{"id":1171,"date":"2019-07-16T14:27:35","date_gmt":"2019-07-16T14:27:35","guid":{"rendered":"http:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=1171"},"modified":"2025-04-11T12:08:17","modified_gmt":"2025-04-11T12:08:17","slug":"a-arte-de-escrever-2-os-segredos-da-ficcao-segundo-raimundo-carrero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/a-arte-de-escrever-2-os-segredos-da-ficcao-segundo-raimundo-carrero\/","title":{"rendered":"A ARTE DE ESCREVER 2 \u2013 Os segredos da fic\u00e7\u00e3o, segundo Raimundo Carrero"},"content":{"rendered":"<p>O subt\u00edtulo do livro de Raimundo Carrero sobre <em>Os segredos da fic\u00e7\u00e3o <\/em>n\u00e3o deixa d\u00favidas: <em>Um guia da arte de escrever narrativas<\/em>. Reproduzimos aqui a sequ\u00eancia de evoca\u00e7\u00f5es que Carrero faz na Introdu\u00e7\u00e3o da obra, mencionando alguns escritores e te\u00f3ricos paradigm\u00e1ticos no dom\u00ednio da linguagem.<\/p>\n<p>Vamos ao fragmento do texto de Carrero.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* \u00a0 * \u00a0 *<\/strong><\/p>\n<p>CARRERO, Raimundo. <em>Os segredos da fic\u00e7\u00e3o: um guia na arte de escrever narrativas<\/em>. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p. 18-19. [Excerto da Introdu\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p><em>Os segredos da fic\u00e7\u00e3o <\/em><em>\u2500<\/em><em> Um guia da arte de escrever narrativas <\/em> pretende colocar o autor iniciante diante do seu pr\u00f3prio desafio. Nas oficinas, nos reunimos em salas de aula, e ent\u00e3o come\u00e7a a batalha. Durante meses discutimos autores, vemos filmes, refletimos. Os filmes s\u00e3o \u00f3timos para estudar o desenvolvimento (enredo), caracteriza\u00e7\u00e3o de personagens, di\u00e1logos. O que se quer ali \u00e9 fazer com que o novo autor encontre a sua identidade.<\/p>\n<p>Num r\u00e1pido exemplo, lembro ainda Hemingway, que, falando a respeito do seu processo criativo, alertava que jamais esqueceu a ocasi\u00e3o em que se instalou numa cabana, junto \u00e0 linha da chegada de uma corrida de bicicleta, a fim de corrigir as provas tipogr\u00e1ficas de <em> Adeus \u00e0s armas<\/em>. Precisou reescrever o final trinta e nove vezes, no manuscrito; modificou-o trinta vezes nas provas tipogr\u00e1ficas, procurando fazer com que ficasse como queria. Consegui-o, finalmente. Ocorre que os novos autores s\u00f3 conseguem ver o que est\u00e1 publicado. N\u00e3o sabem o esfor\u00e7o que custou, as noites insones, os dias sacrificados.<\/p>\n<p>O argentino Jorge Luis Borges confessa tamb\u00e9m que Carlos Frias sugeriu-lhe que aproveitasse o pr\u00f3logo de um dos seus livros para uma declara\u00e7\u00e3o a respeito de sua est\u00e9tica. Escrupuloso, respondeu logo que n\u00e3o era possuidor de uma est\u00e9tica. Mesmo assim, parece que o tempo ensinou-lhe algumas ast\u00facias: evitar os sin\u00f4nimos que, segundo ele, t\u00eam a desvantagem de sugerir diferen\u00e7as imagin\u00e1rias; evitar hispanismos, argentinismos, arca\u00edsmo e neologismos; preferir as palavras habituais \u00e0s palavras assombrosas; intercalar em um relato tra\u00e7os circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, j\u00e1 que, segundo diz, se a realidade \u00e9 precisa, a mem\u00f3ria n\u00e3o o \u00e9; narrar os fatos como se n\u00e3o os entendesse totalmente (isso ele aprendeu, diz, em Kipling, e nas sagas da Isl\u00e2ndia); lembrar que as normas anteriores n\u00e3o s\u00e3o obriga\u00e7\u00f5es e que o tempo se encarregar\u00e1 de aboli-las. Claro, Borges tem raz\u00e3o: n\u00e3o existe verdade absoluta no campo da cria\u00e7\u00e3o. As t\u00e9cnicas se inventam e se reinventam. Mudam sempre. Iluminam-se e deslocam-se.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer isso com toda a convic\u00e7\u00e3o \u2500 cada narrativa e cada frase, n\u00e3o raro cada palavra, exige uma t\u00e9cnica diferente. Particular. N\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Mesmo Hemingway sabia que a pulsa\u00e7\u00e3o narrativa pede palavras, frases e pontua\u00e7\u00e3o diferentes \u2500 ou at\u00e9 antag\u00f4nicas \u2500 a cada movimento. Afinal, estamos falando do esp\u00edrito humano. E nada \u00e9 mais terr\u00edvel do que o esp\u00edrito humano com ast\u00facias e armadilhas, abismos e sombras, clareiras e tempestades. Um autor \u00e9 o personagem e \u00e9 o autor, portanto deve estar sempre em equil\u00edbrio entre os dois e entre os outros personagens que v\u00e3o fazendo novas exig\u00eancias. E outras palavras. E outras frases. E outras circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*\u00a0\u00a0 *\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Raimundo Carrero nasceu em Pernambuco em 1947, formou-se escritor tendo Ariano Suassuna por refer\u00eancia e ganhou diversos pr\u00eamios importantes (Jabuti, APCA, Machado de Assis). Com cerca de duas dezenas de livros publicados, principalmente romances e contos, tem algumas de suas obras traduzidas no exterior. Dedicou-se durante muitos anos a uma oficina de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e foi a partir das aulas e da intera\u00e7\u00e3o com escritores iniciantes que escreveu <em>Os segredos da fic\u00e7\u00e3o<\/em>. Trata-se de iniciativa, a reflex\u00e3o te\u00f3rica e pragm\u00e1tica sobre a arte de escrever, a que os escritores brasileiros n\u00e3o s\u00e3o muito afeitos, ainda que quase todos produzam poemas ou narrativas metaliter\u00e1rias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Introdu\u00e7\u00e3o, da qual retiramos o excerto, o livro cont\u00e9m tr\u00eas partes: A voz narrativa; O processo criativo; A constru\u00e7\u00e3o do personagem. Traz ainda uma bibliografia comentada e \u00edndice. As duas \u00faltimas partes s\u00e3o subdivididas em cap\u00edtulos, e cada cap\u00edtulo em t\u00f3picos. Esses t\u00f3picos s\u00e3o did\u00e1ticos e objetivos, com exemplos pr\u00e1ticos da quest\u00e3o t\u00e9cnica da arte de escrever que \u00e9 abordada.<\/p>\n<p>Dirigido a autor novo, iniciante, o livro, no entanto, tem seu interesse para autores veteranos e para estudiosos da literatura, por expor de modo claro \u2500 na concep\u00e7\u00e3o de Raimundo Carrero \u2500 a carpintaria da arte da constru\u00e7\u00e3o de narrativas ficcionais.<\/p>\n<p>J\u00e1 no excerto que apresentamos, vemos o cuidado de Carrero ao buscar, em vozes com a autoridade do reconhecimento p\u00fablico da maestria como escritores, a valida\u00e7\u00e3o dos pontos de vista que defende.<\/p>\n<p>Assim, ali, cita Hemingway, Borges e Kipling. Na Introdu\u00e7\u00e3o, traz ainda, entre outros, Ariano, Autran Dourado, Bakhtin, Barthes, Flaubert, Forster, Joyce, Lhosa, Lubbock, Osman Lins e Truman Capote. Menciona as indica\u00e7\u00f5es que recebeu quando jovem de Hermilo Borba Filho e Gilberto Freyre: Dostoi\u00e9vski, Tolstoi, Kazantz\u00e1kis, Jos\u00e9 Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade. Ap\u00f3s recordar o aprendizado ao escrever os pr\u00f3prios livros, Carrero informa que seus autores prediletos para as oficinas de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria s\u00e3o Machado de Assis, Graciliano Ramos, Ismail Kadar\u00e9, Austin G\u00f3mez Arcos e Juan Rulfo. Cita ainda outros livros, outros escritores e outros pensadores, mas na listagem acima temos j\u00e1 indiciada um Paideuma, ou seja, o seu c\u00e2none particular, as refer\u00eancias de sua forma\u00e7\u00e3o como escritor.<\/p>\n<p>Das li\u00e7\u00f5es de Carrero sobressaem algumas dicas \u2500 e listamos algumas abaixo, sem hierarquia, optando por registrar aquelas mais gerais:<\/p>\n<ul>\n<li>\u201cN\u00e3o existe verdade absoluta no campo da cria\u00e7\u00e3o\u201d;<\/li>\n<li>Reescreva at\u00e9 que o texto fique exatamente como quer que fique;<\/li>\n<li>Evitar confus\u00f5es terminol\u00f3gicas ao multiplicar sin\u00f4nimos;<\/li>\n<li>Utilize palavras habituais, conhecidas;<\/li>\n<li>N\u00e3o seja preciso, pois a realidade \u00e9 imprecisa;<\/li>\n<li>Utilize a t\u00e9cnica adequada para cada momento textual, sem se prender a qualquer apriorismo;<\/li>\n<li>Tenha disciplina, m\u00e9todo e rigor;<\/li>\n<li>Trabalhe os s\u00edmbolos que a narrativa cont\u00e9m;<\/li>\n<li>Corra riscos ao escrever, ou voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um escritor;<\/li>\n<li>Regras, normas ou determina\u00e7\u00f5es s\u00e3o sugest\u00f5es de trabalho e n\u00e3o imposi\u00e7\u00e3o \u00e0 veia inventiva;<\/li>\n<li>O compromisso da literatura \u00e9 com a cria\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Assistir filmes propicia aprendizados interessantes para o escritor;<\/li>\n<li>\u201cA verdadeira arte \u00e9 sutil.\u201d<\/li>\n<\/ul>\n<p>Grande Carrero!<\/p>\n<p><strong>Rauer Ribeiro Rodrigues<\/strong><br \/>\nProfessor; escritor; em travessia<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o importante:<\/strong>\u00a0O Prof. Rauer ministrou na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Letras \/ Estudos Liter\u00e1rios, do C\u00e2mpus de Tr\u00eas Lagoas da UFMS, um Curso de Escrita Criativa; a nosso pedido, alguns dos textos que serviram de diretriz para as aulas, aqui comentados pelo professor, ser\u00e3o replicados no Blog da Editora Pangeia ao longo das pr\u00f3ximas semanas e meses. N\u00e3o perca! Vale a pena acompanhar. (<strong>R\u00edzio Macedo Rodrigues<\/strong>, Editor, Editora Pangeia).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>TEXTOS ANTERIORES DESTA S\u00c9RIE<\/strong><\/p>\n<p>Como publicar seu livro:<br \/>\n&lt;<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/como-publicar-seu-livro\/\">https:\/\/editorapangeia.com.br\/como-publicar-seu-livro\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p>Aula 1: &#8220;A arte de escrever 1 &#8211; As oito li\u00e7\u00f5es de Isaac Babel:<br \/>\n&lt; <a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-1-as-oito-licoes-de-isaac-babel\/\">https:\/\/editorapangeia.com.br\/a-arte-de-escrever-1-as-oito-licoes-de-isaac-babel\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><span style=\"color: #993366;\">Links descritivos de todos os artigos da s\u00e9rie<\/span><\/a><br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #993300;\"><a style=\"color: #993300;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><strong>A ARTE DE ESCREVER \u2013 AQUI!!!<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">EDITORA PANGEIA:<br \/>\nCONFIRA PORQUE PUBLICAR NA PANGEIA:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/publique-na-pangeia\/\"><span style=\"color: #993366;\"><strong>AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><u><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/sobre\/\">Quem Somos &#8211; Valores<\/a><\/u><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/publique\/\"><u>Or\u00e7amento<\/u><\/a>:<br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"mailto:publiqueconosco@editorapangeia.com.br\">publiqueconosco@editorapangeia.com.br<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O subt\u00edtulo do livro de Raimundo Carrero sobre Os segredos da fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa d\u00favidas: Um guia da arte de escrever narrativas. 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