{"id":1163,"date":"2019-07-09T18:03:07","date_gmt":"2019-07-09T18:03:07","guid":{"rendered":"http:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=1163"},"modified":"2025-11-20T18:02:09","modified_gmt":"2025-11-20T18:02:09","slug":"a-arte-de-escrever-1-as-oito-licoes-de-isaac-babel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/a-arte-de-escrever-1-as-oito-licoes-de-isaac-babel\/","title":{"rendered":"A ARTE DE ESCREVER 1 &#8211; As oito li\u00e7\u00f5es de Isaac Babel"},"content":{"rendered":"<p>Esta s\u00e9rie sobre escrita criativa, voltado em especial para a arte de fic\u00e7\u00e3o, mas de bom proveito para escritores de outras \u00e1reas (poetas, ensaistas, acad\u00eamicos, estudantes, etc.), tem in\u00edcio hoje com a leitura de um conto de Isaac Babel.<br \/>\nIsaac Babel (1894) \u00e9 um dos maiores nomes da literatura russa do s\u00e9culo XX, e sua escrita precisa e compassiva tem sido, desde que surgiu, um paradigma para todos os grandes escritores das literaturas ocidentais. Preso pelo regime stalinista em 1939, foi executado em 1940.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p>BABEL, Isaac. Guy de Maupassant. ______. A cavalaria vermelha. Trad. Berenice Xavier; introd. Lionel Trilling. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1969. p. 270-278. Conto.<\/p>\n<p>Uma ocorr\u00eancia terminante, uma martelada que, por inesperada, impacta o leitor: o ponto final deve descer como uma punhalada sobre o cora\u00e7\u00e3o do leitor. Eis uma par\u00e1frase de Isaac Babel no conto \u201cGuy de Maupassant\u201d, em li\u00e7\u00e3o que parece seguir as pegadas das propostas para textos breves definidas por Edgar Allan Poe no seminal ensaio \u201cA filosofia da composi\u00e7\u00e3o\u201d. Mas vai al\u00e9m, como veremos abaixo.<br \/>\nLeio o conto de Isaac Babel na tradu\u00e7\u00e3o de Berenice Xavier, na edi\u00e7\u00e3o de 1969, da Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, na p. 273 (h\u00e1 ao menos mais outra edi\u00e7\u00e3o desta tradu\u00e7\u00e3o, pela Ediouro, publicada provavelmente de 1985 \u2500 sim, informa\u00e7\u00f5es incompletas de edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o novidade).<br \/>\n\u201cGuy de Maupassant\u201d \u00e9 narrado em primeira pessoa por um jovem de vinte anos que chega no inverno de 1916 a S\u00e3o Petersburgo \u201ccom um passaporte forjado e sem um n\u00edquel\u201d. Ainda assim, recusa emprego em uma f\u00e1brica, pois \u201c\u00e9 prefer\u00edvel passar fome, ir para a pris\u00e3o ou ser um vagabundo, a permanecer dez horas do dia a uma mesa de escrit\u00f3rio\u201d.<br \/>\nEvocando certa \u201csabedoria de meus antepassados\u201d, ainda que reconhe\u00e7a que \u201c[n]\u00e3o havia nada de louv\u00e1vel nessa minha decis\u00e3o\u201d, o protagonista argumenta: \u201cnasc\u00earamos para gostar de nosso trabalho, de nossas lutas e de nossos amores, nasc\u00earamos para isso, e nada mais.\u201d<br \/>\nO conto tem car\u00e1ter metapo\u00e9tico, e a passagem, cuja recusa ao emprego caracteriza uma diretriz art\u00edstica do escritor, causa horror e admira\u00e7\u00e3o ao professor amigo que o acolhera.<br \/>\nO professor indica o jovem para auxiliar a mulher de um editor que tentava sem sucesso traduzir Maupassant: \u201c\u00e9 a \u00fanica paix\u00e3o da minha vida\u201d, ela diz ao rapaz diante dos vinte e nove volumes do escritor.<br \/>\nNo entanto, diz o narrador, \u201c[e]m sua tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o restava sequer um tra\u00e7o das frases fluentes de Maupassant, com a sua fragr\u00e2ncia de paix\u00e3o\u201d. A tradutora \u201cesfor\u00e7ava-se por escrever de maneira correta, mas o que resultava era algo frouxo e sem vida\u201d. Por isso, com o manuscrito em m\u00e3os, \u201c[passa] a noite tentando abrir caminho na intrincada selva da prosa de Ra\u00efsa\u201d:<br \/>\n\u201cO trabalho n\u00e3o era t\u00e3o mon\u00f3tono como poderia parecer. Uma frase nasce no mundo, boa e m\u00e1, ao mesmo tempo. O segredo est\u00e1 numa leve e quase invis\u00edvel flex\u00e3o. O instrumento deve ficar em nossas m\u00e3os, e s\u00f3 podemos volt\u00e1-lo uma vez, nunca duas vezes.\u201d<br \/>\nRa\u00efsa se impressiona. Pergunta-lhe como conseguiu aquele resultado. \u201cFalei-lhe ent\u00e3o de estilo, do ex\u00e9rcito de palavras, ex\u00e9rcito no qual toda esp\u00e9cie de arma pode ter atividade. Nenhum a\u00e7o pode penetrar no cora\u00e7\u00e3o e apunhal\u00e1-lo com tanta for\u00e7a como um ponto final no lugar justo.\u201d<br \/>\nOs dois t\u00eam \u00e0 vista a prateleira com os volumes de Maupassant: \u201cCom seus dedos de l\u00edquida dissolu\u00e7\u00e3o, o sol tocava os dorsos de marroquim dos livros \u2500 t\u00famulo magn\u00edfico de um cora\u00e7\u00e3o humano.\u201d<br \/>\nSeguem a tarefa tradut\u00f3ria: \u201cMiss Harriet\u201d, \u201cId\u00edlio\u201d, \u201cA confiss\u00e3o\u201d&#8230; conto a partir do qual, emulando as personagens de Maupassant, os dois se entregam \u00e0 lasc\u00edvia sexual, porque, como est\u00e1 no enredo de Maupassant, para se divertirem, um rapaz e uma mo\u00e7a n\u00e3o precisam de m\u00fasica.<br \/>\nAo chegar em casa, ap\u00f3s esse momento, o protagonista se dedica \u00e0 leitura de uma biografia de Maupassant. V\u00edtima de s\u00edfilis heredit\u00e1ria, o escritor viveu entre dores de cabe\u00e7a, hipocondria e o avan\u00e7o da cegueira. Era briguento e tentou o suic\u00eddio. Morreu no hosp\u00edcio, animalizado, andando de quatro e comendo os pr\u00f3prios excrementos.<br \/>\nEis o par\u00e1grafo final do conto:<br \/>\n\u201cLi o livro at\u00e9 o fim e levantei-me. O nevoeiro aproximava-se da janela: o mundo ocultou-se aos meus olhos. Meu cora\u00e7\u00e3o contraiu-se, pois o press\u00e1gio de alguma verdade essencial tocara-me de leve com os dedos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p><strong>Primeira li\u00e7\u00e3o de Babel.<\/strong> Viva o seu sonho e n\u00e3o troque a arte de escrever por nenhuma outra fun\u00e7\u00e3o, trabalho ou amor.<\/p>\n<p><strong>Segunda li\u00e7\u00e3o.<\/strong> A paix\u00e3o pela literatura n\u00e3o basta, \u00e9 preciso dominar os meios, os instrumentos, as frases, \u00e9 preciso trazer para a linguagem a frag\u00e2ncia da paix\u00e3o. Ou, conforme a tradu\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia Prada para o mesmo conto, o \u201cpoderoso h\u00e1lito da paix\u00e3o\u201d, pois o segredo de uma frase \u201cest\u00e1 em um ponto crucial que mal se pode discernir.\u201d<\/p>\n<p><strong>Terceira li\u00e7\u00e3o.<\/strong> Eis como est\u00e1 a sequ\u00eancia dessa passagem na tradu\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia Prada (Editora A Girafa, 2008, p. 526): \u201cDevemos pegar a chave desse enigma gentilmente com os dedos, esquentando-a. E depois a chave deve dar uma volta, e n\u00e3o duas.\u201d Ou seja, devemos ir direto ao ponto, chegar ao cerne do que se pretende dizer e escrever com arte, mas sem rebuscamentos, sem for\u00e7ar a m\u00e3o, sem querer que o texto chame mais a aten\u00e7\u00e3o do que o narrado.<\/p>\n<p><strong>Quarta li\u00e7\u00e3o.<\/strong> As frases devem ter o tamanho justo e necess\u00e1rio. Assim, seu ponto final fica mais forte que o a\u00e7o e penetra com for\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o. O efeito \u00e9 de cada frase, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do ponto que encerra o conto, cujo efeito terminativo acumula o efeito dos pontos finais precedentes da narrativa.<\/p>\n<p><strong>Quinta li\u00e7\u00e3o.<\/strong> Cada livro, mas ainda mais, cada conto, cada poema, cada narrativa, cada texto, cont\u00e9m em si a \u201ccripta do cora\u00e7\u00e3o humano\u201d, como prefere a tradu\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia Prada. Cada unidade textual \u2500 caso realizada no dom\u00ednio pleno dos instrumentos lingu\u00edsticos, po\u00e9ticos e narrativos \u2500 cont\u00e9m em si, pois, a integralidade da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p><strong>Sexta li\u00e7\u00e3o.<\/strong> Literatura e vida, e a vida e a literatura, se tocam em fluxo constante, ininterrupto.<\/p>\n<p><strong>S\u00e9tima li\u00e7\u00e3o.<\/strong> H\u00e1 uma verdade essencial por tr\u00e1s da neblina do universo que podemos pressentir e incorporar a n\u00f3s pela leitura liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Oitava e \u00faltima li\u00e7\u00e3o de Babel.<\/strong><br \/>\nUm momento de di\u00e1logo entre o protagonista e o professor \u00e9 destacado no conto. O narrador relata que come\u00e7ou a atacar Tolstoy. Eis o que ele diz, na tradu\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia Prada: \u201cEle ficou com medo, o nosso conde! Faltou-lhe coragem! Foi o medo que o fez voltar-se para a religi\u00e3o! Aterrorizado com o frio, a velhice, o conde tricotou para si um su\u00e9ter feito de f\u00e9!\u201d<br \/>\nDormem em seguida, b\u00eabados pelo festim realizado com o adiantamento pelos servi\u00e7os de auxiliar Ra\u00efsa a traduzir Maupassant.<br \/>\nUma \u00faltima li\u00e7\u00e3o de Babel ressalta dessa passagem \u2500 haja o que houver, um escritor n\u00e3o deve ter medo, n\u00e3o deve vestir nada que n\u00e3o seja a f\u00e9 na sua escrita, que n\u00e3o deve estar sujeita a nada, a nenhuma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o que lhe seja exterior, a nenhuma condicionante que n\u00e3o seja a coragem de investigar o humano na profundidade, no horror, na humana variabilidade que h\u00e1 em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Rauer Ribeiro Rodrigues<\/strong><br \/>\nProfessor; escritor; em travessia<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o importante:<\/strong> O Prof. Rauer ministrou na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de literatura da UFMS um Curso de Escrita Criativa; a nosso pedido, alguns dos textos que serviram de diretriz para as aulas, comentados pelo professor, ser\u00e3o replicados no Blog da Editora Pangeia ao longo das pr\u00f3ximas semanas e meses. N\u00e3o perca! Vale a pena acompanhar.<br \/>\n(<strong>R\u00edzio Macedo Rodrigues<\/strong>, Editor, Editora Pangeia).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><span style=\"color: #993366;\">Links descritivos de todos os artigos da s\u00e9rie<\/span><\/a><br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #993300;\"><a style=\"color: #993300;\" href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/?s=arte+de+escrever\"><strong>A ARTE DE ESCREVER \u2013 AQUI!!!<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">EDITORA PANGEIA:<br \/>\nCONFIRA PORQUE PUBLICAR NA PANGEIA:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/publique-na-pangeia\/\"><span style=\"color: #993366;\"><strong>AQUI !!!<\/strong><\/span><\/a><\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><u><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/sobre\/\">Quem Somos &#8211; Valores<\/a><\/u><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/editorapangeia.com.br\/publique\/\"><u>Or\u00e7amento<\/u><\/a>:<br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"mailto:publiqueconosco@editorapangeia.com.br\">publiqueconosco@editorapangeia.com.br<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta s\u00e9rie sobre escrita criativa, voltado em especial para a arte de fic\u00e7\u00e3o, mas de bom proveito para escritores de outras \u00e1reas (poetas, ensaistas, acad\u00eamicos, estudantes, etc.), tem in\u00edcio hoje com a leitura de um conto de Isaac Babel. Isaac Babel (1894) \u00e9 um dos maiores nomes da literatura russa do s\u00e9culo XX, e sua&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1164,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,79,45,74],"tags":[101,5077,88,4395,177,89,1089,84,85,80,82,252,86,81,95,1090,83,1091,87,141,181,1082,448,1092,861,860,680],"class_list":["post-1163","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-cursos","category-eventos","category-tutoriais","tag-a-arte-de-escrever","tag-antirracismo","tag-aprendizado","tag-arte-da-escrita","tag-arte-de-escrever","tag-conto","tag-contra-ultracurto","tag-criativa","tag-criatividade","tag-curso","tag-escrita","tag-escrita-criativa","tag-ficcao","tag-gratuito","tag-haikai","tag-isaac-babel","tag-leitura","tag-licoes-de-escrita","tag-literatura","tag-microconto","tag-microcontos","tag-miniconto","tag-nanoconto","tag-rauer-rauer-ribeiro-rodrigues","tag-renga","tag-senryu","tag-tanka"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1163"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18856,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1163\/revisions\/18856"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}