{"id":15802,"date":"2024-12-26T08:00:10","date_gmt":"2024-12-26T08:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=15802"},"modified":"2025-02-26T13:41:44","modified_gmt":"2025-02-26T13:41:44","slug":"umematsuri-e-chumbo-sutil-nima-spigolon-lanca-dois-livros-de-poemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/umematsuri-e-chumbo-sutil-nima-spigolon-lanca-dois-livros-de-poemas\/","title":{"rendered":"Umematsuri e Chumbo Sutil: Nima Spigolon lan\u00e7a dois livros de poemas"},"content":{"rendered":"<p>Os poemas de\u00a0<em><strong>Umematsuri<\/strong><\/em><em> e de\u00a0<\/em><strong><em>Chumbo Sutil<\/em><\/strong>, dois livros recentes de Nima Spigolon, s\u00e3o muito diferentes entre si \u2013 e mostram uma poeta embebida por diferentes tradi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas e existenciais e os livros nos apresentam duas diferentes dic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para conhecer mais sobre Nima<br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=Spigolon\"><span style=\"color: #ff0000;\">CLIQUE AQUI !!!<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p>Vejamos em detalhes cada uma dessas vozes que coabitam o estro criativo de Nima Spigolon.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O POEMA DESMANTELADO EM <em>CHUMBO SUTIL<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Rauer<\/p>\n<p><em><strong>Chumbo Sutil <\/strong><\/em>\u00e9 livro cujos poemas bebem nos modernismos e suas v\u00e1rias correntes, do in\u00edcio do s\u00e9culo XX a nossos dias, e se vale da espacializa\u00e7\u00e3o da folha na composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, trata dos paradoxos da vida cotidiana no s\u00e9culo XXI, reflete as ang\u00fastias \u00edntimas das consci\u00eancias esfaceladas dos nossos dias, nesse segundo dec\u00eanio do 3\u00ba mil\u00eanio.<\/p>\n<p>A vida se desmantela em todos os rinc\u00f5es planet\u00e1rios.<\/p>\n<ol>\n<li>D\u00e9spotas orientais utilizam a tecnologia computacional e as for\u00e7as armadas no exerc\u00edcio de um poder estatal que vai muito al\u00e9m do dom\u00ednio dos antigos cl\u00e3s;<\/li>\n<li>a mis\u00e9ria, a fome e as multid\u00f5es esfarrapadas se multiplicam, inclusive nos pa\u00edses centrais;<\/li>\n<li>a espolia\u00e7\u00e3o atinge os fundamentos do contrato social, com a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho;<\/li>\n<li>a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica chega a n\u00edveis inauditos, rompendo la\u00e7os familiares;<\/li>\n<li>O financismo banc\u00e1rio vampiriza a todos;<\/li>\n<li>a solid\u00e3o, a falta de perspectiva, a desilus\u00e3o com lideran\u00e7as corruptas, a gan\u00e2ncia e insensibilidade das elites econ\u00f4micas geram des\u00e2nimo, anomia, desilus\u00e3o pessoal e desengajamento coletivo.<\/li>\n<\/ol>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18513 alignleft\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-206x300.jpg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-206x300.jpg 206w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-705x1024.jpg 705w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-8x12.jpg 8w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-700x1017.jpg 700w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-275x400.jpg 275w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19-482x700.jpg 482w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Imagem-23-02-2025-as-13.19.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/>A enumera\u00e7\u00e3o poderia seguir por mais itens e itens, mas voltem-nos para a representa\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo nos poemas de <em><strong>Chumbo Sutil<\/strong><\/em>: na forma e no conte\u00fado, os versos de Nima Spigolon exalam o paradoxo, o ox\u00edmoro contido j\u00e1 no t\u00edtulo da obra.<\/p>\n<p>A palavra &#8220;chumbo&#8221; evoca mat\u00e9ria dura, cinza, industrial&#8230; \u00e9 um metal pesado, pouco corros\u00edvel, opaco, denso, est\u00e1vel apesar do baixo ponto de fus\u00e3o&#8230; foi muito utilizado nas artes gr\u00e1ficas, nas m\u00e1quinas de linotipo, embora altamente t\u00f3xico&#8230; a palavra tem amplo uso, tamb\u00e9m, no \u00e2mbito das artes b\u00e9licas, sendo sin\u00f4nimo de muni\u00e7\u00e3o, de proj\u00e9teis de armas de fogo.<\/p>\n<p>Em suma, &#8220;chumbo&#8221; indicia universos disf\u00f3ricos, negativos, mal\u00e9volos, opressores, tristes ou entristecidos, p\u00fambleos, sombrios.<\/p>\n<p>Por seu lado, a palavra &#8220;sutil&#8221; \u00e9 um contraponto, uma modaliza\u00e7\u00e3o positiva, uma diminui\u00e7\u00e3o da negatividade do substantivo que qualifica&#8230; indica um sentimento de carga positiva, que do aspecto t\u00eanue e quase ef\u00eamero d\u00e1 ao chumbo algo de delicado, de elemento dotado de configura\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, que pode conter algo primoroso&#8230;<\/p>\n<p>O chumbo se humaniza, se &#8220;derrete&#8221; no humano, se constitui em objeto de arte \u2013 e tal met\u00e1fora bem nos diz o que s\u00e3o os versos de Nima: de uma sociedade brutal, das conviv\u00eancias estupidificadas, do encontro com o amor em um mundo \u00e1rido, ela faz seus poemas.<\/p>\n<p>Representando em termos formais o paradoxo sem\u00e2ntico, os poemas surgem como m\u00f3biles que se desmontam, como retalhos em <em>patchwork<\/em>, simulam e encenam recortes que se somam, se contradizem, se unem em aporias.<\/p>\n<p>Vejamos dois exemplos.<\/p>\n<p>Na \u00faltima capa do livro, lemos:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">l\u00edngua<br \/>\narrepios<br \/>\nporos<br \/>\nafetos<br \/>\ncorpos<br \/>\nvida-vi\u00e7o<br \/>\ncio-ciclo<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-18528 alignright\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.18-300x235.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.18-300x235.jpg 300w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.18-15x12.jpg 15w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.18-400x313.jpg 400w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.18.jpg 495w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Temos, assim imaginamos, um poema, na \u00edntegra, na completude do ato de amor, da sexualidade plena, do vi\u00e7o do cio que perfaz um ciclo na vida, embora seja s\u00f3 um momento, o momento em que a l\u00edngua toca poros e corpos, gerando afetos e arrepios.<\/p>\n<p>Mas, na p\u00e1gina 26, o poema est\u00e1 com 14 versos em sete estrofes \u2013 \u00e9, pois, um outro poema, que n\u00e3o reproduzo para que o leitor, com o poema, se deleite tendo o livro em m\u00e3os. O movimento da poeta, do poema interno para o poema na 4a. capa, foi de desmonte, foi de recorte, foi de edi\u00e7\u00e3o, e assim nos desvela um universo diverso.<\/p>\n<p>Outro exemplo da t\u00e9cnica da desmontagem est\u00e1 na sequ\u00eancia de poemas com os dias da Semana: Dom \/ Seg \/ Ter \/ Qua \/ Qui \/ Sex \/ Sab \u2013 a partir da base das folhinhas, dos calend\u00e1rio, Nima Spigolon indica, sucessivamente, palavras completas, que lidas em sequ\u00eancia, nos d\u00e3o um novo poema, um poema novo que explode em significados que dialogam com as diversas linhas de for\u00e7a dos demais poemas de <em><strong>Chumbo Sutil<\/strong><\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Dom.us<br \/>\nSeg.redo<br \/>\nTer.nura<br \/>\nQua.ntum<br \/>\nQui.mera<br \/>\nSex.teto<br \/>\nSab.\u00e1tico<\/p>\n<p>No livro, as palavras n\u00e3o surgem do modo did\u00e1tico com que as grafei acima, cujos sentidos intr\u00ednsecos na obra v\u00e3o al\u00e9m dos termos dicionarizados, e que cada leitor reconstruir\u00e1 na leitura de modo similar \u00e0s camadas de uma cebola. H\u00e1 ali diversas palavras: &#8220;dom&#8221;, &#8220;ter&#8221;, &#8220;mera&#8221;, &#8220;teto&#8221;, &#8220;\u00e1tico&#8221;, al\u00e9m das outras mais, compostas, e outras, escondidas; \u00e9 um jogo instigante esse que faz do calend\u00e1rio uma, passe o trocadilho, &#8220;quimera&#8221; a nos desafiar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tratar tamb\u00e9m do belo livro que foi realizado: o formato maior, em 16&#215;23 cms, valoriza cada poema; os dois sens\u00edveis textos sobre o livro que precedem aos poemas trazem belas leituras da poesia de Nima; a ilustra\u00e7\u00e3o da capa e a arte-final da capa de orelha a orelha, assinadas por Ciberpaj\u00e9, \u00e9 um espet\u00e1culo em si mesmas; as orelhas largas, a primeira com um pequeno trecho da poeta Aira Maiger sobre <em><strong>Chumbo Sutil<\/strong><\/em>. e a segunda, com uma \u00fanica informa\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica (de que Nima recebeu o Jabuti Acad\u00eamico em 2024), s\u00e3o magn\u00edficas (\u00e9 preciso as ver com o livro em m\u00e3os, porque as orelhas de um livro alcan\u00e7arem um elogio \u00e9 porque realmente s\u00e3o muito distintas).<\/p>\n<p>A diagrama\u00e7\u00e3o de Rizera, que criou p\u00e1ginas em negativo e com tonalidades cinzas (p\u00fambleas, chumbo) no in\u00edcio e no final do livro, tamb\u00e9m merece elogio. Ela existe, constitui uma leitura do livro, mas \u00e9 discreta, n\u00e3o fica mais importante do que os poemas em si.<\/p>\n<p>A p\u00e1gina 5, toda em preto, acolhendo \u2013 de Whisner Fraga \u2013 um pequeno ensaio sobre o livro, vem de supet\u00e3o logo ap\u00f3s a p\u00e1gina de rosto e a p\u00e1gina de cr\u00e9ditos; assim, ela surge em uma esp\u00e9cie de aviso de que o livro que temos em m\u00e3os \u00e9 bem diferente dos livros que normalmente encontramos por a\u00ed.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 esse\u00a0<em><strong>Chumbo Sutil<\/strong><\/em>, de Nima Spigolon: um livro de poemas muito acima do que normalmente encontramos por a\u00ed, com uma realiza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica muito diferente, muito especial, na forma, no conte\u00fado e no am\u00e1lgama entre forma e conte\u00fado \u2013 forma e conte\u00fado que normalmente n\u00e3o encontramos por a\u00ed, .<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Rauer Ribeiro Rodrigues<br \/>\nEscritor; Professor; Editor;<br \/>\nEm Travessia<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para adquirir o livro<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\"><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/shop\/\"><span style=\"color: #ff0000;\">CLIQUE AQUI!!!<\/span><\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>\nA POESIA INTERTEXTUAL DE <em>UMEMATSURI<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Rauer<\/p>\n<p>No <em><strong>Sh\u00fai&#8217;wakash\u00fa<\/strong><\/em>, h\u00e1 o seguinte poema:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">kochi fukaba<br \/>\nnini okoseyo<br \/>\nume no hana<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">aruji nashi tote<br \/>\nHaru wo wasuruna<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Michizane, <em><strong>Sh\u00fbiwakash\u00fb <\/strong><\/em>16 Miscel\u00e2nea de Primavera 1006)<\/p>\n<p>O poema foi assim traduzido por Andrei Cunha:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">flor da ameixeira<br \/>\nainda que ausente teu mestre<br \/>\nn\u00e3o esque\u00e7as a primavera<br \/>\nquando soprar o vento leste<br \/>\nmanda-me teu cheiro<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>(<\/em><em><strong>Cem poemas de cem poetas<\/strong><\/em>, Porto Alegre: Class, 2019, p. 23-24)<\/p>\n<p>No terceiro verso,\u00a0<em>ume no hana<\/em>, temos a &#8220;flor da ameixeira&#8221;. Uma tradu\u00e7\u00e3o mais literal talvez pudesse ficar assim: &#8220;Nestas \u00e1guas \/ Me acorde \/ Flor de ameixa \/\/ Sem um mestre \/ N\u00e3o se esque\u00e7a da primavera&#8221;.<\/p>\n<p>Andrei Cunha, na &#8220;Introdu\u00e7\u00e3o&#8221; do seu livro, comenta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O amor dos japoneses pela cerejeira \u00e9 literalmente milenar. No <em><strong>Man&#8217;y\u00f4sh\u00fa<\/strong><\/em> [de 785], a palavra &#8220;flor&#8221;(<em>hana<\/em>) pode se referir \u00e0 infloresc\u00eancia de diferentes plantas e \u00e1rvores. A flor mais popular era a da ameixeira-do-jap\u00e3o (<em>Prunus\u00a0<\/em><i>mude, ume<\/i>); a cerejeira (<em>Prunus serrulata, sakura<\/em>) vinha em segundo lugar. A ameixeira, cuja flor serve de bras\u00e3o para incont\u00e1veis escolas em todo o arquip\u00e9lago japon\u00eas, \u00e9 consagrada \u00e0 figura de Sugawara no Michizane, deus da literatura [&#8230;]. Fevereiro, m\u00eas de sua morte, marca o fim do inverno e prenuncia a primavera; as primeira \u00e1rvores que florescem, ainda sob o gelo, s\u00e3o as ameixeiras. A imagem das flores surgindo em meio \u00e0 neve \u00e9 associada \u00e0 persist\u00eancia diante da adversidade.<\/p>\n<p>A artvista Nima Spigolon (Mamizu, \u771f\u6c34 \u2013\u00a0\u00c1gua Doce) traz, em <em><strong>Umematsuri<\/strong><\/em> (Festival da Ameixa), muito mais que uma festa da chegada das flores que rompem ainda no inverno: faz uma festa da poesia, de florescimento de pencas de haiku, de pensar o poema nip\u00f4nico tradicional na clave de sua aclima\u00e7\u00e3o aos tr\u00f3picos brasileiros. \u00c9 um livrinho gostoso de ler, gostoso de estar na m\u00e3o, gostoso para carregar, presentear, degustar. E cont\u00e9m a poesia sempre sens\u00edvel, l\u00edmpida e clarividente de Nima Spigolon.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-18527 alignleft\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.20-278x300.jpg\" alt=\"\" width=\"278\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.20-278x300.jpg 278w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.20-11x12.jpg 11w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.20-370x400.jpg 370w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Imagem-26-02-2025-as-10.20.jpg 449w\" sizes=\"auto, (max-width: 278px) 100vw, 278px\" \/>Vimos acima que no verso <em>ume no hana<\/em>, <em>ume<\/em> se refere \u00e0 cerejeira, e da\u00ed vem o <strong><em>Umematisuri <\/em><\/strong>que nomeia o livro. Trata-se, pois, de um topos, de um lugar ret\u00f3rico mais que milenar da poesia japonesa. Trata-se de uma espa\u00e7o f\u00edsico, geogr\u00e1fico, em um momento no ciclo da natureza, em que ocorrem festas ligadas \u00e0s ameixeiras em flor. Mais que intertexto, h\u00e1 uma opera\u00e7\u00e3o antropof\u00e1gica, uma. apropria\u00e7\u00e3o cultural mais ampla, em que Mamizu festeja a supera\u00e7\u00e3o das adversidades da poeta Nima.<\/p>\n<p>A profa. Nima Spigolon (Unicamp) faz isso mantendo o di\u00e1logo intertextual com a tradi\u00e7\u00e3o nip\u00f4nica desde o <em>waka<\/em>, poema do qual deriva o haikai no renga, o hokku, o haicai, o haikai e por fim o haiku. A nomenclatura se modificou ao longo dos s\u00e9culos e a nomea\u00e7\u00e3o indicia movimento de modifica\u00e7\u00f5es na forma e no ethos do poema, mas indica que h\u00e1, tamb\u00e9m, fortemente, a manuten\u00e7\u00e3o das li\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas e ret\u00f3ricas da forma [f\u00f3rma] po\u00e9tica.<\/p>\n<p>A aclimata\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica e formal que Nima realiza em\u00a0<em><strong>Umematsuri <\/strong><\/em>segue preceitos da tradi\u00e7\u00e3o do haiku, bebendo das fontes cl\u00e1ssicas (Bash\u00f4, Buson, Issa e Shiki) e das fontes femininas (de Jit\u00f4 \u00a0Tenn\u00f4 a Chiyo-Ni, de Ukon a Tskeshita Shizunojo, de Izumi Shikibu a Teruko Oda, deMurasaki Shikibu a Sujita Hisajo, de Daini no Sanmi a Takajo Mitsuhashi, para mencionar apenas algumas).<\/p>\n<p>Por outro lado, embora tenha sempre em vista as dezessete s\u00edlabas po\u00e9ticas (os &#8220;sons&#8221; ou os\u00a0<em>mora<\/em>, no conceito nip\u00f4nico original), n\u00e3o se intimida se romper a m\u00e9trica dos versos em 5 \/ 7 \/ 5, tendo em vista o ritmo interno e o significado constru\u00eddo. Nesse aspecto, bebe de li\u00e7\u00f5es que v\u00eam de Bash\u00f4 aos haijins brasileiros e \u00e0s haijins ibero-americanas.<\/p>\n<p>Vejamos alguns poemas de <em><strong>Umematsuri<\/strong><\/em>; iniciamos pela ep\u00edgrafe, um poema da haijin Enomoto Seifu (1732-1815):<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ao romper do dia,<br \/>\nem conversa com as flores,<br \/>\numa mulher s\u00f3<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o de Nima para o poema segue a m\u00e9trica cl\u00e1ssica; cada verso \u00e9 um segmento frasal completo; o poema coloca em cena momento cotidiano: no in\u00edcio do dia, em solid\u00e3o, uma mulher conversa com as flores. O universo feminino \u00edntimo, sem conv\u00edvio social, se apresenta no espa\u00e7o feminino tradicional, com a casa, o jardim e as flores. No primeiro verso, o dia que nasce traz aug\u00farios, o que o segundo verso tamb\u00e9m enfatiza, com o zoom do espa\u00e7o cosmol\u00f3gico, do dia que rompe (e romper \u00e9 a\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, que a escolha lexical imp\u00f5em ao n\u00e3o utilizar o &#8220;neutro&#8221; verbo nascer) para o espa\u00e7o fechado, em que h\u00e1 uma conversa com as flores. Conversar \u00e9 dialogar, \u00e9 estar o ator integrado ao dia, ao jardim, \u00e0s flores. H\u00e1 equival\u00eancia de a\u00e7\u00e3o, de status e de presen\u00e7a entre o ator que surge na cena com o dia que rompe, vitorioso, e as flores do jardim. O terceiro verso qualifica duplamente esse ator: \u00e9 &#8220;uma mulher&#8221; e ela est\u00e1 &#8220;s\u00f3&#8221;. O verso que desvela o sujeito po\u00e9tico, que representa o eu-po\u00e9tico feminino autoral, fecha o poema surpreendendo em disforia e em oposi\u00e7\u00e3o aos euf\u00f3ricos dois versos iniciais.<\/p>\n<p>O que a ep\u00edgrafe anuncia \u00e9 que h\u00e1 adversidades na festa das ameixeiras e que os versos de <em><strong>Umematsuri <\/strong><\/em>v\u00e3o nos revelar as flores e os jardins na travessia por dificuldades existenciais.<\/p>\n<p>Assim, o livro nos apresenta sapos, aves, quintais com frutas, lib\u00e9lulas, o estralejar dos bambus e dos ossos, em pante\u00edsmo do corpo humano com a natureza. Os sonhos dos p\u00e1ssaros e da brisa indiciam esperan\u00e7as. E ent\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">o inverno chega,<br \/>\nsem pressa. Cinza, veludo \u2013<br \/>\nvoa a andorinha<\/p>\n<p>Nos ciclos vitais, a chegada do inverso \u00e9 inexor\u00e1vel, embora &#8220;sem pressa&#8221;\u2013 e a\u00ed o poema \u00e9 cortado com um ponto final no transcurso do segundo verso e o qualificativo do inverno surge com inicial mai\u00fascula; no entanto, o &#8220;Cinza&#8221; vem logo em seguida qualificado de &#8220;veludo&#8221;, modalizando-o da cor da tristeza para uma sensa\u00e7\u00e3o sensorial que \u00e9 acolhedora e de aquecimento.<\/p>\n<p>O corte, o <em>kireji<\/em> indicado com o travess\u00e3o, forja a ret\u00f3rica de uma s\u00edntese, de uma explica\u00e7\u00e3o, de um acr\u00e9scimo que cristaliza o momento, e ent\u00e3o registra uma andorinha que voa. E o inverno cont\u00e9m em si uma imagem de duplo sentido: \u00e9 liberdade e indicia liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente, a ep\u00edgrafe parece retomada, em poema que \u00e9 s\u00edntese dos aspectos discorridos acima. Eis o poema:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">o voo solit\u00e1rio<br \/>\ne os ventres do c\u00e9u azul:<br \/>\na gra\u00e7a \u2013 e a vida<\/p>\n<p>A solid\u00e3o \u2013 da mulher, do feminino, do eu-po\u00e9tico quase sempre <em>alter ego<\/em> da poeta \u2013 surge em pleno voo; esse voo se d\u00e1 sob o c\u00e9u azul, sob &#8220;os ventres do c\u00e9u azul&#8221;, estabelecendo o zoom no indiv\u00edduo tendo no macro um aspecto cosmol\u00f3gico, da eternidade do universo f\u00edsico.<\/p>\n<p>H\u00e1 o primeiro\u00a0<em>kireji<\/em>, sinalizado com os dois pontos do final do segundo verso, e o terceiro verso, com outra marca de corte, com o travess\u00e3o o dividindo em duas partes, amalgamando duas culturas, a ocidental e a oriental, o mundo das religi\u00f5es monog\u00e2micas com o mundo simples da concretude, daquilo que simplesmente \u00e9: a vida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18530 alignright\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem-26-02-2025-as-10.38-244x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem-26-02-2025-as-10.38-244x300.jpeg 244w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem-26-02-2025-as-10.38-10x12.jpeg 10w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem-26-02-2025-as-10.38-326x400.jpeg 326w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem-26-02-2025-as-10.38.jpeg 461w\" sizes=\"auto, (max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/>Uma obra-prima po\u00e9tica, esse poema, em si mesmo, e na constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica intertextual e antropof\u00e1gica que Nima Spigolon realiza; ali\u00e1s, o livro em seu todo, esse <em><strong>Umematsuri<\/strong><\/em>, \u00e9 uma constela\u00e7\u00e3o de pequenas joias po\u00e9ticas que se sucedem.<\/p>\n<p>Se o tema da solid\u00e3o \u00e9 reiterado em outros haikais, o tema do amor tamb\u00e9m surge, e ainda comparecem diversos kig\u00f4s e mesmo men\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas \u00e0s esta\u00e7\u00f5es, e elas surgem constituindo-se em met\u00e1foras da exist\u00eancia: a tranquilidade e tristeza no inverno, a alegria e renascimento na primavera, a vivacidade e o vigor no ver\u00e3o, a melancolia e maturidade no outono. A poeta, a certa altura, declara essa sintonia: &#8220;esta\u00e7\u00e3o em mim&#8221;.<\/p>\n<p>Encerremos com o poema que consta na quarta capa do livro:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">parecia o fim \u2013<br \/>\nmas o haikai no caminho<br \/>\nme fez continuar<\/p>\n<p>Uma vez mais, duas tradi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, a do haikai e a do poema da pedra no caminho de Carlos Drummond de Andrade. A met\u00e1fora da dificuldade \u00e9 ressignificada em met\u00e1fora de alento. As adversidades que anunciam o fim, a derrota inexor\u00e1vel com as vicissitudes da vida, \u00e9 superada com a poesia, com o constructo do poema, com os haikais e os haiku que transbordam supera\u00e7\u00f5es neste\u00a0<strong><em>Umematsuri<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Nima nos lega mais uma obra po\u00e9tica de leitura obrigat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Rauer Ribeiro Rodrigues<br \/>\nEscritor; Professor; Editor;<br \/>\nEm Travessia<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Obs.: este texto foi publicado em<br \/>\nPosf\u00e1cio ao livro <a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/\"><em><strong><span style=\"color: #ff6600;\">Umematsuri<\/span><\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para adquirir outross<br \/>\nlivros de Nima Spigolon<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #993366;\"><strong><a style=\"color: #993366;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/?s=Spigolon\">CLIQUE AQUI!!!<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os poemas de\u00a0Umematsuri e de\u00a0Chumbo Sutil, dois livros recentes de Nima Spigolon, s\u00e3o muito diferentes entre si \u2013 e mostram uma poeta embebida por diferentes tradi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas e existenciais e os livros nos apresentam duas diferentes dic\u00e7\u00f5es. Para conhecer mais sobre Nima CLIQUE AQUI !!! Vejamos em detalhes cada uma dessas vozes que coabitam o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":592,"featured_media":18493,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3288],"tags":[4250,4259,1452,1331,4243,4246,4247,245,64,398,4256,4257,410,95,858,4252,1319,3591,2032,2034,3418,87,4258,4249,825,238,1688,248,4251,327,691,1700,827,4248,376,4245,60,3141,624,4253,4244,1079,603],"class_list":["post-15802","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poesia-brasileira","tag-adversidade","tag-agua-doce","tag-aira-maiger","tag-antropofagia","tag-chumbo-sutil","tag-ciberpaja","tag-edgar-franco","tag-edicoes-dionysius","tag-editora-pangeia","tag-eros-poesia","tag-festa-das-ameixas","tag-flor-da-ameixeira","tag-haicai","tag-haikai","tag-haiku","tag-intertexto","tag-intertextualidade","tag-jabuti-academico","tag-kigo","tag-kireji","tag-lily-momisso","tag-literatura","tag-mamizy","tag-marca-de-corte","tag-modernismo","tag-nima","tag-nima-imaculada-spigolon","tag-nima-spigolon","tag-panteismo","tag-poesia","tag-poesia-brasileira","tag-poesia-contemporanea","tag-poesia-feminina","tag-premio-jabuti-academico-2024","tag-rauer-ribeiro-rodrigues","tag-rauer-rauer-rodrigues","tag-resenha","tag-rizera","tag-superacao","tag-tradicao-oriental","tag-umematsuri","tag-whisner-fraga","tag-willia-katia-oliveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15802","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/592"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15802"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15802\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18531,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15802\/revisions\/18531"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}