“Pesadelo”, por Gianni Gomes

Pesadelo

Em memória de Bárbara Vergetti

Por Gianni Gomes *
Autora de
Sobre Lampejos
Transgressivos

Essa noite eu sonhei.

Não sonhei com a liberdade de ninguém, nem com anjos ou com paraísos.

Essa noite eu sonhei com a morte.

Não a sua, nem a de algum político ou personalidade.

Essa noite sonhei com a minha morte, e a das pessoas como eu.

A rua era a Capanema, da minha infância. Arborizada, silenciosa demais. Bucólica. A igreja de Santo Antônio no início, imóvel, cúmplice. A pracinha ao longe, como se se encolhesse, como se soubesse.

O ar estava seco, sabe o mormaço? Arranhava a garganta como areia fina. Entrava sem pedir, pesava no peito, deixava um gosto de poeira na boca.

Cheguei na esquina da padaria onde eu comprava pão, pequenininha, feliz com minha bicicleta vermelha. Vermelha.

Dei de cara com os corpos. Empilhados. Travestis. Mulheres putas. Estavam ali pessoas que eu admirava, amava. Tão belas, ainda que desvivas. Entrei em choque.

Uma delas tinha a fênix tatuada. Asas abertas num renascer infinito, na pele dura, acinzentada. Uma lágrima desceu de meu rosto ao chão.

Atrás delas, o caminhão de pau de arara. Motor ligado. Fumaça. E mais meninas lá dentro, apertadas, esperando serem levadas pra algum lugar que nem pesadelo nomeia.

Ninguém gritava. Ninguém corria. Não tem vela acesa contra a lei. Só o som abafado do mundo seguindo, até os captores reverentes.

Eu estava ali, não uma mera testemunha. Meu corpo gelado por dentro, as mãos úmidas. Reconhecia cada rosto, as meninas do beco do rato, tantas com quem conversei. Preenchi formulários por dignidades. Esse pesadelo não é só meu. Sinto uma algema se fechando em meu pulso. Chegou a minha vez.

22/05/2025
06:57am
Horário de Brasília.

* Gianni Gomes
Mulher Trans,
Professora,
Pesquisadora,
Autora de
Sobre Lampejos
Transgressivos

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