Luiz Vilela: Contar Histórias

No dia 6 de novembro, no Café Cultura Unimed-BH do Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, com a presença da organizadora, Profa. Luísa Coelho, que vem de Portugal para o evento, a Pangeia lança o livro Minas Gerais: contos e confidências.

Luiz Vilela, com o conto “Fazendo a barba”, escolhido certa vez entre os melhores contos brasileiros do século XX, é um dos autores presentes no livro.  Em 2006, para o Guia Brasil, considerado o melhor guia de viagem brasileiro e à venda nas principais livrarias do mundo, Luiz Vilela escreveu o texto “Contar histórias”.

Os editores do Guia, à época, convidaram alguns escritores para escreverem sobre seus Estados, com a exigência de que o texto falasse de alguma coisa típica do homem ou da terra. Luiz Vilela foi convidado para representar Minas Gerais.

Reproduzimos a seguir o texto.


Luiz Vilela lendo um conto seu para o público, na FLIP,

Festa Literária Internacional de Paraty, em 2004

LUIZ VILELA
CONTAR HISTÓRIAS

O mineiro gosta de contar histórias. Outras pessoas, de outros Estados ou de outros países, também gostam de contar histórias. Contar histórias parece ser uma necessidade humana, uma necessidade que remonta ao tempo das cavernas.

Mesmo  assim,  eu  nunca  vi  quem gostasse tanto de contar histórias como o mineiro. Posso estar enganado, mas já andei pelo país, já andei pelo mundo, e nunca vi. Quando digo isso, eu estou pensando tanto no caipira, iletrado, lá nos cafundós-do-judas, quanto nos muitos romancistas e contistas que Minas deu ao Brasil. ”Terra de escritores!”, já bradou alguém.

E há entre os dois, entre o caipira e os escritores, o cidadão comum, seu conhecido, amigo ou parente, aquele que você encontra no dia-a-dia e que o para, segu­rando em seu braço e dizendo: ”Tenho uma história ótima para te contar…” Um desses me parou um dia, na hora em que eu estava saindo para o aeroporto. Ele queria, por todos os meios, que eu esperasse. Diante da 1ninha resistência, argumentou: ”Às vezes o seu avião cai, e aí você vai ficar sem ouvir a minha história.” ”Não tem problema”, eu disse, ”daqui a uns tempos eu dou um pulinho ao inferno, e então você me conta.” Ele deu uma risada, me abraçou e desejou boa viagem.

De onde vem essa coisa do mineiro, esse trem? Há muitas explicações: histó­ricas, sociológicas, psicológicas… Uma de­las, talvez a mais conhecida, é a de que por viver entre montanhas, sem horizontes, o mineiro voltou-se para dentro de si mes­mo e sentiu a necessidade  de inventar histórias. Uai, mas e aqui, na minha região, o Triângulo, onde não há montanhas – quando muito, umas serrinhas –, onde tudo é plano, e as pessoas também gostam, não menos, de contar histórias? Como ficamos?

Uma vez, em São Paulo, numa palestra, eu afirmei que o mineiro gosta tanto de contar histórias que, se ele não fizer isso, ele adoece. Algum anos depois, em Paraty, na FLIP (Festa Literária Interna­cional de Paraty), voltando ao tema, numa conversa com um repórter estrangeiro interessado nas coisas de Minas, fui mais incisivo e disse que se o mineiro não contar histórias, ele fica doido. A declaração foi parar, vejam só, em Londres, na revista de domingo do Financial Times. Lá está: “‘Mineiros who don’t recount casos go crazy’ , he sais. ‘Telling stories is our way of exorcising madness.'” Mad­ness… Pois é. E louco é o que não falta em Minas…

Por falar nisso, nos meus tempos de faculdade, em Belo Horizonte, havia um sujeito que frequentava a biblioteca, uma figura conhecida, que, pra variar, também gostava de contar histórias. A diferença é que ele contava as histórias para ele mesmo. Ou seja: ele era, ao mesmo tempo, o contador e o ouvinte. Contava as histórias em voz alta mas num tom baixo, sem perturbar os outros. Da minha mesa eu o observava e notava as suas expressões enquanto ele contava e ouvia as histórias. As expressões varia­vam, mas o fim era quase sempre o mesmo: uma risada, às vezes um acesso de riso incontrolável, que o obrigava a se levantar repentinamente e a deixar o salão, indo acabar de rir lá fora. Pelo jeito, deviam ser histórias muito engraçadas …

Enfim, iletrados ou letrados, ou nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário, o mineiro gosta de contar histórias. Por­tanto, você de outro Estado ou de outro país, que pela primeira vez vem a Minas Gerais, prepare-se. Ou, melhor, não se prepare: venha de coração aberto, pronto para ouvir uma boa história, que poderá acontecer a qual­quer hora e em qualquer lugar, mas de prefe­rência no boteco, enquanto você come uma carne-de-sol com uma mandioquinha frita, regadas por uma cervejinha gelada (e, claro, uma branquinha da boa), ou à beira de um fogão de lenha, tomando um cafezinho coado na hora e comendo um pão-de-queijo saído agora do forno, ou então durante uma viagem, enquanto seus olhos observam as montanhas, as matas, os campos e os rios deste Estado, em cuja paisagem há quase sempre uma vaquinha pastando e, quem sabe, silenciosamente contando a si mesma alguma história …

Luiz Vilela, escritor, é autor de, entre
outos livros, Tremor de terra (contos),
O inferno é aqui mesmo (romance) e
Bóns e Dóris (novela).


Abaixo, o texto de Luiz Vilela, reproduzido
na revista Projeção, de Ituiutaba, MG.

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