Há um ano, em 12 de dezembro de 2024, no selo Edições Dionysius, saiu Umematsuri, segundo livro de haikais de Mamizu, “Água Doce”, o haimei (nome poético de haijin) de Nima Spigolon.
Umematsuri significa “Festa da Amexeira”, um poderoso símbolo de regeneração. É imagem que coaduna com algumas das metáforas que surgem com o Natal e com o Ano Novo
Para mais detalhes sobre o livro
CLIQUE AQUI !!!
Para comemorar a primeiro ano do livro de Mamizu, o PALAVRA DO EDITOR reproduz abaixo o estudo que consta em posfácio ao livro.
A POESIA INTERTEXTUAL
DE UMEMATSURI
Rauer
Escritor; Professor; Editor;
Em travessia.
No Shúi’wakashú, há o seguinte poema:
kochi fukaba
nini okoseyo
ume no hana
aruji nashi tote
Haru wo wasuruna
(Michizane, Shûiwakashû 16
Miscelânea de Primavera 1006)
O poema foi assim traduzido por Andrei Cunha:
flor da ameixeira
ainda que ausente teu mestre
não esqueças a primavera
quando soprar o vento leste
manda-me teu cheiro
(Cem poemas de cem poetas, Porto
Alegre: Class, 2019, p. 23-24)
No terceiro verso, ume no hana, temos a “flor da ameixeira”. Uma tradução mais literal talvez pudesse ficar assim: “Nestas águas / Me acorde / Flor de ameixa / Sem um mestre / Não se esqueça da primavera”.
Andrei Cunha, na “Introdução” do seu livro (p. 23-24), comenta:
“O amor dos japoneses pela cerejeira é literalmente milenar. No Man’yôshú [de 785], a palavra “flor” (hana) pode se referir à inflorescência de diferentes plantas e árvores. A flor mais popular era a da ameixeira-do-japão (Prunus mude, ume); a cerejeira (Prunus serrulata, sakura) vinha em segundo lugar. A ameixeira, cuja flor serve de brasão para incontáveis escolas em todo o arquipélago japonês, é consagrada à figura de Sugawara no Michizane, deus da literatura […]. Fevereiro, mês de sua morte, marca o fim do inverno e prenuncia a primavera; as primeira árvores que florescem, ainda sob o gelo, são as ameixeiras. A imagem das flores surgindo em meio à neve é associada à persistência diante da adversidade.”
A artvista Nima Spigolon (Mamizu, 真水 – Água Doce) traz, em Umematsuri (Festival da Ameixa), muito mais que uma festa da chegada das flores que rompem ainda no inverno: faz uma festa da poesia, de florescimento de pencas de haiku, de pensar o poema nipônico tradicional na clave de sua aclimatação aos trópicos brasileiros. É um livrinho gostoso de ler, gostoso de estar na mão, gostoso para carregar, presentear, degustar. E contém a poesia sempre sensível, límpida e clarividente de Nima Spigolon.
Vimos acima que no verso ume no hana, ume se refere à ameixeira, e daí vem o Umematisuri que nomeia o livro.
Trata-se, pois, de um topos, de um lugar retórico mais que milenar da poesia japonesa. Trata-se de um espaço físico, geográfico, em um momento no ciclo da natureza, em que ocorrem festas ligadas às ameixeiras em flor. Mais que intertexto, há uma operação antropofágica, uma. apropriação cultural mais ampla, em que Mamizu festeja a superação das adversidades da poeta Nima.
A profa. Nima Spigolon (Unicamp) faz isso mantendo o diálogo intertextual com a tradição nipônica desde o waka, poema do qual deriva o haikai no renga, o hokku, o haicai, o haikai e por fim o haiku.
A nomenclatura se modificou ao longo dos séculos e a nomeação indicia movimento de modificações na forma e no ethos do poema, mas indica que há, também, fortemente, a manutenção das lições poéticas e retóricas da forma [fórma] poética.
A aclimatação temática e formal que Nima realiza em Umematsuri segue preceitos da tradição do haiku, bebendo das fontes clássicas (Bashô, Buson, Issa e Shiki) e das fontes femininas (de Jitô Tennô a Chiyo-Ni, de Ukon a Takeshita Shizunojo, de Izumi Shikibu a Teruko Oda, de Murasaki Shikibu a Sujita Hisajo, de Daini no Sanmi a Takajo Mitsuhashi, para mencionar apenas algumas).
Por outro lado, embora tenha sempre em vista as dezessete sílabas poéticas (os “sons” ou os mora, no conceito nipônico original), não se intimida se romper a métrica dos versos em 5 / 7 / 5, tendo em vista o ritmo interno e o significado construído. Nesse aspecto, bebe de lições que vêm de Bashô aos haijins brasileiros e às haijins ibero-americanas.
Vejamos alguns poemas de Umematsuri; iniciamos pela epígrafe, um poema da haijin Enomoto Seifu (1732-1815):
ao romper do dia,
em conversa com as flores,
uma mulher só
A tradução de Nima para o poema segue a métrica clássica; cada verso é um segmento frasal completo; o poema coloca em cena momento cotidiano: no início do dia, em solidão, uma mulher conversa com as flores. O universo feminino íntimo, sem convívio social, se apresenta no espaço feminino tradicional, com a casa, o jardim e as flores. No primeiro verso, o dia que nasce traz augúrios, o que o segundo verso também enfatiza, com o zoom do espaço cosmológico, do dia que rompe (e romper é ação de força, que a escolha lexical impõem ao não utilizar o “neutro” verbo nascer) para o espaço fechado, em que há uma conversa com as flores. Conversar é dialogar, é estar o ator integrado ao dia, ao jardim, às flores. Há equivalência de ação, de status e de presença entre o ator que surge na cena com o dia que rompe, vitorioso, e as flores do jardim. O terceiro verso qualifica duplamente esse ator: é “uma mulher” e ela está “só”. O verso que desvela o sujeito poético, que representa o eu-poético feminino autoral, fecha o poema surpreendendo em disforia e em oposição aos eufóricos dois versos iniciais.
O que a epígrafe anuncia é que há adversidades na festa das ameixeiras e que os versos de Umematsuri vão nos revelar as flores e os jardins na travessia por dificuldades existenciais.
Assim, o livro nos apresenta sapos, aves, quintais com frutas, libélulas, o estralejar dos bambus e dos ossos, em panteísmo do corpo humano com a natureza. Os sonhos dos pássaros e da brisa indiciam esperanças. E então
o inverno chega,
sem pressa. Cinza, veludo —
voa a andorinha
Nos ciclos vitais, a chegada do inverno é inexorável, embora “sem pressa”– e aí o poema é cortado com um ponto final no transcurso do segundo verso e o qualificativo do inverno surge com inicial maiúscula; no entanto, o “Cinza” vem logo em seguida qualificado de “veludo”, modalizando-o da cor da tristeza para uma sensação sensorial que é acolhedora e de aquecimento.
O corte, o kireji indicado com o travessão, forja a retórica de uma síntese, de uma explicação, de um acréscimo que cristaliza o momento, e então registra uma andorinha que voa. E o inverno contém em si uma imagem de duplo sentido: é liberdade e indicia libertação.
Mais à frente, a epígrafe parece retomada, em poema que é síntese dos aspectos discorridos acima. Eis o poema:
o voo solitário
e os ventres do céu azul:
a graça – e a vida
A solidão – da mulher, do feminino, do eu-poético quase sempre alter ego da poeta – surge em pleno voo; esse voo se dá sob o céu azul, sob “os ventres do céu azul”, estabelecendo o zoom no indivíduo tendo no macro um aspecto cosmológico, da eternidade do universo físico.
Há o primeiro kireji , sinalizado com os dois pontos do final do segundo verso, e o terceiro verso, com outra marca de corte, com o travessão o dividindo em duas partes, amalgamando duas culturas, a ocidental e a oriental, o mundo das religiões monogâmicas com o mundo simples da concretude, daquilo que simplesmente é: a vida.
Uma obra-prima poética, esse poema, em si mesmo, e na construção poética intertextual e antropofágica que Nima Spigolon realiza; aliás, o livro em seu todo, esse Umematsuri , é uma constelação de pequenas joias poéticas que se sucedem.
Se o tema da solidão é reiterado em outros haikais, o tema do amor também surge, e ainda comparecem diversos kigôs e mesmo menções explícitas às estações, e elas surgem constituindo-se em metáforas da existência: a tranquilidade e tristeza no inverno, a alegria e renascimento na primavera, a vivacidade e o vigor no verão, a melancolia e maturidade no outono.
A poeta, a certa altura, declara essa sintonia: “estação em mim” (p. 49).
Encerremos com o poema que consta na quarta capa do livro:
parecia o fim –
mas o haikai no caminho
me fez continuar
Uma vez mais, duas tradições poéticas, a do haikai e a do poema da pedra no caminho de Carlos Drummond de Andrade. A metáfora da dificuldade é ressignificada em metáfora de alento. As adversidades que anunciam o fim, a derrota inexorável com as vicissitudes da vida, é superada com a poesia, com o constructo do poema, com os haikais e os haiku que transbordam superações neste Umematsuri.
Nima nos lega mais uma obra poética de leitura obrigatória.
Rauer Ribeiro Rodrigues
Rauer nasceu em 1958 em Ituiutaba, MG. Escreve desde criança. Cursou Filosofia (USP) e licenciou-se em Estudos Sociais e História em sua cidade natal. Fez Especialização em Literatura (UFU), Doutorado Direto em Estudos Literários (UNESP / Araraquara) e estágio de pós-doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Foi professor de literatura brasileira na graduação e na pós-graduação da UFMS de 2006 a 2024. Tem mais de duas dezenas de livros publicados. Seu primeiro livro, Lugares Intoleráveis (contos), publicado em dezembro de 1981, saiu com data de 1982. Seu livro mais recente é Pequeno Presépio (novela, Dionysius / Pangeia / Saruê, 2024). Atualmente é editor da Pangeia.
Contato: < [email protected] >.
Para adquirir Umematsuri
CLIQUE AQUI !!!