{"id":23610,"date":"2026-10-18T16:07:18","date_gmt":"2026-10-18T19:07:18","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=23610"},"modified":"2026-10-18T16:36:53","modified_gmt":"2026-10-18T19:36:53","slug":"ilusao-coletiva-redes-digitais-politica-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/ilusao-coletiva-redes-digitais-politica-sociedade\/","title":{"rendered":"&#8220;Ilus\u00e3o coletiva&#8221;: redes digitais transformam pol\u00edtica e sociedade"},"content":{"rendered":"<p>O <strong><em>Jornal do Brasil<\/em><\/strong> publicou hoje uma entrevista com o psicanalista Marcio Garrit sobre o que as redes digitais est\u00e3o produzindo na pol\u00edtica e na sociedade. O autor do livro <em><strong>Ilus\u00e3o Coletiva: Psican\u00e1lise, Massas Digitais e Ciberpopulismo<\/strong><\/em> trata na entrevista de quest\u00f5es candentes da realidade atual quanto \u00e0 interface da tecnologia com a politica e a sociedade: medo, pertencimento, fabrica\u00e7\u00e3o do inimigo, ciberpopulismo, regress\u00e3o coletiva e sobre o que a psican\u00e1lise pode dizer a respeito do Brasil de agora.<\/p>\n<p><strong>Reproduzimos, a seguir, a \u00edntegra dessa entrevista:<br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<div class=\"topo\">\n<header class=\"header-cabecalho\">\n<div class=\"titulo\" style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jb.com.br\/public-2023\/custom\/jb\/logo_amp.jpeg\" \/><span style=\"text-align: center;\">domingo, 18 de outubro de 2026<br \/>\n<\/span>CADERNO B<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<section class=\"brasil\">\n<h1 style=\"text-align: center;\">Ilus\u00e3o coletiva: como as redes digitais est\u00e3o transformando a pol\u00edtica e a sociedade<\/h1>\n<p class=\"publicacao\" style=\"text-align: center;\">Publicado em 14\/10\/2026 \u00e0s 20:26<br \/>\nAlterado em 17\/10\/2026 \u00e0s 17:05<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" id=\"imagemPrincipal\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/midias.jb.com.br\/_midias\/jpg\/2026\/10\/14\/marcio_garrit-1180208.jpeg?6ad3d506c53a6\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><em>O psicanalista e professor Marcio Garrit, autor do livro <strong>Ilus\u00e3o coletiva: Psican\u00e1lise, Massas Digitais e Ciberpopulismo<\/strong>, conversou com o JORNAL DO BRASIL.<\/em><\/div>\n<div>.<\/div>\n<div>Em uma \u00e9poca em que opini\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e comportamentos se espalham pelas redes sociais em quest\u00e3o de segundos, compreender o que leva milhares \u2013 ou milh\u00f5es \u2013 de pessoas a aderirem \u00e0s mesmas ideias tornou-se uma quest\u00e3o cada vez mais urgente. \u00c9 nesse territ\u00f3rio, entre a psicanalise, o funcionamento das massas e a l\u00f3gica das redes digitais, que se situa o livro <em><strong>Ilus\u00e3o coletiva: Psican\u00e1lise, Massas Digitais e Ciberpopulismo<\/strong><\/em>.<\/div>\n<div><\/div>\n<\/section>\n<div style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-22630\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-201x300.webp\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-201x300.webp 201w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-685x1024.webp 685w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-768x1148.webp 768w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-8x12.webp 8w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-267x400.webp 267w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-468x700.webp 468w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FRENTE-Capa-Ilusao-Coletiva-1-872x1300.webp 872w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><br \/>\nCapa do livro <strong><em>Ilus\u00e3o coletiva: psicanalise, massas digitais e ciberpopulismo<\/em><\/strong><br \/>\nDesenho da Capa: @liev_ilustrador<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>\n<p class=\"texto\"><strong>O que o levou a escrever <em>Ilus\u00e3o Coletiva<\/em> e a investigar, a partir da psican\u00e1lise, o comportamento das massas no ambiente digital?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\"><strong><em>Ilus\u00e3o Coletiva<\/em><\/strong> nasceu de um inc\u00f4modo muito forte e de uma experi\u00eancia hist\u00f3rica concreta. Sou psicanalista h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas e acompanhei, como brasileiro, a forma\u00e7\u00e3o de uma milit\u00e2ncia digital organizada em torno do bolsonarismo, uma verdadeira mil\u00edcia virtual mobilizada pelo medo, pelo ressentimento e pelo \u00f3dio.<\/p>\n<p class=\"texto\">Uma coisa \u00e9 estudar nos livros como um fen\u00f4meno de massa se constituiu h\u00e1 50 ou 100 anos. Outra \u00e9 assistir a isso acontecer diante de n\u00f3s. Vimos nascer uma massa que n\u00e3o precisava ocupar o mesmo espa\u00e7o f\u00edsico para permanecer unida em torno de um l\u00edder. Minha pergunta passou a ser: como pensar uma psicologia das massas no mundo digital? O que acontece com a lideran\u00e7a quando ela circula permanentemente por v\u00eddeos, mensagens e imagens?<\/p>\n<p class=\"texto\">Foi nesse ponto que recorri \u00e0 psican\u00e1lise. Em <em><strong>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu<\/strong><\/em>, de 1921, Freud afirma que a psicologia individual \u00e9, desde o in\u00edcio, tamb\u00e9m social. A psican\u00e1lise nunca foi apenas uma teoria do indiv\u00edduo no consult\u00f3rio. Ela tamb\u00e9m nos permite compreender as identifica\u00e7\u00f5es coletivas, os v\u00ednculos e a destrutividade humana.<\/p>\n<p class=\"texto\">Escrever o livro foi tamb\u00e9m um protesto contra o que chamo de conservadorismo burro dentro da pr\u00f3pria psican\u00e1lise. Muitos transformaram teorias de outras d\u00e9cadas em dogmas e se recusam a estend\u00ea-las diante das mudan\u00e7as culturais. Eu leio essa uni\u00e3o pelo \u00f3dio e pela destrui\u00e7\u00e3o como uma express\u00e3o contempor\u00e2nea da puls\u00e3o de morte. O livro procura mostrar que Freud permanece assustadoramente atual, mas que a psican\u00e1lise s\u00f3 continuar\u00e1 relevante se tiver coragem de enfrentar um mundo que ele n\u00e3o conheceu.<\/p>\n<div class=\"ad-wrapper-div\">\n<div id=\"ad_paragraph_5\" data-google-query-id=\"CKaS9raaxJcDFQwiHgAd_nQlOg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/22794149020\/jb\/jb_content5_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\"><strong>De que maneira redes sociais e os ambientes digitais favorecem o surgimento do ciberpopulismo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Para compreender por que o ciberpopulismo encontra um terreno t\u00e3o f\u00e9rtil, precisamos olhar primeiro para o sujeito. Freud mostrou que nossas escolhas, identifica\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as n\u00e3o nascem apenas de decis\u00f5es conscientes. Elas tamb\u00e9m respondem ao desamparo, \u00e0 necessidade de pertencimento e ao desejo de encontrar prote\u00e7\u00e3o diante da realidade.<\/p>\n<div class=\"ad-wrapper-div\">\n<div id=\"ad_paragraph_6\" data-google-query-id=\"CPeoiLeaxJcDFUYOHgAdddY7-Q\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/22794149020\/jb\/jb_content6_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">O ciberpopulismo explora justamente essa regi\u00e3o. Ele transforma ang\u00fastias complexas em explica\u00e7\u00f5es simples, escolhe um inimigo em quem descarregar o mal e promete uma plenitude imposs\u00edvel. Diz ao sujeito aquilo que ele deseja ouvir e autoriza o que deveria ser contido: o \u00f3dio, a viol\u00eancia e o desejo de destruir o diferente.<\/p>\n<div class=\"ad-wrapper-div\">\n<div id=\"ad_paragraph_7\" data-google-query-id=\"CIadj7eaxJcDFVYHHgAd7OAIOg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/22794149020\/jb\/jb_content7_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">As redes sociais n\u00e3o inventaram essa sombra humana. O que fizeram foi lhe dar velocidade, repeti\u00e7\u00e3o, personaliza\u00e7\u00e3o e uma escala in\u00e9dita. As plataformas aprendem, a partir dos nossos rastros, quais mensagens despertam medo, indigna\u00e7\u00e3o ou prazer e passam a nos oferecer mais daquilo que nos mant\u00e9m conectados. O l\u00edder j\u00e1 n\u00e3o precisa reunir uma multid\u00e3o. Ele pode ocupar a intimidade de milh\u00f5es de pessoas por meio de um celular.<\/p>\n<div class=\"ad-wrapper-div\">\n<div id=\"ad_paragraph_8\" data-google-query-id=\"CL_Xm7eaxJcDFYELHgAd2nYEAw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/22794149020\/jb\/jb_content8_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">No fundo, existe a\u00ed uma opera\u00e7\u00e3o narc\u00edsica: preservar uma imagem idealizada de si e do pr\u00f3prio grupo, enquanto o mal \u00e9 depositado no outro, que ent\u00e3o pode ser atacado sem culpa. O ciberpopulista transforma essa divis\u00e3o ps\u00edquica em projeto pol\u00edtico. Ele n\u00e3o cria o mal-estar, mas oferece a ele um destino, um inimigo e uma autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"ad-wrapper-div\">\n<div id=\"ad_paragraph_9\" data-google-query-id=\"CIWRqLeaxJcDFfEBHgAd3_ESOA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/22794149020\/jb\/jb_content9_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\"><strong>Como psicanalista, porque discursos que apelam as emo\u00e7\u00f5es, aos medos e ao sentimento de pertencimento conseguem mobilizar tantas pessoas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Porque ningu\u00e9m participa da pol\u00edtica apenas pela raz\u00e3o. Freud mostra que o desamparo marca o ser humano desde o in\u00edcio. Dependemos do outro para sobreviver e dar contorno a um mundo incerto. Essa marca permanece na vida adulta e se intensifica nas crises.<\/p>\n<p class=\"texto\">O ciberpopulista explora essa vulnerabilidade. Primeiro, aumenta a amea\u00e7a: o comunismo, o caos econ\u00f4mico, o estrangeiro, o inimigo interno. Depois, oferece a si mesmo como solu\u00e7\u00e3o: \u201cEu vou proteger voc\u00eas, devolver a ordem e conduzir o pa\u00eds \u00e0 prosperidade\u201d. Ele n\u00e3o apresenta apenas um programa pol\u00edtico. Oferece um pacote ps\u00edquico: um medo, um culpado, uma promessa e um pai protetor.<\/p>\n<p class=\"texto\">Ken Loach retrata esse desamparo em filmes como <em><strong>Eu, Daniel Blake<\/strong><\/em> e <em><strong>Voc\u00ea N\u00e3o Estava Aqui<\/strong><\/em>. Quando as institui\u00e7\u00f5es deixam de oferecer sustenta\u00e7\u00e3o, cresce a procura por pertencimento e por algu\u00e9m que prometa eliminar a incerteza.<\/p>\n<p class=\"texto\">Existe a\u00ed um movimento regressivo. A democracia exige que suportemos o conflito, a diferen\u00e7a e a aus\u00eancia de respostas prontas. O l\u00edder autorit\u00e1rio prop\u00f5e o contr\u00e1rio: entregue a ele sua d\u00favida e, em troca, receba certezas. O ambiente digital torna essa presen\u00e7a permanente e \u00edntima. Uma tecnologia moderna passa, assim, a alimentar uma posi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica infantilizada e o resultado \u00e9 uma sociedade cronicamente regredida.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>O que acontece com a capacidade de pensar criticamente quando estamos inseridos em uma multid\u00e3o digital que compartilha as mesmas cren\u00e7as, medos e indigna\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Ela n\u00e3o se torna menos inteligente. O que acontece \u00e9 mais grave: coloca sua intelig\u00eancia a servi\u00e7o da pr\u00f3pria cren\u00e7a. Em vez de examin\u00e1-la, produz argumentos para proteg\u00ea-la e continuar pertencendo ao grupo. O pensamento cr\u00edtico se transforma no advogado de uma convic\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o admite julgamento.<\/p>\n<p class=\"texto\">Isso come\u00e7a na inf\u00e2ncia. Uma crian\u00e7a precisa aprender a suportar frustra\u00e7\u00e3o, t\u00e9dio, medo e a exist\u00eancia do diferente. Quando isso n\u00e3o acontece, crescer n\u00e3o significa amadurecer. Podemos ter um adulto infantilizado, com um Eu fr\u00e1gil que exige confirma\u00e7\u00e3o constante. Tudo o que \u201carranha\u201d essa superf\u00edcie \u00e9 vivido como ofensa.<\/p>\n<p class=\"texto\">Nesse adoecimento narc\u00edsico, o outro deixa de ser um interlocutor e se torna algu\u00e9m que precisa ser calado ou destru\u00eddo. O ciberpopulista reconhece esse funcionamento, alimenta-o e o autoriza.<\/p>\n<p class=\"texto\">O segundo movimento envolve idealiza\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o. O l\u00edder \u00e9 transformado em algu\u00e9m que sabe, protege e oferece respostas. O sujeito passa a se reconhecer nele e nos outros integrantes da massa. Cria-se uma esp\u00e9cie de sequestro ps\u00edquico: quem produz o medo tamb\u00e9m se apresenta como o \u00fanico capaz de oferecer prote\u00e7\u00e3o. As redes aprofundam essa captura pela repeti\u00e7\u00e3o das mesmas certezas e indigna\u00e7\u00f5es. O pre\u00e7o do pertencimento passa a ser a ren\u00fancia ao pensamento cr\u00edtico. O sujeito continua pensando, mas somente at\u00e9 o ponto em que seu pensamento n\u00e3o ameace o v\u00ednculo que o sustenta.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>A polariza\u00e7\u00e3o nas redes sociais parece transformar o outro em um inimigo. Como a psicanalise pode nos ajudar a compreender sobre essa necessidade de encontrar um \u00a8culpado\u00a8 ou um \u00a8inimigo\u00a8 para aquilo que nos angustia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">At\u00e9 aqui falei sobre a entrega ao l\u00edder. Mas todo l\u00edder autorit\u00e1rio tamb\u00e9m precisa fabricar um inimigo. S\u00e3o duas faces da mesma opera\u00e7\u00e3o: o l\u00edder recebe a idealiza\u00e7\u00e3o; o inimigo passa a carregar todo o \u00f3dio. A ang\u00fastia \u00e9 difusa. Quando algu\u00e9m oferece um culpado, tudo fica mais simples. O desamparo, a precariedade e as contradi\u00e7\u00f5es pessoais ganham um respons\u00e1vel: o comunista, o estrangeiro, a universidade, o Supremo ou qualquer inimigo escolhido. Dar um rosto ao mal produz al\u00edvio. Se todo o mal est\u00e1 no outro, eu e meu grupo continuamos nos imaginando inteiramente bons.<\/p>\n<p class=\"texto\">Isso come\u00e7a na inf\u00e2ncia, quando aprendemos ou n\u00e3o a suportar frustra\u00e7\u00f5es, limites e diferen\u00e7as. Mas n\u00e3o podemos responsabilizar apenas as fam\u00edlias sem perguntar o que a sociedade est\u00e1 fazendo com elas. A l\u00f3gica neoliberal, com trabalho excessivo, competi\u00e7\u00e3o permanente e luta pela sobreviv\u00eancia, enfraquece os v\u00ednculos e retira tempo e condi\u00e7\u00f5es para o cuidado.<\/p>\n<p class=\"texto\">Adultos rezando para um pneu, chorando diante de quart\u00e9is e pedindo interven\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o produzem apenas cenas rid\u00edculas. Revelam um funcionamento regressivo e socialmente patol\u00f3gico: a procura por uma autoridade que restaure uma ordem imagin\u00e1ria e elimine o inimigo. As redes amplificam essa regress\u00e3o, e o ciberpopulista a autoriza. O \u00f3dio passa a funcionar como v\u00ednculo. O grupo j\u00e1 n\u00e3o se une em torno de um projeto de sociedade, mas da fantasia de destruir algu\u00e9m. Esse adulto de hoje acaba parecendo uma eterna crian\u00e7a traumatizada. Chegamos a isso!<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>A celebre imagem proposta por Arthur Schopenhauer, da vida como um p\u00eandulo entre a dor e o tedio parece ganhar ainda mais for\u00e7a no contexto contempor\u00e2neo. No sec. XIX, o filosofo observava o desejo como motor do sofrimento humano. Podemos dizer que hoje vivemos em uma sociedade que n\u00e3o apenas estimula esse desejo, mas o intensifica, o acelera constantemente?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Sim. Mas eu colocaria de outra maneira: a sociedade contempor\u00e2nea n\u00e3o inventou o desejo; industrializou a insatisfa\u00e7\u00e3o. Schopenhauer escreveu que a vida oscila \u201ccomo um p\u00eandulo, para c\u00e1 e para l\u00e1, entre a dor e o t\u00e9dio\u201d. Desejamos porque algo nos falta.<\/p>\n<p class=\"texto\">Quando conseguimos o que quer\u00edamos, o al\u00edvio dura pouco e outro desejo aparece.<br \/>\nPara a psican\u00e1lise, nenhum objeto consegue encerrar o desejo definitivamente. O mercado aprendeu a lucrar com isso. Cada celular, corpo, viagem ou carreira \u00e9 apresentado como o objeto final: \u201cCompre isto e voc\u00ea estar\u00e1 completo\u201d. O produto chega, perde o brilho e outro aparece. O p\u00eandulo de Schopenhauer ganhou um motor e agora funciona 24 horas por dia.<\/p>\n<p class=\"texto\">A leitura de Alain Ehrenberg ajuda a compreender a cultura do self-made man. Byung-Chul Han mostra como o neoliberalismo transforma liberdade em desempenho e autoexplora\u00e7\u00e3o. O sujeito precisa ser empreendedor de si, produtivo, vis\u00edvel e feliz.<\/p>\n<p class=\"texto\">Basta ouvir o vocabul\u00e1rio da ostenta\u00e7\u00e3o: ficar milion\u00e1rio deixou de ser fantasia e virou quase uma obriga\u00e7\u00e3o moral. Se algu\u00e9m n\u00e3o consegue, dizem que lhe faltou esfor\u00e7o.<br \/>\nNo Brasil, esse manual \u00e9 uma crueldade. Vivemos num pa\u00eds profundamente desigual, sem igualdade real de partida. A l\u00f3gica neoliberal vende a promessa de ascens\u00e3o individual enquanto conserva a desigualdade. O problema n\u00e3o \u00e9 desejar. Sem desejo, n\u00e3o h\u00e1 movimento nem vida. O problema \u00e9 obrigar todos a desejar os mesmos objetos e depois culp\u00e1-los por n\u00e3o alcan\u00e7ar uma plenitude que nunca existiu.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Qual \u00e9 o principal alerta que <em>Ilus\u00e3o Coletiva<\/em> gostaria de deixar para o leitor \u2013 e o que ainda podemos fazer para n\u00e3o sermos capturados pelas ilus\u00f5es das massas digitais?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">O principal alerta pode ser resumido num paradoxo: Freud continua assustadoramente atual, e isso n\u00e3o \u00e9 uma boa not\u00edcia. Ele conhecia nossa capacidade de odiar, destruir e trocar a liberdade pela prote\u00e7\u00e3o de um l\u00edder. A plataformiza\u00e7\u00e3o da vida n\u00e3o inventou essa destrutividade, mas lhe deu canais permanentes de express\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o e autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto\">H\u00e1 tamb\u00e9m um alerta \u00e0 pr\u00f3pria psican\u00e1lise. Quando uma teoria vira pai, l\u00edder ou dogma, a psican\u00e1lise forma sua pr\u00f3pria massa. Em vez de pensar o s\u00e9culo XXI, tenta encaix\u00e1-lo \u00e0 for\u00e7a em f\u00f3rmulas do s\u00e9culo XX e passa a reproduzir aquilo que deveria analisar.<\/p>\n<p class=\"texto\">E o que fazer? Essa \u00e9 a parte dif\u00edcil. N\u00e3o existe um manual de cinco passos. Podemos reduzir nossa exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s redes, recuperar o pensamento cr\u00edtico e sustentar a d\u00favida diante das certezas prontas. A an\u00e1lise pessoal pode nos ajudar a perguntar por que o diferente \u00e9 t\u00e3o insuport\u00e1vel e por que a promessa de um l\u00edder oferece tanto al\u00edvio.<br \/>\nPrecisamos reaprender a suportar ambival\u00eancia, frustra\u00e7\u00e3o e falta. O pensamento s\u00f3 sobrevive onde ainda existe espa\u00e7o para discordar e mudar de ideia. A esperan\u00e7a \u00e9 o que nos resta, mas esperan\u00e7a sem trabalho ps\u00edquico, cultural e pol\u00edtico corre o risco de se tornar apenas outra ilus\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"padding-left: 40px;\"><strong>Marcio Garrit<\/strong> \u00e9 psicanalista, professor e pesquisador. Doutor em Psicologia Cl\u00ednica pela PUC-Rio e mestre em Psican\u00e1lise, Sa\u00fade e Sociedade pela UVA\/RJ, investiga os efeitos ps\u00edquicos e culturais dos algoritmos, das plataformas digitais e da intelig\u00eancia artificial. Seu trabalho articula a metapsicologia freudiana \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do la\u00e7o social, com especial interesse pela forma\u00e7\u00e3o das massas, pelas novas formas de lideran\u00e7a e pelos impasses da cl\u00ednica.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"padding-left: 40px;\">\u00c9 professor do CEFAS, em Campinas, membro da Sociedade de Psican\u00e1lise Iracy Doyle (SPID\/RJ) e criador do PSI(em)CENA, projeto que coloca o cinema em di\u00e1logo com a psican\u00e1lise e a cultura.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"padding-left: 40px;\">\u00c9 autor de &#8220;Ilus\u00e3o Coletiva: Psican\u00e1lise, massas digitais e ciberpopulismo&#8221;, livro resultante de sua pesquisa de doutorado. Tamb\u00e9m escreve para o portal Outras Palavras, onde publicou \u201cO pai, o filho e o fantasma do ciberpopulismo\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"padding-left: 40px;\">Entre suas publica\u00e7\u00f5es recentes est\u00e3o o artigo internacional \u201cEntre o ps\u00edquico e o algor\u00edtmico: o problema do inconsciente digital\u201d, publicado na revista La \u00c9poca APA Online, da Asociaci\u00f3n Psicoanal\u00edtica Argentina; \u201cSobre as massas digitais: algoritmo, ilus\u00e3o e lideran\u00e7a\u201d, na revista Estudos de Psican\u00e1lise, do C\u00edrculo Brasileiro de Psican\u00e1lise; e \u201cMalditas antenas Haarp: reflex\u00f5es sobre o fanatismo\u201d, na revista Tempo Psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Adquira o livro<\/strong><br \/>\n<em><strong>ILUS\u00c3O COLETIVA:\u00a0 Psican\u00e1lise,<br \/>\n<\/strong><strong>Massas digitais e Ciberpopulismo<\/strong><\/em><br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/product\/ilusao-coletiva-psicanalise-massas-digitais-e-ciberpopulismo\/\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Jornal do Brasil publicou hoje uma entrevista com o psicanalista Marcio Garrit sobre o que as redes digitais est\u00e3o produzindo na pol\u00edtica e na sociedade. O autor do livro Ilus\u00e3o Coletiva: Psican\u00e1lise, Massas Digitais e Ciberpopulismo trata na entrevista de quest\u00f5es candentes da realidade atual quanto \u00e0 interface da tecnologia com a politica e&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":592,"featured_media":22511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3013,514],"tags":[5182,5641,5858,5639,5857,5638,5640,515,5637,402,5859,519,1761],"class_list":["post-23610","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-psicologia","category-sociedade","tag-liev_ilustrador","tag-ciberpopulismo","tag-freud","tag-ilusao-coletiva","tag-jornal-do-brasil","tag-marcio-garrit","tag-massas-digitais","tag-politica","tag-psicanalise","tag-psicologia","tag-redes-digitais","tag-sociedade","tag-tecnologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/592"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23610"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23616,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23610\/revisions\/23616"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}