00e3o dito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-23591 alignleft\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-185x300.webp\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-185x300.webp 185w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-630x1024.webp 630w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-768x1248.webp 768w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-7x12.webp 7w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-700x1137.webp 700w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-246x400.webp 246w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-431x700.webp 431w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes-800x1300.webp 800w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/QUARTA-Capa-Ostra-com-cicatrizes.webp 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 259px) 100vw, 259px\" \/>Talvez minha rela\u00e7\u00e3o com o haikai tamb\u00e9m dialogue com as transforma\u00e7\u00f5es da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia po\u00e9tica. Se, na adolesc\u00eancia, eu me aproximava de uma express\u00e3o mais l\u00edrica e rom\u00e2ntica, marcada pela intensidade dos sentimentos e pela influ\u00eancia de Florbela Espanca, hoje encontro, no haikai, outra possibilidade de express\u00e3o: menos interessada em explicar o que sinto e mais disposta a acolher aquilo que o mundo desperta em mim. N\u00e3o significa abandonar o lirismo, mas desloc\u00e1-lo. Em vez de expandir o sentimento, procuro, muitas vezes, concentr\u00e1-lo em uma imagem, um gesto, uma palavra ou um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Entendo, portanto, que o haikai n\u00e3o precisa dizer tudo; sua for\u00e7a est\u00e1, justamente, naquilo que consegue sugerir. O poema termina, mas a experi\u00eancia po\u00e9tica continua no leitor, que participa da constru\u00e7\u00e3o dos sentidos a partir de sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria e sensibilidade. \u00c9 nessa abertura que encontro uma das maiores pot\u00eancias dessa forma breve: a capacidade de criar profundidade sem recorrer \u00e0 explica\u00e7\u00e3o excessiva.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s diferentes grafias \u2014 haikai, haiku, haicai e outras \u2014, considero que elas expressam, em alguma medida, os percursos de circula\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o dessa tradi\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o determinem, por si mesmas, uma concep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Interessa-me menos estabelecer fronteiras r\u00edgidas do que compreender o que cada poema realiza em sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem, o tempo e a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Para mim, escrever haikai \u00e9 exercitar uma esp\u00e9cie de disponibilidade diante da vida: olhar de novo para o que parecia conhecido, perceber o extraordin\u00e1rio no cotidiano e reconhecer que, \u00e0s vezes, um pequeno acontecimento cont\u00e9m uma imensid\u00e3o. \u00c9 fazer da palavra um lugar de encontro entre o instante e aquilo que, nele, permanece reverberando.<\/p>\n<p><em><strong>Blog da Pangeia \u2013\u00a0<\/strong>Em <strong>Ostra com cicatrizes<\/strong> h\u00e1 tamb\u00e9m tankas: quanto ao processo criativo, o que faz com que determina \u201costra\u201d ou o que a ostra produz, a \u201cp\u00e9rola\u201d, se torne um poema de cinco versos e n\u00e3o o poema haikai de tr\u00eas versos?<\/em><\/p>\n<p><strong>Nima Spigolon \u2013<\/strong>\u00a0Em <strong><em>Ostra com cicatrizes<\/em><\/strong>, a escolha entre o haikai e o tanka n\u00e3o acontece, necessariamente, de maneira consciente ou a partir de uma decis\u00e3o formal pr\u00e9via. Para mim, o processo criativo come\u00e7a com uma percep\u00e7\u00e3o, uma imagem, uma inquieta\u00e7\u00e3o ou algo que me atravessa e pede passagem pela palavra. \u00c0s vezes, essa experi\u00eancia se concentra em um instante, numa imagem breve, numa esp\u00e9cie de ilumina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica que encontra no haikai sua forma de express\u00e3o. Em outras ocasi\u00f5es, aquilo que me mobiliza n\u00e3o cabe em tr\u00eas versos: precisa de mais espa\u00e7o, de outra respira\u00e7\u00e3o, de um desdobramento que permita acolher as camadas da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Penso na ostra como uma met\u00e1fora desse processo. H\u00e1 cicatrizes, inc\u00f4modos, mem\u00f3rias e atravessamentos que n\u00e3o se transformam imediatamente em p\u00e9rola. Algumas experi\u00eancias <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23590 alignright\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-116x300.webp\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"579\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-116x300.webp 116w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-397x1024.webp 397w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-5x12.webp 5w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-155x400.webp 155w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-271x700.webp 271w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes-504x1300.webp 504w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-DIR-Capa-Ostra-com-cicatrizes.webp 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 224px) 100vw, 224px\" \/>exigem tempo, elabora\u00e7\u00e3o e sil\u00eancio. O tanka, com seus cinco versos, oferece essa possibilidade de ampliar a percep\u00e7\u00e3o inicial, estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre imagens, acolher uma contradi\u00e7\u00e3o ou permitir que a emo\u00e7\u00e3o se desdobre sem perder a delicadeza. N\u00e3o se trata, portanto, de o tanka ser mais completo ou mais profundo que o haikai, mas de reconhecer que determinadas experi\u00eancias po\u00e9ticas pedem outra arquitetura.<\/p>\n<p>O haikai me convida \u00e0 s\u00edntese, ao instante e \u00e0quilo que pode ser sugerido sem precisar ser explicado. O tanka, por sua vez, permite que esse instante encontre uma resson\u00e2ncia, que a imagem inicial dialogue com uma mem\u00f3ria, um sentimento ou uma reflex\u00e3o. Se o haikai pode ser o encontro com a p\u00e9rola, o tanka pode ser o movimento de olhar para ela, perceber suas marcas e reconhecer os sentidos que carrega.<\/p>\n<p>Em <strong><em>Ostra com cicatrizes<\/em><\/strong>, os dois convivem porque a experi\u00eancia humana tamb\u00e9m \u00e9 feita de concis\u00e3o e desdobramento, de sil\u00eancios e palavras, de feridas e delicadezas. N\u00e3o \u00e9 exatamente a forma que determina o poema, mas a necessidade expressiva que se apresenta durante a escrita. Procuro escutar o poema enquanto ele acontece. \u00c0s vezes, tr\u00eas versos dizem tudo; outras vezes, \u00e9 preciso chegar aos cinco para que a p\u00e9rola revele um pouco mais de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><em><strong>Blog da Pangeia \u2013\u00a0<\/strong>Para um livro de haikais, o t\u00edtulo, com as palavras ostra e cicatrizes, parece ser uma contradi\u00e7\u00e3o, ao indicar subjetividade quando h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o de que o g\u00eanero deve ser \u2013 ou ao menos tender fortemente \u2013 para a objetividade e o descritivo.<\/em><\/p>\n<p><strong>Nima Spigolon \u2013<\/strong>\u00a0Acredito que essa aparente contradi\u00e7\u00e3o seja bastante f\u00e9rtil. Em <strong><em>Ostra com cicatrizes<\/em><\/strong>, a subjetividade n\u00e3o se op\u00f5e necessariamente \u00e0 objetividade do haikai; ela pode emergir justamente daquilo que se observa, do encontro entre o olhar e a coisa observada. A ostra \u00e9 um elemento concreto, pertencente \u00e0 natureza, mas as cicatrizes introduzem uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica: remetem \u00e0s marcas do tempo, \u00e0s experi\u00eancias vividas e \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es provocadas pelo contato com o mundo.<\/p>\n<p>No meu processo de escrita, n\u00e3o entendo a objetividade do haikai <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23589 alignleft\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-ESQ-Capa-Ostra-com-cicatrizes-117x300.webp\" alt=\"\" width=\"283\" height=\"726\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-ESQ-Capa-Ostra-com-cicatrizes-117x300.webp 117w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-ESQ-Capa-Ostra-com-cicatrizes-5x12.webp 5w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-ESQ-Capa-Ostra-com-cicatrizes-156x400.webp 156w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-ESQ-Capa-Ostra-com-cicatrizes-506x1300.webp 506w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ORELHA-ESQ-Capa-Ostra-com-cicatrizes.webp 512w\" sizes=\"auto, (max-width: 283px) 100vw, 283px\" \/>como aus\u00eancia de subjetividade, mas como uma maneira de n\u00e3o a explicitar excessivamente. Em vez de dizer o que sinto, procuro encontrar uma imagem capaz de sugerir esse sentimento, deixando que o leitor participe da constru\u00e7\u00e3o dos sentidos. A emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa estar declarada no poema; pode habitar uma palavra, um detalhe, uma cena ou at\u00e9 mesmo o sil\u00eancio entre os versos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a ostra e suas cicatrizes tamb\u00e9m podem ser compreendidas como uma met\u00e1fora do pr\u00f3prio fazer po\u00e9tico. H\u00e1 experi\u00eancias que nos atravessam e deixam marcas, mas que, ao serem elaboradas pela linguagem, adquirem outras possibilidades de exist\u00eancia. A imagem n\u00e3o abandona sua materialidade nem precisa se converter em uma explica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica: ela permanece concreta, aberta e sugestiva.<\/p>\n<p>Por isso, vejo em <strong><em>Ostra com cicatrizes<\/em><\/strong> menos uma contradi\u00e7\u00e3o do que uma tens\u00e3o criativa entre o vis\u00edvel e o indiz\u00edvel, entre a natureza e a experi\u00eancia humana, entre aquilo que o poema mostra e aquilo que permite entrever. Se o haikai se constr\u00f3i pela concis\u00e3o, pela observa\u00e7\u00e3o e pela capacidade de sugerir, talvez suas tr\u00eas linhas sejam suficientes para acolher n\u00e3o apenas o instante observado, mas tamb\u00e9m as resson\u00e2ncias que esse instante desperta em quem escreve e em quem l\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-23588\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes-185x300.webp\" alt=\"\" width=\"433\" height=\"702\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes-185x300.webp 185w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes-7x12.webp 7w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes-700x1137.webp 700w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes-246x400.webp 246w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes-431x700.webp 431w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/FRENTE-Capa-Ostra-com-cicatrizes.webp 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><strong>Ostra com cicatrizes\u00a0<\/strong><\/em>tem pref\u00e1cio de Danita Cotrim (Gr\u00eamio Ip\u00ea), capa de Alice Costa, que assina um posf\u00e1cio, texto da 4.\u00aa capa de Rauer, projeto editorial-gr\u00e1fico e diagrama\u00e7\u00e3o de R\u00edzio Macedo (Rizera), sendo Rauer o diretor editorial; Pangeia \/ Dionysius, 120 p., 2026.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Em pr\u00e9-venda com desconto:<br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline; color: #ff0000;\">AQUI !!!<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Conhe\u00e7a as normas da pr\u00e9-venda:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/event\/gondwana\/\"><span style=\"color: #008000;\"><strong>AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-23783\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-275x300.webp\" alt=\"\" width=\"465\" height=\"508\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-275x300.webp 275w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-937x1024.webp 937w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-768x839.webp 768w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-11x12.webp 11w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-700x765.webp 700w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-366x400.webp 366w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg-641x700.webp 641w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/foto_ostras_nima-s_jpg.webp 1078w\" sizes=\"auto, (max-width: 465px) 100vw, 465px\" \/><\/p>\n<p>Nasceu em Rio Verde, GO, em 1971; cidad\u00e3 de Ituiutaba, MG; reside em Campinas, SP; \u00e9 professora da Unicamp, onde fez mestrado e doutorado. Aos 19 anos, tornou-se professora de uma pr\u00e9-escola na zona rural. Trabalhou tamb\u00e9m no Banco do Brasil e em \u00e1reas de gest\u00e3o, da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o antes de se tornar professora universit\u00e1ria. Pedadoga e pesquisadora, \u00e9 reconhecida no Brasil e no exterior como uma das refer\u00eancias nas \u00e1reas de Educa\u00e7\u00e3o Popular e Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, sendo bi\u00f3grafa de Elza Freire e uma das maiores estudiosas brasileiras do pensamento de Paulo Freire. A pesquisa acad\u00eamica de Nima Spigolon realiza uma repara\u00e7\u00e3o na historiografia da educa\u00e7\u00e3o brasileira ao publicar cartas, manuscritos e relatos de Elza Freire, assim como depoimentos de quem conviveu com Elza e Paulo Freire, com o que desconstr\u00f3i a invisibilidade de g\u00eanero que, nesse e em muitos casos, oculta as mulheres. Nos seus livros liter\u00e1rios, Nima transita da literatura infantojuvenil para o microconto e para a poesia, indo do lirismo a poemas com fatura modernista e de poemas mais longos e densos para poemas haikai e tanka.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Conhe\u00e7a outras obras de Nima Spigolon<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=Nima\"><span style=\"text-decoration: underline; color: #008080;\"><strong>CLIQUE AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nima Spigolon:\u00a0poeta e professora, mulher e educadora, alma gentil, esp\u00edrito nobre, atua\u00e7\u00e3o pante\u00edsta no amor \u00e0 humanidade, aos animais e \u00e0s plantas, doadora, acolhedora, inspiradora, orientadora, organizou nos \u00faltimos quinze anos diversos livros, entre acad\u00eamicos e liter\u00e1rios, integra diversas antologias coletivas, \u00e9 autora premiada \u2013 com o Jabuti Acad\u00eamico 2024 em Educa\u00e7\u00e3o e Ensino com&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":592,"featured_media":22511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2309,5689,3288],"tags":[4243,244,245,4145,2860,858,1241,5356,2396,5907,248,5906,2789,645,327,5905,680,4244],"class_list":["post-23775","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-haikai","category-papo-da-semana","category-poesia-brasileira","tag-chumbo-sutil","tag-desmortes","tag-edicoes-dionysius","tag-haicais","tag-haikais","tag-haiku","tag-hanami","tag-literatura-bfrasileira","tag-nanquim-liquefeito","tag-nas-asas-do-dinossauro","tag-nima-spigolon","tag-o-voo-da-libelula","tag-pangeia-editora","tag-poemas","tag-poesia","tag-poessia-contemporanea","tag-tanka","tag-umematsuri"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/592"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23775"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23775\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23787,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23775\/revisions\/23787"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}