{"id":1011,"date":"2019-06-03T19:19:47","date_gmt":"2019-06-03T19:19:47","guid":{"rendered":"http:\/\/editorapangeia.com.br\/?p=1011"},"modified":"2026-03-08T16:16:52","modified_gmt":"2026-03-08T16:16:52","slug":"uma-voz-personalissima-que-todos-devem-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editorapangeia.com.br\/pt_br\/uma-voz-personalissima-que-todos-devem-ler\/","title":{"rendered":"Uma voz personal\u00edssima que todos devem ler"},"content":{"rendered":"<p>Uma das maiores conquistas que um escritor pode almejar \u00e9 desenvolver uma linguagem \u00fanica que o diferencie dos outros e que ao mesmo tempo defina sua personalidade liter\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, mesmo escritores consagrados n\u00e3o adquiriram essa marca. Por conta disso, pode-se dizer que Alciene \u00e9 uma escritora privilegiada, faz parte de um seleto grupo de prosadores, como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimar\u00e3es Rosa, Lygia Fagundes Teles, Rubem Fonseca, Adalgisa Nery e poucos mais. Outro m\u00e9rito \u00e9 desenvolver essa marca narrativa em uma produ\u00e7\u00e3o, por enquanto, esparsa, publicada sem pressa desde o final da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>O volume em quest\u00e3o \u00e9 uma mistura de contos in\u00e9ditos, contos &#8220;perdidos&#8221; em suplementos e em revistas liter\u00e1rias e contos publicados em volumes esgotados h\u00e1 muito. O eixo tem\u00e1tico, que se advinha no t\u00edtulo, \u00e9 uno e m\u00faltiplo: a mulher. De forma libertadora, Alciene aborda v\u00e1rias e variadas mulheres, de v\u00e1rias idades e amores, como canta Martinho da Vila. Encontramos narrativas que desdobram e dialogam com alguns estere\u00f3tipos femininos sem nunca cair na armadilha de reproduzi-los tal e qual a sociedade patriarcal os molda: a mulher tra\u00edda, a traidora, a menina inocente, a masculinizada, a madura, a tr\u00e1gica e tantas outras.<\/p>\n<p>Um aspecto muito interessante da edi\u00e7\u00e3o \u00e9 que, al\u00e9m da beleza gr\u00e1fica, ela fornece dados muito importantes da autora que v\u00e3o al\u00e9m da usual biografia: como posf\u00e1cio, h\u00e1 um hist\u00f3rico dos contos, situando data(s) de escrita e \u2500 quando \u00e9 o caso \u2500 de publica\u00e7\u00e3o(\u00f5es). Saber quando cada texto foi escrito nos permite esbo\u00e7ar a trajet\u00f3ria de Alciene e ver, al\u00e9m do conte\u00fado, eventuais mudan\u00e7as na sua maneira de escrever e de narrar.<\/p>\n<p>Os contos mais recentes datam de menos de um ano e, como seria de se esperar, s\u00e3o aqueles que trazem de maneira mais pungente e lapidado o seu peculiar estilo. Para n\u00f3s, a j\u00f3ia da coroa \u00e9 a narrativa curt\u00edssima que abre o livro: \u201cIndepend\u00eancia e morte\u201d. Nele, a autora retoma mote j\u00e1 desenvolvido no \u00f3timo \u201cAve Maria das Gra\u00e7as Santos\u201d, de 1984: o feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>Apesar de ser um conto curto e muito eficiente narrativamente, o conto dos anos oitenta foi superado pelo sucessor: em \u201cIndepend\u00eancia e morte\u201d, a escritora atinge a mistura perfeita entre sua t\u00edpica linguagem sintaticamente truncada, de sintaxe entrecortada e vocabul\u00e1rio muito pessoal (uma mescla de intelectualidade e sert\u00e3o mineiro, das geraes), com a precis\u00e3o e concis\u00e3o que s\u00f3 os melhores contistas alcan\u00e7am realizar. A catarse com essas narrativas \u00e9 inevit\u00e1vel em \u00e9poca em que ainda testemunhamos, de modo t\u00e3o claro, essas mesmas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de tragicidade que vivem (e morrem) as mulheres de Alciene Ribeiro: a despeito de tudo, de todos e dos tolos, mesmo os que se julgam super-homens, elas se mant\u00eam sublimes e sublimadoras de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Como a protagonista de \u201cTransa\u201d, senhora de si que negocia com um garoto de programa uma noite de amor, t\u00e3o independente quanto carente, em uma narrativa composta apenas de di\u00e1logos que nos remete ao melhor de seu conterr\u00e2neo, Luiz Vilela. N\u00e3o \u00e9 qualquer escritor que emula tema, modo de narrar, topografia ou qualquer aspecto de um escritor consagrado e faz uma obra genuinamente sua, original, forte e densa \u2013 Alciene Ribeiro, no <strong><em>Mulher expl\u00edcita<\/em><\/strong>, faz isso de maneira magn\u00edfica, e acrescenta \u00e0 literatura uma voz personal\u00edssima, que a faz juntar-se ao rol dos autores da literatura brasileira que todos devem ler.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ronaldo Vinagre Franjotti (GPLV).<\/p>\n<p>Professor no Ensino Fundamental na Rede P\u00fablica Estadual de Mato Grosso do Sul e doutorando em Estudos Liter\u00e1rios na UFMS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das maiores conquistas que um escritor pode almejar \u00e9 desenvolver uma linguagem \u00fanica que o diferencie dos outros e que ao mesmo tempo defina sua personalidade liter\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, mesmo escritores consagrados n\u00e3o adquiriram essa marca. 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