{"id":21249,"date":"2026-02-14T14:59:34","date_gmt":"2026-02-14T14:59:34","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=21249"},"modified":"2026-02-21T11:59:38","modified_gmt":"2026-02-21T11:59:38","slug":"literatura-e-cinema-com-luiz-gonzaga-marchezan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/literatura-e-cinema-com-luiz-gonzaga-marchezan\/","title":{"rendered":"Literatura e Cinema com Luiz Gonzaga Marchezan"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000;\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=Marchezan\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Luiz Gonzaga Marchezan<\/strong><\/span><\/a><\/span> tem mestrado em Letras pela UNESP e doutorado em Letras pela FFLCH \/ USP e \u00e9 professor aposentado Livre-Docente em Teoria da Literatura da FCl-Ar \/ UNESP. Seus estudos focam as rela\u00e7\u00f5es intersemi\u00f3ticas manifestadas no texto liter\u00e1rio, especialmente no conto contempor\u00e2neo e na fic\u00e7\u00e3o regionalista. Entre os livros que publicou, organizou e de que participa, destacam-se <em><strong>Ermos e Gerais<\/strong>: contos goianos<\/em>, de Bernardo \u00c9lis (org., apresenta\u00e7\u00e3o e notas, 2005), <em><strong>Faces do Narrador<\/strong><\/em>, em co-organiza\u00e7\u00e3o com Silvia Telarolli (estudos liter\u00e1rios, 2003) e <span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/product\/o-conto-na-modernidade-da-filosofia-a-composicao-epub-e-pdf\/\"><em><strong>O conto na modernidade: da filosofia \u00e0 composi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/a><\/span><\/span> (artigo, Editora Pangeia, 2022).<\/p>\n<p>Publicamos a seguir um estudo do Prof. Zaga (o modo carinhoso pelo qual ele \u00e9 conhecido e invocado na \u00e1rea dos Estudos Liter\u00e1rios) que aborda a adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de um conto de Julio Cort\u00e1zar.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Blow up faz 60 anos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Luiz Gonzaga Marzchezan<\/strong><\/p>\n<p>O argumento do filme <em><strong>Blow up<\/strong><\/em> (1966), de Michel\u00e2ngelo Antonioni, est\u00e1 no conto &#8220;As babas do diabo&#8221;, do livro <em><strong>As armas secretas<\/strong> <\/em>(1959) de Julio Cort\u00e1zar.<\/p>\n<p>O roteiro do filme, de Tonino Guerra, mant\u00e9m do conto o fot\u00f3grafo como protagonista, a paisagem de um parque e no interior do seu arvoredo um casal. Acrescentou, entre folhagens pr\u00f3ximas do arvoredo um homem armado, conforme identificado por Thomaz nos negativos da s\u00e9rie dos flagrantes que realizou do parque. A crian\u00e7a, pouco definida no conto, n\u00e3o participa do filme.<\/p>\n<p>O narrador onisciente do conto apresenta para o leitor, num parque, uma m\u00e3e ao lado do filho diante da presen\u00e7a pouco definida de um homem. A mesma indefini\u00e7\u00e3o acerca da terceira personagem do conto assistimos no filme.<\/p>\n<p>O que o conto mostra para o leitor, na cena do parque, sem transpar\u00eancia, \u00e9 que houve um movimento abusivo da parte do homem diante da crian\u00e7a. O filme, no interior do parque, n\u00e3o narra o mesmo acontecimento do conto e sugere sua terceira personagem como suspeita pelo assassinato do parceiro do casal.<\/p>\n<p>Os crimes, no conto e no filme, n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00e3o; suas narrativas n\u00e3o procuram desenlaces. As fotografias, no conto e no filme fixam ocorr\u00eancias da vida que n\u00e3o ter\u00e3o solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As imagens de flagrantes fotogr\u00e1ficos, motivos principais de &#8220;As babas do diabo&#8221; e de <em><strong>Blow up<\/strong><\/em> instalam duas intrigas, dois conflitos que se mant\u00eam insol\u00faveis nas tramas dos acontecimentos do conto e do filme.<\/p>\n<p>Segundo o narrador de &#8220;As babas do diabo&#8221; compete exatamente ao conto narrar mesmo tendo como &#8220;o mais dif\u00edcil [&#8230;] encontrar a maneira de contar&#8221; (CORT\u00c1ZAR, 2010, p.69), o que consegue quando &#8220;o olhar se torna poss\u00edvel&#8221; (CORT\u00c1ZAR, 2010, p.74).<\/p>\n<p>O argumento do narrador onisciente do conto \u00e9 ousado e vai ao encontro das estrat\u00e9gias do roteiro de Tonino Guerra para o filme, onde a fotografia tem a capacidade de olhar, de oferecer um olhar, o que bem transparece nas m\u00faltiplas revela\u00e7\u00f5es feitas por Thomas de seus flagrantes no parque.<\/p>\n<p>As duas intrigas, no entanto, limitam as interpreta\u00e7\u00f5es do leitor e do espectador que ficam com escassa base argumentativa diante de algo retirado do mundo sens\u00edvel sem a possibilidade do seu entendimento por meio de impress\u00f5es integradas, razoavelmente estruturadas para o reconhecimento de tudo o que aconteceu dentro de um parque.<\/p>\n<p>J\u00falio Cort\u00e1zar, no ensaio cr\u00edtico &#8220;Alguns aspectos do conto&#8221; (1999, p. 347-363), escrito entre 1962 e 1963, comparou a fotografia com o conto a partir da foto p&amp;b. A foto p&amp;b, para o escritor, envolve mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>De acordo com considera\u00e7\u00f5es de Julio Cort\u00e1zar, o leitor de uma foto p&amp;b complementa o fotografado com sua imagina\u00e7\u00e3o, substituindo uma situa\u00e7\u00e3o por outra, entendendo, assim, a situa\u00e7\u00e3o fotografada por meio de uma par\u00e1frase pessoal. Desse modo, uma foto em p&amp;b, segundo Cort\u00e1zar, aproxima seu leitor de uma situa\u00e7\u00e3o fotografada sempre por meio de ambiguidades, com imprecis\u00f5es, for\u00e7ando seu observador a repor uma realidade por outra, momentos correspondentes ao modo limitado como um conto promove a sua abertura para a leitura de sua narrativa.<\/p>\n<p>O flagrante, o instant\u00e2neo, d\u00e3o-se por meio das inten\u00e7\u00f5es criativas do fot\u00f3grafo, por meio de suas intui\u00e7\u00f5es, contando-nos, com id\u00e9ias subjetivas, algo escrito com a luz e por meio de uma imagem dada de modo intenso e por um click.<\/p>\n<p>O conto, como a fotografia, contam com instantes decisivos, segundo Cort\u00e1zar, uma vez que as duas atividades comp\u00f5em narrativas breves. A fotografia, por seu lado, tem um campo limitado para a expans\u00e3o da sua narrativa; seus instant\u00e2neos, flagrantes, pr\u00f3ximos dos eventos dos contos de atmosfera, promovem explos\u00f5es de sentidos inconclusos, amplos, transcendentes e mais breves do que os acontecimentos na forma liter\u00e1ria do conto.<\/p>\n<p>O filme <em><strong>Blow up<\/strong><\/em> (1966), de Michelangelo Antonioni mant\u00e9m, do conto &#8220;As babas do diabo&#8221;, de J\u00falio Cort\u00e1zar, suas personagens, no entanto, em pap\u00e9is um pouco diferentes, conservando, da narrativa em prosa, as situa\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas criadas por Julio Cort\u00e1zar, na medida em que faz seu espectador hesitar diante do que assiste: algo vago, repetitivo, reiterando um ponto de vista obsessivo apreendido do narrador onisciente do conto.<\/p>\n<p>Michelangelo Antonioni participa no cinema novo italiano de uma tend\u00eancia que se afasta de narrativas com hist\u00f3rias coletivas \u2013\u00a0 como a de <em><strong>Roma, cidade aberta<\/strong><\/em> (1945), do neorrealismo de Roberto Rosselini (1906-1977), voltando-se para hist\u00f3rias pessoais, como <em><strong>A doce vida<\/strong><\/em> (1960), de Federico Fellini.<\/p>\n<p>Michelangelo Antonioni (1912-2007) e Federico Fellini (1920-1993) tematizam hist\u00f3rias pessoais, movidas por inquietudes, assombros. O que os difere est\u00e1 no modo como Fellini, em seus filmes, exalta o sonho, a intera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com sua inf\u00e2ncia, enquanto Antonioni, nos seus, questiona no indiv\u00edduo sua incapacidade de intera\u00e7\u00e3o com o mundo. Ambos, no entanto, como quer a <em>nouvelle vague<\/em> (que move o cinema novo europeu) dramatizam h\u00e1bitos e gestos individuais, inquieta\u00e7\u00f5es, presentes em personagens de fot\u00f3grafos nos filmes de Federico Fellini e de Michelangelo Antonioni.<\/p>\n<p>O cinema novo italiano, inspirado pela <em>nouvelle vague<\/em>, aproximou-se, com seus fot\u00f3grafos, da rua, da vida, dos movimentos da vida ordin\u00e1ria e n\u00e3o mais dos compromissos da vida com a hist\u00f3ria; dirigiu-se para a constru\u00e7\u00e3o de flagrantes da vida movimentados por generalidades e registrados por personagens fot\u00f3grafos no curso de suas andan\u00e7as, viv\u00eancias manifestadas nas tramas dos filmes e pouco acess\u00edveis para o espectador, conforme op\u00e7\u00e3o da po\u00e9tica da <em>nouvelle vague<\/em> pela incomunicabilidade.<\/p>\n<p>A incomunicabilidade, para a <em>nouvelle vague<\/em>, \u00e9 tudo o que uma narrativa cinematogr\u00e1fica, entre suas imagens, n\u00e3o esclarece ao espectador a fim de representar, na mem\u00f3ria do tempo, tens\u00f5es entre identidades, individualidades, subjetividades.<\/p>\n<p>O cinema novo europeu, em sua po\u00e9tica, buscou a representa\u00e7\u00e3o de identidades no interior de suas tramas com dif\u00edcil acesso \u00e0s suas intimidades, subjetividades e, assim, sem comunic\u00e1-las por inteiro ao espectador. O cinema novo europeu foi uma ruptura com o neorrealismo; buscou uma tend\u00eancia intervalar entre o velho e o novo cinema europeu para estabelecer um per\u00edodo que lhe possibilitasse a constru\u00e7\u00e3o de um conceito, o da incomunicabilidade, para a representa\u00e7\u00e3o de individualidades, suas forma\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias; suas identifica\u00e7\u00f5es com um novo tempo.<\/p>\n<p>O que \u00e9 ef\u00eamero, fugidio, n\u00e3o se firma, conforme representado, de in\u00edcio, em <em><strong>A <\/strong><\/em><em><strong>doce vida<\/strong><\/em> (1960). O que fazem Anita Ekberg e Marcelo Mastroiani dentro da Fontana de Trevi ? O que resulta dos cen\u00e1rios de festas que movimentam corpos e esp\u00edritos que tomam tanto <strong><em>A doce vida<\/em><\/strong> (1960), de Federico Fellini, como <strong><em>A noite<\/em> <\/strong>(1961), de Michelangelo Antonioni, entre seus in\u00edcios e finais entre acasos incomunic\u00e1veis?<\/p>\n<p>Assistimos a epis\u00f3dios em <em><strong>Blow up<\/strong><\/em> (1966) com atitudes e condutas contr\u00e1rias \u00e0s moralidades e comportamentos socialmente estabelecidos em uma \u00e9poca sem consist\u00eancia temporal. Os di\u00e1logos do filme entre personagens n\u00e3o trazem reflex\u00f5es, argumentos; envolvem atitudes que procuram novas experi\u00eancias segundo aspira\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis, tanto individuais como coletivas. Da\u00ed, como em <strong><em>Blow up<\/em><\/strong>, as divaga\u00e7\u00f5es entre personagens, o vaguear de trupes <em>underground<\/em> no \u00e2mbito de inspira\u00e7\u00f5es e conspira\u00e7\u00f5es exc\u00eantricas, de festas embaladas por drogas.<\/p>\n<p>Os discursos el\u00edpticos tanto do conto como do filme, s\u00e3o acelerados; seus enunciados pouco contam do que acontece; suas hist\u00f3rias n\u00e3o transparecem todas enunciadas.<\/p>\n<p>Assim, o que n\u00e3o \u00e9 revelado, com figuras, para o leitor e o espectador nos enunciados do conto e do filme, transforma-se, na trama, um tema incomunic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dessa maneira, como nos casos, o modo como o conto e o filme narram as hist\u00f3rias de fotografias por meio das revela\u00e7\u00f5es de imagens onde dados fotografados s\u00e3o quase impercept\u00edveis, mal definidos, mas, presentes como posteriormente constatados por Michel e Thomaz em suas fotografias.<\/p>\n<p>Tanto para Julio Cort\u00e1zar como para Michelangelo Antonioni a autoria \u00e9 um lugar de cria\u00e7\u00e3o, inventividade, de escolhas, reflex\u00f5es. Tanto o cinema novo, como o conto de atmosfera s\u00e3o provocativos, questionam em suas representa\u00e7\u00f5es e, assim, v\u00e3o al\u00e9m do j\u00e1 processado pelos neorrealismos da literatura e do cinema. Desse modo, a fotografia, cara ao neorrealismo como o registro fiel de uma imagem da realidade, faz-se ilus\u00f3ria e incomunic\u00e1vel no cinema novo, fixando, conforme em <strong><em>Blow up<\/em><\/strong>, o quadro de uma singularidade, de um mist\u00e9rio, de um acontecimento incerto, equivalente ao do realismo atmosf\u00e9rico do conto &#8220;As almas do diabo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/p>\n<p>CORT\u00c1ZAR, J. <em><strong>Obra cr\u00edtica<\/strong><\/em> 2. Alguns aspectos do conto (1962\/1963). Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1999. p.347-363<\/p>\n<p>CORT\u00c1ZAR, J. <em><strong>Armas secretas<\/strong><\/em> (1959). As babas do diabo. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2010. p.69-86.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CONHE\u00c7A MAIS SOBRE O AUTOR,<\/strong><br \/>\n<strong>Luiz Gonzaga Marchezan<\/strong><br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=Marchezan\"><span style=\"color: #993366;\"><strong>CLICANDO AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/span><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">AFINIDADES LITERA\u0301RIAS ENTRE MACHADO<br \/>\nDE ASSIS E EDGAR ALLAN POE<br \/>\nLuiz Gonzaga Marchezan<br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline; color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/product\/o-conto-na-modernidade-da-filosofia-a-composicao-epub-e-pdf\/\"><strong>NESTE LIVRO !!!<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Gonzaga Marchezan tem mestrado em Letras pela UNESP e doutorado em Letras pela FFLCH \/ USP e \u00e9 professor aposentado Livre-Docente em Teoria da Literatura da FCl-Ar \/ UNESP. 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