Descrição
Dramaturgia e teatro: transformações e mediações no grande tempo da História resulta das colaborações desenvolvidas no âmbito do Grupo de Trabalho Dramaturgia e Teatro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), uma das mais importantes associações de pesquisadores da área de Letras e Linguística no país. O volume reúne reflexões em torno das múltiplas maneiras pelas quais tradições dramatúrgicas e teatrais, formas canônicas, mitos, procedimentos estéticos e experiências históricas são retomados, deslocados e transformados no teatro e na dramaturgia. Esse eixo, escolhido pelos integrantes do GT, orientou parte significativa dos trabalhos realizados entre 2024 e 2025.
Os mitos antigos já não desempenham, na contemporaneidade, o papel de grandes narrativas unificadoras ou prescritivas. Como observa Jean-Pierre Ryngaert (2013), dramaturgos modernos e contemporâneos recorrem às grandes narrativas do passado para dissolvê-las na multiplicidade dos pontos de vista ou para fazer pairar dúvidas sobre seu sentido e sua utilidade presente. Isso não significa, contudo, seu desaparecimento. Ao contrário, narrativas míticas e obras clássicas – da Antiguidade greco-romana ao cânone brasileiro – continuam a retornar sob a forma de adaptações, reescritas, apropriações, deslocamentos e questionamentos radicais. O trabalho com a tradição pode significar uma aproximação às origens temáticas, teóricas, estéticas ou formais do teatro, mas pode igualmente constituir um ato de afastamento e crítica a discursos, valores e relações de poder historicamente naturalizados. Nesse movimento, passado e presente se atravessam não apenas na dramaturgia e na cena, mas também na historiografia e nas teorias teatrais, na tradução, nas práticas educativas, nos estudos de gênero e em outros campos vinculados ao universo do teatro.
Tomados em conjunto, os capítulos mostram que o “grande tempo” da História, para retomarmos a formulação que dá título ao volume, não se organiza como uma linha contínua entre passado e presente. O que encontramos são sobrevivências, reaparições, rupturas, deslocamentos e mediações: Molière e Shakespeare, Medeia, Orfeu e Eurídice, formas asiáticas e poéticas ameríndias, fantasmas, heroísmos nacionais e tradições da dramaturgia brasileira reaparecem porque cada presente os questiona de maneira diferente. A tradição, portanto, não constitui um repertório imóvel a ser preservado, mas matéria viva de conflito e transformação.
Ao reunir perspectivas teóricas e objetos tão diversos, Dramaturgia e teatro: transformações e mediações no grande tempo da História reafirma a cena e a escrita dramatúrgica como lugares privilegiados de elaboração estética da experiência histórica. Entre heranças e recusas, memória e invenção, permanências e rupturas, os estudos aqui reunidos convidam a pensar o teatro não apenas como espaço em que o passado retorna, mas como prática capaz de submetê-lo à crítica, reorganizá-lo e, nesse movimento, produzir novas possibilidades de leitura do presente.








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