{"id":20998,"date":"2026-01-15T16:07:14","date_gmt":"2026-01-15T16:07:14","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=20998"},"modified":"2026-01-19T06:56:53","modified_gmt":"2026-01-19T06:56:53","slug":"flavia-esta-no-pensar-em-ensaio-de-lucas-guimaraens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/flavia-esta-no-pensar-em-ensaio-de-lucas-guimaraens\/","title":{"rendered":"Fl\u00e1via est\u00e1 no &#8220;Pensar&#8221; em ensaio de Lucas Guimaraens"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O poema de Fl\u00e1via quer isso, um compartilhamento que n\u00e3o \u00e9 consenso cego, mas uma tecelagem que regenera, o que conversa diretamente com a ideia de que a verdade sens\u00edvel n\u00e3o \u00e9 consenso e n\u00e3o \u00e9 posse, \u00e9 ju\u00edzo partilh\u00e1vel que liberta e, no entanto, o poema n\u00e3o termina em triunfo, ele termina em insist\u00eancia, e insistir \u00e9 a forma mais concreta de liberdade quando se vive em abismo.&#8221;<\/p>\n<p>O poeta, fil\u00f3sofo e pensador liter\u00e1rio Lucas Guimaraens analisa a poesia de Fl\u00e1via de Queiroz Lima no livro <span style=\"color: #800080;\"><a style=\"color: #800080;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=Resgate\"><em><strong>Resgate<\/strong><\/em><\/a><\/span>, lan\u00e7ado em 2025 pela Dionysius \/ Pangeia. O estudo foi publicado no site do Caderno &#8220;Pensar&#8221;, no Portal do Jornal <em><strong>Estado de minas<\/strong><\/em>, no dia 13\/01\/2026 (ver <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/pensar\/2026\/01\/7332193-lucas-guimaraens-analisa-a-poetica-de-flavia-de-queiroz-lima-em-resgate.html\"><span style=\"color: #008080;\"><strong>AQUI<\/strong><\/span><\/a>).<\/p>\n<p>Lucas Guimaraens entende que a poesia de Fl\u00e1via de Queiroz Lima constitui &#8220;um modo de viver, um modo de ler, um modo de respirar&#8221;:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;e \u00e9 por isso que eu tomo <em><strong>Resgate<\/strong><\/em> como obra que dialoga com os atravessamentos da mais alta poesia sem precisar pedir licen\u00e7a, porque ela j\u00e1 traz o corpo da montanha, a dobra, o sil\u00eancio, a pressa recusada, a voz que perpassa muros e a \u00e9tica do comum como tecido, o que \u00e9, para mim, mineiridade barroca no sentido mais alto, uma forma de mundo.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Reproduzimos abaixo o ensaio completo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ensaio cr\u00edtico po\u00e9tico sobre <em>Resgate<\/em><br \/>\nde Fl\u00e1via de Queiroz Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Lucas Guimaraens<\/strong> <strong>*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo lugar onde Fl\u00e1via me chama pelo nome do m\u00e9todo sem pronunciar a palavra m\u00e9todo e isso acontece na <em>Carta a quem l\u00ea Resgate,<\/em> quando pede \u201c<em>uma escuta sens\u00edvel<\/em>\u201d e pede ao leitor disposi\u00e7\u00e3o para se infiltrar em \u201c<em>meandros, sutilezas<\/em>\u201d e ao mesmo tempo anuncia que os poemas foram morar em quatro escaninhos, ARAGENS, TRILOGIA \u00c0 MULHER, DESATINOS e RESGATE, o que \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de arquitetura que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 organizacional, \u00e9 \u00e9tica, porque escaninho \u00e9 forma de guardar sem trancar e forma de salvar sem congelar, e a palavra resgate, aqui, n\u00e3o vem como nostalgia, vem como trabalho de retirada do afogamento, como se cada p\u00e1gina fosse uma voz em que a \u00e1gua ainda bate e, portanto, a <em>Carta<\/em> j\u00e1 traz duas decis\u00f5es que eu reconhe\u00e7o como centrais para o desenvolvimento do pensamento humano e a escrita po\u00e9tica<strong>:<\/strong> primeiro a poesia diz muito com poucas palavras e sedimenta sensa\u00e7\u00f5es, conflitos e den\u00fancias e segundo o cotidiano e a mem\u00f3ria s\u00e3o mat\u00e9ria prima, mas essa mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 vis\u00e3o, ela \u00e9 tamb\u00e9m audi\u00e7\u00e3o, ela chega \u201caos v\u00e3os secretos do cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Eu paro nessa palavra \u201cv\u00e3os\u201d porque ela \u00e9 montanha, \u00e9 fresta, \u00e9 fenda, \u00e9 aquilo que o Barroco sempre soube<strong>: <\/strong>que o mundo n\u00e3o se entrega inteiro, que o mundo \u00e9 feito de reentr\u00e2ncias onde a luz falha e onde a verdade se d\u00e1 por atrito e n\u00e3o por transpar\u00eancia e \u00e9 a\u00ed que entram os meus estudos dos \u00faltimos 20 anos, quando eu digo que a montanha, as Minas Gerais, n\u00e3o admite atalhos e obriga o pensamento a subir, descer e atravessar e que toda forma verdadeira precisa suportar a aspereza da pedra e a delicadeza do musgo, e eu digo isso aqui n\u00e3o para anexar Fl\u00e1via ao meu vocabul\u00e1rio, mas para reconhecer que ela j\u00e1 escreve com esse corpo, com esse claro escuro de quem n\u00e3o finge linha reta e que essa \u00e9 uma mineiridade que n\u00e3o \u00e9 folclore, \u00e9 procedimento, \u00e9 vis\u00e3o barroca como m\u00e9todo de leitura do real.<\/p>\n<p>E a <em>Carta<\/em> ainda me entrega uma terceira chave, que \u00e9 a imagem, pois Fl\u00e1via declara que Pedro Miranda abre os quatro escaninhos com vitrais e pinturas a \u00f3leo em que a figura feminina aparece oferecendo ao olhar \u201cum misto de for\u00e7a e delicadeza\u201d e isso \u00e9 de real interesse porque \u00e9 exatamente o ponto em que Arrigucci Jr. ajuda a n\u00e3o reduzir imagem a ilustra\u00e7\u00e3o, ele ensina que um poema pode pensar como quadro e que a imagem \u00e9 cena de pensamento, e \u00e9 isso que eu j\u00e1 fixo, aqui, ao dizer que toda imagem analisada deve ser tratada como campo tonal e n\u00e3o como decalque de ideias, o que significa escutar cores, cortes, brancos e ritmos da p\u00e1gina e isso se articula com o que eu chamo de \u00e9tica de ancoragem, porque arquivo n\u00e3o \u00e9 vitrine neutra, \u00e9 disputa de acesso e falta e, portanto, a prova precisa ser refaz\u00edvel com nome, p\u00e1gina e \u00edndice, e esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual eu escrevo as notas ao final, porque o m\u00e9todo \u00e9 justamente impedir que o ensaio vire fuma\u00e7a ou elogio, e fazer dele prova.<\/p>\n<p>A partir daqui eu preciso explicar meu pr\u00f3prio gesto cr\u00edtico para n\u00e3o cair no erro que Flora Sussekind denuncia, aquele risco de, ao interpretar o contempor\u00e2neo, apenas repeti-lo com dic\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica e duplicar a luz sem achar chave alguma. Assim, eu escolho entrar no livro de Fl\u00e1via do geral ao espec\u00edfico e depois do espec\u00edfico ao geral, porque cada escaninho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tema, \u00e9 uma forma de tempo, e tempo \u00e9 a mat\u00e9ria central de toda sobreviv\u00eancia, como Didi-Huberman escreve quando fala da \u201ctenacidade das sobreviv\u00eancias\u201d e de como os elementos transformados e deslocados ainda carregam a marca de sua hist\u00f3ria &#8211; e eu quero ler Fl\u00e1via como sobreviv\u00eancia ativa e n\u00e3o como cole\u00e7\u00e3o, porque resgate \u00e9 isso, salvar a marca sem transformar a marca em objeto morto.<\/p>\n<p>E para que essa leitura n\u00e3o vire sistema, eu aceito a li\u00e7\u00e3o do entre-lugar de Silviano Santiago que \u00e9 sempre recusa do centro e recusa do consenso apaziguador, porque Silviano diz que seu trabalho te\u00f3rico foi questionar fonte e influ\u00eancia e substitu\u00ed-las por entre-lugar, conceito inclusivo e democr\u00e1tico, e eu trago isso para Fl\u00e1via porque ela escreve do lugar em que a vida se infiltra na forma e a forma n\u00e3o se deixa reduzir ao circuito, e por isso a cr\u00edtica, aqui, precisa ser \u00e9tica da escuta, aquela que eu formulei de modo direto<strong>:<\/strong> escutar \u00e9 reconhecer o outro como co-respira\u00e7\u00e3o e reatar o comum, e \u00e9 exatamente isso que Fl\u00e1via pede quando pede escuta sens\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>I. ARAGENS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Beleza como talism\u00e3 e o tempo do olhar<br \/>\ncontra o terror do desempenho<\/strong><\/p>\n<p>Fl\u00e1via abre Aragens com o verso que me parece uma declara\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia<strong>:<\/strong> \u201cH\u00e1 muito fiz da beleza \/ meu talism\u00e3 cristalino\u201d.<\/p>\n<p>E n\u00e3o leio isso como ornamento, leio como escolha \u00e9tica contra a pressa, porque esta \u00e9 o modo contempor\u00e2neo de apagar a delicadeza e, portanto, de apagar o sens\u00edvel, e a pressa, hoje, \u00e9 tamb\u00e9m a forma mais banal de um terror, n\u00e3o o terror espetacular, mas o terror tecnocrata que Jean-Fran\u00e7ois Lyotard nomeia quando descreve a l\u00f3gica do desempenho e a senten\u00e7a brutal<strong>:<\/strong> \u201cSede operat\u00f3rios, isto \u00e9, comensur\u00e1veis, ou desaparecei\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio ontol\u00f3gico, Fl\u00e1via escreve, de modo silencioso e obstinado, contra esse paradigma do \u00fatil, porque o talism\u00e3 cristalino n\u00e3o \u00e9 objeto de luxo, \u00e9 um objeto de resist\u00eancia, ele protege o olho do leitor contra a maquinaria que quer transformar tudo em dado, em produtividade, em velocidade, e, por consequente, o primeiro poema que ela oferece como porta \u00e9 exatamente \u201cO tempo do olhar\u201d e ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 poema, \u00e9 prova de m\u00e9todo, \u00e9 uma pequena mesa de epistemologia sens\u00edvel no interior do livro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>O TEMPO DO OLHAR<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A pressa nos atropela<br \/>\no olhar que acolhe e contempla,<br \/>\nse aproxima do mist\u00e9rio,<br \/>\nadentra a sombra, desvenda.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Se a urg\u00eancia domina o gesto,<br \/>\nvirando a p\u00e1gina, alheia<br \/>\ndescarta o denso, profundo<br \/>\n\u2013 o detalhe, a sutileza.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O olhar descobre o invis\u00edvel<br \/>\nquando interroga o sil\u00eancio,<br \/>\ndebru\u00e7ado no infinito<br \/>\nde sentimentos avulsos,<br \/>\nseguindo impulsos e esperas,<br \/>\nse desdobrando no apuro,<br \/>\nnas sedentas descobertas<br \/>\ndo que habita atr\u00e1s dos muros.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Quando o olhar n\u00e3o se demora,<br \/>\nperdendo a delicadeza,<br \/>\nseu tempo apenas cerceia,<br \/>\napaga o espanto, a surpresa,<br \/>\nn\u00e3o devassa o desafio<br \/>\nn\u00e3o contempla o que \u00e9 diverso<br \/>\nnem mergulha no imprevisto<br \/>\ndos sentidos submersos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Quando carrega certezas,<br \/>\nn\u00e3o duvida, n\u00e3o vacila,<br \/>\ndesconhece o desvario<br \/>\nda areia movida ao vento,<br \/>\nn\u00e3o visita o improv\u00e1vel<br \/>\nque habita cada momento<strong>:<\/strong><br \/>\no olhar s\u00f3 percebe o mundo<br \/>\ndepois que enxerga por dentro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">20.07.2025<\/p>\n<p>Eu come\u00e7o por um verbo que \u00e9 f\u00edsico e que \u00e9 pol\u00edtico, \u201catropelar\u201d, porque a pressa, aqui, n\u00e3o \u00e9 um defeito individual, \u00e9 um regime que passa por cima do corpo, e Fl\u00e1via p\u00f5e o corpo na frase como a por a m\u00e3o no corrim\u00e3o e, logo em seguida, ela define o olhar que interessa, n\u00e3o olhar que explica, mas o olhar que acolhe e contempla, e acolher, nessa economia, \u00e9 a primeira forma de justi\u00e7a, pois acolher sup\u00f5e \u00a0o outro e sup\u00f5e co-respira\u00e7\u00e3o. E torna-se inevit\u00e1vel ouvir o princ\u00edpio da escuta como repara\u00e7\u00e3o, escutando como o reconhecimento do outro em co-respira\u00e7\u00e3o e, assim, o poema liga acolher ao mist\u00e9rio e \u00e0 sombra, porque a sombra n\u00e3o \u00e9 o erro, sen\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de uma verdade que n\u00e3o se imp\u00f5e como decreto e, aqui, eu fa\u00e7o uma ponte com o fil\u00f3sofo franc\u00eas Jacques Poulain, quando ele denuncia a tentativa de institucionalizar a <em>cultura do consenso<\/em> e diz que isso <em>neutraliza a cultura dialogal da verdade<\/em>.<\/p>\n<p>Fl\u00e1via, por uma vis\u00e3o do mundo, do outro e de si, faz o mesmo gesto na escala do poema, mostrando que a urg\u00eancia domina o gesto e faz o leitor virar a p\u00e1gina \u201calheia\u201d, e alheia \u00e9 palavra cruel, porque indica a aliena\u00e7\u00e3o do olhar e a poesia se torna ant\u00eddoto, n\u00e3o por moralismo, mas por reeduca\u00e7\u00e3o da cad\u00eancia, pois ela obriga a demora, o que \u00e9 exatamente aquilo que eu chamo de <em>montanha<\/em>, quando digo que a montanha guarda um tempo pr\u00f3prio e que esse tempo \u00e9 \u00e9tico.<\/p>\n<p>O poema avan\u00e7a e faz uma defini\u00e7\u00e3o de invis\u00edvel que eu considero perfeita para o nosso tempo, o invis\u00edvel aparece quando o olhar interroga o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Essa frase poderia ser o resumo de um m\u00e9todo inteiro, porque interrogar o sil\u00eancio \u00e9 perguntar sem viol\u00eancia, o que me remete a Michel Foucault como uma voz que ajuda a compreender o gesto de entrar no discurso sem come\u00e7ar, quando ele diz que gostaria de ser envolvido pela palavra e perceber que uma voz sem nome o precedia h\u00e1 muito tempo, e eu leio isso como pedagogia do n\u00e3o-come\u00e7o, que \u00e9 tamb\u00e9m pedagogia do olhar, pois o olhar que acolhe n\u00e3o come\u00e7a dominando, ele come\u00e7a deixando-se preceder. Fl\u00e1via, ao dizer que o olhar s\u00f3 percebe o mundo depois que enxerga por dentro, recusa a transpar\u00eancia do mundo e est\u00e1 recusando a transpar\u00eancia do sujeito, porque enxergar por dentro n\u00e3o \u00e9 psicologia barata, \u00e9 reconhecer que ver \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e \u00e9tica.<\/p>\n<p>E encontro, neste momento, que a alegria-prova come\u00e7a a aparecer, n\u00e3o como festa, mas como diretriz, atravessamento, porque h\u00e1 uma alegria grave que une montanha e prova e essa alegria \u00e9 a \u201cprova dos nove\u201d quando a forma consegue segurar o mundo sem domestic\u00e1-lo, o que Fl\u00e1via faz com brilhantismo, segurando o mundo pelo olhar, mas sem domestic\u00e1-lo, mantendo-o como mist\u00e9rio, sombra, imprevisto, o que \u00e9, para mim, uma forma mineira de resist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>II. TRILOGIA \u00c0 MULHER<\/strong><\/p>\n<p><strong>Voz como travessia e<br \/>\no entre-lugar <\/strong><strong>do corpo<br \/>\nem fronteira<\/strong><\/p>\n<p>Eu entro na Trilogia \u00e0 Mulher j\u00e1 com a sensa\u00e7\u00e3o de que a figura feminina que abre o escaninho nas imagens de Pedro Miranda n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tema, \u00e9 portal, porque a pr\u00f3pria Fl\u00e1via diz que as ilustra\u00e7\u00f5es oferecem for\u00e7a e delicadeza, a pedra angular desta trilogia, o paradoxo de uma for\u00e7a que n\u00e3o se mascara de dureza e de uma delicadeza que n\u00e3o \u00e9 submiss\u00e3o, raz\u00e3o pela qual eu trago Silviano Santiago n\u00e3o como etiqueta, mas como ferramenta de leitura do lugar, porque o entre-lugar, para ele, foi inventado justamente para substituir o eurocentrismo de fonte e influ\u00eancia por um conceito inclusivo: a mulher de Fl\u00e1via \u00e9 exatamente esse lugar de inven\u00e7\u00e3o, pois ela transita fronteiras e confronta muros de arrimo, e muro de arrimo \u00e9 montanha e \u00e9 cidade, engenharia do corpo no abismo, o que torna o poema imediatamente mineiro sem dizer Minas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>O DOM DA VOZ<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Transitando fronteiras, sem v\u00e9us, sem morda\u00e7as,<br \/>\nno confronto de abismos e muros de arrimo,<br \/>\npalmilhando infinitos, transpondo universos,<br \/>\nela escolhe e interpela trajetos, destinos,<br \/>\nsorve o mundo que pulsa e se infiltra na pele,<br \/>\ntatuando seu rastro, entalhando caminhos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Se ela habita essa voz quando expressa o desejo,<br \/>\nredesenha o lugar onde a vida acontece,<br \/>\nmolda um tempo capaz de alterar seus desfechos,<br \/>\num cond\u00e3o de acender cada sonho que veste<br \/>\ne esse dom de brotar, mesmo em pleno deserto,<br \/>\nrega o ch\u00e3o que semeia, viceja, floresce.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Quando os la\u00e7os se estendem e as vozes se tecem,<br \/>\nelas desamorda\u00e7am sil\u00eancios, esperas,<br \/>\ntransbordando o indiz\u00edvel que afronta limites<br \/>\ne esse espa\u00e7o alcan\u00e7ado refaz, regenera.<br \/>\nCada gesto se alastra, se alonga, insiste,<br \/>\ndesvelando palavras que a voz reverbera.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">04.02.2024<\/p>\n<p>Eu come\u00e7o por transitar, porque transitar n\u00e3o \u00e9 chegar, transitar \u00e9 viver no meio e, por conseguinte, \u00e9 este deslocamento que esse poema aparece como entre-lugar encarnado, e quando Fl\u00e1via diz \u201csem v\u00e9us\u201d e \u201csem morda\u00e7as\u201d , ela postula duas afirma\u00e7\u00f5es, a recusa do apagamento pela cobertura e a recusa do apagamento pela viol\u00eancia direta e, ao nomear \u201cabismos\u201d e \u201cmuros de arrimo\u201d, ela faz a voz nascer do lugar perigoso, logo penso em Derrida quando ele mostra que o arquivo n\u00e3o \u00e9 inocente, porque <em>arkhe<\/em> \u00e9 come\u00e7o e comando e percebo que a voz feminina de Fl\u00e1via nasce num lugar em que o comando quer se impor, seja comando patriarcal, seja comando social, o que faz com que transitar fronteiras seja tamb\u00e9m transitar comandos, resistir ao comando pelo gesto de interpelar e, assim, ela escolhe e interpela trajetos e destinos, isto \u00e9, ela n\u00e3o apenas caminha, ela pergunta, e questionar \u00e9 perigoso <strong>\u2013<\/strong> e remeto \u00e0 filosofia de Kortian, porque na abertura de <em>De la v\u00e9rit\u00e9 comme libert\u00e9<\/em> ele afirma que o debate cr\u00edtico se reconhece como forma de vida.<\/p>\n<p>Leio, ent\u00e3o, Fl\u00e1via de Queiroz Lima como debate cr\u00edtico incorporado, uma forma de vida em que o corpo, ao falar, institui uma liberdade que n\u00e3o \u00e9 abstrata, logo a voz se infiltra na pele e tatua seu rastro, a voz \u00e9 marca e \u00e9 caminho, e marca aqui n\u00e3o \u00e9 ferida passiva, \u00e9 inscri\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A segunda estrofe \u00e9 uma aula de tempo, pois ela afirma que a voz molda um tempo capaz de alterar desfechos e eu me recuso a ler estes versos como autoajuda, porque o poema n\u00e3o promete final feliz, ele fala de deserto e este \u00e9 o lugar em que a vida precisa brotar sem garantias. Aqui, Giorgio Agamben entra pela via de Alberto Pucheu, quando este descreve a transmissibilidade da intransmissibilidade e o mergulho na potencialidade criadora. Vejo com nitidez que a voz de Fl\u00e1via trabalha justamente com essa pot\u00eancia, ela n\u00e3o transmite um conte\u00fado fechado, ela transmite a possibilidade de brotar, e brotar em deserto \u00e9 um modo de dizer que a forma, quando \u00e9 verdadeira, n\u00e3o depende de condi\u00e7\u00f5es ideais, ela cria condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E a terceira estrofe desloca o poema do eu para o n\u00f3s sem propaganda, porque os la\u00e7os se estendem e as vozes se tecem e, nesta chave hermen\u00eautica, Jacques Poulain nos ajuda a nomear a qualidade desse tecer quando ele diz que n\u00e3o se pode reconhecer um compartilhamento de julgamento de verdade e se alegrar com ele sem reconhec\u00ea-lo objetivo e verdadeiro, e a alegria que surge disso \u00e9 motiva\u00e7\u00e3o comum, um <em>bonheur de v\u00e9rit\u00e9<\/em> que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o cultural de vida, e reconhe\u00e7o que o poema de Fl\u00e1via quer isso, um compartilhamento que n\u00e3o \u00e9 consenso cego, mas uma tecelagem que regenera, o que conversa diretamente com a ideia de que a verdade sens\u00edvel n\u00e3o \u00e9 consenso e n\u00e3o \u00e9 posse, \u00e9 ju\u00edzo partilh\u00e1vel que liberta e, no entanto, o poema n\u00e3o termina em triunfo, ele termina em insist\u00eancia, e insistir \u00e9 a forma mais concreta de liberdade quando se vive em abismo.<\/p>\n<p><strong>III. DESATINOS<\/strong><\/p>\n<p><strong>A bala como sintaxe do absurdo e a<br \/>\npol\u00edtica do vis\u00edvel em tempos de ru\u00edna<\/strong><\/p>\n<p>Quando Fl\u00e1via chega a Desatinos, ela faz aquilo que eu considero fundamental para que um livro de poemas contempor\u00e2neos n\u00e3o seja apenas livro de interioridade: ela assume o mundo obsceno, ela assume a Hist\u00f3ria em estado de ferida e escreve que se indigna com o que considera absurdo e obsceno na Hist\u00f3ria e que as cenas invadem nossos olhos e ouvidos e, neste sentido, ela descreve um campo tonal saturado de imagens e \u00e9 justamente a\u00ed que a li\u00e7\u00e3o de Didi-Huberman se torna concreta, porque ele diz que as formas sobreviventes carregam a marca de sua hist\u00f3ria e persistem deslocadas e mutiladas, e eu sinto que o horror contempor\u00e2neo \u00e9 isso, uma sobreviv\u00eancia deformada que retorna e Fl\u00e1via decide n\u00e3o desviar o olhar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>DESATINO\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">(fragmento)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Quando a bala rasga a arma<br \/>\ne tudo atravessa, \u00e0s cegas,<br \/>\narromba corpos e vidas<br \/>\ncomo se risse \u00e0s avessas.<br \/>\nPulsando fora da r\u00e9gua<br \/>\nque separa e paralisa,<br \/>\nmundos fechados, cindidos,<br \/>\nrevolvem f\u00farias sem tr\u00e9gua.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Tudo que explode, aniquila,<br \/>\nlan\u00e7a proj\u00e9teis perdidos,<br \/>\nrevela um tempo em destro\u00e7os,<br \/>\ntritura inf\u00e2ncias, destinos,<br \/>\nderrete o rumo invis\u00edvel<br \/>\ndo pr\u00f3prio deserto humano<br \/>\n\u2013 como se o sangue que escorre<br \/>\nnos jorrasse o desatino.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">20.10.2023<\/p>\n<p>Eu come\u00e7o pela primeira imagem, a bala rasga a arma, porque ela inverte a cena do poder \u00a0e, ao invert\u00ea-la, ela mostra que a viol\u00eancia destr\u00f3i at\u00e9 o instrumento que a enuncia e, isso, \u00e9 um diagn\u00f3stico do nosso tempo, porque o terror contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 bala, \u00e9 tamb\u00e9m linguagem, \u00e9 tamb\u00e9m informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m algoritmo, e Jean-Fran\u00e7ois Lyotard j\u00e1 nomeou o terror tecnocrata da l\u00f3gica do desempenho, a ordem que exige comensurabilidade e amea\u00e7a com desaparecimento , e Fl\u00e1via, ao falar de bala e cegueira, fala tamb\u00e9m de um regime em que tudo atravessa sem ver e, como corol\u00e1rio l\u00f3gico, a bala ri \u00e0s avessas , porque esse riso \u00e9 o riso do cinismo, o riso do regime que mata e chama isso de efici\u00eancia, o riso da moralidade invertida.<\/p>\n<p>Em seguida, o poemas coloca a r\u00e9gua no centro, e r\u00e9gua \u00e9 instrumento de medir e separar, e eu lembro imediatamente de Foucault, porque ele descreve os procedimentos que limitam discurso e sustentam disciplina e autor e coment\u00e1rio, e a r\u00e9gua do poema \u00e9 parente disso, ela separa e paralisa, ela cinde mundos, e o poema diz pulsando fora da r\u00e9gua, isto \u00e9, a viol\u00eancia \u00e9 uma pulsa\u00e7\u00e3o fora do dispositivo de medida, uma pulsa\u00e7\u00e3o que torna o mundo fechado e cindido, e eu penso que o apagamento, na sua forma mais concreta, \u00e9 essa r\u00e9gua, porque ela escolhe o que aparece e o que n\u00e3o aparece, e por isso o meu Documento Mestre insiste que a cr\u00edtica precisa ser aten\u00e7\u00e3o \u00e0s formas que sobrevivem em meio aos escombros .<\/p>\n<p>Por fim, Fl\u00e1via nos joga no golpe mais duro, porque ela n\u00e3o fala s\u00f3 de corpos, ela fala de tempo, um tempo em destro\u00e7os, e isso \u00e9 central, porque um pa\u00eds em destro\u00e7os n\u00e3o \u00e9 apenas espa\u00e7o, \u00e9 um tempo quebrado, um futuro triturado e, assim, Fl\u00e1via mostra inf\u00e2ncias e destinos triturados, derretendo o rumo invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o, aqui, o n\u00facleo do m\u00e9todo de negatividade (Adorno etc) que n\u00e3o \u00e9 niilismo, mas trabalho de forma contra o discurso edificante, \u00e9 o poema que n\u00e3o resolve, mas cuida do irresolvido e \u00e9 exatamente isso que Fl\u00e1via faz, ela cuida do irresolvido sem prometer catarse.<\/p>\n<p><strong>IV. RESGATE<\/strong><\/p>\n<p><strong>Arquivo como ferida, dialeto da<br \/>\nlembran\u00e7a e alegria-prova como<br \/>\nverifica\u00e7\u00e3o do mundo<\/strong><\/p>\n<p>Quando o livro chega ao escaninho Resgate, percebe-se que ele faz uma opera\u00e7\u00e3o que \u00e9 rar\u00edssima, ele n\u00e3o abandona a Hist\u00f3ria e n\u00e3o abandona o \u00edntimo, ele faz os dois se encontrarem no ponto em que lembrar n\u00e3o \u00e9 repetir, lembrar \u00e9 inventar um dialeto, e isso aparece de modo expl\u00edcito no poema Resgate, quando Fl\u00e1via fala de \u201cum dialeto que adentrasse nas lembran\u00e7as\u201d , e aqui Derrida se torna inevit\u00e1vel, porque ele diz que <em>arkhe<\/em> \u00e9 come\u00e7o e comando e que o arquivo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de arquivar, porque ele guarda a mem\u00f3ria e ao mesmo tempo a esquece, e eu penso que Fl\u00e1via, ao construir um dialeto, est\u00e1 fazendo um arquivo que n\u00e3o se deixa comandar pela nostalgia nem pela ordem do passado, ela constr\u00f3i uma l\u00edngua de travessia, uma l\u00edngua em que o passado n\u00e3o vira tribunal, vira material de reinven\u00e7\u00e3o.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>RESGATE<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Cavalgo sem r\u00e9deas<br \/>\num potro indom\u00e1vel.<br \/>\n<\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (Yeda Prates Bernis)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Em que lugar de mim morava essa imprud\u00eancia<br \/>\nque me inundava assim sem boia, sem aviso?<br \/>\nO que estancava o medo em meio \u00e0 travessia<br \/>\ne me ensinava o olhar inverso, o improviso?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Revolvo anota\u00e7\u00f5es, desligo o falso alarme,<br \/>\nAcordo sensa\u00e7\u00f5es, desentranho mem\u00f3rias&#8230;<br \/>\nSe ao menos contivesse a areia que ainda escorre<br \/>\nnessa ampulheta, me escoando a trajet\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Desvencilhava-me da pressa fustigante<br \/>\ne resguardava a intimidade do sil\u00eancio.<br \/>\nNa conviv\u00eancia dos desejos impensados<br \/>\ncalcava esporas contra a dire\u00e7\u00e3o do vento.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Cortava atalhos no entrelace das esperas,<br \/>\nsobrevoava o espa\u00e7o incerto das dist\u00e2ncias,<br \/>\ninaugurava um territ\u00f3rio aberto \u00e0 d\u00favida<br \/>\ne um dialeto que adentrasse nas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ao desvelar as retic\u00eancias, as nuances,<br \/>\nsem descuidar do que nos move nesse embate,<br \/>\nme reinvento, um tempo todo no presente<br \/>\ne a sensa\u00e7\u00e3o imensur\u00e1vel de um resgate.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">5.05.2024<\/p>\n<p>Eu come\u00e7o pelo corpo sem boia, porque sem boia \u00e9 a imagem m\u00ednima do risco, o poema diz que a imprud\u00eancia inundava sem aviso, e n\u00e3o h\u00e1 qualquer leitura psicol\u00f3gica barata, porque a imprud\u00eancia, no poema, \u00e9 o nome de uma coragem que n\u00e3o \u00e9 heroica, \u00e9 uma coragem de continuar atravessando mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 garantia.<\/p>\n<p>Penso no que Alberto Pucheu escreve sobre Agamben, que a transmiss\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico se interrompe em nome do puro movimento criador e que h\u00e1 uma transmissibilidade da pr\u00f3pria intransmissibilidade e eu reconhe\u00e7o que a mem\u00f3ria de Fl\u00e1via de Queiroz Lima funciona assim<strong>: <\/strong>ela n\u00e3o transmite um passado inteiro, ela transmite a capacidade de se mover dentro do passado sem ser engolida, e, por conseguinte, ela fala do olhar inverso e do improviso, porque esse olhar inverso \u00e9 tamb\u00e9m o olhar do entre-lugar, o olhar que recusa o centro, o olhar que recusa a ordem pronta.<\/p>\n<p>O poema revolve anota\u00e7\u00f5es e desentranha mem\u00f3rias, gesto de revolver o que Derrida chama de mal de arquivo, um desejo de mem\u00f3ria que arde e n\u00e3o deixa sossego, s\u00f3 que Fl\u00e1via faz isso sem morbidez, ela faz com cuidado, e cuidado \u00e9 palavra central, porque a montanha e o \u201ctalism\u00e3 cristalino\u201d exigem tempo e a escuta exige tempo: toda leitura \u00e9 esfor\u00e7o compartilhado e a cr\u00edtica deve ser ato de repara\u00e7\u00e3o. Fl\u00e1via faz exatamente isso no interior do poema, ela resguarda a intimidade do sil\u00eancio e se desvencilha da pressa fustigante, o que \u00e9 quase a mesma pedagogia do tempo do olhar, e o livro inteiro come\u00e7a a se fechar como espiral e n\u00e3o como linha.<\/p>\n<p>E quando ela inaugura um territ\u00f3rio aberto \u00e0 d\u00favida, entendo que essa d\u00favida \u00e9 o contr\u00e1rio do consenso apaziguador. Poulain volta com for\u00e7a quando ele diz que a tentativa de institucionalizar o consenso neutraliza a cultura dialogal da verdade e que o <em>bonheur de v\u00e9rit\u00e9<\/em> acompanha o reconhecimento de um compartilhamento objetivo e verdadeiro e o resgate, no poema, \u00e9 exatamente a sensa\u00e7\u00e3o imensur\u00e1vel de uma verdade que se torna habit\u00e1vel, n\u00e3o como norma, mas como experi\u00eancia, e isso se liga a uma certa dobra que conserva um n\u00facleo de alegria-prova, alegria de reconhecimento p\u00fablico, n\u00e3o alegria privada, e essa alegria-prova \u00e9 o que me interessa aqui, porque Fl\u00e1via n\u00e3o promete felicidade, ela promete resgate como sensa\u00e7\u00e3o imensur\u00e1vel, o que \u00e9 uma forma de dizer que a vida volta a ter ch\u00e3o por um instante.<\/p>\n<p>E eu fecho com uma \u00faltima chave, a de Kortian, porque o debate cr\u00edtico como forma de vida \u00e9 exatamente aquilo que este livro pratica em escala po\u00e9tica. E praticar \u00e9 a palavra que me importa, porque o ensaio s\u00f3 vale se ele se tornar tamb\u00e9m um modo de viver, um modo de ler, um modo de respirar, e \u00e9 por isso que eu tomo <em><strong>Resgate<\/strong><\/em> como obra que dialoga com os atravessamentos da mais alta poesia sem precisar pedir licen\u00e7a, porque ela j\u00e1 traz o corpo da montanha, a dobra, o sil\u00eancio, a pressa recusada, a voz que perpassa muros e a \u00e9tica do comum como tecido, o que \u00e9, para mim, mineiridade barroca no sentido mais alto, uma forma de mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Lucas Guimaraens<br \/>\n<\/strong>vem de uma linhagem de escritores com<br \/>\nmais de 400 anos. Dentre os mais re-conhecidos est\u00e3o<br \/>\nBernardo Guimar\u00e3es, Alphonsus de Guimaraens, Jo\u00e3o<br \/>\nAlphonsus, Alphonsus de Guimaraens Filho e Afonso<br \/>\nHenriques Neto. Escritor, poeta, pensador e ensa\u00edsta,<br \/>\nfoi homenageado <\/em><em>na 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Liter\u00e1rio<br \/>\nInternacional de Paracatu, o Fliparacatu de 2024.<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Para ler outros textos de e sobre<br \/>\n<strong>Fl\u00e1via de Queiroz Lima<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=FLAVIA+DE+QUEIROZ+LIMA\"><span style=\"color: #800080;\"><strong>CLIQUE AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PARA ADQUIRIR\u00a0<em>RESGATE<br \/>\n<\/em><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/product\/resgate-flavia-de-queiroz-lima\/\"><span style=\"color: #ff0000;\">CLIQUE AQUI !!!<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-21003\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Flavia_EM_Pensar-300x209.webp\" alt=\"\" width=\"576\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Flavia_EM_Pensar-300x209.webp 300w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Flavia_EM_Pensar-18x12.webp 18w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Flavia_EM_Pensar-400x279.webp 400w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Flavia_EM_Pensar.webp 545w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><br \/>\n<em>Fl\u00e1via aniversaria hoje:<br \/>\nParab\u00e9ns, Fl\u00e1via!!!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O poema de Fl\u00e1via quer isso, um compartilhamento que n\u00e3o \u00e9 consenso cego, mas uma tecelagem que regenera, o que conversa diretamente com a ideia de que a verdade sens\u00edvel n\u00e3o \u00e9 consenso e n\u00e3o \u00e9 posse, \u00e9 ju\u00edzo partilh\u00e1vel que liberta e, no entanto, o poema n\u00e3o termina em triunfo, ele termina em insist\u00eancia,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":592,"featured_media":20601,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1374,642],"tags":[1699,5180,870,5169,240,400,1698,3045,5179,732,5168,5170,296,327,3193],"class_list":["post-20998","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-brasileira","category-poesia","tag-academia-mineira-de-letras","tag-caderno-pensar-em","tag-critica-literaria","tag-ensaio-poetico","tag-estado-de-minas","tag-filosofia","tag-flavia-de-queiroz-lima","tag-flavissima","tag-jornal-estado-de-minas","tag-literatura-mineira","tag-lucas-guimaraens","tag-parabens-flavia","tag-pensar","tag-poesia","tag-resgate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/592"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20998"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21008,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20998\/revisions\/21008"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}