Publicamos a seguir um estudo do Prof. Zaga (o modo carinhoso pelo qual o Prof. Luiz Gonzaga Marchezan é conhecido e invocado na área dos Estudos Literários) que, ao abordar os 70 anos do clássico Rastros de ódio, de John Ford, mostra nele a representação de valores ocidentais e estadunidenses que são motrizes e “sempre vigentes” no atual quadro de “forças civiss e militares impositivas”.
Confira a íntegra da leitura deste filme sempre eleito um dos melhores da mais que centenária história do cinema.
Rastros de ódio, western de
John Ford, faz 70 anos
Luiz Gonzaga Marchezan *
Rastros de ódio (1956) reúne, a partir de No tempo das diligências (1939), uma síntese entre os temas do western de John Ford: a cavalaria, o militarismo, o genocídio dos indígenas e a guerra da Secessão.
Ethan Edwards (John Wayne), em Rastros de ódio (1956), é um soldado que, conforme a etimologia da palavra, encontra-se ligado, preso, colado às noções de honra e de dever do militar numa época, no caso, de guerras entre civis e de civis com nativos. Acontece que Rastros de ódio (1956) fala também da vida, do amor, da paixão de Ethan por Marta, mulher de seu irmão, Aron.
Ethan defendeu a causa dos Confederados e continuou fiel a ela; embora derrotado, voltou da guerra para casa após mais de três anos da rendição do Sul. E qual foi a causa desta demora? Ethan já partiu derrotado para a Guerra da Secessão, uma vez que se afastara de um amor impossível pela mulher do irmão.
Percebemos, nessa narrativa infiltrada por subentendidos, que Ethan, ao retornar para casa, não conhece Debbie, a caçula de Marta. Ao saudá-la, levantando-a do chão, imagina que tem Lucy nos braços, a penúltima filha de Aron. Debbie está com o mesmo tamanho de Lucy na época da partida de Ethan para a guerra, motivo da sua confusão: ele não viu Debbie nascer e não tem conhecimento do seu nascimento. Por quê? Por que Marta ou Aron não lhe contaram, por carta, do nascimento de Debbie?
O que aconteceu entre Marta e Ethan e que a narrativa deixa latente, fica patente na vida errante e de ódio do protagonista. Ethan não reconheceu Debbie porque ela nasceu enquanto ele esteve fora de casa. E, como assistimos no filme, será raptada, viverá muitos anos na tribo do comanche Cicatriz e será
posteriormente resgatada por Ethan e seu sobrinho mestiço Martin. Diante disso, Ethan, pela segunda vez, distancia-se de casa por longo período, então, por questões familiares, íntimas: o resgate de uma filha sua.
Rastros de ódio (1956) envolve-se com um traço forte da narrativa do western: a viagem de volta do herói ao lar, ao mesmo tempo em que desloca das atenções do espectador algo presente na mente dos Edwards e das famílias de pioneiros amigas: o motivo da adesão de Ethan aos confederados na guerra da
Secessão, assim como a questão da paternidade de Debbie, sua filha e não de Aron, seu irmão, tudo o que transparece para o espectador a partir do momento que Ethan volta para casa derrotado na guerra da Secessão, num bom tempo após o seu término.
A busca desenfreada de Ethan por Debbie noutra viagem, então, de perseguição, envolve-o com mais uma obsessão: encontrá-la, uma vez que teve evidências claras que ela não é sua sobrinha. Diante disso, os quinze minutos iniciais do filme são emblemáticos: mostram-nos que Marta não esconde sua paixão
por Ethan; nutre-a de forma quase visível, a começar pelo modo como, silenciosamente, reconhece-o, ao longe, chegando; a seguir, conforme o recebe e, depois, sob o olhar suspeito do reverendo Clayton, pela maneira como ela dobra e guarda, acarinhando, a capa do soldado renegado.
Cicatriz, o chefe comanche que raptou Debbie, é alguém, como Ethan, marcado: um guerreiro que tem orgulho da sua raça; teve filhos mortos pela cavalaria e busca uma vingança. Assim, na mesma proporção que Ethan o procura, o comanche, taticamente, espera-o.
Cicatriz comanda um grupo comanche Nawyecky, palavra que significa, na língua indígena, os que desviam, que simulam seguir para um lugar e vão para outro, em sentido inverso, como no início do filme, quando um grupo daquele bando engana a patrulha de rangers que o persegue. Naquele momento, enquanto parte do bando despistou os patrulheiros, a outra parte promoveu a chacina da família de Ethan. Os comanches Nawyecky, visivelmente, são bravos guerreiros, não têm paradeiro nem fronteiras, disposições de espírito muito próximas às de Ethan.
O imaginário do western evidencia em suas exposições a presença de forças primitivas, arcaicas, marcantes nos comportamentos de todas as suas personagens, incluídas as indígenas em dados comportamentos tribais.
O tema musical do filme tem um estribilho – “ride away”, sem destino, que robustece seu título – The searches (1956) e acentua que o mundo de Ethan Edwards, até então, não teve fronteiras.
John Ford, em Rastros de ódio (1956) construiu uma narrativa sem fronteiras, sem limites, que aproximou eventos da vida do seu protagonista dos destinos da nação norte-americana.
Em Rastros de ódio, os americanos do Norte e do Sul estadunidenses lutaram diante de uma divisão política e racial do seu território e pioneiros enfrentaram os indígenas. Rastros de ódio narra uma história de desencontros entre americanos da nação norte-americana em momentos dramáticos de conflitos entre suas barreiras geográficas, políticas e éticas. Desse modo, encontram-se todos, como quer o seu tema musical, “ride away”, sem destino: a sociedade civil e os indígenas, Ethan e Marta.
Ethan Edwards é parte do universo guerreiro norte-americano. A chacina que a família de Ethan sofreu, promovida pelo comanche Cicatriz, leva-o para um novo confronto, então, com indígenas, numa busca desenfreada, por muito tempo, em muitos lugares, por Debbie, sua filha.
Martin faz-se uma figura simbólica: é filho de pioneiro, capturado pelos índios, recapturado por Ethan e criado por Marta. É uma personagem emblemática que representa um ponto de equilíbrio entre nativos e pioneiros e que deseja viver com o seu sofrimento passado sem guardar ressentimentos. Martin procura entender o comportamento dos comanches e dos brancos; refreia, por mais de uma vez, Ethan, que odeia os índios e quase atira em Debbie ao vê-la, jovem e vestida como uma comanche.
Na ordem dos desajustes todos considerados, faz-se irônica a maneira como Ethan finalmente localiza, após anos de procura, Debbie: através de Moses, um Moisés aloucado, que vive entre pioneiros e tem como desejos maiores uma casa com lareira e uma cadeira de balanço. Moses quer para si sossego, estabilidade.
Rastros de ódio (1956), por último, mostra-nos não a vida que queremos, porém, a vida a que estamos sujeitos a viver. Ethan luta pelo Sul e o Norte é vitorioso. Ama a cunhada, esposa do irmão. Odeia os índios e tem uma filha raptada e criada por comanches. Como aceitar o diferente?
John Ford apresenta-nos, num filme que transcende o western, entre os meados dos anos 50 e início dos 60 do século XX, uma reflexão voltada para os valores caros ao ocidente: o militarismo, o racismo, as questões indígenas, tudo entremeado na vida social norte-americana e exacerbado por meio de forças civis e militares impositivas, sempre vigentes.
* Luiz Gonzaga Marchezan
tem mestrado em Letras pela UNESP e doutorado
em Letras pela FFLCH / USP e é professor
aposentado Livre-Docente em Teoria da
Literatura da FCl-Ar / UNESP.
Seus estudos focam as relações intersemióticas
manifestadas no texto literário, especialmente no
conto contemporâneo e na ficção regionalista. Entre
os livros que publicou, organizou e de que participa,
destacam-se Ermos e Gerais: contos goianos,
de Bernardo Élis (org., apresentação e notas,
2005), Faces do Narrador, em co-organização
com Silvia Telarolli (estudos literários, 2003) e
O conto na modernidade: da filosofia
à composição (artigo, Editora Pangeia, 2022).
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Luiz Gonzaga Marchezan
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