“Epigramas”, de Stefania, é destaque na Revista Philos

O recém lançado Epigramas críticos, de Stefania Chiarelli, é destaque hoje na Revista Philos. Reproduzimos abaixo o texto da revista, à qual agradecemos a acolhida.

Stefania Chiarelli —Epigramas críticos

Na introdução ao romance Mrs Dalloway, em 1928, Virginia Woolf afirmou que um crítico é um “leitor que pôs de lado sua inocência”. Culpada ou inocente, Stefania Chiarelli se investe do papel de leitora em seus Epigramas críticos, lançado pela editora Pangeia em parceria com a Eduff.

O livro propõe o mapeamento de uma certa prosa brasileira, latino-americana e italiana a partir de um recorte temporal que abarca o século XXI, avaliando, no conjunto das literaturas do tempo presente, autores, autoras, obras, temas e contextos de produção específicos, no intuito de traçar um panorama pessoal da literatura recente.Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-Rio com pós-doutorado na Universidade de Roma La Sapienza, Chiarelli é professora associada de Literatura Brasileira na UFF e tem contribuições como crítica literária para os jornais O Globo, Estado de Minas, Folha de São Paulo e Rascunho.

Do expressivo projeto literário da Ítalo-Somali Igiaba Scego à originalidade da prosa da catalã Irene Solà e ao talento de novos escritores brasileiros como Odorico Leal; Stefania Chiarelli propõe um passeio pelos bosques da ficção atual. O fazer literário contemporâneo brota dessas páginas críticas interessadas em capturar um certo ar do tempo.

No volume, a autora lê ficcionistas cuja obra consolidada circula há algum tempo, como Myriam Campello, Adriana Lunardi e Ivan Angelo, e de jovens escritoras como Carol Rodrigues, Marcela Dantés e Carol Bensimon; além de estreantes, a exemplo da romancista Fernanda Teixeira Ribeiro. Prosseguindo na tarefa de pensar os deslocamentos contemporâneos, analisa a obra de Igiaba Scego e da camaronesa Léonora Miano, relevantes nomes no cenário da prosa dedicada às migrações do ponto de vista do feminino negro. A essas leituras se somam destacados autores da prosa italiana, como Domenico Starnone e Sandro Veronesi, ao lado da genial Alba de Céspedes, autora só agora traduzida no Brasil.

Os textos trazem também leituras de ficção literária de autoria feminina em língua espanhola, contemplando autoras do século XX cuja circulação no Brasil felizmente se ampliou nos últimos anos, como as argentinas Aurora Venturini e Silvina Ocampo, e vozes contemporâneas que revisitam a tradição do insólito, a exemplo de Samanta Schweblin e da equatoriana Monica Ojeda.

O empenho em acompanhar o que se produz na prosa recente rendeu em 2022 o volume Partilhar a língua – leituras do contemporâneo (7Letras), em que Chiarelli reuniu escritos breves, em um recorte que apresentava uma forma pessoal de ler temas e questões atuais, a começar pela própria ficção brasileira. Na orelha do livro, a crítica e professora Beatriz Resende destacou:

Partilhar a língua: leituras do contemporâneo é um exercício da crítica literária fascinante, necessário e corajoso. Corajoso por enfrentar o imediatamente contemporâneo, sem esperar que as obras recebam consagração pela academia ou o aceite do mercado. Por mais de dez anos, Stefania leu e comentou o que acabava de ser publicado, o que é sempre um risco. Com a erudição e a sensibilidade que possui, partilha com leitores seu gosto, sua avaliação crítica, estabelecendo relações com a vida, o mundo com sua geopolítica de hoje, e um forte repertório de outras obras literárias que chama ao diálogo com seu texto.

Epigramas críticos retoma esse fio interpretativoavançando em leituras que contemplam obras publicadas entre 2021 e 2025, em trinta textos caracterizados pela brevidade. De início, Chiarelli apresenta suas rotas de leitura, vendo-se na posição instável de quem se questiona o tempo todo. No que se refere à circulação, a ensaísta destaca a perda gradativa dos espaços destinados à crítica e à reflexão sobre literatura nos meios de comunicação impressa, obrigada a se reinventar diante da chegada de novas tecnologias e da expansão da informação para outras plataformas e suportes. A literatura deslizou para diversos lugares e atingiu distintos públicos, se adaptando a novas contingências. De modo paralelo, feiras e festas literárias proliferaram de norte a sul do país, dando a conhecer outras perspectivas das produções locais e alterando as formas de perceber o que seria a chamada literatura brasileira.

A autora salienta também a virada da década, percebida na expressiva publicação de títulos assinados por mulheres, abrindo uma janela para temas e questões ligadas ao feminino, com desdobramentos para as questões de gênero, classe e raça, o que matizou o olhar no sentido de perceber representações menos estereotipadas, na recusa de um suposto universal.

Também destaca a presença de uma geração de autores e autoras em cuja prosa se faz presente a temática social aliada a uma determinada geografia do nordeste brasileiro, de escritos que falam de contrastes e tensões entre o campo e a cidade; de um lado, o interior impregnado de referências marcadas pela religiosidade sertaneja e por matrizes culturais em constante entrecruzamento; de outro, as garras predatórias do dito progresso. Seus personagens se equilibram entre temporalidades e espaços superpostos, como na obra Corpo desfeito (2022), de Jarid Arraes, e Dilúvio das almas (2022), de Tito Leite, em que a suposta essência de um Brasil profundo e de raízes autênticas não será encontrada.

Delineia ainda uma escrita inclinada para a visitação da intimidade, linha de força que se fez ver nas narrativas do luto, na proliferação de biografias, diários, cartas, relatos e memórias. Em um cenário de pós-pandemia e confrontos bélicos por todo o planeta, a literatura procurou respostas para as dores pessoais e as perdas coletivas, em textos de tom confessional, como demonstram Lili, novela de um luto (2021), da paulista Noemi Jaffe, em torno da perda da mãe, sobrevivente do genocídio judaico, assim como As pequenas chances (2023), da paulista Natalia Timerman, que retoma a morte do pai, além do ensaio autobiográfico Todo o tempo que existe(2022), da carioca Adriana Lisboa.

Chiarelli nota ainda uma escrita que recupera traumas coletivos, em vínculo estreito com a dimensão ética da memória, presente em romances que assumem o compromisso de reelaborar as cicatrizes da ditadura, tomando para si a tarefa de narrar o horror de governos autoritários, como na prosa de Milton Hatoum na trilogia O lugar mais sombrio, iniciado com o romance de formação A noite da espera (2017), ao que se seguiu Pontos de fuga (2019). É igualmente a dura luta nos anos de chumbo a matéria prima de O corpo interminável(2019), de Claudia Lage, um mergulho nos traumas da nossa história coletiva.

O passado como possibilidade de reinvenção configura uma outra vertente na literatura nacional, sobretudo a de caráter metanarrativo, em que a criação é fruto de leituras e reescrituras: textos que remetem a outras obras ou ficcionalizam personagens reais, como Pagu no metrô (2021), de Adriana Armony, e Homem de papel (2022), de João Almino.

A ensaísta registra igualmente a presença de narrativas marcadas pela quebra de paradigmas realistas, por meio da presença de elementos sobrenaturais e acontecimentos ligados a tradições indígenas e afro-brasileiras: Por cima do mar (2018), de Deborah Dornellas, Torto arado(2018), de Itamar Vieira Junior e O som do rugido da onça (2021), de Micheliny Verunschk. Não por acaso, três romances em que o oceano Atlântico surge como espaço atravessado por sujeitos escravizados ou obrigados a migrar sem ter escolhido tal destino, lugar de morte cuja viagem os aparta dramaticamente dos antepassados.

Em Epigramas críticos, Chiarelli alude ao discurso de Silviano Santiago proferido na cerimônia de premiação do Camões de 2022, em que o crítico mineiro destacou a presença de “abalos sísmicos” que seriam duradouros na literatura do presente. O ensaísta se referia aos novos e bem-vindos protagonistas dessa cena literária e afirmou ser chegado o momento de “liberar a literatura brasileira às águas amazônicas e às atlânticas africanas e a todas as correntes diaspóricas”. Na apresentação, a pesquisadora Rosana Kohl Bines anota:

Os ensaios de Stefania Chiarelli, aqui reunidos, […]  criam breves itinerários de leitura, a partir de pequenos indícios, colhidos da mais recente produção literária brasileira, italiana e latino-americana, escrita sobretudo por mulheres, conectando-nos sem demora ao pulso quente de cada uma das narrativas comentadas. (…) Há algo da sabedoria do tempo na prosa crítica de Stefania Chiarelli. Um batimento afinado a ‘essa coisa viva demais’ que não para de chegar a cada novo livro aberto com avidez. A leitura aqui é sempre hoje.

A ideia de dar passagem “ao desejo dos leitores de se aproximarem daquilo que os outros escrevem”, conforme sinaliza a crítica argentina Tamara Kamenszain, fundamenta muito das leituras de Chiarelli. Igualmente o gesto de escrever com clareza e a filiação ao suposto gênero menor, dos escritos breves.

Dar passagem às leituras, sinalizando aspectos, tecendo relações e apontando itinerários caracteriza a crítica epigramática de Chiarelli. A autora escolhe o ponto de cruzamento em que alguém cria espaço para os escritos de outro alguém, permitindo que algo avance em direção aos leitores, em uma mediação generosa:

“trabalhar com textos recentes ou produzidos nos últimos anos exige o gesto de recalcular rotas de leitura e aproximação. O mapa é instável; os caminhos se bifurcam. Ler o contemporâneo exige fôlego e flexibilidade, em um constante repensar os próprios passos.” — Stefania Chiarelli

Publicação original em
https://revistaphilos.com/stefania-chiarelli-epigramas-criticos/


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