Marcio Garrit: Ilusão coletiva, psicanálise e manipulação das massas

Marcio Garrit é autor de Ilusão Coletiva: Psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo

Quem é Marcio Garrit e qual foi o percurso que o levou à escrita deste livro?
Sou psicanalista, professor e pesquisador. Meu primeiro contato com a psicanálise aconteceu pela via da minha própria análise, em 2005. Paralelamente, cursei Filosofia e foi justamente o encontro entre Freud e alguns pensadores que admiro, especialmente Schopenhauer, que despertou em mim um interesse ainda maior pela psicanálise. Desde então, uma questão passou a me acompanhar: qual é o lugar da psicanálise no século XXI? Quando entrei nesse campo, já se falava de uma suposta “crise da psicanálise”. Frequentemente escutava que ela teria dificuldade para dialogar com as transformações culturais contemporâneas ou que permaneceria excessivamente vinculada aos problemas do século XX. Essa inquietação acabou se tornando um dos principais motores da minha trajetória acadêmica e profissional.
Diferentemente de muitos analistas que tiveram seu encontro com a psicanálise em um mundo anterior à internet, às redes sociais e aos algoritmos, minha formação já aconteceu em pleno século XXI. Talvez por isso eu tenha me interessado tanto pelos fenômenos contemporâneos e pelos desafios que eles impõem à teoria e à clínica psicanalíticas.
Foi desse interesse que nasceram minhas pesquisas de mestrado e doutorado. No mestrado, em Psicanálise, Saúde, Cultura e Sociedade pela Universidade Veiga de Almeida, e no doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, dediquei-me a investigar transformações culturais e seus efeitos sobre a subjetividade, o laço social e a própria psicanálise.
Atualmente, sou membro da SPID-RJ (Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle), atuo na clínica com atendimento e supervisão, e desenvolvo atividades de ensino e pesquisa. O livro Ilusão Coletiva é resultado desse percurso. Ele nasce da tentativa de compreender alguns dos fenômenos mais marcantes do nosso tempo, especialmente aqueles relacionados às massas digitais, aos algoritmos, às novas formas de liderança e aos impactos dessas transformações sobre a vida psíquica e social.

Como surgiu a ideia de escrever “Ilusão Coletiva”?
A ideia de escrever Ilusão Coletiva nasceu de uma inquietação muito específica: a sensação de estar assistindo, em tempo real, à formação de novos fenômenos de massa. Uma coisa é estudar acontecimentos históricos. Podemos ler sobre o nazismo, os grandes movimentos políticos do século XX ou as análises que Freud fez das massas em seu tempo. Outra coisa completamente diferente é viver uma época em que um fenômeno semelhante está acontecendo diante dos seus olhos.
Foi exatamente essa sensação que tive ao observar, ao longo dos últimos anos, o surgimento de novas formas de liderança e pertencimento mediadas pelas tecnologias digitais. De um lado, o crescimento dos influenciadores digitais como novos lugares de identificação e autoridade. De outro, o fortalecimento de lideranças políticas que encontraram nas redes sociais um meio privilegiado para mobilizar, organizar e influenciar grandes grupos de pessoas.
O que mais me chamou atenção não foi apenas a existência dessas lideranças, mas a maneira como elas se constituíam. Pela primeira vez na história, passamos a viver em um ambiente profundamente atravessado por algoritmos, plataformas digitais, hiperpersonalização e validação constante. Isso alterou não apenas a circulação das informações, mas também a forma como os indivíduos se relacionam com grupos, líderes e ideais.
A pergunta que começou a me perseguir foi simples: o que mudou desde a publicação de Psicologia das Massas e Análise do Eu, de Freud, em 1921? Quais elementos existem hoje que Freud não poderia ter considerado porque simplesmente não existiam? Como pensar as massas quando elas passam a ser organizadas e potencializadas por tecnologias digitais?
O livro nasce dessa tentativa de compreender o presente. Ele procura investigar como algoritmos, redes sociais, influenciadores e lideranças populistas participam da formação de novas massas e de novas formas de vínculo social. Em última análise, trata-se de uma tentativa de responder a um desafio que o próprio Freud considerava fundamental: desenvolver instrumentos teóricos capazes de compreender os fenômenos psicológicos de cada época. Se consegui ou não, deixo essa avaliação para os leitores.

O que você chama de “ilusão coletiva” e por que esse conceito é importante para compreender o mundo atual?
Quando falo em ilusão coletiva, estou falando do conceito central do livro. Mas antes precisamos entender uma coisa importante. Quando as pessoas escutam a palavra ilusão, normalmente pensam em mentira, engano ou falta de inteligência. Não é disso que estou falando. Freud já havia mostrado que a ilusão é algo muito mais complexo. Ela surge quando a realidade se torna difícil demais de suportar. Em muitos casos, a ilusão não aparece porque a pessoa desconhece os fatos. Ela aparece porque os fatos, sozinhos, não resolvem o sofrimento, a angústia ou o desamparo. É por isso que eu costumo dizer que nenhuma ilusão é derrotada apenas por argumentos. Se fosse assim, bastaria apresentar provas, documentos ou evidências e todos mudariam de ideia imediatamente. Claramente não é isso que acontece.
O que procuro mostrar no livro é que, no século XXI, esse fenômeno ganhou uma potência inédita. As ilusões deixaram de ser apenas construções individuais e passaram a ser organizadas, compartilhadas e fortalecidas coletivamente por meio das tecnologias digitais. Pela primeira vez na história, temos sistemas capazes de conectar milhões de pessoas em torno das mesmas crenças, das mesmas interpretações da realidade e, muitas vezes, dos mesmos inimigos. Isso não cria a ilusão do nada. Mas cria condições para que ela se fortaleça numa velocidade e numa escala que nunca vimos antes. Talvez seja por isso que fatos, evidências e informações pareçam cada vez menos eficazes em determinados contextos. Muitas vezes não estamos discutindo informações. Estamos discutindo necessidades psíquicas profundas.
No fundo, a pergunta que me acompanha é simples e perturbadora ao mesmo tempo: o que acontece com uma sociedade quando suas ilusões passam a ser alimentadas continuamente por tecnologias que funcionam vinte e quatro horas por dia? Foi tentando responder essa pergunta que escrevi Ilusão Coletiva.

Qual é a principal tese defendida em “Ilusão Coletiva”?
Se eu tivesse que resumir a principal hipótese de Ilusão Coletiva, diria que o livro investiga como antigas formas de massa, liderança e submissão retornam no século XXI em uma nova paisagem: a paisagem digital. Freud já havia percebido algo decisivo: o ser humano não se guia apenas pela razão. Ele busca proteção, pertencimento, reconhecimento e líderes capazes de oferecer algum sentido diante do desamparo. Essa questão continua viva. O que mudou foi o ambiente em que ela acontece.
Hoje, não estamos mais falando apenas de multidões reunidas em praças, igrejas, exércitos ou partidos. Estamos falando de massas formadas também por algoritmos, redes sociais, inteligência artificial, bolhas digitais, influenciadores e lideranças populistas capazes de alcançar milhões de pessoas pela tela de um celular. O livro tenta mostrar como essa transformação altera a forma como os sujeitos se ligam a ideias, grupos e líderes. A ilusão coletiva, nesse sentido, não é apenas uma crença compartilhada. Ela passa a ser organizada, reforçada e acelerada por dispositivos digitais.
Então, mais do que defender uma única tese fechada, o livro constrói uma pergunta que considero urgente: o que acontece com o psiquismo e com o laço social quando nossas ilusões passam a ser alimentadas por máquinas, plataformas e algoritmos? É nessa pergunta que o livro se sustenta.

O que mudou nas massas contemporâneas em relação às massas estudadas por Freud há mais de cem anos?
Essa pergunta pode ser respondida de uma forma aparentemente contraditória: tudo mudou e, ao mesmo tempo, nada mudou!
O que não mudou é o ser humano. Continuamos buscando pertencimento, reconhecimento, proteção e alguma forma de segurança diante das incertezas da vida. As necessidades psíquicas fundamentais que interessavam a Freud continuam presentes. Mas tudo mudou ao redor desse sujeito. Freud escreveu sobre massas em um mundo sem internet, sem redes sociais, sem inteligência artificial e sem algoritmos. O líder da sua época precisava de um partido, uma igreja, um exército, um jornal ou um palanque para alcançar as multidões. Hoje, o líder saiu do palanque e entrou no celular.
Essa talvez seja uma das maiores transformações do último século. Pela primeira vez na história, lideranças podem acompanhar milhões de pessoas diariamente, atravessando fronteiras geográficas, políticas e culturais. Elas não aparecem apenas em momentos específicos. Estão presentes o tempo todo, produzindo identificação, pertencimento e influência de maneira contínua. Mas não foram apenas os líderes que mudaram. As próprias massas mudaram. Os algoritmos passaram a selecionar informações, reforçar crenças, aproximar pessoas com visões semelhantes e acelerar processos de identificação coletiva. O resultado é que as massas contemporâneas podem ser formadas com uma velocidade, uma escala e uma intensidade que Freud jamais poderia ter imaginado.
Por isso, minha hipótese não é que Freud tenha ficado ultrapassado. Pelo contrário. Os mecanismos fundamentais descritos por ele continuam presentes. O que mudou foi o ambiente em que eles operam. E é justamente essa transformação, a passagem das massas do século XX para as massas digitais do século XXI, que procuro investigar ao longo do livro.

Como algoritmos, redes sociais e inteligência artificial participam hoje da formação das massas digitais?
Antes de responder, gosto de deixar uma coisa clara. Meu interesse não está em entender como um algoritmo é programado ou como uma inteligência artificial funciona tecnicamente. Existem profissionais muito mais preparados do que eu para falar sobre isso. A pergunta que me interessa é outra. O que acontece com o ser humano quando ele passa a viver dentro desses ambientes? Porque é exatamente isso que está acontecendo. Pela primeira vez na história, vivemos em um mundo onde sistemas digitais observam nossos hábitos, registram nossas preferências, acompanham nossos comportamentos e aprendem continuamente sobre nós. Não estou dizendo que existe uma conspiração escondida atrás da tela. Estou dizendo algo talvez mais inquietante: esses sistemas se tornaram parte da nossa vida cotidiana. Eles participam daquilo que lemos, assistimos, consumimos, desejamos e até das pessoas com quem concordamos ou brigamos. O resultado é que o sujeito passa a encontrar cada vez mais daquilo que já pensa, já acredita e já deseja. Quanto mais isso acontece, mais difícil se torna o encontro com aquilo que o contradiz. Freud já sabia que o ser humano busca pertencimento, proteção, reconhecimento e sentido. Isso existia muito antes da internet. O que mudou é que agora existem tecnologias capazes de potencializar essas buscas numa escala inédita. Por isso, ao longo da pesquisa, fui percebendo que a pergunta mais importante não era o que os algoritmos fazem com os nossos dados. A pergunta era outra. O que eles estão fazendo conosco? E confesso que essa pergunta continua me inquietando até hoje.

O livro dialoga com fenômenos como influencers, polarização política e populismo digital. O que existe em comum entre eles?
O que existe em comum entre influencers, populistas e outras lideranças digitais é menos o conteúdo que defendem e mais a função que ocupam na vida das pessoas. Todos eles oferecem alguma forma de orientação em um mundo cada vez mais confuso. Vivemos uma época marcada por excesso de informação, excesso de escolhas, excesso de opiniões e pouca estabilidade. Nesse cenário, figuras capazes de oferecer respostas rápidas, certezas e pertencimento tornam-se extremamente atraentes. É por isso que uma das hipóteses do livro é que estamos assistindo a uma profunda transformação das formas de liderança. O líder do século XX falava para uma multidão reunida em uma praça. O líder do século XXI acompanha o sujeito no bolso. Ele está no celular quando acordamos, durante o almoço, no trajeto para o trabalho e antes de dormir. Nunca estivemos tão próximos dos nossos líderes. E talvez nunca eles tenham estado tão próximos de nós. Isso vale para a política, mas não apenas para a política. Muitos influenciadores digitais, mesmo quando falam de comportamento, finanças, saúde ou entretenimento, acabam ocupando um lugar semelhante: tornam-se referências para interpretar o mundo, orientar decisões e organizar formas de pertencimento.
No fundo, a questão que me interessa não é se estamos falando de um político, de um influenciador ou de uma celebridade digital. A questão é outra. O que acontece com uma sociedade quando milhões de pessoas passam a carregar seus líderes no bolso e consultá-los diariamente sobre como pensar, agir e viver? 

Muitos autores afirmam que estamos vivendo uma crise da verdade. Como sua pesquisa enxerga esse fenômeno?
Costumo dizer que o problema talvez não seja uma crise da verdade. O problema é que a verdade nunca foi o principal motor das massas. Essa é uma das grandes descobertas de Freud e continua sendo uma das mais desconfortáveis. As pessoas não se organizam coletivamente em torno daquilo que é verdadeiro. Elas se organizam em torno daquilo que lhes oferece pertencimento, proteção, esperança e sentido. É justamente por isso que fatos, documentos, imagens e evidências muitas vezes parecem ter tão pouca força diante de determinadas crenças. Quando uma ideia passa a ocupar uma função psíquica importante, ela deixa de ser apenas uma opinião. Ela se transforma em uma necessidade.
O que a minha pesquisa sugere é que as tecnologias digitais ampliaram enormemente esse processo. Nunca foi tão fácil encontrar pessoas que pensam como nós, reforçar nossas convicções e construir comunidades inteiras em torno de uma mesma visão de mundo. Nunca foi tão fácil transformar uma crença em identidade. O resultado é curioso. Vivemos em uma época que produz mais informação do que qualquer outra na história e, ao mesmo tempo, assistimos ao fortalecimento de fenômenos que parecem cada vez menos dependentes dos fatos. Não porque as pessoas sejam menos inteligentes do que antes, mas porque estamos lidando com processos que operam em um nível mais profundo do que a simples racionalidade.
Talvez a pergunta mais importante não seja: “Por que as pessoas acreditam em coisas falsas?”
Talvez a pergunta seja: “O que determinadas crenças oferecem que as torna tão difíceis de abandonar?”  

A psicanálise ainda tem algo relevante a dizer sobre tecnologia, algoritmos e inteligência artificial?
Eu acredito que a psicanálise tem muito a dizer sobre tecnologia, algoritmos e inteligência artificial. O problema é que, muitas vezes, ela não diz. Uma das coisas que mais me inquietam é a tendência de parte do campo psicanalítico a permanecer excessivamente voltado para os problemas do século XX. Como se tudo o que havia de importante para ser pensado sobre o humano já tivesse sido formulado pelos grandes autores do passado. Eu penso exatamente o contrário.
Se Freud estivesse vivo hoje, dificilmente estaria apenas repetindo Freud. Provavelmente estaria tentando compreender os fenômenos que atravessam a cultura contemporânea. Foi isso que ele fez durante toda a sua obra: observar o seu tempo e construir ferramentas para pensá-lo. Por isso, acredito que a questão não é saber se a psicanálise tem algo a dizer sobre inteligência artificial, algoritmos ou redes sociais. A questão é saber se nós, psicanalistas, estamos dispostos a construir as pontes conceituais necessárias para compreender esses fenômenos.
Afinal, as formas de comunicação mudaram. As lideranças mudaram. As massas mudaram. Mas o sofrimento humano continua existindo. Os conflitos psíquicos continuam existindo. O desejo, a angústia, o desamparo, a busca por pertencimento e os processos de identificação continuam existindo. Quem melhor do que a psicanálise para investigar essas questões? Talvez o verdadeiro risco para a psicanálise não seja a inteligência artificial, os algoritmos ou as novas tecnologias. Talvez o maior risco seja o desinteresse em compreender o mundo que está surgindo diante dos nossos olhos.
De certa forma, Ilusão Coletiva nasceu justamente dessa inquietação. O livro é uma tentativa de colocar a psicanálise para conversar com alguns dos fenômenos mais importantes do século XXI sem abandonar Freud, mas também sem transformá-lo em uma peça de museu.

Qual foi a descoberta mais surpreendente ou inesperada que surgiu ao longo da pesquisa?
A descoberta mais surpreendente foi dupla. A primeira foi perceber o quanto ainda existe espaço para pesquisa nesse campo. Quando comecei a investigar a relação entre psicanálise, massas digitais, algoritmos e novas formas de liderança, imaginei encontrar uma produção muito mais extensa do que encontrei. Há trabalhos importantes, sem dúvida, mas me surpreendeu a quantidade de perguntas que ainda permanecem abertas. Talvez isso aconteça porque estamos tentando compreender fenômenos muito recentes. Estamos falando de transformações que ainda estão acontecendo. Em certa medida, estamos tentando pensar um mundo que ainda não terminou de nascer.
Mas a segunda descoberta foi ainda mais surpreendente. Ao longo da pesquisa, percebi o quanto Freud continua atual. E isso me produziu uma sensação ambígua. Por um lado, é impressionante observar a potência de conceitos formulados há mais de cem anos. Por outro, é inquietante perceber que muitos dos problemas que ele identificou continuam entre nós. As massas continuam existindo. Os processos de identificação continuam existindo. A submissão a líderes continua existindo. A busca por proteção, pertencimento e sentido continua existindo.
O que mudou foi o cenário. Hoje esses fenômenos operam em um ambiente digital, atravessado por algoritmos, plataformas e novas formas de influência. Mas as questões fundamentais continuam surpreendentemente vivas.
Talvez a maior descoberta do livro tenha sido justamente essa: o século XXI trouxe problemas inéditos, mas também revelou que algumas perguntas fundamentais sobre o ser humano permanecem sem resposta. 

Que tipo de leitor você imagina que poderá se interessar por este livro?
A primeira resposta que me vem à cabeça é: pessoas inquietas.
Claro que imagino que psicanalistas, psicólogos, pesquisadores e estudantes interessados na contemporaneidade encontrarão muitos pontos de interesse no livro. Mas, sinceramente, não escrevi Ilusão Coletiva apenas para especialistas. O livro nasceu de perguntas que atravessam praticamente qualquer pessoa que esteja tentando entender o mundo em que vive.
Por que estamos cada vez mais polarizados? Como líderes conseguem mobilizar multidões de forma tão intensa? O que mudou nas relações humanas com a chegada das redes sociais? Por que determinados discursos parecem tão sedutores? Como os algoritmos participam da construção das nossas crenças e das nossas formas de pertencimento?
Essas questões não pertencem apenas à psicanálise. Elas pertencem à vida contemporânea. Por isso, acredito que o livro pode interessar tanto ao leitor que já possui familiaridade com a psicanálise quanto àquele que simplesmente percebe que algo importante está acontecendo na cultura e deseja compreender melhor esse processo. Talvez o leitor ideal seja justamente aquele que olha para o mundo atual e sente que as explicações habituais já não são suficientes. Alguém que percebe que existe algo novo acontecendo nas relações entre tecnologia, política, subjetividade e vida coletiva, mas ainda não encontrou uma forma satisfatória de pensar tudo isso. Se esse incômodo existir, há uma boa chance de que este livro tenha sido escrito para ele.

O que você espera que permaneça com o leitor após o término da leitura?
A inquietação. Se o leitor for psicanalista, espero que termine o livro com a sensação de que ainda temos muito trabalho pela frente. A psicanálise nasceu para pensar o seu tempo, e acredito que ela corre riscos quando se afasta dos fenômenos que estão transformando a cultura contemporânea. Gostaria que o livro funcionasse como um convite para continuarmos construindo pontes entre a tradição psicanalítica e os desafios do século XXI. Mas essa inquietação não é exclusiva dos psicanalistas.
Se o leitor não vier da psicanálise, espero que passe a olhar para o mundo digital de uma maneira um pouco diferente. Não porque a tecnologia seja necessariamente boa ou ruim, mas porque ela se tornou uma das principais forças organizadoras da vida contemporânea. Trabalhamos por meio dela, nos informamos por meio dela, nos relacionamos por meio dela e, muitas vezes, construímos nossa visão de mundo por meio dela. Talvez o principal efeito que eu gostaria de provocar seja este: fazer com que o leitor perceba que a relação entre seres humanos, tecnologia, liderança, política e desejo é muito mais complexa do que normalmente imaginamos.
Se, ao final da leitura, alguém olhar para uma rede social, para um influenciador, para um movimento político ou até mesmo para si próprio e se perguntar “o que está acontecendo aqui?”, então o livro já terá cumprido uma parte importante do seu papel. Porque, no fundo, Ilusão Coletiva não foi escrito para encerrar discussões. Foi escrito para abrir perguntas.

Gostaria de deixar alguns agradecimentos?
Sim, certamente.
A primeira coisa que gostaria de dizer é que este livro não é uma adaptação da minha tese de doutorado. Na verdade, ele é um aprofundamento dela. Depois da defesa, muitas ideias foram revistas, outras ampliadas e algumas surgiram justamente a partir das inquietações que permaneceram abertas.
Por isso, este livro representa mais um passo de uma pesquisa que ainda está em andamento. Gostaria de agradecer a todas as pessoas que participaram desse percurso. Não vou citar nomes porque correria o risco de esquecer alguém e cometer uma injustiça. Mas sou profundamente grato aos que, ao longo dos anos, ajudaram a construir muitas das perguntas que aparecem neste livro.
Também agradeço à Editora Pangeia pela confiança no projeto e pela oportunidade de colocá-lo em circulação.
E, por fim, agradeço a todas as pessoas que acompanham meu trabalho. O livro não nasce isolado. Ele faz parte de uma trajetória de pesquisa, clínica, ensino e diálogo que já dura muitos anos. Escrever é uma atividade solitária. Pensar não. E este livro só existe porque muitas pessoas pensaram comigo ao longo do caminho.

Para encerrar, deixe uma mensagem aos leitores.
Gostaria de convidar os leitores a se aproximarem do livro com curiosidade. Embora a obra tenha origem em uma pesquisa acadêmica, ela foi escrita para dialogar com questões que atravessam a vida de todos nós. Afinal, estamos falando de temas que fazem parte do nosso cotidiano: redes sociais, algoritmos, influenciadores, polarização, lideranças digitais e as transformações que tudo isso vem produzindo na forma como pensamos, nos relacionamos e compreendemos o mundo.
Não é necessário ser psicanalista para acompanhar a leitura. Meu objetivo foi construir uma reflexão acessível sem abrir mão da profundidade que o tema exige. Mais do que apresentar respostas definitivas, o livro procura formular perguntas. Algumas delas podem parecer desconfortáveis: por que acreditamos no que acreditamos? Como nos tornamos tão influenciáveis? O que mudou nas relações entre tecnologia, poder e subjetividade? E quais são os efeitos disso sobre nossas vidas?
Meu convite é simples: leia o livro e compare suas ideias com aquilo que você vê acontecendo ao seu redor todos os dias. Se ao final da leitura você olhar para o mundo digital, para os fenômenos políticos e para as relações humanas com mais perguntas do que tinha antes, então a conversa terá valido a pena.
Boa leitura.

Acesse o livro clicando no link abaixo:

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