{"id":12673,"date":"2023-04-19T22:09:01","date_gmt":"2023-04-19T22:09:01","guid":{"rendered":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=12673"},"modified":"2025-11-20T17:56:00","modified_gmt":"2025-11-20T17:56:00","slug":"o-novo-jadnovismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/o-novo-jadnovismo\/","title":{"rendered":"O novo jadnovismo"},"content":{"rendered":"<p>Reproduzimos abaixo artigo de opini\u00e3o do escritor e jornalista angolano Jo\u00e3o Melo. O artigo foi publicado originalmente no\u00a0<em><strong>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/em>, de Lisboa.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O jadnovismo de novo tipo<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>Jo\u00e3o Melo<\/strong><br \/>\n<em>Escritor e jornalista angolano<br \/>\nDiretor da revista <strong>\u00c1frica<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Andrei Jadnov (1896-1948) foi um ide\u00f3logo cultural da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, tendo ocupado, entre outros, o cargo de chefe do Departamento de Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda do Comit\u00e9 Central do Partido Comunista. O seu nome est\u00e1 ligado a uma das caracter\u00edsticas estruturantes do socialismo marxista-leninista, a saber, o dirigismo cultural, de acordo com o qual os artistas em geral deveriam estar ao servi\u00e7o do socialismo e produzir uma obra consent\u00e2nea com essa &#8220;obriga\u00e7\u00e3o&#8221;. Na literatura, isso implicava a ades\u00e3o ao &#8220;realismo socialista&#8221;, caracterizado, resumidamente, por obras que retratassem de maneira literal as classes trabalhadoras, exaltando os seus interesses e colocando-se inequivocamente ao lado das suas lutas. Tratava-se, digamos assim, de um certo tipo de literatura engajada estrita.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os poucos que acompanham a minha obra sabem que sempre pratiquei literatura de cariz social e pol\u00edtico. Isso n\u00e3o me impede, entretanto, de afirmar que, devido a essa imposi\u00e7\u00e3o feita aos artistas em geral, a maioria dos trabalhos produzidos deliberadamente para obedecer \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o em causa foi quase sempre med\u00edocre e confrangedora. \u00c9 verdade que os artistas e escritores comprometidos social e politicamente sempre foram capazes, em todas as \u00e9pocas, de produzir obras magn\u00edficas e mesmo geniais, mas isso aconteceu apesar desse equivocado dirigismo cultural (para n\u00e3o dizer contra ele), muito mais nefasto \u00e0 arte e \u00e0 literatura empenhadas do que alguns talvez imaginem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O facto \u00e9 que o jadnovismo virou sin\u00f3nimo do que n\u00e3o deve ser feito. \u00c9 com estranheza, assim, que assistimos hoje, no campo das artes em geral, \u00e0 emerg\u00eancia de um jadnovismo de novo tipo. Limitando-me \u00e0 praia que me interessa (a literatura), vou referir-me ao variado cat\u00e1logo de &#8220;literaturas militantes&#8221; que todos os dias \u00e9 engrossado com um novo item (a linguagem fria e &#8220;marqueteira&#8221; \u00e9 intencional): literatura negra, literatura feminista, literatura gay, literatura l\u00e9sbica, literatura queer, literatura trans, literatura ind\u00edgena, que sabemos n\u00f3s?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m dessa atomiza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o crescentes, \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontece com as lutas sociais (ali\u00e1s, as &#8220;literaturas militantes&#8221; tendem a ser usadas como instrumento das lutas sociais, o que revela a sua inspira\u00e7\u00e3o jadnovista), uma outra tend\u00eancia chama a aten\u00e7\u00e3o: a identifica\u00e7\u00e3o entre tem\u00e1ticas e autores, segundo a qual, por exemplo, apenas negros podem fazer literatura &#8220;negra&#8221;, mulheres podem fazer literatura &#8220;feminista&#8221;, gays podem fazer literatura &#8220;gay&#8221; ou ind\u00edgenas (\u00edndios) podem fazer literatura &#8220;ind\u00edgena&#8221;; vistas as coisas por outro \u00e2ngulo, negros, mulheres, gays e ind\u00edgenas, por exemplo, s\u00f3 podem fazer, respetivamente, literatura &#8220;negra&#8221;, &#8220;feminista&#8221;, &#8220;gay&#8221; ou &#8220;ind\u00edgena&#8221;.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tal tend\u00eancia insere-se na estrat\u00e9gia do neoliberalismo de colocar todos contra todos, atrav\u00e9s de diferentes processos de cont\u00ednua fragmenta\u00e7\u00e3o, atomiza\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 ocasional, para mim, que esse movimento tenha nascido nas principais universidades norte-americanas, de onde foi exportada primeiro para o mundo anglo-sax\u00f3nico e depois para as demais regi\u00f5es do planeta. A atribui\u00e7\u00e3o da sua paternidade a uma suposta &#8220;esquerda&#8221; batizada como\u00a0<em>woke<\/em>, levando setores progressistas e de esquerda de todo o mundo a acolh\u00ea-la acriticamente, confirma a compet\u00eancia das for\u00e7as neoliberais que t\u00eam controlado o funcionamento do mundo desde os anos 80 do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nenhuma teoria da conspira\u00e7\u00e3o. Para nos atermos ao campo de que trata esta cr\u00f3nica, perguntemo-nos, desde logo: por que raz\u00e3o ningu\u00e9m fala mais em &#8220;literatura prolet\u00e1ria&#8221; (independentemente do m\u00e9rito art\u00edstico desta \u00faltima, o qual, na verdade, pode ser equivalente, para o bem ou para o mal, ao de qualquer outro tipo de literatura)? Por outro lado, j\u00e1 \u00e9 tempo de come\u00e7ar a reconhecer que o radicalismo (diferente de &#8220;radicalidade&#8221;)\u00a0<em>woke<\/em>, com os seus divisionismos, essencialismos, censuras e cancelamentos, abdicando do historicismo e do universalismo, contribui para o fortalecimento da extrema direita a que se assiste em todo o mundo, pois empurra para os bra\u00e7os desta \u00faltima setores do centro e da direita que n\u00e3o se reconhecem nessa vis\u00e3o extremada, supostamente vanguardista, mas de facto autorit\u00e1ria. O capitalismo financeiro-tecnol\u00f3gico (o outro nome do neoliberalismo), com os seus processos de exacerba\u00e7\u00e3o do individualismo e do isolamento (veja-se a &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221; do trabalho), agradece.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em suma: o novo jadnovismo \u00e9 neoliberal. Alguns artistas e escritores negros, mulheres, gays, l\u00e9sbicas, trans, ind\u00edgenas e outros aceder\u00e3o mais facilmente ao mercado, nacional e global, ter\u00e3o sucesso, maior ou menor, e ser\u00e3o eventualmente capa da Vogue. A maioria, entretanto, continuar\u00e1 a penar. Mas, espera-se, a escrever. O futuro acabar\u00e1 por reconhecer alguns deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/em>, Lisboa, Portugal, 18 de abril de 2023<em><br \/>\n<\/em><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/opiniao\/o-jadnovismo-de-novo-tipo-16192306.html\">https:\/\/www.dn.pt\/opiniao\/o-jadnovismo-de-novo-tipo-16192306.html<\/a><br \/>\n<strong>Reprodu\u00e7\u00e3o autorizada pelo Autor<\/strong><br \/>\n18\u00a0Abril\u00a02023\u00a0\u2014\u00a001h12<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-12674\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Joao_Melo.png\" alt=\"\" width=\"544\" height=\"596\" \/><br \/>\n<strong>Jo\u00e3o Melo<\/strong><br \/>\nEscritor e jornalista angolano<br \/>\nDiretor da revista <em><strong>\u00c1frica<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-12686\" src=\"http:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-300x300.jpeg 300w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-1024x1021.jpeg 1024w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-150x150.jpeg 150w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-768x766.jpeg 768w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-400x400.jpeg 400w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-700x698.jpeg 700w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-100x100.jpeg 100w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317-50x50.jpeg 50w, https:\/\/editorapangeia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/IMG_8317.jpeg 1125w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzimos abaixo artigo de opini\u00e3o do escritor e jornalista angolano Jo\u00e3o Melo. 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