{"id":22563,"date":"2026-09-08T18:00:21","date_gmt":"2026-09-08T21:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=22563"},"modified":"2026-09-15T19:13:29","modified_gmt":"2026-09-15T22:13:29","slug":"saberes-ancestrais-e-educacao-freireana-por-lucivaldo-lira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/saberes-ancestrais-e-educacao-freireana-por-lucivaldo-lira\/","title":{"rendered":"Saberes ancestrais e educa\u00e7\u00e3o freireana, por Lucivaldo Lira"},"content":{"rendered":"<p>Lucivaldo Paz de Lira \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela Unicamp (2025) e mestre em Educa\u00e7\u00e3o pelo Centro Universit\u00e1rio Salesiano S\u00e3o Paulo (2016). \u00c9 graduado em Pedagogia pela Faculdade do Noroeste de Minas (2004). Atualmente \u00e9 pedagogo do Instituto Federal de S\u00e3o Paulo &#8211; C\u00e2mpus Jundia\u00ed. Em entrevista ao\u00a0<em><strong>Blog da Pangeia<\/strong><\/em>, ele discorre sobre o lan\u00e7amento de seu livro <em>Quando o Terreiro Ensina a Escola: Di\u00e1logos entre a Educa\u00e7\u00e3o de Terreiro e a Educa\u00e7\u00e3o Freireana<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 Lucivaldo, nos fale, por favor, da sua trajet\u00f3ria pessoal e de profissional da educa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0Sou Lucivaldo Paz de Lira, educador popular, mobilizador social, pedagogo e autor da Editora Pangeia. H\u00e1 muitos anos, minha vida \u00e9 atravessada pela educa\u00e7\u00e3o e pelo trabalho com pessoas e comunidades. Durante 16 anos, atuei na Funda\u00e7\u00e3o Conscienciarte, desenvolvendo projetos com comunidades quilombolas e ribeirinhas, juventudes e iniciativas ligadas \u00e0 cultura, ao esporte, ao meio ambiente e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 13 anos, sou servidor p\u00fablico federal no Instituto Federal de S\u00e3o Paulo. Mas minha hist\u00f3ria tamb\u00e9m nasce e se fortalece no terreiro. Sou homem de ax\u00e9, filho de Ox\u00f3ssi e Ogan. Por isso, n\u00e3o escrevo como algu\u00e9m que apenas observou o terreiro de fora. Escrevo como quem vive essa experi\u00eancia e levou para a universidade as perguntas, os aprendizados e as inquieta\u00e7\u00f5es que nasceram no ch\u00e3o da vida. Uma frase de Elza Freire, que abre o pref\u00e1cio da obra, traduz muito do que sinto: \u201cPara entender, tem que saber sentir\u201d. \u00c9 desse lugar de afeto, escuta e pertencimento que este livro foi escrito.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 Comente, por favor, aspectos centrais do livro a partir do t\u00edtulo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0O livro se chama <strong><em>Quando o Terreiro Ensina a Escola: Di\u00e1logos entre a Educa\u00e7\u00e3o de Terreiro e a Educa\u00e7\u00e3o Freireana<\/em><\/strong>. Esse t\u00edtulo nasceu como uma provoca\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como um convite. Durante muito tempo, fomos ensinados a acreditar que a escola era o \u00fanico lugar leg\u00edtimo do saber e que as tradi\u00e7\u00f5es de matriz africana deveriam permanecer escondidas, silenciadas ou submetidas ao olhar de outras pessoas. O livro prop\u00f5e uma mudan\u00e7a de perspectiva e pergunta, com respeito e coragem, o que a escola, Elza Freire e Paulo Freire podem aprender com a Educa\u00e7\u00e3o de Terreiro. Fa\u00e7o quest\u00e3o de falar de Elza e Paulo no presente porque a pedagogia freireana nasceu de uma vida partilhada, da conviv\u00eancia e da constru\u00e7\u00e3o feita pelos dois. Hoje, como ancestrais, eles continuam vivos em tudo aquilo que nos ensinam e nos ajudam a transformar.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 Em qual \u00e1rea tem\u00e1tica o livro se encerra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0O livro est\u00e1 no campo da Educa\u00e7\u00e3o e dialoga de maneira muito pr\u00f3xima com a educa\u00e7\u00e3o popular, as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, os saberes afro-brasileiros, a Educa\u00e7\u00e3o de Terreiro e a pedagogia freireana. Ao longo da obra, tamb\u00e9m falo de ancestralidade, mem\u00f3ria, oralidade, di\u00e1logo, participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, contracolonialismo e transforma\u00e7\u00e3o social. Mais do que apresentar conceitos, procuro mostrar que os terreiros de Candombl\u00e9 s\u00e3o espa\u00e7os vivos de aprendizagem, resist\u00eancia, cuidado e reconstru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos familiares e comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 Por favor, explicite um pouco mais esses aspectos que mencionou.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0O livro nasce de uma pergunta que me acompanha h\u00e1 muito tempo: o que a escola e a educa\u00e7\u00e3o freireana podem aprender com aquilo que os terreiros j\u00e1 vivem e praticam h\u00e1 s\u00e9culos? Estou falando de uma educa\u00e7\u00e3o feita no di\u00e1logo, na conviv\u00eancia, no cuidado, na comunidade e na liberdade. A pesquisa n\u00e3o foi realizada sobre as pessoas de santo, mas com elas. Passei por seis comunidades de terreiro e conversei com doze lideran\u00e7as e membros que, com muita coragem, decidiram mostrar seus rostos e dizer seus nomes, rompendo com uma hist\u00f3ria de persegui\u00e7\u00e3o e silenciamento. No terreiro, o aprendizado acontece nas tarefas mais simples e profundas do cotidiano, como picar quiabo, macerar folhas, lavar lou\u00e7a, preparar alimentos, ouvir, conversar e tamb\u00e9m respeitar o sil\u00eancio. \u00c9 nesse conv\u00edvio que a pedagogia ganha vida. Por isso, o livro n\u00e3o foi dividido em cap\u00edtulos convencionais. Ele foi organizado nos tempos do Abian, do Ia\u00f4, do Ebomi, do Xir\u00ea e de Sankofa, acompanhando a pr\u00f3pria caminhada de quem vive o ax\u00e9.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 O que o leitor pode esperar do livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0O livro convida o leitor a se aproximar da Educa\u00e7\u00e3o de Terreiro com sensibilidade, respeito e disposi\u00e7\u00e3o para aprender. Ao longo da leitura, quatro encontros ganham for\u00e7a. A oralidade e a mem\u00f3ria se encontram com o di\u00e1logo. A ancestralidade se aproxima da liberdade. A cooperatividade se une \u00e0 participa\u00e7\u00e3o. E o ax\u00e9 se transforma em for\u00e7a para mudar a realidade. No terreiro, aprendemos com o corpo inteiro. O corpo pode ser a lousa, a cabe\u00e7a pode ser o caderno e a palavra viva pode ser o giz. A ancestralidade nos ajuda a saber de onde viemos, a comunidade nos lembra que ningu\u00e9m se educa sozinho e o ax\u00e9 nos impulsiona a agir no mundo com responsabilidade, esperan\u00e7a e compromisso com a vida.<\/p>\n<p>Espero que quem leia este livro passe a olhar a educa\u00e7\u00e3o de uma maneira mais ampla, percebendo que o conhecimento n\u00e3o nasce apenas nos livros ou dentro da sala de aula. Ele tamb\u00e9m nasce na palavra falada, no corpo, na mem\u00f3ria, no cuidado, na escuta e na vida em comunidade. Educadores, pesquisadores e todas as pessoas comprometidas com pr\u00e1ticas antirracistas e humanizadoras poder\u00e3o encontrar caminhos para repensar suas rela\u00e7\u00f5es e suas pr\u00e1ticas, acolher saberes que durante muito tempo foram silenciados e construir experi\u00eancias mais dial\u00f3gicas e participativas. No fundo, o livro faz um convite para aproximarmos o \u201csankofar\u201d africano do \u201cesperan\u00e7ar\u201d freireano. Voltar \u00e0 ancestralidade n\u00e3o significa permanecer no passado, mas buscar nela a for\u00e7a necess\u00e1ria para construir uma esperan\u00e7a ativa, feita de luta, afeto e dignidade humana.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um livro que carrega muito de mim, da minha caminhada e das pessoas que confiaram suas hist\u00f3rias a esta pesquisa. Ele foi escrito com o cora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com responsabilidade, escuta e compromisso \u00e9tico. Sua maior beleza est\u00e1 no fato de o terreiro n\u00e3o aparecer como um simples objeto de estudo. As pessoas de santo est\u00e3o presentes como sujeitos da pesquisa, com seus nomes, suas vozes, suas mem\u00f3rias e a autoria de seus pr\u00f3prios saberes. A obra aproxima a vida concreta das comunidades, a ancestralidade africana e a pedagogia de Elza e Paulo Freire em uma linguagem que busca acolher o leitor. Tenho um carinho especial pela maneira como o livro foi organizado nos tempos do ax\u00e9, porque essa escolha respeita o universo que desejo apresentar e permite que a pr\u00f3pria forma do texto tamb\u00e9m ensine.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 Al\u00e9m das formalidades acad\u00eamicas, fique \u00e0 vontade para seus agradecimentos quanto \u00e0 travessia que o fez chegar ao <em>Quando o Terreiro Ensina a Escola: Di\u00e1logos entre a Educa\u00e7\u00e3o de Terreiro e a Educa\u00e7\u00e3o Freireana.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0Antes de qualquer agradecimento, pe\u00e7o licen\u00e7a a Exu, senhor da comunica\u00e7\u00e3o, do movimento e das encruzilhadas. Reverencio meus mais velhos, minha ancestralidade e os orix\u00e1s que sustentam minha caminhada, especialmente Oxum, Iemanj\u00e1 e Ox\u00f3ssi. Agrade\u00e7o profundamente \u00e0s seis comunidades de terreiro que me receberam e \u00e0s doze pessoas que dividiram comigo suas hist\u00f3rias, suas pr\u00e1ticas e seus saberes. Agrade\u00e7o \u00e0 professora Nima Spigolon pela orienta\u00e7\u00e3o, \u00e0 professora Camila Coimbra\u00a0 pela parceria de tantos passos, e ao R\u00edzio pela arte e pela belezura da diagrama\u00e7\u00e3o. Agrade\u00e7o ainda aos meus irm\u00e3os e irm\u00e3s de f\u00e9 e de caminhada, \u00e0 minha fam\u00edlia e ao meu marido, Paulo Fabr\u00edcio, meu porto e meu amor de todos os dias. Este livro s\u00f3 chegou at\u00e9 aqui porque muitos caminhos, saberes e afetos se encontraram.<\/p>\n<p><strong><em>Blog da Pangeia<\/em> \u2013 Para encerrar, uma palavra aos leitores.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucivaldo \u2013<\/strong>\u00a0Sawubona! Eu vejo voc\u00eas. Cada pessoa que chega a estas p\u00e1ginas \u00e9 importante para mim, e sou profundamente grato por sua presen\u00e7a. Desejo que esta leitura lave os olhos, alimente a mente e toque o cora\u00e7\u00e3o com os saberes de quem veio antes de n\u00f3s. Que ela abra caminhos, provoque encontros e nos ajude a olhar a educa\u00e7\u00e3o com mais humanidade. Que Sankofa nos ensine a buscar aquilo que foi esquecido ou silenciado e que o esperan\u00e7ar freireano nos d\u00ea coragem para transformar mem\u00f3ria em luta, afeto e dignidade. Que o terreiro continue nos ensinando a cuidar uns dos outros, a aprender em comunidade e a transformar o mundo. Ax\u00e9!<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">CONHE\u00c7A O LIVRO DE LUCIVALDO:<br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline; color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/product\/quando-o-terreiro-ensina-a-escola\/\"><strong>CLIQUE AQUI !!!<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucivaldo Paz de Lira \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela Unicamp (2025) e mestre em Educa\u00e7\u00e3o pelo Centro Universit\u00e1rio Salesiano S\u00e3o Paulo (2016). \u00c9 graduado em Pedagogia pela Faculdade do Noroeste de Minas (2004). Atualmente \u00e9 pedagogo do Instituto Federal de S\u00e3o Paulo &#8211; C\u00e2mpus Jundia\u00ed. Em entrevista ao\u00a0Blog da Pangeia, ele discorre sobre o lan\u00e7amento&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":592,"featured_media":22511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3519,47],"tags":[1401,5815,503,981,418,417,5807,984,354,5814],"class_list":["post-22563","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao-e-ensino","category-lancamento","tag-ancestralidade","tag-aprendizagem","tag-educacao","tag-elza-freire","tag-ensino","tag-escola","tag-lucivaldo","tag-paulo-freire","tag-pedagogia","tag-terreiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/592"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22563"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22563\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23372,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22563\/revisions\/23372"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}