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Por Ilka Santos, “minimus”, os microcontos de Alciene

Trazemos hoje um estudo de Ilka Vanessa Meireles Santos sobre os microcontos de minimus, de Alciene Ribeiro Leite.

Na  Coleção  Micromínimus,
a produção de microcontos
de Alciene Ribeiro Leite

Ilka Vanessa Meireles Santos *
Doutoranda em Estudos
Literários na UFMS

Introdução

A produção contística reunida no livro minimus (Coleção Micromínimus v. 3, 2ª edição, Campinas, SP: Dionysius / Pangeia, 2022), traz 134 microcontos de autoria de Alciene Ribeiro Leite, divididos em sete temas: Palavra, Proscênio, Tragicomédia, Eros-Afrodite, Drama, Romeu e Julieta, e Pano/Luz. Trata-se de uma forma inovadora de escrita que consiste em apresentar narrativas breves, concisas, em que o leitor se torna coautor do texto literário. Nesta obra, Alciene Ribeiro Leite apresenta mais uma habilidade de sua escrita literária: as micronarrativas, que demonstram muita expressividade, precisão linguística, linguagem fluída, em que o cotidiano é captado de forma fractal.

A escritora é natural da cidade mineira de Ituiutaba e está presente no cenário da literatura brasileira desde a década de 70, quando foi publicado seu primeiro trabalho em livro, o conto “Vinte anos de amélia”, lançado por uma editora do Rio de Janeiro. Ante, por volta dos anos 50, Alciene teve que interromper seus estudos, os quais foram retomados em 1967, e em 1975, graduou-se em História. Também foi líder estudantil, fundou grêmios, criou jornais, militou em teatro amador e presidiu um Centro de Estudos, que recebeu o nome de Sérgio Buarque de Hollanda. Durante o período de 1977 a 1982, quando a escritora já estava residindo em Belo Horizonte, Alciene Ribeiro Leite publicou textos em várias colunas de jornais da capital; exerceu o cargo de chefe da Divisão de Cultura da cidade natal, o que lhe proporcionou desenvolver diversas atividades culturais, como feiras e lançamentos de livros e palestras.

Algumas das marcas da escrita contística de Alciene são a síntese, a concisão, a fluidez, a ironia e as reflexões que faz sobre a humanidade e a sociedade de modo geral, características também observadas na sua produção de microcontos. Nota-se sua capacidade de captar o cotidiano de forma perspicaz através do registro de pequenos flagrantes do tempo presente, instigando o leitor a uma análise crítica da realidade.

Na escrita de microcontos, Alciene faz uso de metáforas, de elipses e da linguagem fragmentada, características que também podem ser observadas em produções que vão dos livros infanto-juvenis a poesias, de romances a obras de cunho espiritualista, o que demonstra a pluralidade da escrita da autora.

A coletânea de cento e trinta e quatro microcontos de Alciene Ribeiro Leite contribui para a consolidação deste gênero narrativo, o qual está ligado à perspectiva da pós-modernidade.

Conforme Seabra (2010) ressalta, em seu artigo “A onda dos microcontos”, a “micronarrativa tem ingredientes do nosso tempo, como a velocidade e a condensação” (p. 01). Dessa forma, a comunicação instantânea da sociedade de informação está materializada no dizer o máximo utilizando-se o mínimo. Apesar de o microconto ser uma narrativa curta, condensada, ela é capaz de ampliar a relação texto-leitor, pois exige uma capacidade de inferência, imaginação e perspicácia desse sujeito. Assim, as competências de interpretação e inferência do leitor são aguçadas para que as particularidades das micronarrativas sejam reveladas, uma vez que desperta a reflexão, a criatividade, a cumplicidade e o fascínio do público leitor.

No que diz respeito a outras particularidades dos microcontos, tem-se, segundo Campos (2011),

“a brevidade; a intertextualidade; a metaficção; a epifania; precisão cirúrgica que aproxima prosa e poesia; o ficcional entrelaçado a recortes de elementos factuais; o humor; a polissemia; o inusitado; a ironia; a ludicidade da linguagem”.

A literatura de microcontos, por sua vez, revela parâmetros da sociedade pós-moderna, uma vez que as micronarrativas desvelam os seres humanos da atualidade. É nessa perspectiva que se apresenta a escrita microcontística de Alciene Ribeiro Leite, que se delineia numa série de mosaicos apresentados em pequenas porções de humor, ironia e crítica social.

Nesse sentido, o presente artigo pretende analisar alguns microcontos da autora, com o objetivo de identificar características estilísticas e temáticas desta nova arte contística contemporânea. Para condução do estudo, adotamos uma abordagem exploratória, fundamentada em levantamento bibliográfico, a fim de aprofundar o tema proposto por meio de uma análise qualitativa.

Desse modo, observamos que os microcontos da obra de Alciene Ribeiro Leite revelam uma abordagem inovadora na construção narrativa e subtexto profundo, utilizando uma linguagem minimalista, que provoca impacto emocional e intelectual no leitor, mesmo sendo exposta num espaço textual reduzido característico do microconto.

A Microcontística

O ato de narrar é considerado uma das atividades mais antigas da humanidade, sendo desenvolvida desde os tempos mais remotos. Assim, com a evolução tecnológica, o fazer artístico, representado por meio dos contos, foi se modificando. Nesta perspectiva, tem-se como exemplo as mininarrativas e as micronarrativas na concepção que Walter Benjamin (1987, p. 206), que ironicamente afirma: “[…] o homem conseguiu abreviar até a narrativa”.

A literatura mini- e micro- adota o princípio do não-dito, um convite para que o leitor de micronarrativas estabeleça uma conexão com o texto no intuito de depreender a construção dos sentidos possíveis. Diante disso, Seabra (2010) explica sua definição de microconto: é como uma ligação muito forte através de um furinho de agulha no universo, algo que permite projetar uma imagem de uma realidade situada em outra dimensão. Como se, por meio desse furo, dois cones se tocassem nas pontas, um menor, que é o que está escrito no microconto, e outro maior, que é a imaginação a partir da leitura – pois, mais do que contar uma história, um microconto sugere diversas, abrindo possibilidades para cada um completar as imagens, o roteiro, as alternativas de desdobramento (cf. Seabra, 2010, p. 01).

O conceito de Seabra apresenta com propriedade a habilidade do microcontista em dispor do menor número de palavras e relacioná-las a uma amplitude de significados possíveis.

Contar histórias utilizando poucas palavras ou caracteres, este é o desafio dos escritores da literatura de microficção. Assim, alguns autores estabeleceram critérios quanto ao número de caracteres, ou seja, um microconto deve possuir de cem a cento e cinquenta caracteres, contando letras, espaços e pontuação; embora isso não seja uma regra seguida à risca por todos os microcontistas.

Torna-se relevante, portanto, recorrer ao marco cronológico das micronarrativas (dependendo da consideração dos autores), para situar o primeiro microconto (“O dinossauro”), datado de 1959, escrito por Augusto Monterroso, presente no livro Obras completas (y otroscuentos). O autor é considerado um dos fundadores do gênero (o microconto “O dinossauro” foi escrito apenas com trinta e sete caracteres). É um dos microcontos mais conhecidos e parodiados, como se observa a seguir:

O dinossauro
Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá.
(Monterroso, 1959)

Quando Sartre desligou a TV, o Nada ainda estava lá.
(Montesdeoca, 2008, p. 72)

À Monterosso
Quando acordou, o dinossauro o espreitava:
– De que loca você saiu, animal erectus?
(Alciene Ribeiro Leite, 2020, p. 13)

A partir do microconto “O dinossauro”, Zavalla (2018) faz uma reflexão sobre a simbologia do termo dinossauro e uma possível intertextualidade presente na narrativa. Assim se apresenta sua análise:

No México, onde este conto foi concebido e escrito originalmente em sua totalidade, o termo dinossauro refere-se coloquialmente a um político pertencente ao antigo regime, isto é, cinicamente corrupto e caracterizado pelo tráfico de influência. Assim, o texto também pertence à crônica jornalística. Por outro lado, aqui há uma forte carga intertextual ao referir-se ao conto de Horácio Quiroga. “O sonho” (1914), no qual o protagonista persegue um dinossauro durante uma grande jornada e cai adormecido. (Zavala, 2018, p. 320).

Marcelino Freire também escreve referindo-se ao microconto de Augusto Monterroso, como consta do prefácio do livro Os cem menores contos brasileiros do século, de 2004:

O mais famoso microconto do mundo… tem só 37 letrinhas. Inspirado nele, resolvi desafiar cem escritores brasileiros, deste século, a me enviar histórias inéditas de até cinquenta letras (sem contar título, pontuação). Eles toparam. O resultado aqui está. Se “conto vence por nocaute”, como dizia Cortázar, então toma lá.

Assim, o termo microconto consolida-se no Brasil a partir da organização desse livro por Marcelino Freire, uma proposição para escritores renomados produzirem micronarrativas de até, no máximo, cinquenta caracteres. Dessa forma, segundo considera Souza (2021), a obra representa o marco editorial da microficção brasileira.

No entanto, é importante haver ponderação quanto à afirmativa de consolidação do gênero microconto aqui no Brasil, pois antes da década de 80 já era possível observar micronarrativas escritas por Oswald de Andrade, que, por vezes, eram tidas como poesia, a exemplo dos poemas-pílula; eis um deles:

Amor
humor
(Andrade, 1927)

Sob esse contexto de antiguidade microcontística, verifica-se que, na literatura brasileira, tem-se fragmentos de narrativas com sentidos autossuficientes, que também foram publicadas antes da antologia de microcontos de Marcelino Freire, como é o caso de Machado de Assis, em seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, conforme exemplificamos no excerto a seguir:

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis.
(Machado de Assis, 1994, p. 25).

O que se observa tanto no poema-pílula de Oswald de Andrade quanto no fragmento isolado da obra de Machado de Assis é que a apreensão do que é dito evoca a participação do leitor para compor o significado do texto. Tratam-se de fractais dos quais emergem uma pluralidade de sentidos. Tem-se, portanto, uma das características da produção microcontística. Para ilustrar algumas das particularidades dos microcontos brasileiros, apresenta-se alguns aforismos descritos por Rauer Rodrigues (2011) em seu artigo “Apontamentos sobre o microconto”:

1. O microconto é uma casca de ovo, com alguma clara e um pingo de gema que escorreu, boiando na enxurrada escura sob a luz noturna da lua minguante.

2. O microconto já existia em sociedades ágrafas; na sequência, podemos vê-lo em Tales e em Heráclito, assim como em Hesíodo e em Safo.

3. O microconto foi praticado em todos os períodos da humanidade, oculto nas dobras de outros gêneros e formas.

4. O microconto marca a ascensão do mundo digital, eletrônico, computacional internético, que sepulta – sem ultrapassar – o universo das máquinas mecânicas.

5. O microconto é alexandrino por essência, e se vale da ambiguidade do ocaso que é aurora.

6. É desse microconto, que sepulta o albatroz baudelairiano erigindo bytes virtuais, de que falamos.

7. O microconto só se faz – de modo intenso e completo – com o espírito da virtualidade, mas se presentifica independente do suporte e da mídia.

8. O microconto é a fronteira da expressão literária, no limes entre poesia e prosa, entre épica e elipse, entre a rigidez do amor e a sinfonia atonal.

9. O microconto, mesmo aquele que se aproxima do humor mais escrachado, tem algo de soturno.

10. O microconto absorve todas as formas, fôrmas, gêneros e modos de expressão de todas as artes: é antropofágico e onívoro.

11. O efeito único do microconto é como um raio de sol que se refrata em todas as cores do arco-íris.

12. O microconto apresenta tantas menções intertextuais quantas são as palavras que o compõe. Onde se lê intertexto, leia-se hipertexto.

13. O microconto é o nó da rede: cada nó nunca é mais que uma fração mínima de um possível narrativo: o microconto é fóton que contém o universo.

14. No microconto, os hipertextos intertextuais que suplementam em acréscimo, debate ou derrogação presentificam-se como a sombra de um eclipse.

15. O microconto é silêncio, alma, morte e ressurreição.

16. O microconto transpõe barreiras, sendo o próprio limes.

17. A história submersa do microconto é um mergulho em desvãos pressentidos, porém insondáveis.

18. O microconto realiza todos os gêneros literários, todas as formas poéticas, todas as estratégias narrativas; o microconto é um fractal que convida o leitor para a contradança.

19. Não existe microconto de atmosfera ou de enredo: todo microconto persegue um enredo forjando uma atmosfera.

20. O microconto é o encontro da poesia com a prosa no balbucio do recém-nascido.

21. No microconto não há uma história evidente e uma segunda história, secreta – jamais fragmento, há no microconto o encontro de diversas histórias, ou microconto não há.

22. Se a narrativa tem mais que a epifania após o clímax, não é um microconto.

23. Se a epifania do microconto fulge, o microconto vira um falso fogo-de-artifício.

24. O microconto pode ser um haiku, mas ao contrário do haiku, que morre se recebe um título, o microconto sem título fica manco das duas pernas.

25. O microconto pode ser lido em uma única risada.

26. O microconto, ainda que encene um dia radioso, de sol escaldante, no meio da tarde, é um gênero noturno.

27. O microconto é inapreensível. Toda arte é. A arte, em seu recorte, representa uma totalidade fechada, autônoma – e oxímora, referencial. O microconto também é totalidade.

28. O microconto coalesce nos limites da poesia e da narrativa, incorporando e transformando formas simples e subgêneros literários, formatando-se como um novo gênero.

29. O microconto é a poalha em réstia de luz nos escombros de uma casa em ruínas.

(Rauer Ribeiro Rodrigues, 2011, p, 566-569).

Os vinte e nove aforismos expostos por Rodrigues (2011) fazem uma síntese do conceito e das características da produção microcontística brasileira, estudo que foi desenvolvido pelo autor a partir de uma revisão crítica de obras de períodos precedentes que podem ser identificadas hoje como micronarrativas, inserindo também os microcontos postados nas mídias sociais. Percebe-se, a partir dos aforismos, uma forma de estabelecer parâmetros para investigação da nova arte contística contemporânea, no caso, uma análise da microcontística de Alciene Ribeiro Leite.

O(s) minimus de Alciene Ribeiro Leite

A vida sendo constituída em poucas palavras. Este é o enfoque das micronarrativas que estão inseridas na obra minimus, de autoria de Alciene Ribeiro Leite, composta por um volume de cento e trinta e quatro microcontos, dispostos em sete temas (Palavra, Proscênio, Tragicomédia, Eros-Afrodite, Drama, Romeu e Julieta, e Pano/Luz), em que este estudo pretende analisar algumas de suas micronarrativas, pontuando alguns microcontos que se encaixam de acordo com os aforismos de Rauer Ribeiro Rodrigues (2011). No entanto, vale destacar que vários aforismos podem estar presentes em um mesmo microconto.

Como critério de escolha para análise, selecionou-se um microconto de cada tema da obra minimus. A seguir, apresenta-se o microconto referente ao primeiro tema (Palavra):

LEITOR PULSANTE
No microconto o sugerido
lateja entrelinhas
e desafia
o leitor
a substantivá-lo
(Alciene Ribeiro Leite, 2020, p. 15)

Em se tratando de conceito e características das micronarrativas do tema Palavra, é possível observar que, nesse microconto, Alciene Ribeiro Leite expressa de forma perspicaz o conceito e o papel do leitor de micronarrativas, conforme pode ser corroborado por Rodrigues (2011), no aforismo de número 18: “O microconto realiza todos os gêneros literários, todas as formas poéticas, todas as estratégias narrativas; o microconto é um fractal que convida o leitor para a contradança”. Assim, tem-se a estratégia narrativa do microconto: a capacidade de pincelar em poucas palavras o não dito ao mesmo tempo em que sugere e propõe ao leitor construir seu significado.

Outro aspecto importante que deve ser ressaltado no microconto descrito é o efeito do título atrelado a todo o contexto da narrativa, consoante ao que se comprova no aforismo de número 24 de Rodrigues (2011): “O microconto pode ser um haiku, mas ao contrário do haiku, que morre se recebe um título, o microconto sem título fica manco das duas pernas”. O título, portanto, funciona como parte integrante do sentido narrativo.

Nota-se que uma das características essenciais da micronarrativa, segundo menciona Campos (2011), é a brevidade associada à intertextualidade, epifania, metaficção, humor, o ficcional aglutinado a recortes de elementos fractais, a multiplicidade de sentidos, entre outras.

No que se refere à composição das lacunas do microconto, Luciene Lemos de Campos (2011) pontua a estratégia do narrador em aguçar o leitor a desvelar as entrelinhas do texto:

No discurso dessas narrativas, parece-nos, o importante é estabelecer apenas um núcleo significativo, ou seja, não importa se a personagem seja homem ou mulher — tem-se, muitas vezes, apenas a referência de personagem, nominado ou não —; se há espaço delimitado ou extremamente aberto, externo ou interno; se dia ou noite; neste ou em outro século — é o leitor quem preencherá as fendas deixadas, propositadamente, pelo narrador. (Campos, 2011).

Observa-se na afirmativa da pesquisadora que um dos intuitos do microconto é conseguir depreender a singularidade fragmentada da realidade e transformá-la em representação na literatura, aspecto verificado na escrita do microconto “Leitor Pulsante”.

Em se tratando de micronarrativas, os diálogos presentes em alguns microcontos denotam algo inovador, uma vez que a narrativa apresentada por meio de diálogos, sem a interferência de um narrador, aponta para um abandono de modelos estabelecidos pelo cânone literário. Nesse viés, tem-se o seguinte microconto, que compõe o segundo tema de minimus, Procênio:

SHAKESPEARIANA
– Ser ou não ser, eis a questão.
– Você decide, uai!
(Alciene Ribeiro Leite, 2020, p. 33)

No diálogo da micronarrativa apresentada acima, Alciene utiliza-se do recurso da intertextualidade, representado pela alusão ao poeta inglês William Shakespeare e uma de suas obras mais famosas – Hamlet. No título do microconto, o termo Shakespearina, um aportuguesamento do sobrenome do autor de Hamlet, indica que ou quem admira ou se dedica ao estudo da obra de Shakespeare. Quanto à interpretação do texto, suscita vários sentidos, sendo que um deles é que a personagem feminina, que pode ser inferida por meio do título da micronarrativa, declara uma das falas do texto dramático de Shakespeare, em que sugere sua indecisão a respeito de sua própria existência, em que pode se deixar levar pelos desígnios superiores ou arriscar-se e insurgir contra o destino, o qual segue a mesma proposição do drama em Hamlet, caracterizando uma dimensão filosófica; ou pode também indicar a dúvida quanto a algum acontecimento corriqueiro; ou ainda pode sugerir que a personagem possa estar em dúvida quanto a sua orientação sexual.

Seguindo essa mesma linha de compreensão quanto à intertextualidade presente no microconto ‘Shakespeariana’, aponta-se o aforismo número 12 de Rauer Rodrigues (2011): “O microconto apresenta tantas menções intertextuais quantas são as palavras que o compõe. Onde se lê intertexto, leia-se hipertexto”, ou seja, faz-se o uso desse recurso nas micronarrativas como forma de se revisitar textos clássicos, com o intuito de homenagem ou paródia. É o que Alciene Ribeiro Leite proporciona em seu texto: utiliza uma das falas do monólogo da primeira cena do terceiro ato de Hamlet para inserir a ironia e o humor fino, arrematado com a fala seguinte: “– Você é que sabe, uai!” (p. 33). Nota-se, no diálogo, o uso da variedade linguística (uai!), que denota o falar mineiro, o que contribui para o efeito de humor dentro do contexto apresentado.

No tema três de minimus, Tragicomédia, o recurso do humor e da ironia apresentam-se de forma mais evidentes nos microcontos de Alciene Ribeiro Leite. Assim, segue um de seus textos:

DIETA
Empanturrou-se com doces.
Pingou duas gotas
de adoçante
no cafezinho.
(Leite, 2020, p. 66)

O microconto acima refere-se a uma situação usual do cotidiano de muitas pessoas: a necessidade de se fazer dieta, que, em alguns casos, é apenas para seguir um padrão de corpo pré-estabelecido pela sociedade. É importante ressaltar como o humor e a ironia são construídos no texto por meio da oposição das ações expressas pelos verbos (empanturrar-se de doces e pingar duas gotas de adoçante), caracterizando uma sátira de um comportamento tradicional, representado pelo hábito de se tomar cafezinho após as refeições, relacionando-o à questão da dieta.

Quanto à marca de humor e ironia do microconto ‘Dieta”, o aforismo número nove de Rauer Rodrigues (2011) traz o seguinte apontamento: “O microconto, mesmo aquele que se aproxima do humor mais escrachado, tem algo de soturno”. Assim, por meio desse apontamento, é possível corroborar o que é apresentado no texto do microconto ‘Dieta’, uma vez que há uma ruptura entre o título e a descrição da primeira ação, em que a construção do humor fino se complementa com o tom irônico da descrição seguinte (pingar duas gotas de adoçante no cafezinho), o que provoca o riso e ao mesmo tempo traz um tom obscuro para a cena descrita.

O quarto tema de minimus, Eros-Afrodite, apresenta micronarrativas relacionadas à temática da mitologia e do erotismo, uma vez que Eros (Cupido) é representado nas mitologias grega e romana como o deus do amor, enquanto Afrodite (Vênus), segundo a mitologia grega é a deusa do amor, da beleza, do desejo e da fertilidade. Nessa parte foi selecionado o seguinte microconto para análise:

NAMORO
O idoso olhou para baixo,
murcho de esperança.
(Leite, 2020, p. 80)

A referência ao erotismo na micronarrativa é estruturada por meio dos recursos do humor e da ironia, elementos que acentuam o caráter taciturno do microconto, conforme enfatizado no aforismo nove de Rodrigues (2011). O contraste entre o aspecto cômico presente no título e o desenvolvimento do texto provoca uma tensão dinâmica entre vigor e melancolia, configurando uma quebra de expectativa que enriquece a leitura.

Quanto ao tema cinco, Drama, Alciene apresenta microcontos que envolvem questões relacionadas a diversos problemas sociais e ambientais; a exemplo, tem-se:

NOÉ, O CULPADO?
– Mais rápido querida! A
arca já via zarpar – o aedes
aegypt macho, para a fêmea.
(Leite, 2020, p. 97)

O microconto apresentado faz referência a um dos problemas de saúde pública brasileira: a dengue. De forma concisa e precisa, Alciene, nesta narrativa, ultrapassa o recurso da intertextualidade para a apresentação de outra história subjacente, em consonância com o que afirma o aforismo 21: “No microconto não há uma história evidente e uma segunda história, secreta – jamais fragmento, há no microconto o encontro de diversas histórias, ou microconto não há.” (Rauer, 2011).

A perspectiva proposta pelo aforismo permite identificar, na micronarrativa, a articulação de diferentes referências culturais e sociais, como a passagem bíblica da arca de Noé e o mosquito transmissor da dengue. Ao combinar essas imagens, a autora constrói uma crítica sutil, porém contundente, à negligência das autoridades e à indiferença da sociedade diante de um problema de saúde pública que, naturalizado, revela a banalização do risco da doença.

Outro aspecto que não pode deixar de ser enfatizado nesse microconto é a cumplicidade do leitor ao desvendar o que está implícito na narrativa, assumindo um papel determinante e redobrado diante do que está em elipse. Diante dessa assertiva, evidencia-se o protagonismo do leitor contemporâneo defendido por Spalding (2012):

“[…] é no leitor que se completará a narrativa, quando bem realizada, transformando o miniconto em uma narração plenamente satisfatória em si mesma e não em mero fragmento, anedota, apontamento ou alusão” (Spalding, 2012, p. 61).

O leitor assume um papel decisivo na narrativa de microficção, pois é nele que se concentra a possibilidade de amplitude do texto, a partir dos possíveis significados que ele é capaz de abstrair e despertar seu senso crítico.

No microconto que segue, pertencente ao tema seis, Romeu e Julieta, Alciene Ribeiro Leite representa os amores não correspondidos, os relacionamentos conjugais, as aventuras amorosas, por meio de uma linguagem fluída. Nessa proposição, apresenta-se o microconto escolhido:

A OUTRA
Filial
em perspectiva de matriz.
(Leite, 2020, p. 125)

Sobre a micronarrativa reproduzida, aborda-se a temática de um caso extraconjugal em que a amante nutre a esperança de se tornar a esposa, ao mesmo tempo em que revela uma relação sinuosa de dominação x subordinação e de dependência (financeira e/ou afetiva) entre os sujeitos envolvidos, assim como pode revelar, também, por meio dessa expectativa da filial, o divórcio ou a viuvez do amante.

No caso do último tema de minimus, Pano/Luz, Alciene traz reflexões sobre a brevidade da vida, religiosidade, espiritualidade, entre outras abordagens. Eis um de seus microcontos:

OBITUÁRIO
Gozou a vida
como se não houvesse
amanhã.
Morreu hoje.
(Leite, 2020, p. 148)

A estratégia narrativa de Alciene nesse microconto se apresenta na ambivalência entre o imprevisível (amanhã) e o previsível (hoje). O recurso utilizado pela autora permitiu a síntese da vida humana, ao mesmo tempo que mostra um aspecto que é inerente ao todo ser vivo: sua finitude.

Assim, na produção microcontística de Alciene Ribeiro Leite, representada por meio da disposição dos sete temas abordados de suas micronarrativas, caracterizadas pela linguagem concisa e fluída, promove um panorama que circula nos mais variados contextos do cotidiano humano.

Considerações Finais

A narrativa microcontística se caracteriza por produzir expressividade e efeito utilizando-se da brevidade e concisão, para intensificar o máximo de sentidos dos enunciados.

As micronarrativas representam a era da velocidade, da comunicação instantânea, das inovações tecnológicas, da mudança das relações sociais, o que contribui para novas percepções sobre esse novo fenômeno da literatura, conforme se observa nas palavras de Peres (2008):

“a ideia de provocar efeitos artísticos mediante a utilização de um número limitado de elementos é talvez uma das mais frutíferas em trânsito na modernidade, numa clara reação à prolixidade e à redundância identificáveis em períodos anteriores” (Peres, 2008, p. 17).

Ao analisar os microcontos da obra minimus, de Alciene Ribeiro Leite, a qual é dividida em sete temas, foi possível observar que a autora é capaz de conduzir o leitor a refletir sobre aspectos do cotidiano e a sua própria postura enquanto sujeito social.

Nas micronarrativas analisadas, percebe-se que a escrita microcontística de Alciene revela a representação de situações que envolvem o flagrante do instante da vida, sendo refletido por meio de aspectos que vão além do que está exposto no microconto. Nota-se a riqueza de sugestões apresentadas por meio dos microcontos da autora, uma vez que seus textos são densos e aguçam a coautoria do leitor. Assim, aspectos como a seleção dos vocábulos, o recorte preciso e a brevidade funcionam como marcas de sua escrita microcontística.

Nesse sentido, a escrita de minimus se manifesta, por vezes, através do uso da intertextualidade, apropriadas do humor e da ironia, aproximando-se dos aforismos de Rauer Rodrigues (2011), o qual lança a seguinte assertiva sobre o microconto: “sua constituição, sua formatação, exige autor e leitor com a memória de toda a literatura precedente” (Souza e Rodrigues, 2011, p. 271).

Assim, a essência da completude estética do microconto está na sua intensa relação com a leitura e a evocação do leitor para a construção do sentido da narrativa.

Ao explorar o potencial das micronarrativas, Alciene Ribeiro Leite imprime uma nova perspectiva à literatura brasileira, ao transformar inquietudes da contemporaneidade em matéria estética discursiva. Sua escrita evidencia como a brevidade textual pode condensar as tensões e complexidades do tempo presente.

Referências

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ZAVALA, Lauro. Variaciones sobre “el dinosaurio”. Lima, Micrópolis, 2018.

Ilka Vanessa Meireles Santos é doutoranda do Programa de
Pós-graduação em Letras (PPGLetras) da Fundação
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Professora de Língua Portuguesa do Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia do
Maranhão  – Campus Santa Inês.
E-mail: [email protected]

Publicado originalmente em:
MIRANDA, Antônio Luiz Alencar; LIMA, Andressa Mayara Bezerra de Oliveira; OLIVEIRA, Rauenas Silva. LITERATURA: e-Book do XXIII Simpósio de Letras: os estudos linguísticos, literários e ensino: refletindo práticas e perspectivas inovadoras. Caxias, MA: EDUEMA, 2025. p. 250-261.

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