Flávia de Queiroz Lima faz travessia poética, em seu mais recente livro, Resgate, lançado em 2025, no qual a escritora, através da força das imagens que evoca e constrói na tessitura dos versos, cria efeitos de sentido impactantes, trabalhando temas os mais diversos: da infância à subjetividade, da polis politica ao meio-ambiente, da corrupção na gestão pública às questões familiares, de poemas metapoéticos a versos engajados.
É o que a estudiosa de literatura Rosemary Ferreira de Souza, doutora em literatura pela UFMG, demonstra no estudo que publicamos na íntegra a seguir.
UM OLHAR SOBRE RESGATE, DE
FLÁVIA DE QUEIROZ LIMA
Rosemary Ferreira de Souza *
O livro Resgate, escrito por Flávia de Queiroz Lima, é uma obra poética que explora temas profundos e universais. A capa, com seu design minimalista e simbólico, nos convida a uma reflexão sobre o conteúdo que ela abriga. O título ‘Resgate’ sugere uma jornada de recuperação, libertação ou reencontro, seja consigo mesma, com o passado, com algo que foi perdido ou até mesmo um reavivamento da poesia, ao lembrar a trajetória de uma escrita percorrida e construída em versos.
A capa apresenta um fundo laranja queimado, que resulta num tom terroso e quente, uma cor que evoca energia, criatividade e paixão. Sobre ele, destaca-se uma ilustração em branco que ocupa a maior parte da área. Essa ilustração aparenta uma renda bordada por traços definidos, que sugerem um resgate da própria vida e também das veias poéticas, por onde vemos uma intrincada tapeçaria de elementos naturais e figuras abstratas.
A presença de galhos, folhas e até pequenos animais dentro do contorno esboçado pode simbolizar a conexão intrínseca entre o ser humano e a natureza, ou como nossos pensamentos e emoções são tão complexos e orgânicos quanto um ecossistema. A forma como os elementos se entrelaçam sugere a complexidade da mente humana, os pensamentos que florescem, as memórias que se enraízam e as emoções que se ramificam. E pode representar a busca por entender a própria psique.
A arte em branco sobre o fundo vibrante pode ser vista como a expressão de ideias ou sentimentos que emergem do interior, talvez um processo de autoconhecimento ou de cura, onde o “resgate” ocorre ao dar forma a esses elementos internos. O livro se destaca com uma tipografia elegante e clara, que não compete com a arte principal, mas a complementa, conferindo a devida importância ao título e à obra.
Resgate é uma obra de arte por si só. A autora utiliza elementos visuais, todos de autoria do artista plástico Pedro Miranda [ver nota após o texto], para evocar os temas que serão explorados nos poemas: a introspecção, a natureza da existência, a complexidade humana e a busca por um sentido ou libertação – isso além de expandir e aprofundar memória e identidade, subjetividade e criação poética, afeto e ancestralidade, tempo e fragmentação, dentre outros. O livro é um convite visual que instiga a curiosidade e prepara o leitor para uma experiência poética profunda e reflexiva.
A dedicatória a mim externada neste livro chega como um bilhete especial, deixado dentro de um presente, algo que torna a leitura ainda mais significativa. Vale mergulhar na metáfora do bordado dessa poesia, expressão de que gosto muito, pois sugere que a vida é feita de muitos detalhes e experiências.
O livro Resgate é dividido em quatro partes: Aragens, Trilogia à Mulher, Desatinos e Resgate, além de incluir dois sonetos escritos pelo avô da autora, escritos especialmente para sua avó. Flávia, em sua carta a quem lê Resgate, no início do livro, afirma que os poemas foram escritos nas perspectivas desses olhares – “foram morar nos escaninhos”, modo pelo qual ela intitulou as quatro partes do livro.
Vamos a cada um desses “escaninhos”.
Aragens
A primeira parte do livro, intitulada “Aragens”, apresenta-se como um convite à contemplação e à introspecção. A imagem que acompanha esta seção, um vitral estilizado retratando uma figura feminina tocando um instrumento musical, evoca uma atmosfera etérea e artística, que dialoga com os versos apresentados. A poesia aqui contida explora a relação intrínseca entre a beleza e a sua manifestação, como um talismã pessoal e duradouro.
Os versos
Há muito fiz da beleza
meu talismã cristalino
vêm como epígrafe desta parte do livro e sugerem uma profunda internalização da beleza como um elemento protetor e de força. Esses versos são da própria autora e fazem parte do poema “Louvor à beleza”, inserido na seção “Aragens”. Não se trata de uma beleza efêmera e superficial, mas de algo consolidado ao longo do tempo, transformado em um amuleto pessoal, límpido e resistente como um cristal. Essa concepção da beleza como um refúgio ou um poder intrínseco à alma é um tema recorrente na literatura, mas aqui é apresentado com uma singularidade, que convida à reflexão sobre como cada indivíduo constrói suas próprias defesas e fontes de inspiração.
A ilustração do vitral, com suas cores vibrantes e formas fragmentadas, complementa a poesia de maneira notável. A figura feminina, em sua postura serena e concentrada na música, pode ser interpretada como a própria poetisa ou uma representação da beleza em si, manifestando sua essência através da arte. A técnica do vitral, que fragmenta a luz e a recompõe em um todo harmonioso, ecoa a forma como a beleza é construída a partir de experiências e percepções, tornando-se um escudo contra as adversidades da vida, um “talismã cristalino”.
Os poemas que a autora insere nesta parte do livro revelam o movimento poético que sopra nos ouvidos do leitor, feito aragem visual diante dos olhos, frescor de vida, vento da poesia que vem para tocar o ser. “O tempo do olhar”, por exemplo, é um poema que explora a dualidade entre a pressa, que atropela e descarta, e o olhar atento, que acolhe, investiga e desvenda os mistérios da existência. Através de uma linguagem poética, fluida e imagética, a autora tece uma narrativa sobre como a velocidade da vida moderna pode nos privar da profundidade e da sutileza das experiências, enquanto um olhar mais pausado e questionador nos permite acessar o invisível e o profundo:
A pressa nos atropela
o olhar que acolhe e contempla,
se aproxima do mistério,
adentra a sombra, desvenda.
A pressa é apresentada como uma força avassaladora que nos impede de apreender a realidade em sua plenitude. Em contrapartida, o olhar contemplativo é descrito como um ato de aproximação e desvendamento, capaz de penetrar na “sombra” e revelar o que está oculto.
Em “A Vida é Móbile”, a autora explora a natureza efêmera e mutável da existência, ela utiliza uma rica tapeçaria de metáforas visuais e sensoriais para construir sua argumentação poética. A primeira parte do livro, “Aragens”, estabelece um tom de leveza e movimento, que se aprofunda neste segundo poema. O poema se inicia com a afirmação direta: “A vida é móbile”. Esta premissa é imediatamente desdobrada através de imagens que evocam instabilidade e dinamismo.
Nesse poema, a vida é descrita como algo que “move-se ao vento”, “suspensa em fios”, e que se assemelha a um “jogo de pêndulos”. A sensação de precariedade é acentuada com a caracterização da vida como “presa no instável” e “solta no efêmero”. A metáfora do “vento esquivo” que “desencadeia caleidoscópios, desdobramentos” sugere a multiplicidade de formas e a constante reinvenção que caracterizam a existência. Cada elemento, em sua fluidez, “se reequilibra, se reinventa, no movimento”, reforçando a ideia de que a própria essência da vida reside em sua impermanência e adaptabilidade.
Já no poema “Detalhes”, Flávia apresenta uma reflexão profunda sobre a percepção da beleza e do tempo através da lente do haicai e da observação atenta do cotidiano. O poema se inicia com uma epígrafe que evoca uma imagem visual marcante:
alongam no muro
os ramos secos da hera –
inverno sem luz
assinada por Rauer, estabelece um tom melancólico e introspectivo, sugerindo a passagem do tempo e a beleza encontrada na aparente desolação. O eu lírico estabelece uma conexão direta com a forma do haicai, afirmando que “O haikai me estende a beleza / iluminando detalhes”. Essa relação sugere que a estrutura concisa e focada do haicai, com sua ênfase na natureza e nos momentos fugazes, permite uma apreciação mais profunda dos pormenores da existência.
À medida que a leitura flui, o resgate se expande. Não há como ler e parar, emerge a necessidade de seguir adiante, mergulhar nos versos e sentir as aragens poéticas das palavras. O poema “A Cidade que me habita” trouxe uma conexão de vida e poesia, pelo gosto por sua temática, que há algum tempo venho estudando como crítica literária. Este poema explora a complexa relação entre o eu lírico e o espaço urbano, concebido não como um local físico estanque, mas como uma entidade viva e intrinsecamente ligada à subjetividade. A obra Resgate, em sua totalidade, busca, como o título sugere, uma reconexão com aspectos essenciais da existência, e a subparte “Aragens” é o prelúdio dessa jornada, introduzindo elementos sensoriais e existenciais, que preparam o leitor para um mergulho mais profundo.
O poema “A Cidade que me habita” é epigrafado por uma afirmação paradoxal:
Nunca a mesma, sempre a mesma
de Maria Nazareth Fonseca. Esta antítese estabelece o tom para a compreensão da cidade como um ente mutável em sua essência, mas constante em sua presença definidora. O eu lírico se sente constantemente observado e influenciado por essa cidade:
é seu olhar que me fita.
A urbanidade se manifesta de forma sedutora, infiltrando-se na subjetividade através de “cores, perfumes”, e gerando um sentimento de posse:
é dona de meus espaços,
a cidade que me habita.
A cidade, portanto, transcende o concreto, tornando-se uma projeção interna, um espelho das inquietações e desejos do indivíduo. A dualidade entre “invenção e verdade” nas fronteiras da cidade, seu “labirinto de espelhos”, sugere uma realidade construída e, ao mesmo tempo, reveladora de uma verdade interior, um “arrepio” que remete às “primeiras madrugadas” e às “vontades” arriscadas.
A cidade que visita o eu lírico também se evade, reforçando sua natureza efêmera e inatingível, apesar de sua profunda internalização. Ela se torna um receptáculo de memórias e um espaço de autoconhecimento, um
canteiro sem bordas
replantado em meus jardins.
A exploração de seus
porões e varandas,
horizontes e confins
representa a totalidade do ser, onde a cidade habita e se expande, moldando a percepção do mundo e de si mesmo. A análise detalhada do poema “A cidade que me habita” revela camadas de significado, que convidam à introspecção e à reavaliação da própria relação com os espaços que habitamos e que, em última instância, nos habitam.
Como não poderia deixar de destacar, a intertextualidade revela as leituras da autora e seu diálogo com grandes poetas, como demonstra o poema “Quebrar os ovos”, ao apresentar a epígrafe com versos do poema “Catar feijão”, de João Cabral de Melo Neto. O poema de Flávia, “Quebrar os Ovos”, estabelece um paralelo engenhoso entre a ação de catar feijão e o ato de escrever. Num jogo de metáforas, o fazer poético se desponta, catar feijão / quebrar os ovos é uma comparação que sugere a importância da matéria-prima e do suporte, mas também a necessidade de um método, de uma ação deliberada, o equilíbrio entre razão e emoção.
O ato de quebrar ovos, comparado ao fazer poético, é um processo que exige
[…] sapiência,
certo equilíbrio entre usar força e sutileza.
A finalidade é preservar a integridade da gema e da clara, evitando que a casca se esfacele. A ação descrita –
bater o garfo incisivo, sem melindres,
num gesto breve entre o cuidado e a destreza
– evoca a precisão e a economia de movimentos, características advindas da poesia de João Cabral de Melo Neto. A arte da escrita, mesmo quando medida e precisa, deve preservar um certo fogo, uma intensidade que não se esgota, mantendo o leitor em um estado de desejo e contemplação:
Resta cuidar que assim, medida, não sacie,
mantendo a fome na ardilosa incandescência.
A comparação com o ato de quebrar ovos sublinha a importância do cuidado, da destreza e da sutileza na construção poética, visando à revelação da essência.
Essa subparte, “Aragens”, finaliza com o poema “Louvor à beleza”, mencionado anteriormente, cujos versos oferecem uma profunda reflexão sobre a natureza da beleza, sua percepção e sua influência na experiência humana. A beleza é apresentada em suas manifestações mais etéreas e naturais, como apresenta a epígrafe atribuída a Ferreira Gullar:
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo.
A beleza é associada à leveza, como ensina a citação atribuída, ao mencionar a ideia de beleza pensada por Oscar Wilde (“a beleza é leve”). Essa leveza contrasta com os pesos que o eu lírico escolhe não carregar:
Não carrego anjos da guarda
me ajeitando descaminhos,
nem demônios que atormentem,
açulando desatinos,
o mau agouro, presságios,
maldições e vaticínios.
A recusa de regências espirituais tradicionais ou supersticiosas:
Não me regem orixás,
vozes do além, mantras, hinos,
bentinhos, escapulários,
amuletos e mandalas,
nem medalhas protetoras,
guardiãs de meus destinos
reforça a autonomia e a busca por uma beleza que transcende os rituais e as proteções convencionais. A beleza se torna, assim, um “talismã cristalino”, uma proteção intrínseca e pura, forjada pela própria experiência e percepção do eu lírico, como expresso em
Há muito fiz da beleza
meu talismã cristalino.
Os versos de Flávia de Queiroz Lima, ao incorporar essa perspectiva, sugerem um caminho de resgate da leveza e da autenticidade na percepção do mundo e de si mesmo.
Trilogia à mulher
Em “Trilogia à mulher”, segunda parte do livro Resgate, Flávia oferece uma reflexão sobre desejo e criação, ao dar ênfase ao poder da voz interior e o anseio. O título “Trilogia à mulher” sugere uma obra focada na experiência feminina, possivelmente explorando diferentes facetas ou fases. A frase / epígrafe
Se ela habita essa voz quando expressa o desejo
redesenha o lugar onde a vida acontece
nos convida a pensar sobre a importância da voz interior da mulher, especialmente quando ela se permite expressar seus desejos mais profundos. Esse pensamento pode ser atribuído quando uma mulher tem a vontade forte de fazer algo – seja aprender uma nova habilidade, viajar ou mudar de carreira. Essa voz que surge dentro dela e que a impulsiona é poderosa. Quando a mulher ouve e age com base nessa voz interior, ela está se conectando com sua essência e com o que realmente a move.
A segunda parte da epígrafe em “Trilogia à mulher”, “redesenha o lugar onde a vida acontece”, indica onde a mágica acontece. Não se trata apenas de desejar, mas de usar essa expressão de desejo para transformar o ambiente ao redor, a própria vida ou a percepção que se tem dela. Redesenhar um espaço é torná-lo um lugar onde a vida acontece de forma mais prazerosa e produtiva. Da mesma forma, quando uma mulher expressa seus desejos, ela pode remodelar suas relações, seu trabalho, sua comunidade e, em última instância, o palco onde sua vida se desenrola.
Os poemas desta seção se conectam com a ilustração do vitral com figuras humanas e elementos da natureza, que reforça essa ideia de criação e transformação. As cores vibrantes e a forma como as figuras estão integradas ao cenário podem simbolizar a beleza e a complexidade da vida que é moldada pela expressão feminina. A arte, assim como a expressão de desejo, tem o poder de nos mostrar novas perspectivas e de nos inspirar a criar as realidades que desejamos viver. A “Trilogia à mulher”, com essa mensagem, é um convite para que as mulheres reconheçam o poder de suas vozes e desejos como ferramentas de autoconstrução e de redefinição do mundo ao seu redor.
O poema “Viver à sombra” apresenta uma profunda reflexão sobre a existência em um estado de letargia e conformismo. Os versos exploram as complexidades da identidade feminina e as diversas formas de vivência. O título “Viver à sombra” evoca uma condição de existencialismo passivo, onde a vida é vivida sem o ímpeto do sonho ou do desejo. A autora utiliza imagens fortes para descrever esse estado: um “lugar sem sonho aceso, sem desejo”, “tecido em malhas do ilusório, opaco e denso”. As “marcas fundas das renúncias, dos silêncios” sugerem um fardo de experiências não vividas ou suprimidas. A segunda estrofe aprofunda essa ideia, falando de “anseios represados, diluídos” e de um “deserto semeado de inquietudes”, onde a vida, sem a “rega” da ação ou da paixão, não floresce.
A última estrofe introduz a fusão entre “sombra e sobra”, um espaço de “vazios”, onde as experiências passadas não deixam marcas, comparando-se a “uma vela derretendo sem pavio”. O estilo é marcado por uma linguagem densa e metafórica, com um tom melancólico e introspectivo, característico da poesia lírica, que explora o universo interior. A força das imagens poéticas e a musicalidade dos versos criam uma atmosfera de profunda reflexão sobre a condição humana e as escolhas que moldam nossa existência.
O poema “Rastro invisível” é uma ode às mulheres que, de alguma forma, marcaram a vida do eu lírico. O título sugere a ideia de uma presença sutil, mas profunda e duradoura, que não é imediatamente aparente, mas que deixa uma marca permanente. A dedicatória “Às mulheres que habitaram minha vida com seus gestos de afeto” estabelece o tom de gratidão e reconhecimento, com o foco na força e no impacto dos gestos de carinho e cuidado.
O primeiro verso, “Bem lentamente a luz se espalha sobre elas”, evoca uma imagem de revelação gradual. A “luz” pode ser interpretada como a compreensão ou a memória que ilumina a presença dessas mulheres. A “sombra”, por outro lado, “ainda embaça seu desvelo”, sugerindo que, mesmo com essa iluminação, há um véu de mistério ou uma certa dificuldade em apreender completamente a essência delas. No entanto, um “rastro oculto, indelével” emerge, formado pelos gestos que “teceram” a vida da poetisa. Esses gestos silenciaram “temores” e ofereceram um “abraço que acalanta”, demonstrando o poder curativo e reconfortante dessas figuras femininas.
A segunda estrofe aprofunda a metáfora da tecelagem. O desejo de “reparar o lado avesso do tecido” sugere uma vontade de entender as complexidades e os detalhes por trás das aparências. O “cerzido” (costura para remendar) se entrelaça ao “bordado” (ornamento), mostrando como os atos de cuidado e reparo também são belos e significativos. Os “nós se fecham como laços delicados”, e cada “ponto” adiciona sentido a um tempo dedicado, reforçando a ideia de que a vida é construída por esses pequenos, mas essenciais, atos de amor e atenção. Essa leitura pode ser direcionada para o ato da criação poética, o cerzir e o bordar das palavras na linguagem literária.
A terceira estrofe foca nos “momentos de cuidados” que revelam um “dom secreto”. As mãos dessas mulheres não apenas realizavam tarefas, mas possuíam uma sabedoria inata. A imagem de “poções mágicas de afeto” é poderosa: mesmo que a “boca” ralhasse (talvez por preocupação ou disciplina), o gesto “soprava no ferido”, curando. A febre (simbolizando aflição ou doença) cessava, o choro se acalmava, o medo era aliviado, e o rosto, antes tenso, tornava-se “contido”, em paz. Isso ilustra como o afeto, mesmo em suas formas menos óbvias, tem um poder transformador.
A estrofe final descreve como a “miudeza” (pequenez, simplicidade) ganha força na “rotina cotidiana e relutante”. Superando “obstáculos e fronteiras”, o “condão” (encanto, poder mágico) dessas mulheres se revela. De forma “descortinada”, elas “assomam” ao olhar da poetisa. O “rastro” que deixaram, antes invisível, agora “se ilumina”, culminando na ideia de que o que é sutil e muitas vezes não percebido é, na verdade, o que dá luz e sentido à existência.
O último poema desta trilogia, “O dom da voz”, explora a força e a capacidade transformadora da voz humana e da expressão. Ele nos convida a pensar sobre como nossas palavras e nossa forma de nos comunicar podem moldar a realidade, quebrar barreiras e até mesmo regenerar o que parece perdido. É uma reflexão sobre o poder intrínseco que temos ao nos expressarmos, seja através da fala, da escrita ou de qualquer outra forma de comunicação que emane de nós.
A primeira parte do poema descreve uma voz que não se limita, que transita livremente por “fronteiras, sem véus, sem mordaças”. Ela confronta “abismos” e “muros”, sugerindo que a voz tem o poder de superar obstáculos e medos. Ao “palmilhar infinitos” e “transpor universos”, a voz expande horizontes, abrindo caminhos e destinos. Ela “sorve o mundo que pulsa e se infiltra na pele”, mostrando como a voz absorve as experiências e as transforma em algo pessoal e marcante, “tatuando seu rastro, entalhando caminhos”.
A segunda estrofe aprofunda a ideia de que, quando a voz expressa um desejo genuíno, ela tem o poder de redesenhar a realidade. Ela “molda um tempo capaz de alterar seus desfechos”, indicando que a forma como nos expressamos pode mudar o curso dos eventos. A voz se torna um “condão de acender cada sonho”, uma força mágica que dá vida a aspirações. E, assim como uma planta que brota mesmo em um “deserto”, essa voz “rega o chão que semeia, viceja, floresce”, trazendo vida e crescimento onde antes havia aridez.
A última parte do poema fala sobre como as vozes se entrelaçam, formando uma “teia”. Essas vozes “desamordaçam silêncios, esperas”, libertando o que estava contido. Elas “transbordam o indizível”, expressando aquilo que é difícil de colocar em palavras, e “afrontam limites”, desafiando o status quo. O espaço criado por essa conexão de vozes “refaz, regenera”, trazendo renovação. “Cada gesto se alastra, se alonga, insiste”, mostrando a persistência e o impacto dessa expressão coletiva, “desvelando palavras que a voz reverbera”.
Desatinos
A terceira parte do livro Resgate, intitulada “Desatinos”, apresenta-se como um momento crucial na exploração temática do livro. Essa subparte apresenta uma epígrafe que encapsula a essência do que se desenrolará:
Se a narrativa tira a venda, desembaça,
da lucidez emerge a urgência, soa o alarme.
A arte visual que abre essa parte, uma pintura abstrata e expressiva, sugere uma imersão em estados emocionais intensos e talvez caóticos, que se alinham com o conceito de “desatinos” – ações ou pensamentos que fogem à razão, que se desviam do senso comum ou da normalidade.
A pintura apresentada em “Desatinos” é fundamental para a interpretação desta seção. Com suas cores vibrantes e pinceladas fortes, a obra evoca um turbilhão de emoções. A figura central, com o rosto fragmentado em tons de vermelho e amarelo, e um coração vermelho proeminente, pode simbolizar a alma exposta, a vulnerabilidade e a intensidade dos sentimentos que os “desatinos” representam. A abstração sugere que a experiência humana em estados de desrazão ou de intensa emoção é difícil de ser contida em formas lógicas e racionais, necessitando de uma linguagem visual que capture sua complexidade e força. A arte, aqui, não é meramente ilustrativa, mas coadjuvante na expressão dos temas centrais da seção.
O primeiro poema, intitulado “Enredados”, é precedido pela citação “Nós nunca vivemos tanto na caverna de Platão” com autoria de José Saramago. Os versos se iniciam com a imagem de uma fogueira que, ao acender sombras na caverna, molda figuras fantasmagóricas e ergue muros, simbolizando a criação de ilusões e a limitação da percepção. A cegueira que se espalha e a treva que alarga sugerem um aprisionamento na ignorância, onde a realidade é deformada e as aparências se sobrepõem à verdade, invertendo a ordem natural e tecendo um futuro incerto. As “novas cavernas” que brotam e enclausuram o pensamento, comparadas a uma rede, indicam a complexidade e a dificuldade de escapar de armadilhas mentais e sociais. A figura do marionete que manipula os próprios fios, engessa os medos e paralisa o movimento, evoca a autossabotagem e a inércia diante da realidade. A menção a “cercas invisíveis” que esmagam o tempo reforça a ideia de um aprisionamento temporal e existencial, onde a liberdade é ilusória e o progresso é impedido.
A alegoria da caverna de Platão, referenciada explicitamente na introdução do poema, serve como pano de fundo essencial para a sua interpretação. A caverna representa o mundo sensível, onde os prisioneiros veem apenas sombras projetadas na parede, tomando-as como a única realidade. O poema “Enredados” espelha essa condição ao descrever a criação de ilusões (sombras, muros, trevas) que deformam a realidade e aprisionam o pensamento. A saída da caverna, que na filosofia platônica simboliza a ascensão ao mundo das ideias e à verdadeira compreensão, é aqui metaforicamente representada pela tentativa de desembaçar a lucidez e desvendar a “farsa das imagens”. A “artimanha do supérfluo” e a “névoa que moldou nossa miragem” aludem às ilusões e falsas aparências que, tal como as sombras na caverna, impedem o indivíduo de alcançar a verdade e a liberdade de pensamento.
Já no poema “Terra à Vista”, a escritora Flávia de Queiroz Lima evoca uma profunda reflexão sobre o estado atual do planeta Terra, contrastando a visão idílica do cosmonauta com a realidade degradada pela ação humana. A epígrafe de Yuri Gagarin, “A terra é azul”, serve como ponto de partida para uma análise crítica e pungente da relação entre a humanidade e o meio ambiente.
A primeira parte do poema descreve um planeta doente, “agora enfermo”, que “se devora em febre alta e calafrios”. A degeneração é acentuada pela imagem de um ambiente “sufocado pelo lixo”, que devasta o verde, polui os mares e rios, e profana o ar. A expressão
– espaço límpido de outrora –
envenenado pelo nosso desperdício
estabelece um forte contraste entre um passado idealizado e um presente desolador, marcado pela irresponsabilidade humana.
O poema transita para a perspectiva do cosmonauta que, de longe, vislumbrava a “bela imagem navegante” da Terra, “envolta em nuvens, flutuando iluminada”. Essa visão, antes deslumbrante e surpreendente, torna-se um marco distante diante da realidade presente. A segunda parte do poema, iniciada com “Visto de perto”, revela um planeta que “estende os braços, clamando exausto”, expondo as “mazelas da cidade impermeável”, com seus rios de concreto e dejetos. A natureza, antes bela e serena, agora se encontra “enfurecida” e “se rebela contra o domínio sufocante da ganância”. A tempestade que desaba e as enchentes que “enlameiam seu trajeto” simbolizam a revolta do planeta contra a exploração humana.
O poema culmina com um questionamento sobre o futuro do planeta. A “ameaça num futuro que atropela” paira sobre a terra, e a pergunta final –
será que o azul,
cada vez mais enfumaçado,
torna essa epígrafe ilusão que se dispersa?
– é um apelo à reflexão. A beleza azul da Terra, outrora um símbolo de esperança e vida, corre o risco de se tornar uma mera ilusão, obscurecida pela poluição e pela ganância humana. O poema, portanto, não oferece respostas, mas convida o leitor a confrontar a gravidade da crise ambiental e a urgência de uma mudança de atitude.
A seção “Desatinos”, em Resgate, aprofunda a exploração da condição humana quando confrontada com verdades difíceis ou com a própria intensidade de suas emoções. A obra sugere que a aparente irracionalidade pode ser um caminho para a lucidez e que essa lucidez, por sua vez, impõe um senso de urgência. A combinação do texto poético com a arte visual expressiva, na sequência dos poemas, cria um espaço para a reflexão sobre os limites da razão e a força do instinto e da emoção no processo de autoconhecimento e, consequentemente, de resgate.
O poema “Abismo”, inserido na subparte “Desatinos”, explora a profundidade do vazio existencial e da carência, entrelaçando-os com a ironia e a violência da condição humana. A estrutura do poema, com seus versos concisos e imagens impactantes, convida à reflexão sobre a fome, a miséria e o desamparo que marcam a experiência de muitos.
A primeira estrofe,
Um grande vazio ronca
na barriga,
na descrença.
estabelece desde o início a dualidade da fome: a física, expressa pelo ronco na barriga, e a existencial, manifestada na descrença. A segunda estrofe,
A longa fila do osso,
prolongando a vida avessa,
deixa à míngua,
colhe a xepa
da fartura que transborda
– refugo jogado fora
esbanjando indiferença.
constrói uma imagem poderosa da escassez em meio à abundância, onde a vida é prolongada de forma precária, alimentando-se dos restos, do que é descartado em um cenário de indiferença. A terceira estrofe,
A prateleira vazia
só promete a noite insone.
reforça a ideia de privação e a consequente angústia que a acompanha. A quarta estrofe,
No desamparo incessante
a prole em volta, que chora,
compartilha o estreito espaço,
mas preenche o desalento
quando, aflita, se amontoa,
se protege, se consola.
retrata a solidariedade forçada pela miséria, onde o desamparo é compartilhado, e o conforto é encontrado na união, mesmo que aflitiva. A quinta estrofe,
Só a ironia atravessa
esse abismo onde se apartam
as digitais da penúria
e as sobras desperdiçadas.
introduz a ironia como um elemento que permeia essa realidade, separando a marca da pobreza dos resíduos da opulência. Finalmente, a sexta estrofe,
Feito um deboche que humilha,
a fome,
exposta ao descaso,
desmascara a violência
obscena,
escancarada.
conclui com a imagem da fome como um deboche humilhante, que, exposta ao descaso, revela a violência crua e explícita da desigualdade social.
Os temas centrais do poema são a fome, a miséria, o desamparo, a ironia e a violência social. A linguagem utilizada por Flávia é direta e carregada de imagens sensoriais e conceituais, com um vocabulário que evoca a precariedade e o sofrimento. A escolha de palavras como “ronca”, “descrença”, “avessa”, “míngua”, “xepa”, “desamparo”, “aflita” e “obscena” contribui para a construção de uma atmosfera de desolação e crítica social. A estrutura em versos livres e a ausência de rimas marcadas conferem ao poema um tom confessional e urgente.
O poema “Abismo”, de Flávia de Queiroz Lima, é uma obra pungente que, através de uma linguagem crua e imagens fortes, desnuda as mazelas da fome e da desigualdade. A capacidade da autora em entrelaçar o físico e o existencial, o individual e o coletivo, a ironia e a violência, torna este poema um poderoso retrato da condição humana em seus aspectos mais sombrios e desafiadores. A análise revela a maestria com que a poetisa constrói um universo de privação, onde a sobrevivência se torna um ato de resistência e a solidariedade, um refúgio precário diante do abismo social.
Flávia continua a bordar temáticas, a tecer reflexões, a cerzir palavras nos demais poemas apresentados nesta seção. Há poemas como “Navalha”, em que a autora explora a natureza da poesia e sua relação com a verdade e a ilusão, utilizando metáforas poderosas e imagens vívidas. O poema “Navalha” inicia com o desejo de “atiçar poemas” como se fossem “enredos crepitando no estalido da fogueira”, onde a “trama é revelada”. Essa imagem inicial sugere a poesia como um elemento incandescente, capaz de expor verdades ocultas através de suas labaredas. A ideia de “amalgamar segredos” e que estes, “incendiados, ardessem”, reforça a capacidade da poesia de queimar as superficialidades e trazer à tona o que está escondido. A “teia armada” que se desvela, comparada a um “rosário de contas” que “tece muralhas de estopa”, mas que “fragilmente desaba”, evoca a fragilidade das construções ilusórias e a inevitabilidade de sua queda quando confrontadas com a luz da verdade poética.
O poema “Desatino” é o quinto poema dessa secção e se insere em um contexto de reflexão sobre a violência e suas consequências. O título em si já evoca um estado de desordem, loucura e desrazão, prenunciando o tom e o conteúdo que serão abordados. Os versos ecoam uma densidade impactante que, através de uma linguagem poética carregada de imagens fortes e metáforas contundentes, expõe a brutalidade da guerra e suas ramificações. A autora demonstra maestria ao transitar do nível individual para o coletivo, traçando um panorama desolador da condição humana quando confrontada com a violência e a desrazão. A data “20.10.2023”, ao final da página, sugere a contemporaneidade da reflexão proposta pelo poema.
Flávia consegue prender o leitor na renda firme da linguagem poética, que não se rompe, e que permite ver, observar e sentir, por meio dos detalhes no espaço e no tempo, ao apresentar poemas que conversam entre si. É o caso do poema “Tempo em trevas”, que se aproxima de “Desatino”. “Tempo em trevas” aparece com epígrafe de Chico Buarque: “Ouço um gemido rouco que não sei se é meu”, que evoca uma atmosfera de incerteza e angústia temporal, estabelecendo de imediato um tom de questionamento existencial e de desorientação pessoal. A epígrafe, juntamente com o título, preparam o leitor para uma exploração dos meandros do tempo, não como uma entidade linear e previsível, mas como um espaço sombrio e perturbador. Versos como
Que tempo é esse, sem lume,
mordendo horas feridas,
se o pesadelo da noite
a manhã não elucida?
lançam uma série de interrogações sobre a qualidade do tempo vivido. O tempo é descrito como desprovido de luz (‘sem lume”), que “morde” e fere as horas, e incapaz de trazer clareza ou resolução, pois a noite, marcada pelo pesadelo, não cede lugar a uma manhã esclarecedora. Essa percepção do tempo é de aprisionamento e sofrimento, onde o passado e o presente se fundem em uma experiência contínua de dor.
A segunda e terceira estrofes aprofundam essa visão.
Que tempo é esse em que a vida
tenta recobrar o fôlego
mas se esfalfa, se conturba
buscando romper o estorvo?
e
Volta o tempo que encarcera
mais que liberta e avança,
prende em sofismas crianças
e mulheres agredidas?
Aqui, o tempo é retratado como uma força que impede a recuperação e o alívio, levando a um esforço fútil para se libertar de um “estorvo”. A ideia de “tempo que encarcera” é particularmente poderosa, sugerindo que, em vez de promover o progresso e a liberdade, ele aprisiona, manipula com “sofismas” e perpetua a violência contra os mais vulneráveis, crianças e mulheres.
A estrofe final da seção à esquerda,
Que tempo é esse de algemas,
de movediças areias,
que afunda espaços nas trevas
encerra, tolhe, cerceia?
consolida a imagem do tempo como um instrumento de opressão.
Em “Tempo em Trevas”, Flávia constrói uma poderosa meditação sobre a experiência de um tempo opressor, aprisionador e desprovido de luz. As imagens de feridas, pesadelos, algemas e trevas pintam um quadro de profunda angústia existencial. A contraposição com os versos da página direita, que abordam a violência cega, a decadência e a ameaça da covardia, reforça a crítica a um estado de coisas onde a liberdade é cerceada e a dignidade humana é posta em risco. O poema, em sua brevidade, convida à reflexão sobre a natureza do tempo e as condições sociais que podem torná-lo um inimigo em vez de um aliado.
Resgate
A quarta parte de Resgate é homônima, intitulada por “Resgate”, e possui uma intensidade poética impactante, feito uma reflexão sobre a canção da poesia e sua influência na vida humana. Esta seção é marcada pela presença de uma epígrafe, que se destaca como se fosse um poema visual nesta parte do livro. A epígrafe com os versos
Essa canção me sustenta,
desenha a clave, me inventa,
sugere uma profunda conexão entre a música, a sustentação pessoal e a criação. Paralelamente, a canção “desenha a clave” e “inventa”, indicando seu poder de desvendar mistérios, abrir caminhos e, fundamentalmente, de gerar novas realidades e possibilidades. A canção, portanto, não é apenas um refúgio, mas também um catalisador para a transformação e a descoberta.
A arte visual que acompanha estes versos epigrafados retrata uma cena vibrante com uma figura etérea emergindo do céu, envolta em elementos naturais, pairando sobre uma comunidade que celebra. A seção é composta na intersecção entre o texto poético e a ilustração, explorando os significados implícitos de “resgate” nesta configuração. A figura celestial, composta de elementos da natureza, pode ser interpretada como uma representação da própria canção ou de uma força superior que intervém. A autora, ao entrelaçar texto e imagem, evoca sentimentos profundos e conceitos complexos. A “canção” emerge como um elemento multifacetado, capaz de oferecer sustento, revelar caminhos e inspirar a criação.
O poema “Carta à Mãe” configura-se como uma profunda reflexão sobre a relação filial, a memória e a passagem do tempo. Através de uma linguagem lírica e introspectiva, a autora tece um diálogo póstumo com sua genitora, explorando as complexidades e as nuances de um vínculo que transcende a presença física. A estrutura em forma de carta confere um tom íntimo e pessoal ao texto, convidando o leitor a adentrar um espaço de vulnerabilidade e afeto.
A terceira parte do poema demonstra esses aspectos, ao revelar particularidades que buscam desvendar camadas sensíveis de significado. A estrofe inicia-se com a evocação de uma “menina inquieta”, uma imagem que remete à infância e às memórias afetivas que moldam a identidade. A autora descreve
laços de fita e afago
que prendiam meu cabelo
me entrelaçavam na espera.
construindo uma metáfora poderosa sobre a dependência e a expectativa inerentes à relação com a mãe.
Essa espera, marcada pela infância, sugere um tempo de anseio e de construção de si a partir do olhar materno. A quarta estrofe do poema intensifica isso ao contrastar a escrita “de longe” com a fala “de perto”. A “impossível conversa” evoca a ausência física da mãe, um diálogo que se dá na esfera da imaginação e da saudade. O “chão que faltava” e a “palavra que nos ficou incompleta” sinalizam um vazio deixado pela partida, uma incompletude que a autora busca preencher através da escrita e da rememoração. A última estrofe desta seção,
Recebe então essa carta
feito um recado, um carinho,
do olhar reconciliado
com a distância e o vazio,
revela o propósito do poema: um ato de reconciliação com a ausência, um envio de afeto que atravessa o tempo e o espaço. A imagem de “desfolhar os medos / num calendário tardio” e de descobrir “a nascente do seu rio” sugere um processo de autoconhecimento e aceitação, onde a memória da mãe se torna fonte de serenidade e de compreensão do próprio ser.
A última estrofe é um testemunho da força do vínculo materno e da capacidade da poesia de resgatar e ressignificar as experiências vividas. Através de imagens delicadas e de uma linguagem que transita entre a melancolia e a serenidade, a autora oferece um olhar profundo sobre a memória, a ausência e o processo de autoconhecimento impulsionado pela relação com a mãe. O poema, em sua totalidade e com especial ênfase nesta seção, demonstra como a escrita pode se tornar um espaço de cura e de reencontro, mesmo diante da perda.
Logo após “Carta à mãe” vem o poema “De volta ao começo”, que explora a profunda transformação e o renascimento vivenciados pela maternidade. Flávia apresenta uma escrita dialogada, em temas e em conexão com o título do livro, Resgate. Em “De volta ao começo”, através de uma linguagem poética e introspectiva, a autora tece reflexões sobre a jornada de se tornar mãe, a percepção de si mesma e a redescoberta do mundo sob uma nova perspectiva.
Este poema é rico em simbolismo e emoção, pois retrata a maternidade como um portal para o autoconhecimento e a redescoberta. Flávia utiliza uma linguagem acessível e tocante para expressar a complexidade dos sentimentos maternos, a beleza dos momentos fugazes da infância e a força transformadora do amor. O poema, embora focado na experiência individual, ressoa universalmente, convidando o leitor a refletir sobre os ciclos de vida, os recomeços e a liberdade que emana das relações.
A primeira estrofe estabelece o momento de transição:
Quando fui mãe me vi nos olhos que chegaram
trazendo esperas, desatando sentimentos
[…].
A maternidade age como um espelho, refletindo não apenas o filho, mas também as próprias expectativas e emoções da mãe. As “tantas perguntas me brotavam, incessantes” e as “certezas, rumo ao vento” indicam um período de incerteza e questionamento, no qual a identidade materna se molda em meio a sentimentos complexos e em constante fluxo.
Já na segunda estrofe a autora aprofunda a experiência sensorial e existencial da maternidade. O “sono leve – ouvido e braços desdobrados” evoca a atenção constante e o cuidado físico. A “essência inquieta da semente” sugere o potencial de crescimento e a fragilidade inerente ao ser que está sendo nutrido, enquanto a “fecundada de horizontes, desafios” aponta para a expansão de perspectivas e a aceitação de novas responsabilidades. A travessia dessa “fronteira transparente” alude à superação de barreiras internas e à imersão em um novo estado de ser.
A terceira estrofe descreve o ato de amamentar como um ato de criação de um espaço íntimo e protetor:
Amamentar tecia em volta uma redoma
sobrando espaço ao devaneio, laço e avesso.
Este espaço, embora acolhedor, permite a introspecção e a reflexão. A transitoriedade da infância é notada:
Mas se esvaindo ia a menina alheia ao tempo,
chegava intensa a sensação de recomeço.
A partida da infância, mesmo que natural, traz consigo a percepção de um novo ciclo, um recomeço para a mãe, que acompanha e se reinventa junto com o desenvolvimento do filho.
É notável na quarta estrofe, em contraste com a perspectiva da mãe, que a escritora foca na experiência do filho e na magia do cotidiano materno. As “cantigas de ninar” evocam memórias e o “jeito bom do encantamento” da infância. O colo materno se torna um refúgio onde
era sonho o que meu colo aconchegava,
tão perto e frágil o respirar desse momento…
Essa imagem ressalta a beleza e a delicadeza dos momentos de conexão, a efemeridade da infância e a importância do afeto.
A quinta estrofe retorna à perspectiva da mãe, descrevendo o “assombro” diante dos “olhos desmedidos” do filho e das suas “passadas que ensaiavam, ainda incertas”. A linguagem poética captura a maravilha e a apreensão diante do desenvolvimento infantil, com suas “tentativas de palavras” e a exploração do mundo nas “primeiras descobertas”. Há um tom de admiração pela coragem e pela curiosidade inerentes à infância.
Por fim, a última estrofe sintetiza a jornada de transformação.
Quando fui mãe desabrochei na mesma seiva
que alimentava cada filha – […].
A maternidade não é apenas um papel, mas um processo de florescimento pessoal. A autora observa como a ousadia e a liberdade da filha se tornam um reflexo e uma inspiração, culminando na imagem da “inabalável liberdade em suas asas”. A relação mãe-filha é apresentada como um ciclo de crescimento mútuo e de emancipação.
Em poemas como “Claves e conchas” e “Secretas palavras”, nota-se a profunda introspecção sobre a relação entre a criação poética e a subjetividade da autora. O poema “Claves e conchas” é uma exploração magistral da simbiose entre a poetisa e sua arte. Flávia constrói uma imagem poderosa da poesia como uma força viva, que não apenas reflete a realidade interior, mas a molda, a conforta e a liberta. A análise revela a profundidade com que a autora aborda o ato criativo, a memória e a própria essência da existência poética.
A autora descreve a “canção” como uma entidade que visita e adivinha os poemas, que “joga conchas, me decifra, jorra vertigens, me adensa”. Essa personificação atribui à poesia um papel ativo e quase onisciente no processo criativo. A “canção” não apenas inspira, mas também desvenda, intensifica e estrutura o pensamento poético. A imagem de afiar a ponta da escrita nas “lembranças mais veladas” sugere que a poesia emerge de um lugar profundo e, por vezes, oculto da memória e da experiência. A canção, então, sustenta, desenha e inventa, proporcionando um refúgio e um espaço de voo, como um ninho para o eu lírico.
A escritora aprofunda a natureza da “canção” como uma companheira serena que acompanha o eu lírico “desde longe”. Essa presença se manifesta mesmo nos “momentos de espera”, quando o tempo parece “emaranhar-se”. A poesia age como um farol (“acende um lume e acena”), oferecendo conforto e segurança (“devolve o colo, o acalanto”). A exploração dessa relação revela um movimento de aprofundamento: quanto mais o eu lírico se entrega à poesia (“mais nela me adentro”), mais ele confronta seus medos e espantos, avança em seus “recantos” internos e se revela (“me desvelo e desentranho”).
O sexto poema desta seção, intitulado “Secretas Palavras”, apresenta uma profunda reflexão sobre o poder e a natureza intrínseca das palavras. A análise foca na forma como a autora explora a capacidade das palavras de salvar, desvendar e carregar significados ocultos, tecendo uma renda poética que ressoa com a experiência humana. O poema inicia destacando a capacidade salvadora das palavras em “momentos cruciantes” e “na beira do precipício”. A autora descreve como as palavras atuam quando o pensamento está “oscilante” ou quando um passo se torna um limite entre o “fatal e o difícil”. Os versos do poema ressaltam a palavra como um auxílio em instantes de fragilidade e incerteza. As palavras são apresentadas como agentes de desvendamento, capazes de revelar “caminhos quase improváveis”, decifrar “o que era enigma” e nomear “meus impasses”. Essa dualidade entre salvação e revelação sublinha a força transformadora da linguagem.
A segunda estrofe do poema aprofunda a análise sobre o conteúdo e a carga semântica das palavras. “Certas palavras carregam no próprio som seu sentido”, indicando uma qualidade inerente à sonoridade e à forma das palavras. Elas são descritas como catalisadoras de “pressentimentos”, revisitam “vestígios”, ampliam a “densidade” e farejam “indícios” no ar. A ação de “insuflar, revolver e escancarar resquícios” sugere que as palavras não apenas comunicam, mas também evocam, remexem e expõem o que está latente ou esquecido. Essa passagem enfatiza a complexidade e a multiplicidade de significados que as palavras podem conter e evocar.
O poema conclui com a ideia de que “as palavras prosseguem”, impulsionando o eu lírico “mais adiante”. Essa progressão é comparada a um “lúdico enredo”, que “enlaçasse cada instante”, sugerindo uma fluidez e uma leveza na jornada impulsionada pela linguagem. A última estrofe, com os versos “Sobrevivem, desdobráveis, redescobrindo o olvido”, reforça a perenidade e a capacidade das palavras de se reinventarem e de trazerem à tona o que foi esquecido. A frase final, “move o fortuito da escolha o que segredam no ouvido”, aponta para a influência sutil e poderosa das palavras em nossas decisões e percepções, mesmo quando sussurradas ou não ditas explicitamente. “Secretas palavras” é um poema potente, belo e metalinguístico, que lembra o poema “A palavra mágica” de Carlos Drummond de Andrade, que reflete a busca pela essência e pela transformação através da linguagem.
A subparte “Resgate” é a mais longa do livro, e nela são inseridos 11 poemas, diferentes textos poéticos nos quais a autora explora seus temas, linguagem e possíveis interpretações à luz de seus títulos e contextos diversos, e da estrutura apresentada. O poema “Confidências” explora a relação íntima e particular do eu lírico com as madrugadas. A madrugada é personificada como uma entidade que ronda, instiga e dialoga, criando um espaço de intimidade e confidência. A linguagem poética é marcada por metáforas e personificações, como “segredando desvarios”, “pensamento fareja um rastilho do esquecido” e “ideias correndo soltas dançam descalças, vadias”. A madrugada é descrita não como um período de rotina, mas como um “estado de espírito”, um território ‘insubmisso” onde a vida se revela “exposta, invisível”. O eu lírico encontra na madrugada um refúgio para “lembranças mais densas” e “memórias mais reclusas”, definindo-a como o “espaço dos poetas e das musas”.
Já o poema “Vestígios” explora a intrincada relação entre memória, vida e a construção da identidade. A epígrafe “A memória é uma mágica não desvendada. Um truque da vida”, de Marcelo Rubens Paiva, estabelece o tom reflexivo, sugerindo que a memória não é um registro fiel, mas uma construção ativa, moldada pelas experiências e percepções. A própria estrutura do poema, com suas imagens fragmentadas e evocativas, reforça essa ideia de que o passado é reconstruído e reinterpretado constantemente. Aliás, Flávia apresenta essa dualidade de tempo e memória em vários momentos nos seus diferentes poemas. A última estrofe,
Agora o tempo me esculpe
entre a fábula e o vivido
como se esse emaranhado,
esboçado em manuscritos,
entrelaçasse mensagens
ressoando seus vestígios.
conclui com a ideia de que o tempo molda o indivíduo, entre a ficção e a realidade, criando uma tapeçaria de experiências que ressoam com os vestígios do passado. A autora oferece uma perspicaz reflexão sobre a natureza subjetiva e construtiva da memória.
O poema “Fale Com Ela” evoca uma atmosfera de introspecção e comunicação, mesmo diante do silêncio e da aparente ausência. O título em si sugere uma diretiva, um convite à interação, que se desdobra em reflexões sobre a solidão, a espera e a resiliência da comunicação humana. Os temas centrais deste poema giram em torno da comunicação como um ato de resistência e conexão em face da solidão, do silêncio, da passagem do tempo e da incerteza. A repetição do verso “mesmo assim, fale com ela” funciona como um refrão que enfatiza a necessidade e o poder da fala, da interação, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis ou infrutíferas. O poema sugere que a comunicação é um ato de resgate em si mesmo, capaz de humanizar o medo e de dar sentido à existência, independentemente das respostas recebidas.
O poema “Contar” explora a multifacetada natureza do ato de contar histórias. Inserido em um contexto mais amplo de “Resgate”, este décimo poema convida à reflexão sobre como a narrativa molda a percepção da realidade e a própria memória. A quarta parte do poema, que começa com “Através da lente espessa”, utiliza a metáfora da lente para descrever o processo de contar e as suas consequências. A “lente espessa” não apenas aumenta, mas também esconde, sugerindo que a narração pode tanto revelar quanto obscurecer a verdade. As memórias, ao serem contadas, “trapaceiam” e “escorregam”, indicando a falibilidade e a subjetividade do relato. As “entrelinhas dos fatos” tornam-se o palco onde as visões se multiplicam e as versões se fragmentam, culminando em “tantas vezes quantas contam”. Essa passagem ressalta a ideia de que cada narração é uma construção, sujeita a interpretações e alterações, e que a multiplicidade de contos pode, paradoxalmente, diluir a certeza em vez de confirmá-la.
Por fim, o último poema da seção “Resgate”, cujo título “Resgate” é o mesmo do livro. É uma trilogia homônima de profunda essencialidade poética. O poema “Resgate” explora temas universais como a autodescoberta, a superação do medo, a introspecção e a reinvenção pessoal. A jornada descrita é de um mergulho interior, onde o eu lírico se liberta das pressões externas e da rigidez do tempo para encontrar um novo sentido de ser. A “imprudência” inicial se transforma em um catalisador para a coragem e a capacidade de adaptação. O “resgate” final não é um evento externo, mas uma conquista íntima, um renascimento a partir da aceitação e exploração das complexidades da própria existência. A estrutura do poema, com suas interrogações iniciais e a resolução final, espelha um processo de catarse e transformação. Ao reconhecer as sutilezas e os impulsos que guiam a existência, o eu lírico se reinventa, ancorando-se no presente e experimentando uma profunda sensação de salvação ou redenção.
Vovó Esperidião e Vovó Mariinha
Flávia finaliza seu livro com uma homenagem aos seus avós, ao publicar ao final do livro dois belos sonetos, escritos pelo seu avô à sua avó: “Sonetos do vovô Esperidião para a vovó Mariinha”. Antes dos poemas há uma fotografia antiga do casal, que pode ser lida e vista como resgate familiar, como uma declaração do relacionamento amoroso, por meio dos versos.
O soneto I transporta o leitor para um momento íntimo e revelador. Os versos descrevem uma cena com detalhes visuais e sensoriais, culminando em uma epifania. O poema começa descrevendo uma veste modesta e airosa, “vestido em luto”, o que sugere algo solene ou talvez uma transição (que no decorrer da leitura se revela como amor e paixão). “A blusa mal fechada”, ao se abrir minimamente (‘em pequena abertura’), revela um contraste: a escuridão (‘negro’) de um vestido, que, no entanto, emoldura uma ‘transparente alvura’ do semblante e das mãos. Essa imagem é comparada ao estilo do pintor Rembrandt, conhecido por seu uso dramático de luz e sombra (chiaroscuro), o que intensifica a atmosfera visual. A descrição se torna mais íntima quando o olhar do amado, “indiscreto”, foca em uma “pequena abertura” na blusa, onde ele vislumbra um “exíguo retalho” de pele “branca e pura”. É um momento de observação detalhada e quase secreta.
A experiência descrita é fugaz, “tão fugaz, que mal eu pude vê-la”. O poeta compara esse vislumbre a um “pirilampo” ou ao brilho de uma “estrela”, algo que cintila brevemente na “escuridão da roupagem”. Essa rapidez leva a um momento de clareza mental, uma “ideia alucinada!”. Nesse instante, a imagem vislumbrada se torna permanente em sua mente, como se estivesse gravada em relevo numa “medalha”. A conclusão é poderosa: “Nessa réstea de luz eu vi a tua imagem”. O poeta (o avô) não apenas viu um pedaço de pele, mas, através dessa luz efêmera, ele viu a imagem de alguém, possivelmente a pessoa amada (a avó), de forma inesquecível.
O poema explora como momentos breves e aparentemente insignificantes podem carregar um significado profundo. O poeta usa a metáfora da luz e da sombra, comum na arte, para ilustrar como a beleza ou a essência de alguém pode ser revelada mesmo em circunstâncias sombrias ou em detalhes mínimos. É sobre encontrar o extraordinário no ordinário, a epifania que transforma uma simples visão em uma imagem gravada para sempre.
O segundo poema, o soneto II, explora um momento de intensa carga emocional e introspecção entre dois personagens, culminando em uma declaração de amor e sofrimento. O poema inicia com a descrição de um encontro íntimo: “Estávamos nós dois, um dia, a sós, na sala”. A atmosfera é carregada de um “meigo e triste olhar”, que, por si só, foi “o quanto foi preciso” para comunicar sentimentos profundos. A indecisão e a confusão do momento levam a um silêncio eloquente, onde a “emoção emudeceu-me a fala”. Esta introdução estabelece um clima de vulnerabilidade e expectativa, preparando o leitor para a explosão emocional que se segue.
A descrição poética avança para a ideia de que, quando o amor é sufocante e a palavra falha, o juízo se ofusca e o coração reage de forma intensa. Essa reação manifesta-se através de “lágrimas, em riso”, ou, no caso específico retratado, através de um beijo que “estala”. Este beijo, descrito como um ponto culminante da emoção contida, serve como gatilho para a comunicação verbal que se segue. O eu lírico murmura um pedido de futuro: “Maria, o meu futuro…”. No entanto, é interrompido pela reação de Maria, que “soluça, em pranto”. O eu lírico tenta apaziguar, protestando: “Querida, protestei, não te ofendi, eu juro”. A resposta de Maria é uma confissão de pureza e um desabafo de amor profundo e dor:
“Juro, não te ofendi, que foi um beijo santo”,
– “Não me ofendeste, eu sei, teu sentimento é puro;
Choro porque… há tanto eu te amo, e sofri tanto!”
Esta troca revela a complexidade dos sentimentos, onde o amor se entrelaça com a dor e a saudade.
A última parte de Resgate em análise, embora breve, é de uma densidade emocional notável. A transição da mudez da emoção para a explosão do beijo no soneto II e, finalmente, para a declaração verbal, demonstra a maestria da autora (no soneto do seu avô) em retratar a complexidade das relações humanas e a força avassaladora do amor, que coexiste com o sofrimento. A identificação de “Maria” como interlocutora e o tema do “futuro” sugerem uma profundidade de relacionamento que transcende o momento retratado.
Resgate
Flávia de Queiroz Lima, em Resgate, oferece uma oportunidade de (re)encontro dos diferentes e impactantes movimentos da vida (escaninhos) e do que ela apresenta, por meio dos seus poemas, ao fazer da essência da poesia um elo de conexão que interage com os sentidos e com o âmago profundo do ser e estar, do sentir e do viver no mundo. Os poemas do livro são datados, o que sugere um registro temporal, possivelmente indicando a data de composição ou publicação, conferindo um senso de atualidade à temática abordada, além de atribuir um caráter de contemporaneidade à obra. Esta é uma leitura do livro, que surgiu após a análise da capa e do título instigante e indagador, cuja reflexão foi sendo construída nos fios dos pontos do bordado das palavras e na tessitura cativante da linguagem. Numa escrita poética aliada à força da imagem, a escritora cria um impacto significativo, tecendo temáticas diversas nos seus poemas, e convida o leitor a desvendar o universo amplo da poesia em sua essência, com suas interpretações e experiências – um “resgate” da leitura, onde as palavras são os caminhos da travessia que não se finda.
Rosemsary Ferreira de Souza
Doutora em Letras: Estudos Literários, pela Universidade Federal de Minas Gerais / UFMG. Membro correspondente da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, UBE / RJ. Tem experiência na área de Letras, atuando em temas afins.
Autora dos livros Poesia e crítica: Trilogia poética
de Gilberto Mendonça Teles (1ª ed. 2015; 2ª ed.
2020 – Editora Kelps) e As Formas do
Rumor na Hora Aberta (2024
– Editora Kelps e Batel).
Resgate
Dionysius / Pangeia
novembro 2025
Pedro Miranda | Iluminuras / Artes
Pedro Miranda | Desenho da Capa
Luciana Pimenta | Posfácio
Marcos Leite | Texto da 4a. capa
Ana Cecília Carvalho, Ana Elisa Ribeiro, Antônio
Sérgio Bueno e Rauer | Textos das orelhas
Foto da autora | Cecília Bertelli
Produção Gráfica | Rauer
Pedro Miranda:
A capa e as ilustrações que abrem as subpartes do livro, “os escaninhos” da obra Resgate, são de autoria do artista plástico Pedro Miranda.
Pedro Miranda iniciou sua carreira artística no Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1967 apresentou sua primeira exposição, na Galeria Guignard. Suas obras abordam temas diversos em suas múltiplas manifestações artísticas. O artista as expôs, em suas diferentes fases, em vários locais, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, a Galeria do Congresso Nacional, em Brasília, a Prefeitura de Belo Horizonte, a Casa de Contos, a Casa de Cultura, em Betim, o Consulado da Áustria em Colônia, na Alemanha, a Feira Internacional de Bruxelas, na Bélgica, a Galeria Loggia, no Rio de Janeiro, o Espaço Cultural O Globo e a Galeria Minard.
Eis a arte de Pedro Miranda que abre “Desatinos”, um dos escaninhos de Resgate:
