{"id":21144,"date":"2026-01-29T12:00:58","date_gmt":"2026-01-29T12:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=21144"},"modified":"2026-03-08T16:09:00","modified_gmt":"2026-03-08T16:09:00","slug":"a-forca-da-poesia-de-flavia-de-queiroz-lima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/a-forca-da-poesia-de-flavia-de-queiroz-lima\/","title":{"rendered":"A for\u00e7a da poesia de Fl\u00e1via de Queiroz Lima"},"content":{"rendered":"<p>Fl\u00e1via de Queiroz Lima faz travessia po\u00e9tica, em seu mais recente livro, <em><strong>Resgate<\/strong><\/em>, lan\u00e7ado em 2025, no qual a escritora, atrav\u00e9s da for\u00e7a das imagens que evoca e constr\u00f3i na tessitura dos versos, cria efeitos de sentido impactantes, trabalhando temas os mais diversos: da inf\u00e2ncia \u00e0 subjetividade, da <em>polis<\/em> politica ao meio-ambiente, da corrup\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o p\u00fablica \u00e0s quest\u00f5es familiares, de poemas metapo\u00e9ticos a versos engajados.<\/p>\n<p>\u00c9 o que a estudiosa de literatura Rosemary Ferreira de Souza, doutora em literatura pela UFMG, demonstra no estudo que publicamos na \u00edntegra a seguir.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"s4\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">UM OLHAR SOBRE <\/span><span class=\"s3\"><em><strong>RESGATE<\/strong><\/em>, <\/span><span class=\"s2\">DE<br \/>\nFL\u00c1VIA DE QUEIROZ LIMA<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"s7\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s6\"><strong>Rosemary Ferreira de Souza *<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O livro<\/span><em><strong><span class=\"s9\"> Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, escrito por Fl\u00e1via de Queiroz Lima, \u00e9 uma obra po\u00e9tica que explora temas profundos e universais. A capa, com seu design minimalista e simb\u00f3lico, nos <\/span><span class=\"s6\">convida<\/span><span class=\"s6\"> a uma reflex\u00e3o sobre o conte\u00fado que ela abriga. \u00a0O t\u00edtulo \u2018<\/span><span class=\"s9\">Resgate<\/span><span class=\"s6\">\u2019 sugere uma jornada de recuper<\/span><span class=\"s6\">a\u00e7\u00e3o, liberta\u00e7\u00e3o ou reencontro, seja consigo mesm<\/span><span class=\"s10\">a<\/span><span class=\"s6\">, com o passado, com algo que foi perdido ou at\u00e9 mesmo um <\/span><span class=\"s6\">reavivamento<\/span><span class=\"s6\"> da poesia, ao lembrar a trajet\u00f3ria de uma escrita percorrida e constru\u00edda em versos. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A capa apresenta um fundo laranja queimado, que r<\/span><span class=\"s6\">esulta num tom terroso e <\/span><span class=\"s6\">quente,<\/span><span class=\"s6\"> uma cor que evoca energia, criatividade e paix\u00e3o. Sobre ele, destaca-se uma ilustra\u00e7\u00e3o em branco que ocupa a maior parte da \u00e1rea. Essa ilustra\u00e7\u00e3o aparenta uma renda bordada por tra\u00e7os definidos, que sugerem um resgate da p<\/span><span class=\"s6\">r\u00f3pria vida e tamb\u00e9m das veias po\u00e9ticas, por onde vemos uma intrincada tape\u00e7aria de elementos naturais e figuras abstratas.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A presen\u00e7a de galhos, folhas e at\u00e9 pequenos animais dentro do contorno esbo\u00e7ado pode simbolizar a conex\u00e3o intr\u00ednseca entre o ser hum<\/span><span class=\"s6\">ano e a natureza, ou como nossos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o complexos e org\u00e2nicos quanto um ecossistema. A forma como os elementos se entrela\u00e7am sugere a complexidade da mente humana, os pensamentos que <\/span><span class=\"s6\">florescem,<\/span><span class=\"s6\"> as mem\u00f3rias que se enra\u00edzam e as emo\u00e7\u00f5e<\/span><span class=\"s6\">s que se ramificam. E pode representar a busca por entender a pr\u00f3pria psique.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A arte em branco sobre o fundo vibrante pode ser vista como a express\u00e3o de ideias ou sentimentos que emergem do interior, talvez um processo de autoconhecimento ou de cura, onde <\/span><span class=\"s6\">o \u201cresgate\u201d ocorre ao dar forma a esses elementos internos. O livro se destaca com uma tipografia elegante e clara, que n\u00e3o compete com a arte principal, mas a complementa, conferindo a devida import\u00e2ncia ao t\u00edtulo e \u00e0 obra. <\/span><\/p>\n<p><em><strong>Resgate<\/strong><\/em> \u00e9 uma obra de arte por si s\u00f3. A autora utiliza elementos visuais, todos de autoria do artista pl\u00e1stico Pedro Miranda [ver nota ap\u00f3s o texto], para evocar os temas que ser\u00e3o explorados nos poemas: a introspec\u00e7\u00e3o, a natureza da exist\u00eancia, a complexidade humana e a busca por um sentido ou liberta\u00e7\u00e3o \u2013 isso al\u00e9m de expandir e aprofundar mem\u00f3ria e identidade, subjetividade e cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, afeto e ancestralidade, tempo e fragmenta\u00e7\u00e3o, dentre outros. O livro \u00e9 um convite visual que instiga a curiosidade e prepara o leitor para uma experi\u00eancia po\u00e9tica profunda e reflexiva.<\/p>\n<p>A dedicat\u00f3ria a mim externada neste livro chega como um bilhete especial, deixado dentro de um presente, algo que torna a leitura ainda mais significativa. Vale mergulhar na met\u00e1fora do bordado dessa poesia, express\u00e3o de que gosto muito, pois sugere que a vida \u00e9 feita de muitos detalhes e experi\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O livro <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\"> \u00e9 dividido em quatro partes: Aragens,<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">Trilogia \u00e0 Mulher, \u00a0Desatinos e Resgate, al\u00e9m de incluir dois sonetos escritos pelo av\u00f4 da autora, escritos especialmente para sua av\u00f3. <\/span><span class=\"s6\">Fl\u00e1via,<\/span><span class=\"s6\">\u00a0<\/span><span class=\"s6\">em sua carta <\/span><span class=\"s6\">a quem l\u00ea <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, no in\u00edcio do livro, afirma que os poemas foram escritos nas perspectivas desses olhares \u2013 \u201cforam morar nos escaninhos\u201d, \u00a0modo pelo qual ela intitulou as quatro partes do livro.<\/span><\/p>\n<p>Vamos a cada um desses &#8220;escaninhos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Aragens<\/strong><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A primeira parte do livro, intitulada \u201cAragens\u201d, apresenta-se como um convite <\/span><span class=\"s6\">\u00e0 contempla\u00e7\u00e3o e \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o. A imagem que acompanha esta se\u00e7\u00e3o, um vitral estilizado retratando uma figura feminina tocando um instrumento musical, evoca uma atmosfera et\u00e9rea e art\u00edstica, que dialoga com os versos apresentados. A poesia aqui contida ex<\/span><span class=\"s6\">plora a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre a beleza e a sua manifesta\u00e7\u00e3o, como um talism\u00e3 pessoal e duradouro.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Os versos <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">H\u00e1 muito fiz da beleza<br \/>\n<\/span><span class=\"s6\">meu talism\u00e3 cristalino<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">v\u00eam como ep\u00edgrafe desta parte do livro e sugerem uma profunda internaliza\u00e7\u00e3o da beleza como um <\/span><span class=\"s6\">elemento protetor e de for\u00e7a. Esses versos s\u00e3o da pr\u00f3pria autora e fazem parte do poema \u201cLouvor \u00e0 beleza\u201d, inserido na se\u00e7\u00e3o \u201cAragens\u201d. N\u00e3o se trata de uma beleza ef\u00eamera e superficial, mas de algo consolidado ao longo do tempo, transformado em um amuleto <\/span><span class=\"s6\">pessoal, l\u00edmpido e resistente como um cristal. Essa concep\u00e7\u00e3o da beleza como um ref\u00fagio ou um poder intr\u00ednseco \u00e0 alma \u00e9 um tema recorrente na literatura, mas aqui \u00e9 apresentado com uma singularidade, que convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre como cada indiv\u00edduo constr\u00f3<\/span><span class=\"s6\">i suas pr\u00f3prias defesas e fontes de inspira\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A ilustra\u00e7\u00e3o do vitral, com suas cores vibrantes e formas fragmentadas, complementa a poesia de maneira not\u00e1vel. A figura feminina, em sua postura serena e concentrada na m\u00fasica, pode ser interpretada como a <\/span><span class=\"s6\">pr\u00f3pria poetisa ou uma representa\u00e7\u00e3o da beleza em si, manifestando sua ess\u00eancia atrav\u00e9s da arte. A t\u00e9cnica do vitral, que fragmenta a luz e a recomp\u00f5e em um todo harmonioso, ecoa a forma como a beleza \u00e9 constru\u00edda a partir de experi\u00eancias e percep\u00e7\u00f5es, tor<\/span><span class=\"s6\">nando-se um escudo contra as adversidades da vida, um \u201ctalism\u00e3 cristalino\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Os poemas que a autora insere nesta parte do livro revelam o movimento po\u00e9tico que sopra nos ouvidos do leitor, feito aragem<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">visual diante dos olhos, frescor de vida, vento da poe<\/span><span class=\"s6\">sia que vem para tocar o ser. \u201cO tempo do olhar\u201d, por exemplo, \u00e9 um poema que explora a dualidade entre a pressa, que atropela e descarta, e o olhar atento, que acolhe, investiga e desvenda os mist\u00e9rios da exist\u00eancia. Atrav\u00e9s de uma linguagem po\u00e9tica, flui<\/span><span class=\"s6\">da e imag\u00e9tica, a autora tece uma narrativa sobre como a velocidade da vida moderna pode nos privar da profundidade e da sutileza das experi\u00eancias, enquanto um olhar mais pausado e questionador nos permite acessar o invis\u00edvel e o profundo: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">A pressa nos at<\/span><span class=\"s6\">ropela<br \/>\no olhar que acolhe e contempla,<br \/>\nse aproxima do mist\u00e9rio,<br \/>\nadentra a sombra, desvenda. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A pressa \u00e9 apresentada como uma for\u00e7a avassaladora que nos impede de apreender a realidade em sua plenitude. Em contrapartida, o olhar contemplativo \u00e9 descri<\/span><span class=\"s6\">to como um ato de aproxima\u00e7\u00e3o e desvendamento, capaz de penetrar na \u201csombra\u201d e revelar o que est\u00e1 oculto.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Em \u201cA Vida \u00e9 M\u00f3bile\u201d, a autora explora a natureza ef\u00eamera e mut\u00e1vel da exist\u00eancia, ela utiliza uma rica tape\u00e7aria de met\u00e1foras visuais e sensoriais p<\/span><span class=\"s6\">ara construir sua argumenta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. A primeira parte do livro, \u201cAragens\u201d, estabelece um tom de leveza e movimento, que se aprofunda neste segundo poema. O poema se inicia com a afirma\u00e7\u00e3o direta: &#8220;<\/span><span class=\"s9\">A vida \u00e9 m\u00f3bile&#8221;<\/span><span class=\"s6\">. Esta premissa \u00e9 imediatamente desdobrada<\/span><span class=\"s6\"> atrav\u00e9s de imagens que evocam instabilidade e dinamismo. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Nesse poema, a vida \u00e9 descrita como algo que \u201cmove-se ao vento\u201d, \u201csuspensa em fios\u201d, e que se assemelha a um \u201cjogo de p\u00eandulos\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o de precariedade \u00e9 acentuada com a caracteriza\u00e7\u00e3o da vida <\/span><span class=\"s6\">como \u201cpresa no inst\u00e1vel\u201d e \u201csolta no ef\u00eamero\u201d. A met\u00e1fora do \u201cvento esquivo\u201d que \u201cdesencadeia caleidosc\u00f3pios, desdobramentos\u201d sugere a multiplicidade de formas e a constante reinven\u00e7\u00e3o que caracterizam a exist\u00eancia. Cada elemento, em sua fluidez, \u201cse reequ<\/span><span class=\"s6\">ilibra, se reinventa, no movimento\u201d, refor\u00e7ando a ideia de que a pr\u00f3pria ess\u00eancia da vida reside em sua imperman\u00eancia e adaptabilidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">J\u00e1 no poema \u201cDetalhes\u201d, Fl\u00e1via apresenta uma reflex\u00e3o profunda sobre a percep\u00e7\u00e3o da beleza e do tempo atrav\u00e9s da lente d<\/span><span class=\"s6\">o haicai e da observa\u00e7\u00e3o atenta do cotidiano. O poema se inicia com uma ep\u00edgrafe que evoca uma imagem visual marcante: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">alongam no muro<br \/>\nos ramos secos da hera \u2013<br \/>\ninverno sem luz<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">assinada por Rauer, estabelece um tom melanc\u00f3lico e introspectivo, sugeri<\/span><span class=\"s6\">ndo a passagem do tempo e a beleza encontrada na aparente desola\u00e7\u00e3o. O eu l\u00edrico estabelece uma conex\u00e3o direta com a forma do haicai, afirmando que \u201cO <\/span><span class=\"s6\">haikai<\/span><span class=\"s6\"> me estende a beleza \/ iluminando detalhes\u201d. Essa rela\u00e7\u00e3o sugere que a estrutura concisa e focada do <\/span><span class=\"s6\">haicai, com sua \u00eanfase na natureza e nos momentos fugazes, permite uma aprecia\u00e7\u00e3o mais profunda dos pormenores da exist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">\u00c0 medida que a leitura flui, o resgate se expande. N\u00e3o h\u00e1 como ler e parar<\/span><span class=\"s6\">, emerge<\/span><span class=\"s6\"> a necessidade de seguir adiante, mergulhar nos <\/span><span class=\"s6\">versos e sentir as aragens po\u00e9ticas das palavras. O poema \u201cA <\/span><span class=\"s6\">Cidade que me habita\u201d trouxe uma conex\u00e3o de vida e poesia, pelo gosto por sua tem\u00e1tica, que h\u00e1 algum tempo venho estudando como cr\u00edtica liter\u00e1ria. Este poema explora a complexa rela\u00e7\u00e3o entre o eu<\/span><span class=\"s6\"> l\u00edrico e o espa\u00e7o urbano, concebido n\u00e3o como um local f\u00edsico estanque, mas como uma entidade viva e intrinsecamente ligada \u00e0 subjetividade. A obra<\/span><em><strong><span class=\"s9\"> Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, em sua totalidade, busca, como o t\u00edtulo <\/span><span class=\"s6\">sugere,<\/span><span class=\"s6\"> uma reconex\u00e3o com aspectos essenciais da exist\u00eancia<\/span><span class=\"s6\">, e a subparte \u201cAragens\u201d \u00e9 o prel\u00fadio dessa jornada, introduzindo elementos sensoriais e existenciais, que preparam o leitor para um mergulho mais profundo.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cA Cidade que me habita\u201d \u00e9 epigrafado por uma afirma\u00e7\u00e3o paradoxal: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Nunca a mesma, sempre a mesma<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">de Maria Nazareth Fonseca. Esta ant\u00edtese estabelece o tom para a compreens\u00e3o da cidade como um ente mut\u00e1vel em sua ess\u00eancia, mas constante em sua pr<\/span><span class=\"s6\">esen\u00e7a definidora. O eu l\u00edrico se sente constantemente observado e influenciado por essa cidade: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">\u00e9 seu olhar que me fita. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A urbanidade se manifesta de forma sedutora, infiltrando-se na subjetividade atrav\u00e9s de \u201ccores, perfumes\u201d, e gerando um sentimento d<\/span><span class=\"s6\">e posse: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">\u00e9 dona de meus espa\u00e7os,<br \/>\na cidade que me habita. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A cidade, portanto, transcende o concreto, tornando-se uma proje\u00e7\u00e3o interna, um espelho das inquieta\u00e7\u00f5es e desejos do indiv\u00edduo. A dualidade entre \u201cinven\u00e7\u00e3o e verdade\u201d nas fronteiras da cidade, s<\/span><span class=\"s6\">eu \u201clabirinto de espelhos\u201d, sugere uma realidade constru\u00edda e, ao mesmo tempo, reveladora de uma verdade interior, um \u201carrepio\u201d que remete \u00e0s \u201cprimeiras madrugadas\u201d e \u00e0s \u201cvontades\u201d arriscadas. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A cidade que visita o eu l\u00edrico tamb\u00e9m se evade, refor\u00e7ando su<\/span><span class=\"s6\">a natureza ef\u00eamera e inating\u00edvel, apesar de sua profunda internaliza\u00e7\u00e3o. Ela se torna um recept\u00e1culo de mem\u00f3rias e um espa\u00e7o de autoconhecimento, um <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">canteiro sem bordas<br \/>\n<\/span><span class=\"s6\">replantado em meus jardins. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A explora\u00e7\u00e3o de seus <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">por\u00f5es e varandas,<br \/>\nhorizontes e<\/span><span class=\"s6\"> confins<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">representa a totalidade do ser, onde a cidade habita e se expande, moldando a percep\u00e7\u00e3o do mundo e de si mesmo. A an\u00e1lise detalhada do poema \u201cA cidade que me habita\u201d revela camadas de significado, que convidam \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o e \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o da pr<\/span><span class=\"s6\">\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com os espa\u00e7os que habitamos e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, nos habitam.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Como n\u00e3o poderia deixar de destacar, a intertextualidade revela as leituras da autora e seu di\u00e1logo com grandes poetas, como demonstra o poema \u201cQuebrar os ovos\u201d, ao apresen<\/span><span class=\"s6\">tar a ep\u00edgrafe com versos do poema \u201cCatar feij\u00e3o\u201d, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. O poema de Fl\u00e1via, <\/span><span class=\"s6\">\u201cQuebrar os Ovos\u201d, estabelece um paralelo engenhoso entre a a\u00e7\u00e3o de catar feij\u00e3o e o ato de escrever. Num jogo de met\u00e1for<\/span><span class=\"s6\">as, o fazer po\u00e9tico se <\/span><span class=\"s6\">desponta,<\/span><span class=\"s6\"> catar feij\u00e3o \/ quebrar os ovos \u00e9 uma compara\u00e7\u00e3o que sugere a import\u00e2ncia da mat\u00e9ria-prima e do suporte, mas tamb\u00e9m a necessidade de um m\u00e9todo, de uma a\u00e7\u00e3o deliberada, o equil\u00edbrio entre raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O ato de quebrar ovos<\/span><span class=\"s6\">, comparado ao fazer po\u00e9tico, \u00e9 um processo que exige <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">[&#8230;] sapi\u00eancia,<br \/>\ncerto equil\u00edbrio entre usar for\u00e7a e sutileza. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A finalidade \u00e9 preservar a integridade da gema e da clara, <\/span><span class=\"s6\">evitando que a casca se esfacele. A a\u00e7\u00e3o descrita \u2013<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">bater o garfo incisivo, sem m<\/span><span class=\"s6\">elindres,<br \/>\nnum gesto breve entre o cuidado e a destreza <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">\u2013 evoca a precis\u00e3o e a economia de movimentos, caracter\u00edsticas advindas da poesia de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. A arte da escrita, mesmo quando medida e precisa, deve preservar <\/span><span class=\"s6\">um certo<\/span><span class=\"s6\"> fogo, uma int<\/span><span class=\"s6\">ensidade que n\u00e3o se esgota, mantendo o leitor em um estado de desejo e contempla\u00e7\u00e3o: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Resta cuidar que assim, medida, n\u00e3o sacie,<br \/>\nmantendo a fome na ardilosa incandesc\u00eancia. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A compara\u00e7\u00e3o com o ato de quebrar ovos sublinha a import\u00e2ncia do cuidado, da des<\/span><span class=\"s6\">treza e da sutileza na constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, visando \u00e0 revela\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Essa subparte, \u201cAragens\u201d, finaliza com o poema \u201cLouvor \u00e0 beleza\u201d, mencionado anteriormente, cujos versos<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">oferecem uma profunda reflex\u00e3o sobre a natureza da beleza, sua percep\u00e7\u00e3o e sua influ\u00eancia na experi\u00eancia humana. A beleza \u00e9 apresentada em suas manife<\/span><span class=\"s6\">sta\u00e7\u00f5es mais et\u00e9reas e naturais, como apresenta a ep\u00edgrafe atribu\u00edda a Ferreira Gullar:<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">na argila da aurora<br \/>\nna pluma da neve<br \/>\nna alvura do novo. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A beleza \u00e9 associada \u00e0 leveza, como ensina a cita\u00e7\u00e3o atribu\u00edda, ao mencionar a ideia de beleza pensada por<\/span><span class=\"s6\"> Oscar Wilde (\u201ca beleza \u00e9 leve\u201d). Essa leveza contrasta com os pesos que o eu l\u00edrico escolhe n\u00e3o carregar:<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">N\u00e3o carrego anjos da guarda<br \/>\nme ajeitando descaminhos,<br \/>\nnem dem\u00f4nios que atormentem,<br \/>\na\u00e7ulando desatinos,<br \/>\no mau agouro, press\u00e1gios,<br \/>\nmaldi\u00e7\u00f5es<\/span><span class=\"s6\"> e vatic\u00ednios. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A recusa de reg\u00eancias espirituais tradicionais ou supersticiosas: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">N\u00e3o me regem orix\u00e1s,<br \/>\nvozes do al\u00e9m, mantras, hinos,<br \/>\nbentinhos, escapul\u00e1rios,<br \/>\namuletos e <\/span><span class=\"s6\">mandalas<\/span><span class=\"s6\">,<br \/>\nnem medalhas protetoras,<br \/>\nguardi\u00e3s de meus destinos<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">refor\u00e7a a a<\/span><span class=\"s6\">utonomia e a busca por uma beleza que transcende os rituais e as prote\u00e7\u00f5es convencionais. A beleza se torna, assim, um \u201ctalism\u00e3 cristalino\u201d, uma prote\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca e pura, forjada pela pr\u00f3pria experi\u00eancia e percep\u00e7\u00e3o do eu l\u00edrico, como expresso em <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">H\u00e1 mui<\/span><span class=\"s6\">to fiz da beleza<br \/>\nmeu talism\u00e3 cristalino. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Os versos de Fl\u00e1via de Queiroz Lima, ao incorporar essa perspectiva, sugere<\/span><span class=\"s10\">m<\/span><span class=\"s6\"> um caminho de resgate da leveza e da autenticidade na percep\u00e7\u00e3o do mundo e de si mesmo.<\/span><\/p>\n<p><strong>Trilogia \u00e0 mulher<\/strong><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Em \u201cTrilogia \u00e0 mulher\u201d, segunda parte do livro <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, Fl\u00e1via oferece uma reflex\u00e3o sobre desejo e cria\u00e7\u00e3o, ao dar \u00eanfase ao poder da voz interior e o anseio. O t\u00edtulo \u201cTrilogia \u00e0 mulher\u201d sugere uma obra focada na experi\u00eancia feminina, possivelmente explorando diferentes facetas ou fases. A frase \/ ep\u00ed<\/span><span class=\"s6\">grafe <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Se ela habita essa voz quando expressa o desejo<br \/>\nredesenha o lugar onde a vida acontece<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">nos convida a pensar sobre a import\u00e2ncia da voz interior da mulher, especialmente quando ela se permite expressar seus desejos mais profundos. Esse pensamento pode ser atribu\u00eddo quando uma mulher tem <\/span><span class=\"s6\">a vontade forte de fazer algo \u2013 seja aprender uma nova habilidade, viajar ou mudar de carreira. Essa voz que surge dentro dela e que a impulsiona \u00e9 poderosa. Quando a mulher ouve e age com base nessa voz interior, ela est\u00e1 se conectando com sua ess\u00eancia e <\/span><span class=\"s6\">com o que realmente a move.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A segunda parte da ep\u00edgrafe em \u201cTrilogia \u00e0 mulher\u201d, \u201credesenha o lugar onde a vida acontece\u201d, indica onde a m\u00e1gica acontece. N\u00e3o se trata apenas de desejar, mas de usar essa express\u00e3o de desejo para transformar o ambiente ao red<\/span><span class=\"s6\">or, a pr\u00f3pria vida ou a percep\u00e7\u00e3o que se tem dela. Redesenhar um espa\u00e7o \u00e9 torn\u00e1-lo um lugar onde a vida acontece de forma mais prazerosa e produtiva. Da mesma forma, quando uma mulher expressa seus desejos, ela pode remodelar suas rela\u00e7\u00f5es, seu trabalho, s<\/span><span class=\"s6\">ua comunidade e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o palco onde sua vida se desenrola.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Os poemas desta se\u00e7\u00e3o se conectam com a ilustra\u00e7\u00e3o do vitral com figuras humanas e elementos da natureza, que refor\u00e7a essa ideia de cria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o. As cores vibrantes e a fo<\/span><span class=\"s6\">rma como as figuras est\u00e3o integradas ao cen\u00e1rio podem simbolizar a beleza e a complexidade da vida que \u00e9 moldada pela express\u00e3o feminina. A arte, assim como a express\u00e3o de desejo, tem o poder de nos mostrar novas perspectivas e de nos inspirar a criar as r<\/span><span class=\"s6\">ealidades que desejamos viver. A \u201cTrilogia \u00e0 mulher\u201d, com essa mensagem, \u00e9 um convite para que as mulheres reconhe\u00e7am o poder de suas vozes e desejos como ferramentas de autoconstru\u00e7\u00e3o e de redefini\u00e7\u00e3o do mundo ao seu redor.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cViver \u00e0 sombra\u201d aprese<\/span><span class=\"s6\">nta uma profunda reflex\u00e3o sobre a exist\u00eancia em um estado de letargia e conformismo. Os versos exploram as complexidades da identidade feminina e as diversas formas de viv\u00eancia. O t\u00edtulo \u201cViver \u00e0 sombra\u201d evoca uma condi\u00e7\u00e3o de existencialismo passivo, onde <\/span><span class=\"s6\">a vida \u00e9 vivida sem o \u00edmpeto do sonho ou do desejo. A autora utiliza imagens fortes para descrever esse estado: um \u201clugar sem sonho aceso, sem desejo\u201d, \u201ctecido em malhas do ilus\u00f3rio, opaco e denso\u201d. As \u201cmarcas fundas das ren\u00fancias, dos sil\u00eancios\u201d sugerem u<\/span><span class=\"s6\">m fardo de experi\u00eancias n\u00e3o vividas ou suprimidas. A segunda estrofe aprofunda essa ideia, falando de \u201canseios represados, dilu\u00eddos\u201d e de um \u201cdeserto semeado de inquietudes\u201d, onde a vida, sem a \u201crega\u201d da a\u00e7\u00e3o ou da paix\u00e3o, n\u00e3o floresce. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A \u00faltima estrofe i<\/span><span class=\"s6\">ntroduz a fus\u00e3o entre \u201csombra e sobra\u201d, um espa\u00e7o de \u201cvazios\u201d, onde as experi\u00eancias passadas n\u00e3o deixam marcas, comparando-se a \u201cuma vela derretendo sem pavio\u201d. O estilo \u00e9 marcado por uma linguagem densa e metaf\u00f3rica, com um tom melanc\u00f3lico e introspectivo<\/span><span class=\"s6\">, caracter\u00edstico da poesia l\u00edrica, que explora o universo interior. A for\u00e7a das imagens po\u00e9ticas e a musicalidade dos versos criam uma atmosfera de profunda reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e as escolhas que moldam nossa exist\u00eancia. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cRastro invis\u00ed<\/span><span class=\"s6\">vel\u201d \u00e9 uma ode \u00e0s mulheres que, de alguma forma, marcaram a vida do eu l\u00edrico. O t\u00edtulo sugere a ideia de uma presen\u00e7a sutil, mas profunda e duradoura, que n\u00e3o \u00e9 imediatamente aparente, mas que deixa uma marca permanente. A dedicat\u00f3ria \u201c\u00c0s mulheres que hab<\/span><span class=\"s6\">itaram minha vida com seus gestos de afeto\u201d estabelece o tom de gratid\u00e3o e reconhecimento, com o foco na for\u00e7a e no impacto dos gestos de carinho e cuidado.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O primeiro verso, \u201cBem lentamente a luz se espalha sobre elas\u201d, evoca uma imagem de revela\u00e7\u00e3o gradu<\/span><span class=\"s6\">al. A \u201cluz\u201d pode ser interpretada como a compreens\u00e3o ou a mem\u00f3ria que ilumina a presen\u00e7a dessas mulheres. A \u201csombra\u201d, por outro lado, \u201cainda emba\u00e7a seu desvelo\u201d, sugerindo que, mesmo com essa ilumina\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um v\u00e9u de mist\u00e9rio ou <\/span><span class=\"s6\">uma certa<\/span><span class=\"s6\"> dificuldade em ap<\/span><span class=\"s6\">reender completamente a ess\u00eancia delas. No entanto, um \u201crastro oculto, indel\u00e9vel\u201d <\/span><span class=\"s6\">emerge,<\/span><span class=\"s6\"> formado pelos gestos que \u201cteceram\u201d a vida da poetisa. Esses gestos silenciaram \u201ctemores\u201d e ofereceram um \u201cabra\u00e7o que acalanta\u201d, demonstrando o poder curativo e reconf<\/span><span class=\"s6\">ortante dessas figuras femininas.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A segunda estrofe aprofunda a met\u00e1fora da tecelagem. O desejo de \u201creparar o lado avesso do tecido\u201d sugere uma vontade de entender as complexidades e os detalhes por tr\u00e1s das apar\u00eancias. O \u201ccerzido\u201d (costura para remendar) <\/span><span class=\"s6\">se entrela\u00e7a ao \u201cbordado\u201d (ornamento), mostrando como os atos de cuidado e reparo tamb\u00e9m s\u00e3o belos e significativos. Os \u201cn\u00f3s se fecham como la\u00e7os delicados\u201d, e cada \u201cponto\u201d adiciona sentido <\/span><span class=\"s6\">a<\/span><span class=\"s6\"> um tempo dedicado, refor\u00e7ando a ideia de que a vida \u00e9 constru\u00edda <\/span><span class=\"s6\">por esses pequenos, mas essenciais, atos de amor e aten\u00e7\u00e3o. Essa leitura pode ser direcionada para o ato da cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, o cerzir e o bordar das palavras na linguagem liter\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A terceira estrofe foca nos \u201cmomentos de cuidados\u201d que revelam um \u201cdom se<\/span><span class=\"s6\">creto\u201d. As m\u00e3os dessas mulheres n\u00e3o apenas realizavam tarefas, mas possu\u00edam uma sabedoria inata. A imagem de \u201cpo\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas de afeto\u201d \u00e9 poderosa: mesmo que a \u201cboca\u201d ralhasse (talvez por preocupa\u00e7\u00e3o ou disciplina), o gesto \u201csoprava no ferido\u201d, curando. A f<\/span><span class=\"s6\">ebre (simbolizando afli\u00e7\u00e3o ou doen\u00e7a) cessava, o choro se acalmava, o medo era aliviado, e o rosto, antes tenso, tornava-se \u201ccontido\u201d, em paz. Isso ilustra como o afeto, mesmo em suas formas menos \u00f3bvias, tem um poder transformador.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A estrofe final descrev<\/span><span class=\"s6\">e como a \u201cmiudeza\u201d (pequenez, simplicidade) ganha for\u00e7a na \u201crotina cotidiana e relutante\u201d. Superando \u201cobst\u00e1culos e fronteiras\u201d, o \u201ccond\u00e3o\u201d (encanto, poder m\u00e1gico) dessas mulheres se revela. De forma \u201cdescortinada\u201d, elas \u201cassomam\u201d ao olhar da poetisa. O \u201cra<\/span><span class=\"s6\">stro\u201d que <\/span><span class=\"s6\">deixaram,<\/span><span class=\"s6\"> antes invis\u00edvel, agora \u201cse ilumina\u201d, culminando na ideia de que o que \u00e9 sutil e muitas vezes n\u00e3o percebido \u00e9, na verdade, o que d\u00e1 luz e sentido \u00e0 exist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O \u00faltimo poema desta trilogia, \u201cO dom da voz\u201d, explora a for\u00e7a e a capacidade<\/span><span class=\"s6\"> transformadora da voz humana e da express\u00e3o. Ele nos convida a pensar sobre como nossas palavras e nossa forma de nos comunicar podem moldar a realidade, quebrar barreiras e at\u00e9 mesmo regenerar o que parece perdido. \u00c9 uma reflex\u00e3o sobre o poder intr\u00ednseco<\/span><span class=\"s6\"> que temos ao nos expressarmos, seja atrav\u00e9s da fala, da escrita ou de qualquer outra forma de comunica\u00e7\u00e3o que emane de n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A primeira parte do poema descreve uma voz que n\u00e3o se limita, que transita livremente por \u201cfronteiras, sem v\u00e9us, sem morda\u00e7as\u201d. Ela<\/span><span class=\"s6\"> confronta \u201cabismos\u201d e \u201cmuros\u201d, sugerindo que a voz tem o poder de superar obst\u00e1culos e medos. Ao \u201cpalmilhar infinitos\u201d e \u201ctranspor universos\u201d, a voz expande horizontes, abrindo caminhos e destinos. Ela \u201csorve o mundo que pulsa e se infiltra na <\/span><span class=\"s6\">pele\u201d, most<\/span><span class=\"s6\">rando como a voz absorve as experi\u00eancias e as transforma em algo pessoal e marcante, \u201ctatuando seu rastro, entalhando caminhos\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A segunda estrofe aprofunda a ideia de que, quando a voz expressa um desejo genu\u00edno, ela tem o poder de redesenhar a realidade<\/span><span class=\"s6\">. Ela \u201cmolda um tempo capaz de alterar seus desfechos\u201d, indicando que a forma como nos expressamos pode mudar o curso dos eventos. A voz se torna um \u201ccond\u00e3o de acender cada sonho\u201d, uma for\u00e7a m\u00e1gica que d\u00e1 vida a aspira\u00e7\u00f5es. E, assim como uma planta que bro<\/span><span class=\"s6\">ta mesmo em um \u201cdeserto\u201d, essa voz \u201crega o ch\u00e3o que semeia, viceja, floresce\u201d, trazendo vida e crescimento onde antes havia aridez. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A \u00faltima parte do poema fala sobre como as vozes se entrela\u00e7am, formando uma \u201cteia\u201d. Essas vozes \u201c<\/span><span class=\"s6\">desamorda\u00e7am<\/span><span class=\"s6\"> sil\u00eancios, e<\/span><span class=\"s6\">speras\u201d, libertando o que estava contido. Elas \u201ctransbordam o indiz\u00edvel\u201d, expressando aquilo que \u00e9 dif\u00edcil de colocar em palavras, e \u201cafrontam limites\u201d, desafiando o <em>status quo<\/em>. O espa\u00e7o criado por essa conex\u00e3o de vozes \u201crefaz, regenera\u201d, trazendo renova\u00e7\u00e3<\/span><span class=\"s6\">o. \u201cCada gesto se alastra, se alonga, insiste\u201d, mostrando a persist\u00eancia e o impacto dessa express\u00e3o coletiva, \u201cdesvelando palavras que a voz reverbera\u201d.<\/span><\/p>\n<p><strong>Desatinos<\/strong><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A terceira parte do livro <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, intitulada \u201cDesatinos\u201d, apresenta-se como um momento crucial na ex<\/span><span class=\"s6\">plora\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica do livro. Essa subparte apresenta uma ep\u00edgrafe que encapsula a ess\u00eancia do que se desenrolar\u00e1: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Se a narrativa tira a venda, desemba\u00e7a,<br \/>\n<\/span><span class=\"s6\">da lucidez emerge a urg\u00eancia, soa o alarme. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A arte visual que abre essa parte, uma pintura abstrata<\/span><span class=\"s6\"> e expressiva, sugere uma imers\u00e3o em estados emocionais intensos e talvez ca\u00f3ticos, que se alinham com o conceito de \u201cdesatinos\u201d \u2013 a\u00e7\u00f5es ou pensamentos que fogem \u00e0 raz\u00e3o, que se desviam do senso comum ou da normalidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A pintura apresentada em \u201cDesatinos\u201d<\/span><span class=\"s6\"> \u00e9 fundamental para a interpreta\u00e7\u00e3o desta se\u00e7\u00e3o. Com suas cores vibrantes e pinceladas fortes, a obra evoca um turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es. A figura central, com o rosto fragmentado em tons de vermelho e amarelo, e um cora\u00e7\u00e3o vermelho proeminente, pode simbolizar<\/span><span class=\"s6\"> a alma exposta, a vulnerabilidade e a intensidade dos sentimentos que os \u201cdesatinos\u201d representam. A abstra\u00e7\u00e3o sugere que a experi\u00eancia humana em estados de <\/span><span class=\"s6\">desraz\u00e3o<\/span><span class=\"s6\"> ou de intensa emo\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de ser contida em formas l\u00f3gicas e racionais, necessitando <\/span><span class=\"s6\">de uma linguagem visual que capture sua complexidade e for\u00e7a. A arte, aqui, n\u00e3o \u00e9 meramente ilustrativa, mas coadjuvante na express\u00e3o dos temas centrais da se\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O primeiro poema, intitulado \u201cEnredados\u201d, \u00e9 precedido pela cita\u00e7\u00e3o \u201cN\u00f3s nunca vivemos tanto na<\/span><span class=\"s6\"> caverna de Plat\u00e3o\u201d<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">com \u00a0autoria de Jos\u00e9 Saramago. Os versos se iniciam com a imagem de uma fogueira que, ao acender sombras na caverna, molda figuras fantasmag\u00f3ricas e ergue muros, simbolizando a cria\u00e7\u00e3o de ilus\u00f5es e a limita\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o. A cegueira <\/span><span class=\"s6\">que se espalha e a treva que alarga sugerem um aprisionamento na ignor\u00e2ncia, onde a realidade \u00e9 deformada e as apar\u00eancias <\/span><span class=\"s6\">se sobrep\u00f5em \u00e0 verdade, invertendo a ordem natural e tecendo um futuro incerto. As \u201cnovas cavernas\u201d que brotam e enclausuram o pensame<\/span><span class=\"s6\">nto, comparadas a uma rede, indicam a complexidade e a dificuldade de escapar de armadilhas mentais e sociais. A figura <\/span><span class=\"s6\">do marionete <\/span><span class=\"s6\">que manipula os pr\u00f3prios fios, engessa os medos e paralisa o movimento, evoca a <\/span><span class=\"s6\">autossabotagem <\/span><span class=\"s6\">e a in\u00e9rcia diante da realid<\/span><span class=\"s6\">ade. A men\u00e7\u00e3o a \u201ccercas invis\u00edveis\u201d que esmagam o tempo refor\u00e7a a ideia de um aprisionamento temporal e existencial, onde a liberdade \u00e9 ilus\u00f3ria e o progresso \u00e9 impedido.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A alegoria da caverna de Plat\u00e3o, referenciada explicitamente na introdu\u00e7\u00e3o do poema, <\/span><span class=\"s6\">serve como pano de fundo essencial para a sua interpreta\u00e7\u00e3o. A caverna representa o mundo sens\u00edvel, onde os prisioneiros veem apenas sombras projetadas na parede, tomando-as como a \u00fanica realidade. <\/span><span class=\"s6\">O poema \u201cEnredados\u201d<\/span><span class=\"s6\"> espelha essa condi\u00e7\u00e3o ao descrever a c<\/span><span class=\"s6\">ria\u00e7\u00e3o de ilus\u00f5es (sombras, muros, trevas) que deformam a realidade e aprisionam o pensamento. A sa\u00edda da caverna, que na filosofia plat\u00f4nica simboliza a ascens\u00e3o ao mundo das ideias e \u00e0 verdadeira compreens\u00e3o, \u00e9 aqui metaforicamente representada pela tent<\/span><span class=\"s6\">ativa de desemba\u00e7ar <\/span><span class=\"s6\">a<\/span><span class=\"s6\"> lucidez e desvendar a \u201cfarsa das imagens\u201d. A \u201cartimanha do sup\u00e9rfluo\u201d e a \u201cn\u00e9voa que moldou nossa miragem\u201d aludem \u00e0s ilus\u00f5es e falsas apar\u00eancias que, tal como as sombras na caverna, <\/span><span class=\"s6\">impedem<\/span><span class=\"s6\"> o indiv\u00edduo de alcan\u00e7ar a verdade e a liberd<\/span><span class=\"s6\">ade de pensamento. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">J\u00e1 no poema<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">\u201cTerra \u00e0 Vista\u201d, a escritora Fl\u00e1via de Queiroz Lima evoca uma profunda reflex\u00e3o sobre o estado atual do planeta Terra, contrastando a vis\u00e3o id\u00edlica do cosmonauta com a realidade degradada pela a\u00e7\u00e3o humana. A ep\u00edgrafe de Yur<\/span><span class=\"s6\">i <\/span><span class=\"s6\">Gagarin<\/span><span class=\"s6\">, \u201cA terra \u00e9 azul\u201d, serve como ponto de partida para uma an\u00e1lise cr\u00edtica e pungente da rela\u00e7\u00e3o entre a humanidade e o meio ambiente.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A primeira parte do poema descreve um planeta doente, \u201cagora enfermo\u201d, que \u201cse devora em febre alta e calafrios\u201d. <\/span><span class=\"s6\">A degenera\u00e7\u00e3o \u00e9 acentuada pela imagem de um ambiente \u201csufocado pelo lixo\u201d,<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">que devasta o verde, polui os mares e rios, e profana o ar. A express\u00e3o <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">\u2013 espa\u00e7o l\u00edmpido de outrora \u2013<br \/>\nenvenenado pelo nosso desperd\u00edcio<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\"> estabelece um forte contraste entre um passa<\/span><span class=\"s6\">do idealizado e um presente desolador, marcado pela irresponsabilidade humana.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema transita para a perspectiva do cosmonauta que, de longe, vislumbrava a \u201cbela imagem navegante\u201d da Terra, \u201cenvolta em nuvens, flutuando iluminada\u201d. Essa vis\u00e3o, antes desl<\/span><span class=\"s6\">umbrante e surpreendente, torna-se um marco distante diante da realidade presente. A segunda parte do poema, iniciada com \u201cVisto de perto\u201d, revela um planeta que \u201cestende os bra\u00e7os, clamando exausto\u201d, expondo as \u201cmazelas da cidade imperme\u00e1vel\u201d, com seus ri<\/span><span class=\"s6\">os de concreto e dejetos. A natureza, antes bela e serena, agora se encontra \u201cenfurecida\u201d e \u201cse rebela contra o dom\u00ednio sufocante da gan\u00e2ncia\u201d. A tempestade que desaba e as enchentes que \u201cenlameiam seu trajeto\u201d simbolizam a revolta do planeta contra a expl<\/span><span class=\"s6\">ora\u00e7\u00e3o humana.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema culmina com um questionamento sobre o futuro do planeta. A \u201camea\u00e7a num futuro que atropela\u201d paira sobre a terra, e a pergunta final \u2013 <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">ser\u00e1 que o azul,<br \/>\ncada vez mais enfuma\u00e7ado,<br \/>\ntorna essa ep\u00edgrafe ilus\u00e3o que se dispersa?<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">\u2013 \u00e9 um ape<\/span><span class=\"s6\">lo \u00e0 reflex\u00e3o. A beleza azul da Terra, outrora um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a e vida, corre o risco de se tornar uma mera ilus\u00e3o, obscurecida pela polui\u00e7\u00e3o e pela gan\u00e2ncia humana. O poema, portanto, n\u00e3o oferece respostas, mas convida o leitor a confrontar a gravi<\/span><span class=\"s6\">dade da crise ambiental e a urg\u00eancia de uma mudan\u00e7a de atitude.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A se\u00e7\u00e3o \u201cDesatinos\u201d, em <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, aprofunda a explora\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana quando confrontada com verdades dif\u00edceis ou com a pr\u00f3pria intensidade de suas emo\u00e7\u00f5es. A obra sugere que a aparente irr<\/span><span class=\"s6\">acionalidade pode ser um caminho para a lucidez e que essa lucidez, por sua vez, imp\u00f5e um senso de urg\u00eancia. A combina\u00e7\u00e3o do texto po\u00e9tico com a arte visual expressiva, na sequ\u00eancia dos poemas,<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">cria um espa\u00e7o para a reflex\u00e3o sobre os limites da raz\u00e3o e a <\/span><span class=\"s6\">for\u00e7a do instinto e da emo\u00e7\u00e3o no processo de autoconhecimento e, consequentemente, de resgate.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cAbismo\u201d, inserido na subparte \u201cDesatinos\u201d, explora a profundidade do vazio existencial e da car\u00eancia, entrela\u00e7ando-os com a ironia e a viol\u00eancia da cond<\/span><span class=\"s6\">i\u00e7\u00e3o humana. A estrutura do poema, com seus versos concisos e imagens impactantes, convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre a fome, a mis\u00e9ria e o desamparo que marcam a experi\u00eancia de muitos. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A primeira estrofe, <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Um grande vazio ronca<br \/>\nna barriga,<br \/>\nna descren\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">estab<\/span><span class=\"s6\">elece desde o in\u00edcio a dualidade da fome: a f\u00edsica, expressa pelo ronco na barriga, e a existencial, manifestada na descren\u00e7a. A segunda estrofe,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">A longa fila do osso,<br \/>\nprolongando a vida avessa,<br \/>\ndeixa \u00e0 m\u00edngua,<br \/>\ncolhe a xepa<br \/>\nda fartura que transbor<\/span><span class=\"s6\">da<br \/>\n\u2013 refugo jogado fora<br \/>\nesbanjando indiferen\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">constr\u00f3i <\/span><span class=\"s6\">uma imagem poderosa da escassez em meio \u00e0 abund\u00e2ncia, onde a vida \u00e9 prolongada de forma prec\u00e1ria, alimentando-se dos restos, do que \u00e9 descartado em um cen\u00e1rio de indiferen\u00e7a. A terceira estrofe,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">A prateleira vazia<br \/>\ns\u00f3 promete a noite insone.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">refor\u00e7a a ideia de priva\u00e7\u00e3o e a consequente ang\u00fastia que a acompanha. A quarta estrofe,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">No desamparo incessante<br \/>\na prole em volta, que chora,<br \/>\ncompartilha o estreito espa\u00e7o,<br \/>\nmas preenche o desalento<br \/>\n<\/span><span class=\"s6\">quando, aflita, se amontoa,<br \/>\nse protege, se consola.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">retrata a solidariedade for\u00e7ada pela mis\u00e9ria, onde o desamparo \u00e9 compartilhado, e o conforto \u00e9 encontrado na uni\u00e3o, mesmo que aflitiva. A quinta estrofe,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">S\u00f3 a ironia atravessa<br \/>\nesse abismo onde se a<\/span><span class=\"s6\">partam<br \/>\nas digitais da pen\u00faria<br \/>\ne as sobras desperdi\u00e7adas.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">introduz a ironia como um elemento que permeia essa realidade, separando a marca da pobreza dos res\u00edduos da opul\u00eancia. Finalmente, a sexta estrofe,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Feito um deboche que humilha,<br \/>\na fome,<br \/>\nexp<\/span><span class=\"s6\">osta ao descaso,<br \/>\ndesmascara a viol\u00eancia<br \/>\nobscena,<br \/>\nescancarada.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">conclui com a imagem da fome como um deboche humilhante, que, exposta ao descaso, revela a viol\u00eancia crua e expl\u00edcita da desigualdade social.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Os temas centrais do poema s\u00e3o a fome, a mis\u00e9ria, o desamparo, a ironia e a viol\u00eancia social. A linguagem utilizada por Fl\u00e1via \u00e9 direta e carregada de imagens sensoriais e conceituais, com um vocabul\u00e1rio que evoca a precariedade e o sofrimento. A escolha d<\/span><span class=\"s6\">e palavras como \u201cronca\u201d, \u201cdesc<\/span><span class=\"s10\">r<\/span><span class=\"s6\">en\u00e7a\u201d, \u201cavessa\u201d, \u201cm\u00edngua\u201d, \u201cxepa\u201d, \u201cdesamparo\u201d, \u201caflita\u201d e \u201cobscena\u201d contribui para a constru\u00e7\u00e3o de uma atmosfera de desola\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica social. A estrutura em versos livres e a aus\u00eancia de rimas marcadas conferem ao poema um <\/span><span class=\"s6\">tom confessional e urgente.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cAbismo\u201d, de Fl\u00e1via de Queiroz Lima, \u00e9 uma obra pungente que, atrav\u00e9s de uma linguagem crua e imagens fortes, desnuda as mazelas da fome e da desigualdade. A capacidade da autora em entrela\u00e7ar o f\u00edsico e o existencial, o i<\/span><span class=\"s6\">ndividual e o coletivo, a ironia e a viol\u00eancia, torna este poema um poderoso retrato da condi\u00e7\u00e3o humana em seus aspectos mais sombrios e desafiadores. A an\u00e1lise revela a maestria com que a poetisa constr\u00f3i um universo de priva\u00e7\u00e3o, onde a sobreviv\u00eancia se t<\/span><span class=\"s6\">orna um ato de resist\u00eancia e a solidariedade, um ref\u00fagio prec\u00e1rio diante do abismo social.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Fl\u00e1via continua a bordar tem\u00e1ticas, a tecer reflex\u00f5es, a cerzir palavras nos demais poemas apresentados nesta se\u00e7\u00e3o. H\u00e1 poemas como \u201cNavalha\u201d, em que a autora explor<\/span><span class=\"s6\">a a natureza da poesia e sua rela\u00e7\u00e3o com a verdade e a ilus\u00e3o, utilizando met\u00e1foras poderosas e imagens v\u00edvidas. O poema \u201cNavalha\u201d inicia com o desejo de \u201cati\u00e7ar poemas\u201d como se fossem \u201cenredos crepitando no estalido da fogueira\u201d, onde a \u201ctrama \u00e9 revelada\u201d<\/span><span class=\"s6\">. Essa imagem inicial sugere a poesia como um elemento incandescente, capaz de expor verdades ocultas atrav\u00e9s de suas labaredas. A ideia de \u201camalgamar segredos\u201d e que estes, \u201cincendiados, ardessem\u201d, refor\u00e7a a capacidade da poesia de queimar as superficiali<\/span><span class=\"s6\">dades e trazer \u00e0 tona o que est\u00e1 escondido. A \u201cteia armada\u201d que se desvela, comparada a um \u201cros\u00e1rio de contas\u201d que \u201ctece muralhas de estopa\u201d, mas que \u201cfragilmente desaba\u201d, evoca a fragilidade das constru\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias e a inevitabilidade de sua queda quand<\/span><span class=\"s6\">o confrontadas com a luz da verdade po\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cDesatino\u201d \u00e9 o quinto poema dessa sec\u00e7\u00e3o e se insere em um contexto de reflex\u00e3o sobre a viol\u00eancia e suas consequ\u00eancias. O t\u00edtulo em si j\u00e1 evoca um estado de desordem, loucura e <\/span><span class=\"s6\">desraz\u00e3o<\/span><span class=\"s6\">, prenunciando o tom e <\/span><span class=\"s6\">o conte\u00fado que ser\u00e3o abordados. Os versos ecoam uma densidade impactante que, atrav\u00e9s de uma linguagem po\u00e9tica carregada de imagens fortes e met\u00e1foras contundentes, exp\u00f5e a brutalidade da guerra e suas ramifica\u00e7\u00f5es. A autora demonstra maestria ao transitar<\/span><span class=\"s6\"> do n\u00edvel individual para o coletivo, tra\u00e7ando um panorama desolador da condi\u00e7\u00e3o humana quando confrontada com a viol\u00eancia e a <\/span><span class=\"s6\">desraz\u00e3o<\/span><span class=\"s6\">. A data \u201c20.10.2023\u201d, ao final da p\u00e1gina, sugere a contemporaneidade da reflex\u00e3o proposta pelo poema.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Fl\u00e1via consegue prender o leitor na renda firme da linguagem po\u00e9tica, que n\u00e3o se rompe, e que permite ver, observar e sentir, por meio dos detalhes no espa\u00e7o e no tempo, ao apresentar poemas <\/span><span class=\"s6\">que conversam entre si. \u00c9 o caso do poema \u201cTempo em trevas\u201d, que <\/span><span class=\"s6\">se aproxima de \u201cDesatino\u201d. \u201cTempo em trevas\u201d aparece com ep\u00edgrafe de Chico Buarque: \u201cOu\u00e7o um gemido rouco que n\u00e3o sei se \u00e9 meu\u201d, que evoca uma atmosfera de incerteza e ang\u00fastia temporal, estabelecendo de imediato um tom de questionamento existencial e de d<\/span><span class=\"s6\">esorienta\u00e7\u00e3o pessoal. <\/span><span class=\"s6\">A ep\u00edgrafe, juntamente com o t\u00edtulo, preparam<\/span><span class=\"s6\"> o leitor para uma explora\u00e7\u00e3o dos meandros do tempo, n\u00e3o como uma entidade linear e previs\u00edvel, mas como um espa\u00e7o sombrio e perturbador. Versos como<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Que tempo \u00e9 esse, sem lume,<br \/>\nmordend<\/span><span class=\"s6\">o horas feridas,<br \/>\nse o pesadelo da noite<br \/>\na manh\u00e3 n\u00e3o elucida?<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">lan\u00e7am uma s\u00e9rie de interroga\u00e7\u00f5es sobre a qualidade do tempo vivido. O tempo \u00e9 descrito como desprovido de luz (<\/span><span class=\"s6\">\u2018sem lume\u201d<\/span><span class=\"s6\">), que \u201cmorde\u201d e fere as horas, e incapaz de trazer clareza ou reso<\/span><span class=\"s6\">lu\u00e7\u00e3o, pois a noite, marcada pelo pesadelo, n\u00e3o cede lugar a uma manh\u00e3 esclarecedora. Essa percep\u00e7\u00e3o do tempo \u00e9 de aprisionamento e sofrimento, onde o passado e o presente se fundem em uma experi\u00eancia cont\u00ednua de dor.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A segunda e terceira estrofes aprofund<\/span><span class=\"s6\">am essa vis\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Que tempo \u00e9 esse em que a vida<br \/>\ntenta recobrar o f\u00f4lego<br \/>\nmas se esfalfa, se conturba<br \/>\nbuscando romper o estorvo?<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">e <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Volta o tempo que encarcera<br \/>\nmais que liberta e avan\u00e7a,<br \/>\nprende em sofismas crian\u00e7as<br \/>\ne mulheres agredidas?<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Aqui, o<\/span><span class=\"s6\"> tempo \u00e9 retratado como uma for\u00e7a que impede a recupera\u00e7\u00e3o e o al\u00edvio, levando a um esfor\u00e7o f\u00fatil para se libertar de um \u201cestorvo\u201d. A ideia de \u201ctempo que encarcera\u201d \u00e9 particularmente poderosa, sugerindo que, em vez de promover o progresso e a liberdade, el<\/span><span class=\"s6\">e aprisiona, manipula com \u201csofismas\u201d e perpetua a viol\u00eancia contra os mais vulner\u00e1veis, crian\u00e7as e mulheres.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A estrofe final da se\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Que tempo \u00e9 esse de algemas,<br \/>\nde movedi\u00e7as areias,<br \/>\nque afunda espa\u00e7os nas trevas<br \/>\nencerra, tolhe, cerceia<\/span><span class=\"s6\">?<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">consolida a imagem do tempo como um instrumento de opress\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Em \u201cTempo em Trevas\u201d, Fl\u00e1via constr\u00f3i uma poderosa medita\u00e7\u00e3o sobre a experi\u00eancia de um tempo opressor, aprisionador e desprovido de luz. As imagens de feridas, pesadelos, algemas e trevas pin<\/span><span class=\"s6\">tam um quadro de profunda ang\u00fastia existencial. A contraposi\u00e7\u00e3o com os versos da p\u00e1gina direita, que abordam a viol\u00eancia cega, a decad\u00eancia e a amea\u00e7a da covardia, refor\u00e7a a cr\u00edtica a um estado de coisas onde a liberdade \u00e9 cerceada e a dignidade humana \u00e9 p<\/span><span class=\"s6\">osta em risco. O poema, em sua brevidade, convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre a natureza do tempo e as condi\u00e7\u00f5es sociais que podem torn\u00e1-lo um inimigo em vez de um aliado.<\/span><\/p>\n<p><strong>Resgate<\/strong><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A quarta parte de <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\"> \u00e9 hom\u00f4nima, intitulada por \u201cResgate\u201d, e possui uma intensidade po\u00e9tic<\/span><span class=\"s6\">a impactante, feito uma reflex\u00e3o sobre a can\u00e7\u00e3o da poesia e sua influ\u00eancia na vida humana. Esta se\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada pela presen\u00e7a de uma ep\u00edgrafe, que se destaca como se fosse um poema visual nesta parte do livro. A ep\u00edgrafe com os versos <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Essa can\u00e7\u00e3o me suste<\/span><span class=\"s6\">nta,<br \/>\ndesenha a c<\/span><span class=\"s10\">l<\/span><span class=\"s6\">ave, me inventa,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">sugere uma profunda conex\u00e3o entre a m\u00fasica, a sustenta\u00e7\u00e3o pessoal e a cria\u00e7\u00e3o. Paralelamente, a can\u00e7\u00e3o \u201cdesenha a c<\/span><span class=\"s10\">l<\/span><span class=\"s6\">ave\u201d e \u201cinventa\u201d, indicando seu poder de desvendar <\/span><span class=\"s6\">mist\u00e9rios, abrir caminhos e, fundamentalmente, de ge<\/span><span class=\"s6\">rar novas realidades e possibilidades. A can\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas um ref\u00fagio, mas tamb\u00e9m um catalisador para a transforma\u00e7\u00e3o e a descoberta.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A arte visual que acompanha estes versos epigrafados retrata uma cena vibrante com uma figura et\u00e9rea emergind<\/span><span class=\"s6\">o do c\u00e9u, envolta em elementos naturais, pairando sobre uma comunidade que celebra. A se\u00e7\u00e3o \u00e9 composta na intersec\u00e7\u00e3o entre o texto po\u00e9tico e a ilustra\u00e7\u00e3o, explorando os significados impl\u00edcitos de \u201cresgate\u201d nesta configura\u00e7\u00e3o. A figura celestial, composta <\/span><span class=\"s6\">de elementos da natureza, pode ser interpretada como uma representa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o ou de uma for\u00e7a superior que interv\u00e9m. A autora, ao entrela\u00e7ar texto e imagem, evoca sentimentos profundos e conceitos complexos. A \u201ccan\u00e7\u00e3o\u201d emerge como um elemento mu<\/span><span class=\"s6\">ltifacetado, capaz de oferecer sustento, revelar caminhos e inspirar a cria\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cCarta \u00e0 M\u00e3e\u201d configura-se como uma profunda reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o filial, a mem\u00f3ria e a passagem do tempo. Atrav\u00e9s de uma linguagem l\u00edrica e introspectiva, a autora<\/span><span class=\"s6\"> tece um di\u00e1logo p\u00f3stumo com sua genitora, explorando as complexidades e as nuances de um v\u00ednculo que transcende a presen\u00e7a f\u00edsica. A estrutura em forma de carta confere um tom \u00edntimo e pessoal ao texto, convidando o leitor a adentrar um espa\u00e7o de vulnerab<\/span><span class=\"s6\">ilidade e afeto.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A terceira parte do poema demonstra esses aspectos, ao revelar particularidades que buscam desvendar camadas sens\u00edveis de significado. A estrofe inicia-se com a evoca\u00e7\u00e3o de uma \u201cmenina inquieta\u201d, uma imagem que remete \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0s mem<\/span><span class=\"s6\">\u00f3rias afetivas que moldam a identidade. A autora descreve<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">la\u00e7os de fita e afago<br \/>\nque prendiam meu cabelo<br \/>\nme entrela\u00e7avam na espera.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">construindo uma met\u00e1fora poderosa sobre a depend\u00eancia e a expectativa inerentes \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Essa espera, marc<\/span><span class=\"s6\">ada pela inf\u00e2ncia, sugere um tempo de anseio e de constru\u00e7\u00e3o de si a partir do olhar materno. A quarta estrofe do poema intensifica isso ao contrastar a escrita \u201cde longe\u201d com a fala \u201cde perto\u201d. A \u201cimposs\u00edvel conversa\u201d evoca a aus\u00eancia f\u00edsica da m\u00e3e, um di<\/span><span class=\"s6\">\u00e1logo que se d\u00e1 na esfera da imagina\u00e7\u00e3o e da saudade. O \u201cch\u00e3o que faltava\u201d e a \u201cpalavra que nos ficou incompleta\u201d sinalizam um vazio deixado pela partida, uma incompletude que a autora busca preencher atrav\u00e9s da escrita e da rememora\u00e7\u00e3o. A \u00faltima estrofe d<\/span><span class=\"s6\">esta se\u00e7\u00e3o,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Recebe ent\u00e3o essa carta<br \/>\nfeito um recado, um carinho,<br \/>\ndo olhar reconciliado<br \/>\ncom a dist\u00e2ncia e o vazio,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">revela o prop\u00f3sito do poema: um ato de reconcilia\u00e7\u00e3o com a aus\u00eancia, um envio de afeto que atravessa o tempo e o espa\u00e7o. A imagem de \u201c<\/span><span class=\"s6\">desfolhar os medos \/ num calend\u00e1rio tardio\u201d e de descobrir \u201ca nascente do seu rio\u201d sugere um processo de autoconhecimento e aceita\u00e7\u00e3o, onde a mem\u00f3ria da m\u00e3e se torna fonte de serenidade e de compreens\u00e3o do pr\u00f3prio ser. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A \u00faltima estrofe \u00e9 um testemunho da <\/span><span class=\"s6\">for\u00e7a do v\u00ednculo materno e da capacidade da poesia de resgatar e <\/span><span class=\"s6\">ressignificar<\/span><span class=\"s6\"> as experi\u00eancias vividas. Atrav\u00e9s de imagens delicadas e de uma linguagem que transita entre a melancolia e a serenidade, a autora oferece um olhar profundo sobre a mem\u00f3ria, a au<\/span><span class=\"s6\">s\u00eancia e o processo de autoconhecimento impulsionado pela rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e. O poema, em sua totalidade e com especial \u00eanfase nesta se\u00e7\u00e3o, demonstra como a escrita pode se tornar um espa\u00e7o de cura e de reencontro, mesmo diante da perda.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Logo ap\u00f3s \u201cCarta \u00e0 <\/span><span class=\"s6\">m\u00e3e\u201d vem o poema \u201cDe volta ao come\u00e7o\u201d, que explora a profunda transforma\u00e7\u00e3o e o renascimento vivenciados pela maternidade. Fl\u00e1via apresenta uma escrita dialogada, em temas e em conex\u00e3o com o t\u00edtulo do livro, <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">. Em \u201cDe volta ao come\u00e7o\u201d, atrav\u00e9s de uma<\/span><span class=\"s6\"> linguagem po\u00e9tica e introspectiva, a autora tece reflex\u00f5es sobre a jornada de se tornar m\u00e3e, a percep\u00e7\u00e3o de si mesma e a redescoberta do mundo sob uma nova perspectiva.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Este poema \u00e9 rico em simbolismo e emo\u00e7\u00e3o, pois retrata a maternidade como um portal pa<\/span><span class=\"s6\">ra o autoconhecimento e a redescoberta. Fl\u00e1via utiliza uma linguagem acess\u00edvel e tocante para expressar a complexidade dos sentimentos maternos, a beleza dos momentos fugazes da inf\u00e2ncia e a for\u00e7a transformadora do amor. O poema, embora focado na experi\u00eanc<\/span><span class=\"s6\">ia individual, ressoa universalmente, convidando o leitor a refletir sobre os ciclos de vida, os recome\u00e7os e a liberdade que emana das rela\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A primeira estrofe estabelece o momento de transi\u00e7\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Quando fui m\u00e3e me vi nos olhos que chegaram<br \/>\n<\/span><span class=\"s6\">trazendo <\/span><span class=\"s6\">esperas, desatando sentimentos<br \/>\n[&#8230;].<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A maternidade age como um espelho, refletindo n\u00e3o apenas o filho, mas tamb\u00e9m as pr\u00f3prias expectativas e emo\u00e7\u00f5es da m\u00e3e. As \u201ctantas perguntas me brotavam, incessantes\u201d e as \u201ccertezas, rumo ao vento\u201d indicam um per\u00edodo de inc<\/span><span class=\"s6\">erteza e questionamento, no qual a identidade materna se molda em meio a sentimentos complexos e em constante fluxo.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">J\u00e1 na segunda estrofe a autora aprofunda a experi\u00eancia sensorial e existencial da maternidade. O \u201csono leve \u2013 ouvido e bra\u00e7os desdobrados\u201d evo<\/span><span class=\"s6\">ca a aten\u00e7\u00e3o constante e o cuidado f\u00edsico. A \u201cess\u00eancia inquieta da semente\u201d sugere o potencial de crescimento e a fragilidade inerente ao ser que est\u00e1 sendo nutrido, enquanto a \u201cfecundada de horizontes, desafios\u201d aponta para a expans\u00e3o de perspectivas e a <\/span><span class=\"s6\">aceita\u00e7\u00e3o de novas responsabilidades. A travessia <\/span><span class=\"s6\">dessa<\/span><span class=\"s6\"> \u201cfronteira transparente\u201d alude \u00e0 supera\u00e7\u00e3o de barreiras internas e \u00e0 imers\u00e3o em um novo estado de ser.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A terceira estrofe descreve o ato de amamentar como um ato de cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o \u00edntimo e prote<\/span><span class=\"s6\">tor:<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Amamentar tecia em volta uma redoma<br \/>\nsobrando espa\u00e7o ao devaneio, la\u00e7o e avesso.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Este espa\u00e7o, embora acolhedor<\/span><span class=\"s6\">, permite<\/span><span class=\"s6\"> a introspec\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o. A transitoriedade da inf\u00e2ncia \u00e9 notada: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Mas se esvaindo ia a menina alheia ao tempo,<br \/>\nchegava int<\/span><span class=\"s6\">ensa a sensa\u00e7\u00e3o de recome\u00e7o. \u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A partida da inf\u00e2ncia, mesmo que natural, traz consigo a percep\u00e7\u00e3o de um novo ciclo, um recome\u00e7o para a m\u00e3e, que acompanha e se reinventa junto com o desenvolvimento do filho.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">\u00c9 not\u00e1vel na quarta estrofe, em contraste com a p<\/span><span class=\"s6\">erspectiva da m\u00e3e, que a escritora foca na experi\u00eancia do filho e na magia do cotidiano materno. As \u201ccantigas de ninar\u201d evocam mem\u00f3rias e o \u201cjeito bom do encantamento\u201d da inf\u00e2ncia. O colo materno se torna um ref\u00fagio onde<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">era sonho o que meu colo aconchega<\/span><span class=\"s6\">va,<br \/>\nt\u00e3o perto e fr\u00e1gil o respirar desse momento&#8230;<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Essa imagem ressalta a beleza e a delicadeza dos momentos de conex\u00e3o, a efemeridade da inf\u00e2ncia e a import\u00e2ncia do afeto.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A quinta estrofe retorna \u00e0 perspectiva da m\u00e3e, descrevendo o \u201cassombro\u201d diante dos<\/span><span class=\"s6\"> \u201colhos desmedidos\u201d do filho e das suas \u201cpassadas que <\/span><span class=\"s6\">ensaiavam,<\/span><span class=\"s6\"> ainda incertas\u201d. A linguagem po\u00e9tica captura a maravilha e a apreens\u00e3o diante do desenvolvimento infantil, com suas \u201ctentativas de palavras\u201d e a explora\u00e7\u00e3o do mundo nas \u201cprimeiras descobertas<\/span><span class=\"s6\">\u201d. H\u00e1 um tom de admira\u00e7\u00e3o pela coragem e pela curiosidade inerentes \u00e0 inf\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Por fim, a \u00faltima estrofe sintetiza a jornada de transforma\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Quando fui m\u00e3e desabrochei na mesma seiva<br \/>\nque alimentava cada filha \u2013 [&#8230;].<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A maternidade n\u00e3o \u00e9 apenas um papel, ma<\/span><span class=\"s6\">s um processo de florescimento pessoal. A autora observa como a ousadia e a liberdade da filha se tornam um reflexo e uma inspira\u00e7\u00e3o, culminando na imagem da \u201cinabal\u00e1vel liberdade em suas asas\u201d. A rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filha \u00e9 apresentada como um ciclo de cresciment<\/span><span class=\"s6\">o m\u00fatuo e de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Em poemas como \u201cClaves e conchas\u201d e \u201cSecretas palavras\u201d, nota-se a profunda introspec\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e a subjetividade da autora. O poema \u201cClaves e conchas\u201d \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o magistral da simbiose entre <\/span><span class=\"s6\">a poetisa e sua arte. Fl\u00e1via constr\u00f3i uma imagem poderosa da poesia como uma for\u00e7a viva, que n\u00e3o apenas reflete a realidade interior, mas a molda, <\/span><span class=\"s6\">a conforta<\/span><span class=\"s6\"> e a liberta. A an\u00e1lise revela a profundidade com que a autora aborda o ato criativo, a mem\u00f3ria e a<\/span><span class=\"s6\"> pr\u00f3pria ess\u00eancia da exist\u00eancia po\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A autora descreve a \u201ccan\u00e7\u00e3o\u201d como uma entidade que visita e adivinha os poemas, que \u201cjoga conchas, me decifra, jorra vertigens, me adensa\u201d. Essa personifica\u00e7\u00e3o atribui \u00e0 poesia um papel ativo e quase onisciente no p<\/span><span class=\"s6\">rocesso criativo. A \u201ccan\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o apenas inspira, mas tamb\u00e9m desvenda, intensifica e estrutura o pensamento po\u00e9tico. A imagem de afiar a ponta da escrita nas \u201clembran\u00e7as mais veladas\u201d sugere que a poesia emerge de um lugar profundo e, por vezes, oculto da m<\/span><span class=\"s6\">em\u00f3ria e da experi\u00eancia. A can\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, sustenta, desenha e inventa, proporcionando um ref\u00fagio e um espa\u00e7o de voo, como um ninho para o eu l\u00edrico.<\/span><\/p>\n<p class=\"s12\"><span class=\"s6\">A escritora aprofunda a natureza da \u201ccan\u00e7\u00e3o\u201d como uma companheira serena que acompanha o eu l\u00edrico \u201cdesde l<\/span><span class=\"s6\">onge\u201d. Essa presen\u00e7a se manifesta mesmo nos \u201cmomentos de espera\u201d, quando o tempo parece \u201cemaranhar-se\u201d. A poesia age como um farol (\u201cacende um lume e acena\u201d), <\/span><span class=\"s6\">oferecendo conforto e seguran\u00e7a (\u201cdevolve o colo, o acalanto\u201d). A explora\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o revela <\/span><span class=\"s6\">um movimento de aprofundamento: quanto mais o eu l\u00edrico se entrega \u00e0 poesia (\u201cmais nela me adentro\u201d), mais ele confronta seus medos e espantos, avan\u00e7a em seus \u201crecantos\u201d internos e se revela (\u201cme desvelo e desentranho\u201d).<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O sexto poema desta se\u00e7\u00e3o, intitul<\/span><span class=\"s6\">ado \u201cSecretas Palavras\u201d,<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">apresenta uma profunda reflex\u00e3o sobre o poder e a natureza intr\u00ednseca das palavras. A an\u00e1lise foca na forma como a autora explora a capacidade das palavras de salvar, desvendar e carregar significados ocultos, tecendo uma renda po<\/span><span class=\"s6\">\u00e9tica que ressoa com a experi\u00eancia humana. O poema inicia destacando a capacidade salvadora das palavras em \u201cmomentos cruciantes\u201d e \u201cna beira do precip\u00edcio\u201d. A autora descreve como as palavras atuam quando o pensamento est\u00e1 \u201coscilante\u201d ou quando um passo s<\/span><span class=\"s6\">e torna um limite entre o \u201cfatal e o dif\u00edcil\u201d. Os versos do poema ressaltam a palavra como um aux\u00edlio em instantes de fragilidade e incerteza. As palavras s\u00e3o apresentadas como agentes de desvendamento, capazes de revelar \u201ccaminhos quase improv\u00e1veis\u201d, deci<\/span><span class=\"s6\">frar \u201co que era enigma\u201d e nomear \u201cmeus impasses\u201d. Essa dualidade entre salva\u00e7\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o sublinha a for\u00e7a transformadora da linguagem.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A segunda estrofe do poema aprofunda a an\u00e1lise sobre o conte\u00fado e a carga sem\u00e2ntica das palavras. \u201cCertas palavras car<\/span><span class=\"s6\">regam no pr\u00f3prio som seu sentido\u201d, indicando uma qualidade inerente \u00e0 sonoridade e \u00e0 forma das palavras. Elas s\u00e3o descritas como catalisadoras de \u201cpressentimentos\u201d<\/span><span class=\"s6\">, revisitam<\/span><span class=\"s6\"> \u201cvest\u00edgios\u201d, ampliam a \u201cdensidade\u201d e farejam \u201cind\u00edcios\u201d no ar. A a\u00e7\u00e3o de \u201cinsufla<\/span><span class=\"s6\">r, revolver e escancarar resqu\u00edcios\u201d sugere que as palavras n\u00e3o apenas comunicam, mas tamb\u00e9m evocam, remexem e exp\u00f5em o que est\u00e1 latente ou esquecido. Essa passagem enfatiza a complexidade e a multiplicidade de significados que as palavras podem conter e e<\/span><span class=\"s6\">vocar.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema conclui com a ideia de que \u201cas palavras prosseguem\u201d, impulsionando o eu l\u00edrico \u201cmais adiante\u201d. Essa progress\u00e3o \u00e9 comparada a um \u201cl\u00fadico enredo\u201d, que \u201cenla\u00e7asse cada instante\u201d, sugerindo uma fluidez e uma leveza na jornada impulsionada pela l<\/span><span class=\"s6\">inguagem. A \u00faltima estrofe, com os versos \u201cSobrevivem, desdobr\u00e1veis, redescobrindo o olvido\u201d, refor\u00e7a a perenidade e a capacidade das palavras de se reinventarem e de trazerem \u00e0 tona o que foi esquecido. A frase final, \u201cmove o fortuito da escolha o que seg<\/span><span class=\"s6\">redam no ouvido\u201d, aponta para a influ\u00eancia sutil e poderosa das palavras em nossas decis\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es, mesmo quando sussurradas ou n\u00e3o ditas explicitamente. \u201cSecretas palavras\u201d \u00e9 um poema potente, belo e metalingu\u00edstico, que lembra o poema \u201cA palavra m\u00e1<\/span><span class=\"s6\">gica\u201d de Carlos Drummond de Andrade, que reflete a busca pela ess\u00eancia e pela transforma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da linguagem.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A subparte \u201cResgate\u201d \u00e9 a mais longa do livro, e nela s\u00e3o inseridos 11 poemas, diferentes textos po\u00e9ticos nos quais a autora explora seus temas, linguagem e poss\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es \u00e0 luz de seus<\/span><span class=\"s6\">\u00a0<\/span><span class=\"s6\">t\u00edtulos e contextos diversos, e da estrutura apresentada. O <\/span><span class=\"s6\">poema \u201cConfid\u00eancias\u201d explora a rela\u00e7\u00e3o <\/span><span class=\"s6\">\u00edntima e particular do eu l\u00edrico com as madrugadas. A madrugada \u00e9 personificada como uma entidade que ronda, instiga e dialoga, criando um espa\u00e7o de intimidade e confid\u00eancia. A linguagem po\u00e9tica \u00e9 marcada por met\u00e1fora<\/span><span class=\"s6\">s e personifica\u00e7\u00f5es, como \u201csegredando desvarios\u201d, \u201cpensamento fareja um rastilho do esquecido\u201d e \u201cideias correndo soltas dan\u00e7am descal\u00e7as, vadias\u201d. <\/span><span class=\"s6\">A madrugada \u00e9 descrita n\u00e3o como um per\u00edodo de rotina, mas como um \u201cestado de esp\u00edrito\u201d, um territ\u00f3rio \u2018insub<\/span><span class=\"s6\">misso\u201d<\/span><span class=\"s6\"> onde a vida se revela \u201cexposta, invis\u00edvel\u201d. O eu l\u00edrico encontra na madrugada um ref\u00fagio para \u201clembran\u00e7as mais densas\u201d e \u201cmem\u00f3rias mais reclusas\u201d, definindo-a como o \u201cespa\u00e7o dos poetas e das musas\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">J\u00e1 o poema \u201cVest\u00edgios\u201d explora a intrincada rela\u00e7\u00e3<\/span><span class=\"s6\">o entre mem\u00f3ria, vida e a constru\u00e7\u00e3o da identidade. A ep\u00edgrafe \u201cA mem\u00f3ria \u00e9 uma m\u00e1gica n\u00e3o desvendada. Um truque da vida\u201d, de Marcelo Rubens Paiva, estabelece o tom reflexivo, sugerindo que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um registro fiel, mas uma constru\u00e7\u00e3o ativa, moldad<\/span><span class=\"s6\">a pelas experi\u00eancias e percep\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria estrutura do poema, com suas imagens fragmentadas e evocativas, refor\u00e7a essa ideia de que o passado \u00e9 reconstru\u00eddo e reinterpretado constantemente. Ali\u00e1s, Fl\u00e1via apresenta essa dualidade de tempo e mem\u00f3ria em v\u00e1<\/span><span class=\"s6\">rios momentos nos seus diferentes poemas. A \u00faltima estrofe,<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">Agora o tempo me esculpe<br \/>\nentre a f\u00e1bula e o vivido<br \/>\ncomo se esse emaranhado,<br \/>\nesbo\u00e7ado em manuscritos,<br \/>\nentrela\u00e7asse mensagens<br \/>\n<\/span><span class=\"s6\">ressoando seus vest\u00edgios.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">conclui com a ideia de que o tempo<\/span><span class=\"s6\"> molda o indiv\u00edduo, entre a fic\u00e7\u00e3o e a realidade, criando uma tape\u00e7aria de experi\u00eancias que ressoam com os vest\u00edgios do passado. A autora oferece uma perspicaz reflex\u00e3o sobre a natureza subjetiva e construtiva da mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cFale Com Ela\u201d evoca uma a<\/span><span class=\"s6\">tmosfera de introspec\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, mesmo diante do sil\u00eancio e da aparente aus\u00eancia. O t\u00edtulo em si sugere uma diretiva, um convite \u00e0 intera\u00e7\u00e3o, que se desdobra em reflex\u00f5es sobre a solid\u00e3o, a espera e a resili\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o humana. Os temas cent<\/span><span class=\"s6\">rais deste poema giram em torno da comunica\u00e7\u00e3o como um ato de resist\u00eancia e conex\u00e3o em face da solid\u00e3o, do sil\u00eancio, da passagem do tempo e da incerteza. A repeti\u00e7\u00e3o do verso \u201cmesmo assim, fale com ela\u201d funciona como um refr\u00e3o que enfatiza a necessidade e <\/span><span class=\"s6\">o poder da fala, da intera\u00e7\u00e3o, mesmo quando as circunst\u00e2ncias parecem desfavor\u00e1veis ou infrut\u00edferas. O poema sugere que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato de resgate em si mesmo, capaz de humanizar o medo e de dar sentido \u00e0 exist\u00eancia, independentemente das respostas <\/span><span class=\"s6\">recebidas.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema \u201cContar\u201d explora a multifacetada natureza do ato de contar hist\u00f3rias. Inserido em um contexto mais amplo de \u201cResgate\u201d, este d\u00e9cimo poema convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre como a narrativa molda a percep\u00e7\u00e3o da realidade e a pr\u00f3pria mem\u00f3ria. A quar<\/span><span class=\"s6\">ta parte do poema, que come\u00e7a com \u201cAtrav\u00e9s da lente espessa\u201d, utiliza a met\u00e1fora da lente para descrever o processo de contar e as suas consequ\u00eancias. A \u201clente espessa\u201d n\u00e3o apenas aumenta, mas tamb\u00e9m esconde, sugerindo que a <\/span><span class=\"s6\">narra\u00e7\u00e3o pode tanto revelar qua<\/span><span class=\"s6\">nto obscurecer a verdade. As mem\u00f3rias, ao serem contadas, \u201ctrapaceiam\u201d e \u201cescorregam\u201d, indicando a falibilidade e a subjetividade do relato. As \u201centrelinhas dos fatos\u201d tornam-se o palco onde as vis\u00f5es se multiplicam e as vers\u00f5es se fragmentam, culminando e<\/span><span class=\"s6\">m \u201ctantas vezes quantas contam\u201d. Essa passagem ressalta a ideia de que cada narra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, sujeita a interpreta\u00e7\u00f5es e altera\u00e7\u00f5es, e que a multiplicidade de contos pode, paradoxalmente, diluir a certeza em vez de confirm\u00e1-la.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Por fim, o \u00faltimo p<\/span><span class=\"s6\">oema da se\u00e7\u00e3o \u201cResgate\u201d, cujo t\u00edtulo \u201cResgate\u201d \u00e9 o mesmo do livro. \u00c9 uma trilogia hom\u00f4nima de profunda essencialidade po\u00e9tica. O poema \u201cResgate\u201d explora temas universais como a autodescoberta, a supera\u00e7\u00e3o do medo, a introspec\u00e7\u00e3o e a reinven\u00e7\u00e3o pessoal. A j<\/span><span class=\"s6\">ornada descrita \u00e9 de um mergulho interior, onde o eu l\u00edrico se liberta das press\u00f5es externas e da rigidez do tempo para encontrar um novo sentido de ser. A \u201cimprud\u00eancia\u201d inicial se transforma em um catalisador para a coragem e a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. O <\/span><span class=\"s6\">\u201cresgate\u201d final n\u00e3o \u00e9 um evento externo, mas uma conquista \u00edntima, um renascimento a partir da aceita\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o das complexidades da pr\u00f3pria exist\u00eancia. A estrutura do poema, com suas interroga\u00e7\u00f5es iniciais e a resolu\u00e7\u00e3o final, espelha um processo de<\/span><span class=\"s6\"> catarse e transforma\u00e7\u00e3o. Ao reconhecer as sutilezas e os impulsos que guiam a exist\u00eancia, o eu l\u00edrico se reinventa, ancorando-se no presente e experimentando uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o ou reden\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong>Vov\u00f3 Esperidi\u00e3o e Vov\u00f3 Mariinha<\/strong><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Fl\u00e1via finaliza seu livro com uma homenagem aos s<\/span><span class=\"s6\">eus av\u00f3s, ao publicar ao final do livro dois belos sonetos, escritos pelo seu av\u00f4 \u00e0 sua av\u00f3: \u201cSonetos do vov\u00f4 Esperidi\u00e3o para a vov\u00f3 Mariinha\u201d. Antes dos poemas h\u00e1 uma fotografia antiga do casal, que pode ser lida e vista como resgate familiar, como uma de<\/span><span class=\"s6\">clara\u00e7\u00e3o do relacionamento amoroso, por meio dos versos.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O soneto I transporta o leitor para um momento \u00edntimo e revelador. Os versos descrevem uma cena com detalhes visuais e sensoriais, culminando em uma epifania. O poema come\u00e7a descrevendo uma veste mod<\/span><span class=\"s6\">esta e airosa, \u201cvestido em luto\u201d, o que sugere algo solene ou talvez uma transi\u00e7\u00e3o <\/span><span class=\"s6\">(<\/span><span class=\"s6\">que no decorrer da leitura se revela como amor e paix\u00e3o). \u201cA blusa mal fechada\u201d, ao se abrir minimamente (\u2018em pequena abertura\u2019), revela um contraste: a escurid\u00e3o (\u2018negro\u2019<\/span><span class=\"s6\">) de um vestido, que, no entanto, emoldura uma \u2018transparente alvura\u2019 do semblante e das m\u00e3os. Essa imagem \u00e9 comparada ao estilo do pintor Rembrandt, conhecido por seu uso dram\u00e1tico de luz e sombra <em>(<\/em><\/span><em><span class=\"s6\">chiaroscuro<\/span><\/em><span class=\"s6\"><em>),<\/em> o que intensifica a atmosfera visual. A desc<\/span><span class=\"s6\">ri\u00e7\u00e3o se torna mais \u00edntima quando o olhar do amado, \u201cindiscreto\u201d, foca em uma \u201cpequena abertura\u201d na blusa, onde ele vislumbra um \u201cex\u00edguo retalho\u201d de pele \u201cbranca e pura\u201d. \u00c9 um momento de observa\u00e7\u00e3o detalhada e quase secreta.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A experi\u00eancia descrita \u00e9 fugaz,<\/span><span class=\"s6\"> \u201ct\u00e3o fugaz, que mal eu pude v\u00ea-la\u201d. O poeta compara esse vislumbre a um \u201cpirilampo\u201d ou ao brilho de uma \u201cestrela\u201d, algo que cintila brevemente na \u201cescurid\u00e3o da roupagem\u201d. Essa rapidez leva a um momento de clareza mental, uma \u201cideia <\/span><span class=\"s6\">alucinada!\u201d. Nesse inst<\/span><span class=\"s6\">ante, a imagem vislumbrada se torna permanente em sua mente, como se estivesse gravada em relevo numa \u201cmedalha\u201d. A conclus\u00e3o \u00e9 poderosa: \u201cNessa r\u00e9stea de luz eu vi a tua imagem\u201d. O poeta <\/span><span class=\"s6\">(<\/span><span class=\"s6\">o av\u00f4) n\u00e3o apenas viu um peda\u00e7o de pele, mas, atrav\u00e9s dessa luz ef\u00ea<\/span><span class=\"s6\">mera, ele viu a imagem de algu\u00e9m, possivelmente a pessoa amada (a av\u00f3), de forma inesquec\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O poema explora como momentos breves e aparentemente insignificantes podem carregar um significado profundo. O poeta usa a met\u00e1fora da luz e da sombra, comum na <\/span><span class=\"s6\">arte, para ilustrar como a beleza ou a ess\u00eancia de algu\u00e9m pode ser revelada mesmo em circunst\u00e2ncias sombrias ou em detalhes m\u00ednimos. \u00c9 sobre encontrar o extraordin\u00e1rio no ordin\u00e1rio, a epifania que transforma uma simples vis\u00e3o em uma imagem gravada para sem<\/span><span class=\"s6\">pre.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">O segundo poema, o soneto II, explora um momento de intensa carga emocional e introspec\u00e7\u00e3o entre dois personagens, culminando em uma declara\u00e7\u00e3o de amor e sofrimento. O poema inicia com a descri\u00e7\u00e3o de um encontro \u00edntimo: \u201cEst\u00e1vamos n\u00f3s dois, um dia, a <\/span><span class=\"s6\">s\u00f3s, na sala\u201d. A atmosfera \u00e9 carregada de um \u201cmeigo e triste olhar\u201d, que, por si s\u00f3, foi \u201co quanto foi preciso\u201d para comunicar sentimentos profundos. A indecis\u00e3o e a confus\u00e3o do momento levam a um sil\u00eancio eloquente, onde a \u201cemo\u00e7\u00e3o emudeceu-me a fala\u201d. Est<\/span><span class=\"s6\">a introdu\u00e7\u00e3o estabelece um clima de vulnerabilidade e expectativa, preparando o leitor para a explos\u00e3o emocional que se segue.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A descri\u00e7\u00e3o po\u00e9tica avan\u00e7a para a ideia de que, quando o amor \u00e9 sufocante e a palavra falha, o ju\u00edzo se ofusca e o cora\u00e7\u00e3o reage <\/span><span class=\"s6\">de forma intensa. Essa rea\u00e7\u00e3o manifesta-se atrav\u00e9s de \u201cl\u00e1grimas, em riso\u201d, ou, no caso espec\u00edfico retratado, atrav\u00e9s de um beijo que \u201cestala\u201d. Este beijo, descrito como um ponto culminante da emo\u00e7\u00e3o contida<\/span><span class=\"s6\">, serve<\/span><span class=\"s6\"> como gatilho para a comunica\u00e7\u00e3o verbal que <\/span><span class=\"s6\">se segue. O eu l\u00edrico murmura um pedido de futuro: \u201cMaria, o meu futuro\u2026\u201d. No entanto, \u00e9 interrompido pela rea\u00e7\u00e3o de Maria, que \u201csolu\u00e7a, em pranto\u201d. O eu l\u00edrico tenta apaziguar, protestando: \u201cQuerida, protestei, n\u00e3o te ofendi, eu juro\u201d. A resposta de<\/span><span class=\"s6\"> Maria \u00e9 uma confiss\u00e3o de pureza e um desabafo de amor profundo e dor: <\/span><\/p>\n<p class=\"s11\" style=\"padding-left: 40px;\"><span class=\"s6\">\u201cJuro, n\u00e3o te ofendi, que foi um beijo santo\u201d,<br \/>\n\u2013 \u201cN\u00e3o me ofendeste, eu sei, teu sentimento \u00e9 puro;<br \/>\nChoro <\/span><span class=\"s6\">porque<\/span><span class=\"s6\">&#8230; <\/span><span class=\"s6\">h\u00e1<\/span><span class=\"s6\"> tanto eu te amo, e sofri tanto!<\/span><span class=\"s6\">\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Esta troca revela a complexidade <\/span><span class=\"s6\">dos sentimentos, onde o amor se entrela\u00e7a com a dor e a saudade.<\/span><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">A \u00faltima parte de <\/span><span class=\"s9\">Resgate <\/span><span class=\"s6\">em an\u00e1lise, embora breve, \u00e9 de uma densidade emocional not\u00e1vel. A transi\u00e7\u00e3o da mudez da emo\u00e7\u00e3o para a explos\u00e3o do beijo no soneto II e, finalmente, para a declara\u00e7\u00e3o<\/span><span class=\"s6\"> verbal, demonstra a maestria da autora (no soneto do seu av\u00f4) em retratar a complexidade das rela\u00e7\u00f5es humanas e a for\u00e7a avassaladora do amor, que coexiste com o sofrimento. A identifica\u00e7\u00e3o de \u201cMaria\u201d como interlocutora e o tema do \u201cfuturo\u201d sugerem uma pro<\/span><span class=\"s6\">fundidade de relacionamento que transcende o momento retratado.<\/span><\/p>\n<p><em><strong>Resgate<\/strong><\/em><\/p>\n<p class=\"s11\"><span class=\"s6\">Fl\u00e1via de Queiroz Lima, em <\/span><em><strong><span class=\"s9\">Resgate<\/span><\/strong><\/em><span class=\"s6\">, oferece uma oportunidade de<\/span><span class=\"s6\"> \u00a0<\/span><span class=\"s6\">(<\/span><span class=\"s6\">re<\/span><span class=\"s6\">)encontro dos diferentes e impactantes movimentos da vida (escaninhos) e do que ela apresenta, por meio dos seus poemas, <\/span><span class=\"s6\">a<\/span><span class=\"s6\">o fazer da ess\u00eancia da poesia um elo de conex\u00e3o que interage com os sentidos e com o \u00e2mago profundo do ser e estar, do sentir e do viver no mundo. Os poemas do livro s\u00e3o datados, o que sugere um registro temporal, possivelmente indicando a data de compo<\/span><span class=\"s6\">si\u00e7\u00e3o ou publica\u00e7\u00e3o, conferindo um senso de atualidade \u00e0 tem\u00e1tica abordada, al\u00e9m de atribuir um car\u00e1ter de contemporaneidade \u00e0 obra. Esta \u00e9 uma leitura do livro, que surgiu ap\u00f3s a an\u00e1lise da capa e do t\u00edtulo instigante e indagador, cuja reflex\u00e3o foi sendo <\/span><span class=\"s6\">constru\u00edda nos fios dos pontos do bordado das palavras e na te<\/span><span class=\"s10\">ss<\/span><span class=\"s6\">itura cativante da linguagem. Numa escrita po\u00e9tica aliada \u00e0 for\u00e7a da imagem, a escritora cria um impacto significativo, tecendo tem\u00e1ticas diversas nos seus poemas, e convida o leitor a desvenda<\/span><span class=\"s6\">r o universo amplo da poesia em sua ess\u00eancia, com suas interpreta\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias \u2013 um \u201cresgate\u201d da leitura, onde as palavras s\u00e3o os caminhos da travessia que n\u00e3o se finda.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Rosemsary Ferreira de Souza<\/em><br \/>\nDoutora em Letras: Estudos Liter\u00e1rios, pela Universidade Federal de Minas Gerais \/ UFMG. Membro correspondente da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, UBE \/ RJ. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Letras, atuando em temas afins.<br \/>\nAutora dos livros <em>Poesia e cr\u00edtica<\/em>: Trilogia po\u00e9tica<br \/>\nde Gilberto Mendon\u00e7a Teles (1\u00aa ed. 2015; 2\u00aa ed.<br \/>\n2020 &#8211; Editora Kelps) e <em>As Formas do<br \/>\nRumor na Hora Aberta <\/em>(2024<br \/>\n&#8211; Editora Kelps e Batel).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Resgate<br \/>\n<\/strong><\/em>Dionysius \/ Pangeia<br \/>\nnovembro 2025<\/p>\n<\/blockquote>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"\">Fl\u00e1via de Queiroz Lima | Autora<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"\">Derval Braga | Diagramador<br \/>\nPedro Miranda | Iluminuras \/ Artes<br \/>\nPedro Miranda | Desenho da Capa<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"\">Lily Momisso | Capista<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"\">Rauer Ribeiro Rodrigues | Editor<br \/>\nLuciana Pimenta | Posf\u00e1cio<br \/>\nMarcos Leite | Texto da 4a. capa<br \/>\nAna Cec\u00edlia Carvalho, Ana Elisa Ribeiro, Ant\u00f4nio<br \/>\nS\u00e9rgio Bueno e Rauer | Textos das orelhas<br \/>\nFoto da autora | Cec\u00edlia Bertelli<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o Gr\u00e1fica | Rauer<\/span><\/div>\n<p><strong>Pedro Miranda<\/strong>:<br \/>\nA capa e as ilustra\u00e7\u00f5es que abrem as subpartes do livro, \u201cos escaninhos\u201d da obra <em><strong>Resgate<\/strong><\/em>, s\u00e3o de autoria do artista pl\u00e1stico Pedro Miranda.<\/p>\n<p>Pedro Miranda iniciou sua carreira art\u00edstica no Teatro Universit\u00e1rio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1967 apresentou sua primeira exposi\u00e7\u00e3o, na Galeria Guignard. Suas obras abordam temas diversos em suas m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. O artista as exp\u00f4s, em suas diferentes fases, em v\u00e1rios locais, como o Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (Masp), a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, a Galeria do Congresso Nacional, em Bras\u00edlia, a Prefeitura de Belo Horizonte, a Casa de Contos, a Casa de Cultura, em Betim, o Consulado da \u00c1ustria em Col\u00f4nia, na Alemanha, a Feira Internacional de Bruxelas, na B\u00e9lgica, a Galeria Loggia, no Rio de Janeiro, o Espa\u00e7o Cultural O Globo e a Galeria Minard.<br \/>\nEis a arte de Pedro Miranda que abre &#8220;Desatinos&#8221;, um dos escaninhos de\u00a0<em><strong>Resgate<\/strong><\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-21195\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-217x300.webp\" alt=\"\" width=\"339\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-217x300.webp 217w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-741x1024.webp 741w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-768x1061.webp 768w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-9x12.webp 9w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-700x967.webp 700w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-289x400.webp 289w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia-507x700.webp 507w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Desaatinos_Flavia.webp 911w\" sizes=\"auto, (max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1via de Queiroz Lima faz travessia po\u00e9tica, em seu mais recente livro, Resgate, lan\u00e7ado em 2025, no qual a escritora, atrav\u00e9s da for\u00e7a das imagens que evoca e constr\u00f3i na tessitura dos versos, cria efeitos de sentido impactantes, trabalhando temas os mais diversos: da inf\u00e2ncia \u00e0 subjetividade, da polis politica ao meio-ambiente, da corrup\u00e7\u00e3o na&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":592,"featured_media":19204,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[320,3288],"tags":[2662,5239,3153,5240,2615,5236,2479,5234,1698,3045,5162,3418,5237,5238,3432,179,376,60,3193,5235],"class_list":["post-21144","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estudos-literarios","category-poesia-brasileira","tag-ana-cecilia-carvalho","tag-ana-elisa-ribeiro","tag-antonio-sergio-bueno","tag-cecillia-bertelli","tag-derval-braga","tag-desatinos","tag-ensaio","tag-estudo-de-poesia","tag-flavia-de-queiroz-lima","tag-flavissima","tag-gente-nossa","tag-lily-momisso","tag-luciana-pimenta","tag-marcos-leite","tag-pedro-miranda","tag-rauer","tag-rauer-ribeiro-rodrigues","tag-resenha","tag-resgate","tag-rosemary-ferreira-de-souza"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/592"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21144"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21198,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21144\/revisions\/21198"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}